Impacto da voz do Papa vai além dos confins da Igreja

Entrevista
com o embaixador lituano na Santa Sé

ROMA,
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – A opinião do Papa é importante para os fiéis
católicos da mesma forma como importa para quem não é católico, afirma o
embaixador da Lituânia na Santa Sé. E o papel do Vaticano para o diálogo entre
as civilizações e culturas é apreciado no mundo inteiro, acrescenta ele.

Vytautas
Alisauskas fez estas declarações a ZENIT em entrevista realizada por ocasião do
20º aniversário da Lituânia como estado independente após a ocupação soviética,
que durou de 1945 a
1991.

O
embaixador relembrou o papel do Vaticano neste reconhecimento e reflete sobre a
sua atual posição na Santa Sé.

ZENIT:
Apesar da ocupação soviética, que foi de 1940 a 1990, as relações diplomáticas nunca
foram rompidas e os diplomatas lituanos continuaram trabalhando em Roma. Depois que a
independência lituana foi reconhecida internacionalmente, em 1991, essas
relações se renovaram. Poderia nos contar como foi esse processo?

Alisauskas:
Eu trabalhei como conselheiro do Ministro das Relações Exteriores na época. O
Santo Padre pediu ao arcebispo Audrys Juozas Backis, que era o núncio
apostólico na Holanda, para ir à Lituânia começar uma nova etapa nas relações
diplomáticas. A proposta era estabelecer essas relações através de um
embaixador.

Então foi
nomeado um primeiro embaixador da República da Lituânia, Kazys Lozoraitis.
Antes disso, os diplomatas lituanos que residiam em Roma trabalhavam como
ministros plenipotenciários. Dom Backis ressaltou o desejo do Santo Padre de
que a Santa Sé reconhecesse o estado da Lituânia como independente sempre, e
que ele rejeitava a sua incorporação à União Soviética. Então essas relações
diplomáticas não foram meramente renovadas, mas subiram para um nível mais
alto.

ZENIT: Como
se desenvolveram essas relações a partir desse momento?

Alisauskas:
Eu diria que o acontecimento mais importante foi a assinatura de três acordos
com a Santa Sé no ano 2000. O primeiro consistia nos aspectos jurídicos das
relações entre a Igreja Católica e o Estado; o segundo, nos cuidados pastorais
que os católicos exerciam no exército; o terceiro era sobre a cooperação em
cultura e educação.

Os
soviéticos anunciaram que a concordata de 1927 com a Lituânia estava anulada.
Formalmente ainda valia, mas a realidade histórica e a ordem social e política,
além dos princípios do Concílio Vaticano II, tinham que se refletir na relação
entre a Lituânia e a Santa Sé. Então foi escolhido o formato dos três acordos.
Eu acho que o trabalho começou no início de 1996. O projeto dos três acordos
foi cuidadosamente preparado para evitar que surgissem muitas perguntas ou
problemas quando as conversas bilaterais começassem.

A
legislação existente foi levada em consideração com muita seriedade, porque,
com a independência, a Lituânia também recuperou a liberdade religiosa. Mais
tarde, esses acordos foram aceitos com facilidade, porque houve, como eu
mencionei, um esforço para manter a legislação lituana, que correspondia tanto
à visão do estado democrático como à da Igreja católica.

Pouco
depois, os acordos de 2000 foram ratificados e assinados por uma grande maioria
no Parlamento. Os problemas que aparecem agora são discutidos por uma comissão
bilateral que se reúne periodicamente e toma as decisões com base nesses
acordos.

ZENIT: Um
dos acordos é sobre a cooperação em educação e cultura. O que se entende como
educação católica na Lituânia? Isso ajuda a frear a secularização que vem do
Ocidente?

Alisauskas:
Falando da educação católica na Lituânia. Eu tenho que dizer que os institutos
católicos são vistos como instituições de grande prestígio […] Não conheço a
fundo as escolas fundamentais católicas, mas sei que elas funcionam bem. Temos
também uma faculdade de teologia católica na Universidade Vytautas Magnus em
Kaunas, a segunda maior cidade da Lituânia, que tem o direito de outorgar
títulos aprovados pela Igreja. Houve vários doutores em teologia entre os
recentemente graduados, o que mostra certa maturidade dessa instituição
acadêmica.

Os
processos de secularização são diferentes nos países que fizeram parte do
regime soviético em comparação com os do Ocidente. A Lituânia sofreu 50 anos de
perseguição religiosa e de ateísmo forçado. Por um lado, esta situação
fortaleceu a fé das velhas gerações e o prestígio da Igreja. Por outro lado, as
gerações jovens não tiveram a oportunidade de se familiarizar com os valores
cristãos.

Agora temos
total liberdade religiosa, mas essa liberdade significa um desafio enorme para
a Igreja Católica. Podemos dizer que existem hoje dois processos paralelos: a
secularização ocidental e a renovação da Igreja e a sua integração na vida cotidiana
do país.

Apesar de a
Lituânia ser um país secularizado, é notável que existe na prática um desejo de
cooperar com a Igreja Católica e também com outras confissões tradicionais.

ZENIT: Já
faz três anos que você está em Roma como embaixador. Acredita que a diplomacia
é importante para os países pequenos? E como é o jogo da diplomacia com as
nações maiores?

Alisauskas:
Primeiro, não podemos esquecer que existem mais países pequenos do que países
grandes. E isto é importante. Não é verdade que os países grandes joguem só
entre eles. Não sei se o termo “jogar” é apropriado aqui, mas podemos usá-lo.
Os grandes jogadores jogam num mundo em que existem muitos e diferentes
jogadores.

Cada um tem
seus próprios interesses e desejos, e o resultado da política mundial não
coincide com o que cada jogador individual gostaria. A política mundial sempre
dá um resultado determinado, às vezes um resultado final totalmente inesperado.
E, neste sentido, o jogo dos países médios e pequenos não é insignificante.

Outra cosa
é a União Europeia. Eu acho que o Tratado de Lisboa é uma ferramenta para os
estados pequenos e médios se autoafirmarem como sujeitos ativos na política
internacional ou dentro da União, porque atualmente as decisões não são tomadas
sem que haja uma quantidade determinada de países participantes. A quantidade
de população não é suficiente. Acredito que o equilíbrio que existe no Tratado
de Lisboa entre os votos dos estados membros e o tamanho da população é muito
racional, já que dá novas oportunidades aos países médios e pequenos para
participarem na tomada de decisões.

ZENIT: A Santa Sé tem velhas tradições diplomáticas. No geral, é considerada
como uma autoridade moral. Escuta-se a voz do Papa fora de Roma?

Alisauskas: Sem dúvida. O fato é que durante os três anos que passei aqui,
abriram-se cinco ou mais residências de embaixadas. Entre as que destaco estão
as da Austrália e Canadá. Isso mostra que o papel da Santa Sé no âmbito
internacional é muito importante. Ela toma parte ativa no diálogo entre as
civilizações e culturas e é levada em consideração em todo o mundo. Também toma
parte em muitas missões de ajuda humanitária.

Além disso,
a Santa Sé participa continuamente da discussão não só de questões morais
cotidianas, mas também dos problemas e desafios éticos do mundo, como no campo
da bioética, ecologia e dignidade humana. A Santa Sé tem sua própria opinião
sobre estes temas. Tanto os crentes como os que não crentes lhe prestam
atenção. Suas considerações se baseiam não só na revelação, mas também em uma
grande sabedoria e experiência. A voz do Santo Padre é importante para
todo o mundo e a posição da Santa Sé é muito forte e estável.
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Marija Burdulyte

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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