Indiferença religiosa: Por quê? Que significa? EB (Parte 1)

Em síntese: A indiferença religiosa é hoje muito mais esparsa do que a negação filosófica de Deus ou o ateísmo teórico. Para muitos homens, a religião não constitui problema, de modo que nem pensam em combatê-la. Mesmo os que se dizem cristãos, se tornam não raro cristãos indiferentes ou distanciados da Igreja.

Tal fenômeno é recente (próprio dos últimos decênios) e se alastra cada vez mais sem provocar os traumas; torna-se mesmo um fenômeno de massas.

Os porquês desta situação são vários, devendo ser enumerados especialmente a urbanização crescente (o homem perde o contato com a natureza, deixa-se absorver pelo trabalho, não tem mais tempo para um encontro consigo e com Deus) e a industrialização (que excita no homem a falsa consciência de que é senhor do seu destino, e o incita à cobiça crescente).

Pode-se dizer, porém, que o indiferentismo não trouxe maior felicidade à humanidade; na Suécia, o tédio invade os cidadãos; nos Estados Unidos e na Rússia, há surtos religiosos em reação ao indiferentismo e ao ateísmo. O homem sente espontaneamente a sua dimensão religiosa congênita, procurando de novo na fé o equilíbrio de vida que o abandono da fé não lhe pode proporcionar.

Em resposta ao indiferentismo, o fiel católico procurará: 1) dar o testemunho da reta fé pela sua palavra fiel às fontes da doutrina e ao magistério da Igreja, sem impor o que a fé não impõe, e sem abrir mão do que o Senhor Deus tenha ensinado pela Revelação; 2) despertar a inquietação religiosa, sacudindo o indiferentismo dos seus contemporâneos, mediante um testemunho de vida lúcido e coerente. Muitas vezes o comportamento e os atos conseguem dissolver bloqueios e traumas que a palavra (por mais brilhante que seja) não consegue desfazer.

Comentário:

Um dos mais graves problemas que a Igreja enfrenta em nossos dias, é o da indiferença religiosa. O fenômeno é cada vez mais comum, apresentando graves desafios ao Cristianismo. É por isto que se torna oportuno analisá-lo de perto, procurando definir as suas características, as suas causas e o seu significado, a fim de se tentar formular uma resposta ao mesmo.

1. Indiferença religiosa: matizes

Distinguiremos indiferença religiosa total ou propriamente dita  a indiferença religiosa parcial.

1.  A indiferença religiosa total ou propriamente dita  é o desinteresse pelos valores religiosos (Deus, as proposições da fé, a vivência segundo a fé…). Para o indiferente, Deus e a religião não constituem valores que mereçam ser procurados e apreciados; são problemas que não interessam, porque não são vitais; o indiferente julga poder construir a sua vida feliz e próspera sem Deus.

A indiferença não nega explicitamente a existência de Deus, mas simplesmente não se dá ao trabalho de pesquisar o assunto. Se Deus existe, Ele não tem consistência para o indiferente. Por isto a indiferença religiosa se distingue do ateísmo teórico;este nega explicitamente a existência de Deus e chega a combater a vivência religiosa. Para o indiferentismo, nem vale a pena perder tempo com tal questão – o que redunda num ateísmo prático, real, concreto (embora não formulado filosoficamente).

2.  A indiferença religiosa parcial é a que ocorre em pessoas nas quais o senso religioso não está totalmente extinto, mas ocupa o último lugar (ou um dos últimos lugares) entre as expressões do seu interesse. Essas pessoas podem demonstrar certa atenção por acontecimentos religiosos ou pela vida da Igreja; todavia ou se trata de atenção mais cultural do que empenhativa ou pode tratar-se de certa curiosidade, que não chega a influir na existência da pessoa.

3. À guisa de complemente, recordemos certas expressões de indiferença ocorrentes entre cidadãos:

– Há aqueles que se desinteressam da fé cristã e da vida da Igreja, mas manifestam certa simpatia por formas novas de religião ou de aparente religião, como são a Rosa-Cruz, a Teosofia, a Verologia, A Logosofia, ou ainda o ocultismo, o esoterismo, as crenças orientais (Yoga, Zen-budismo…), que vêm pululando nas grandes cidades. Tornam-se ecléticos ou indefinidos em suas atitudes religiosas.

– Há outros que se desinteressam do Cristianismo histórico, institucional, com suas proposições de fé e sua moral, mas não perdem a estima pela figura de Jesus e sua mensagem. São pessoas que se dizem “cristãos”, mas recusam a vinculação a qualquer comunidade. Constituem o que se chama “o terceiro homem” (Isto é, aquele que diz não ser nem conservador nem progressista, mas se coloca à parte de qualquer corrente, olhando com indiferença ou ceticismo o que acontece na Igreja). Esta atitude admite diversos matizes, pois há graus diversos de não-participação na vida da Igreja.

Procuremos agora descrever as

2. Características do indiferentismo

Apontaremos três notas típicas da indiferença religiosa:

1) Fenômeno recente e novo.  Com efeito, na Antiguidade e na Idade Média,acontecia que alguém passasse da reta fé para a heresia ou de uma crença religiosa para outra; todavia os ateus eram exceções (caso realmente os houvesse). Foi no séc. XVII que começaram a aparecer pequenos grupos de ateus ou de indiferentismos entre os homens de cultura ou da aristocracia; entrementes, as massas populares conservavam-se religiosas, embora a fé e a prática do Cristianismo muito deixassem a desejar. Foi no séc, XIX que a indiferença religiosa começou a se alastrar nos povos cristãos, chegando hoje em dia a atingir os diversos continentes.

2) Fenômeno de massa. Enquanto o ateísmo teórico fica sendo fenômeno de elite, o indiferentismo é muito mais generalizado, embora admita diversos matizes, como dito: há os que se professam católicos não praticantes, há os praticantes ocasionais  (batismo, casamento, funerais), há os praticantes que cumprem apenas o preceito pascal, há os “tradicionalistas”, para os quais a religião é quase elemento de família, elemento, porém, que não influi na estruturação da vida respectiva ou na conversão da família.

3) Fenômeno tranquilo. À diferença das grandes crises religiosas, que outrora suscitavam discussões, polêmicas e guerras, a indiferença é algo que se difunde silenciosamente, sem deixar trauma; Deus vai desaparecendo dos horizontes sem que os homens o percebam. Os homens se preocupam com outros “valores”, que não deixam lugar para uma visão religiosa da vida.

4) Fenômeno que se desenvolve com a civilização moderna. Verifica-se não raro que, na medida em que um povo se vai modernizando, se torna indiferente; é o que tem acontecido nos países escandinavos, nos Estados Unidos da América, no Japão. Mesmo nos países de civilização cristã mais antiga e arraigada, observa-se que o ritmo da urbanização, da industrialização, do consumismo, do pluralismo filosófico e cultural ocasiona o aumento do número daqueles que se dizem religiosamente indiferentes.

É este fato, precisamente, que sugere a questão: será que a expansão do progresso material é, de algum modo, causa de indiferentismo religioso?

A esta pergunta damos resposta positiva, que será explicitada sob o título abaixo:

3. Civilização moderna e indiferentismo

O ritmo da civilização contemporânea é, sem dúvida, apto a disseminar na sociedade dos homens um clima secularizado ou laicizado. Tende a sufocar a mentalidade religiosa e apagar os valores da fé, concentrando mais e mais a atenção dos cidadãos nos bens materiais e nos problemas ou benefícios que eles acarretam. É principalmente através de duas de suas notas que a civilização contemporânea exerce esse seu influxo: urbanização crescente e industrialização tecnocrata.

3.1. Urbanização crescente

É notório o êxodo progressivo das populações rurais para os aglomerados urbanos. Chegando à cidade, principalmente à grande cidade (a famosa Megalópolis de nossos dias (“o homem se sente envolvido em ambiente profundamente diversos daquele em que vivia e no qual concebera as suas noções de fé:

– artificialismo ou falta de contato com a natureza. A vida em conjuntos habitacionais, transportes superlotados, fábricas ou arranha-céus faz o homem perca aos poucos o senso do mistério e da mística que os elementos naturais (a vegetação, os animais, as paisagens de montanha, de mar, de campo aberto, de rios…) costumam inspirar e alimentar. A cidade tende a embrutecer os seus habitantes e a fazer-lhes perder o sentido da adoração, do louvor divino e do encontro com o Criador;

– frenesi de vida. A falta de tempo, a pressa provocada pelos horários e pelo acúmulo de afazeres fazem que o cidadão já não encontre ocasião para refletir e se recompor espiritualmente. O homem urbano torna-se então vítima de absorção pelos afazeres materiais, comparável não raro a uma máquina e destituído cada vez mais de sensibilidade para os valores imateriais ou transcendentais. Verdade é que essa materialização o deixa frustrado e inquieto; todavia não lhe é fácil diagnosticar as causas dessa ansiedade e muito menos fácil é libertar-se da trama de solicitações que o absorvem, para que possa sobreviver;

– consumismo e erotismo. Também se verifica que a vida urbana oferece contínuas ocasiões a que o cidadão valorize excessivamente o conforto e o prazer. Mesmo os mais modestos trabalhadores são solicitados a adquirir um “status” social, que não raro implica uma filosofia de vida nova, com menosprezo dos valores mais tipicamente humanos (honestidade, fidelidade à palavra, dedicação e generosidade…) e exaltação do prestígio e da ostentação.

Em tais condições compreende-se que o senso religioso se vá embotando; o homem vai sendo massificado.

3.2. Industrialização tecnocrata

Resultados semelhantes decorrem de outro fenômeno típico da vida moderna: a industrialização. Esta, como tal, é um bem; todavia ela suscita facilmente uma mentalidade laicista e materialista, sugerindo uma escala de valores em que a eficácia e a produtividade se tornam os únicos objetivos dignos de interesse do homem; os valores religiosos aparecem então como algo de inútil; o homem vai exaltando a sua capacidade de dominar a natureza, como se não houvesse Senhor acima dele.

Eis por que se pode dizer que o ritmo da civilização contemporânea contribui poderosamente para inspirar a indiferença religiosa ou o desinteresse pelos valores espirituais.

Esta verificação não pode deixar de preocupar não somente o cristão, mas também o pensador honesto. Observa-se que o homem contemporâneo, assim esvaziado dos valores religiosos, não é mais feliz. Os países de técnica mais evoluída não se tornaram, em nossos dias, mais tranqüilos do que outrora. Ao contrário, na Escandinávia, nos Estados Unidos, no Japão, o homem sente o tédio e a vacuidade da vida, quando não experimenta pessoalmente as rixas e as violências que o tecnicismo, a política e a cobiça vêm provocando em termos assustadores. Sendo assim, procuraremos, a seguir, analisar mais minuciosamente algumas das consequências da indiferença religiosa contemporânea.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Autor: Estevão Bettencourt, Osb
Nº 206, – Ano 1977, p. 51

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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