Indiferença religiosa: Por quê? Que significa? EB (Parte 2)

4. O horror do vazio

Proporemos alguns fatos da vida de nossos dias que podem ser tidos como decorrências do estado de coisas analisado.

4.1. O vazio do homem e da vida

Os países em que a técnica chegou ao auge, oferecendo ao homem todo o conforto possível, são propensos ao indiferentismo religioso, como dito, mas não são países felizes. O homem lá sente, sob diversas formas, o esvaziamento da vida; embora tenha recursos e meios naturais que lhe proporcionem bem-estar físico, sofre de carência,… carência de bens transcendentais, sem os quais o homem não encontra sentido na realidade material. Tenha-se em vista de modo especial o caso da Suécia, tida como uma das nações mais organizadas do mundo. Ingmar Bergman, sueco autêntico, tentou retratar a realidade de sua nação no filme “Face to Face”, que ainda não foi exibido no Brasil. Apresenta aí uma mulher, a Dra. Jenny Isaksson, que dá muito valor à limpeza e à ordem e se considera feliz no casamento e na carreira (é psiquiatra bem sucedida); conforme os críticos, essa mulher é uma evidente metáfora; representa a própria Suécia, cujas quadros de vida são aparentemente perfeitos, mas que se debate em luta constante contra um quase irresistível impulso para a autodestruição.

Interpretando a tese do filme, diz-nos o crítico de cinema do “Jornal do Brasil” (23/IV/1976), cad. B, p. 1: “A liberdade, os homens e mulheres iguais, os 200 anos sem guerra, os 44 anos de domínio social-democrata (e Bergman sempre votou contra a social democracia), a abolição da pobreza e das desigualdades sociais, conservada uma economia de mercado dos mais fortes do mundo, de que valem, se nos fins de semana as estradas se enchem de confortáveis carros Volvo, que transportam as pessoas para o campo, mas não para o interior de si mesmas? E as preocupações com a saúde (a Coca-cola só pôde entrar na Suécia depois que os americanos concordaram em modificar a fórmula de seu refrigerante, para prevenir qualquer dano físico)? E a educação, inclusive sexual, obrigatória? Entre um e outro edifício há na Suécia árvores e jardins. Cada grupo de prédios tem sua creche, sua sauna, seu supermercado. O estacionamento não toma o lugar dos playgrounds. O Skansne, um museu ao ar livre, o jardim zoológico, o parque de diversões infantis e os recitais de música folclórica estão sempre repletos de gente. Nos bancos ensolarados, esta sentada uma multidão de pessoas idosas, todas bem vestidas. Não se imagina que alguém possa sujar a rua ou falar alto no metrô. Em suma, o máximo respeito à qualidade de vida.

É essa qualidade da vida, no entanto, que acomete de terrores e dúvidas a noita da Dr. Jenny Isaksson, que chega à situação-limite de um colapso nervoso, precedido na vida real, por pouco tempo, de um relatório, a uma comissão do Parlamento, do Dr. Hans Lohman, identificado na sociedade sueca um círculo vicioso: “Os suecos estão sacrificando cada vez mais sua saúde mental em troca de melhorias em seu ambiente material”.

O Estado ideal, a sociedade utópica em via de realização, seria apenas mais uma experiência social com algumas falhas e poucas saídas”.

“O último choque dado por Bergman no público – em seu filme Face to Face, ainda não exibido no Brasil – trata de fantasmas que surgem à noite e quase destroem uma mulher descrita como um modelo de saúde mental. Essa mulher dá muito valor à limpeza e à ordem e se considera feliz no casamento e na carreira (é uma psiquiatra bem sucedida). Para a crítica norte-americana, que já viu a fita, há nela uma evidente metáfora: a Dra. Jenny Isaksson (a atriz Liv Ullmann, na vida real mão de uma filha de Bergman) seria a própria Suécia – uma perfeição quase alcançada, cuja manutenção exige recursos que ela evidentemente não tem. O seu interior é um caos, uma luta constante contra um quase irresistível impulso para a autodestruição”.

Em vista do vazio gerado pelo bem-estar sueco, quis Ingmar Bergman deixar a sua pátria para procurar algo de novo no estrangeiro. O fato é, sem dúvida, muito significativo.

4.2. Os grupos religiosos nos Estados Unidos

Já tivemos ocasião de tratar de movimentos religiosos norte-americanos, como o da “Jesus Revolution” e congêneres (cf. PR 169/1974, pp. 11-24), o dos “Meninos de Deus” (cf. PR 184/1975, pp. 168-176) e o dos Pentecostais protestantes e católicos (cf. PR 149/1972, pp. 230-238; 176/1974, pp. 347-353). Significam, sem dúvida, uma reação do homem contemporâneo à civilização de consumo, dominada pelos critérios da tecnocracia e da máquina. A dimensão religiosa é inata no homem, a tal ponto que se manifesta nas circunstâncias mais imprevisíveis, mormente quando o homem julga poder apagá-la ou substituí-la por um sucedâneo qualquer, ou seja, pela idolatria da máquina, do progresso, do dinheiro, do prazer, etc.

Voltaremos ao assunto ao próximo número de PR, abordando o fenômeno das seitas e dos pequenos grupos religiosos, que se vão multiplicando, principalmente nos Estados Unidos da América.

4.3. O ressurgimento da fé na U.R.S.S.

Em PR 197/1976, pp. 201-216, foi abordado o fato singular e surpreendente do renascimento religioso na Rússia Soviética de nossos dias. – O acontecimento merece ser aqui registrado de novo, embora sem comentários (dado que estes já foram tecidos em fascículos anteriores de PR).

5. Conclusão: a resposta cristã

Perguntar-se-á: que fará o cristão diante do fenômeno do indiferentismo religioso contemporâneo?

– À guisa de resposta, vão aqui apresentadas duas proposições:

5.1. “ninguém ama o que não conhece”

O indiferentismo religioso baseia-se, em grande parte, na falta de conhecimento exato dos valores religiosos. Quem só conhece a Deus descrito por um Catecismo infantil, ou quem só teve contatos superficiais com a fé e suas expressões, ou ainda quem padeceu alguma decepção por parte dos ministros ou representantes da fé, por certo não pode conceber interesse ou estima por tais valores. Será atraído exclusivamente (ou quase) pelos benefícios que o progresso e a civilização contemporâneos lhe oferecem. Infelizmente tal é o caso de muitos dos que deixam ficar à margem dos valores religiosos: verifica-se que simplesmente não os conhecem ou mal os conhecem ou julgam conhecê-los sem que de fato os conheçam. Não é raro ouvir-se hoje em dia a palavra de S. Agostinho:

“Tarde eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde eu te amei. Mas como? Tu estavas dentro de mim, e eu estava fora de mim  mesmo. E era fora que eu te procurava. Eu me lançava, em minha feiúra, sobre a beleza das tuas criaturas. Tu estavas comigo, e eu não estava  contigo, detido longe de ti por essas coisas que não existiriam se não existissem por ti. Tu me chamaste, e teu clamor forçou a minha surdez; tu brilhaste e teu fulgor dissipou a minha cegueira. Tu exalaste o teu perfume, e eu respirei; e eis que por ti suspiro! Eu te provei e tenho fome de ti. Tu me tocaste e queimo de ardor pela paz que tu dás” (“confissões” X, c. 27, 38).

Em consequência, vê-se quão importante é fazer chegar aos homens de hoje a mensagem cristã em termos nítidos e atualizados. Não basta proferir essa mensagem com fidelidade ao seu conteúdo genuíno. É preciso também dar grande importância ao modo como essa proposição há de ser feita: não se apresente como artigo de fé o que não o é (por exemplo, a formação do homem a partir do barro, a criação do mundo em seis dias de 24 horas, o paraíso terrestre como jardim ameno…); diga-se com clareza o que a fé ensina estritamente e o que ela deixa à livre discussão dos especialistas (seguindo-se nessa tarefa a orientação formulada pelo magistério da Igreja).

E certamente é de crer que, em pessoas que se dizem indiferentes, mas guardam fidelidade integral à sua consciência, o conhecimento da autêntica face de Deus suscite o amor a esse Deus e à sua Palavra, pois, “se ninguém ama o que não conhece”, o conhecimento de Deus é precisamente a via para levar ao amor do Senhor Deus.

5.2. Testemunho de vida

Se o cristão adere de coração à mensagem da fé, deve proclamá-la não só por palavras, mas também por seu teor de vida.

O testemunho da vida é por vezes mais eficaz ainda do que o da palavra. A palavra encontra bloqueios que a conduta de vida concreta consegue desfazer. Com efeito, muitas pessoas nem querem ouvir falar de Deus ou da Igreja. Dizem ter feito uma experiência do Cristianismo que lhes bastou para tachá-lo de inútil ou ultrapassado, quando na verdade essa experiência foi puramente extrínseca e ritualista; sem ter recebido formação catequética ou religiosa propriamente dita, receberam alguns sacramentos (o Batismo, a primeira Confissão e a primeira Comunhão) e assistiram a algumas cerimônias religiosas ou demonstrações de religião tradicionalista (sem plena participação interior) ou ainda sofreram alguma decepção por parte de um sacerdote ou um fiel católico, e, em consequência, acreditam poder fazer um juízo cabal ou definitivo sobre a Igreja e o Catolicismo.

Tais pessoas dificilmente aceitam colóquios religiosos; são afetadas não somente por apatia, mas também por antipatia. Precisam de algo que as impressione profundamente. Em muitos casos a apatia e a aversão só poderão ser vencidas pela conduta de vida de cristãos humildes, sinceros, puros e cheios de amor fraterno. Os santos ou os autênticos cristãos vêm a ser o sinal mais eloqüente
da presença de Cristo e da eficácia do seu Evangelho entre os homens; muitas vezes são eles – e tão somente eles – que conseguem (com a graça de Deus) derrubar os muros da indiferença religiosa ou da hostilidade a fim de abrir a seu semelhante o caminho que eleva a Deus. Se os santos não comunicam diretamente a luz à razão dos seus irmãos, despertam nestes certas interrogações que sacodem e inquietam: Como pode alguém ser alegre na simplicidade e modéstia de sua vida? Qual o segredo de uma existência reta, abnegada e generosa? Que pode mover alguém a renunciar a si em favor do próximo e do seu ideal?… Tais interrogações são salutares, pois justamente o drama da indiferença religiosa consiste na ausência de interrogações, de dúvidas e de interesse no tocante ao problema religioso.

Ninguém encontra Deus se não o deseja encontrar. Deus não é coisa ou objeto, mas Pessoa viva; em consequência, o único relacionamento que o homem possa ter com Ele, é o de pessoa a pessoa – o que supõe a livre aceitação do Tu divino. Ora, se alguém não percebe previamente a riqueza que Deus representa para o homem, não pode desejar o encontro experimental com o Senhor; não pode fazer do problema religioso um problema vital.

Em última análise, a atitude do cristão frente à indiferença religiosa é, precisamente, a de suscitar a interrogação religiosa e a necessidade do encontro experimental com Deus. Para tanto, é preciso, mediante palavra e conduta, mostrar ao indiferente que o problema religioso é um problema vital ou mesmo o problema do “sentido da vida”, pois, na verdade, a vida humana não tem significado se não voltada para o Infinito ou para Deus.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.