Igreja não busca privilégios em Acordo com Brasil, diz Papa

”Igreja ajudou a forjar o espírito brasileiro”, destaca o Santo Padre a novo Embaixador brasileiro

O Papa Bento XVI recebeu em audiência o novo Embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Almir Franco de Sá Barbuda, na manhã desta segunda-feira, 31, para a apresentação das Cartas Credenciais.

O Santo Padre dedicou boa parte de seu discurso a esclarecer o real propósito do Acordo assinado entre a Santa Sé e o Governo Brasileiro, em 2008, e que foi oficializado em 2010.

“Longe de ser uma fonte de privilégios para a Igreja ou supor uma afronta à laicidade do Estado, visa apenas dar um caráter oficial e juridicamente reconhecido da independência e colaboração entre estas duas realidades”, explica.

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.: Na Íntegra: Discurso de Bento XVI

A comunidade política e a Igreja são independentes e autônomas, mas ambas servem à vocação pessoal e social dos homens, recordou Bento XVI, citando a Constituição Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II.

“A Igreja espera que o Estado, por sua vez, reconheça que uma sã laicidade não deve considerar a religião como um simples sentimento individual que se pode relegar ao âmbito privado, mas como uma realidade que, ao estar também organizada em estruturas visíveis, necessita de ver reconhecida a sua presença comunitária pública”, ressaltou.

Bento XVI destacou ainda que cabe ao Estado garantir a possibilidade do livre exercício de culto de cada confissão religiosa, bem como as suas atividades culturais, educativas e caritativas, sempre que isso não esteja em contraste com a ordem moral e pública.

“A contribuição da Igreja não se limita a concretas iniciativas assistenciais, humanitárias, educativas, etc., mas tem em vista, sobretudo, o crescimento ético da sociedade, impulsionado pelas múltiplas manifestações de abertura ao transcendente e por meio da formação de consciências sensíveis ao cumprimento dos deveres de solidariedade. Portanto o Acordo assinado entre o Brasil e a Santa Sé é a garantia que possibilita à comunidade eclesial desenvolver todas as suas potencialidades em benefício de cada pessoa humana e de toda a sociedade brasileira”.

Contribuição

“Mais do que construções materiais, a Igreja ajudou a forjar o espírito brasileiro caracterizado pela generosidade, laboriosidade, apreço pelos valores familiares e defesa da vida humana em todas as suas fases.

O Papa afirmou que reza pela prosperidade e bem-estar de todos os brasileiros, cujo carinho experimentado na visita pastoral de 2007 “permanece indelével nas minhas lembranças”. Ele também manifestou o reconhecimento pela disponibilidade das esferas governamentais em apoiar a Jornada Mundial da Juventude 2013, que será realizada no Rio de Janeiro.

O Pontífice também salientou que é conveniente reafirmar que o ensino religioso confessional nas escolas públicas, tal como foi confirmado no Acordo de 2008, longe de significar que o Estado assume ou impõe um determinado credo religioso, indica o reconhecimento da religião como um valor necessário para a formação integral da pessoa.

“E o ensino em questão não pode se reduzir a uma genérica sociologia das religiões, porque não existe uma religião genérica, aconfessional. Assim o ensino religioso confessional nas escolas públicas além de não ferir a laicidade do Estado, garante o direito dos pais a escolher a educação de seus filhos, contribuindo desse modo para a promoção do bem comum”, explicou.

O Embaixador

A audiência com o Santo Padre durou 20 minutos, parte dos quais dedicada a uma conversa privada entre o novo Embaixador e Bento XVI. Em seu discurso, Barbuda destacou a honra em representar o governo de “uma nação com mais de 68% de população católica, a maior do mundo em número de fiéis, e com o maior episcopado dos cinco continentes”.

Os 185 anos de relações diplomáticas entre o Brasil e o Vaticano também foram lembrados no contexto do Acordo sobre o Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, firmado em 2008 e promulgado em 2010, que passou a regulamentar o relacionamento entre os dois Estados. A realização da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013, também foi destacada.

“Temos consciência da importância deste acontecimento para a Igreja Católica e para os jovens católicos de todo o mundo e nos sentimos especialmente privilegiados ao vermos escolhido o Rio de Janeiro. O evento coincide com a ascensão de um Brasil novo, com menos desigualdades e com grande otimismo e fé no seu destino. O tema central escolhido por Vossa Santidade não poderia, portanto, ser mais oportuno e ter mais eco junto ao povo e, sobretudo, junto à juventude brasileira, que sem dúvida acorrerá com grande devoção e entusiasmo ao chamado de Vossa Santidade: ‘Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações’. O terreno é bastante fértil para frutificar em terras brasileiras e em terras do continente americano, onde vive quase a metade da população católica do mundo”, referiu o novo Embaixador.

Brasil no Vaticano

A Embaixada do Brasil é uma das 174 representações diplomáticas estrangeiras acreditadas junto à Santa Sé. De acordo com informações do site da Embaixada, a “missão fundamental é representar o Governo brasileiro junto à Sé Apostólica e à Ordem de Malta, acompanhar a atuação do Papa e informar sobre o posicionamento da Santa Sé com relação a assuntos relevantes da atualidade, procedendo à análise de seus desdobramentos de cunho político”.

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por Leonardo Meira
Da Redação cn, com Rádio Vaticano

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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