Igreja, Criacionismo e Darwinismo

Grandes diários brasileiros destacaram em princípio de fevereiro a morte, aos
cem anos de idade, do cientista Ernest Mayr. Alemão de nascimento, nos longos
anos de sua existência ele escreveu 26 livros sobre ornitologia, taxonomia,
biogeografia e evolução. Em 1942 deixou a Alemanha assumindo a direção do Museu
Americano de História Natural.

Ainda jovem
havia passado dois anos pesquisando nas montanhas Ciclopes, da Nova Guiné.
Vários cientistas escreveram elogiosamente sobre sua pessoa, pesquisas e
escritos. Entre os livros mais conhecidos que escreveu estão “Sistemática e
Origem das Espécies” e “O Que é Evolução”.

Em anos
difíceis para a teoria do darwinismo, Ernest Mayr apresentou novos argumentos a
favor da evolução das espécies animais. Transformou-se no “Darwin do Século
XX”, sem dúvida um cientista renomado. Seus estudos o levaram, com outros
evolucionistas, a formar a Escola conhecida como Moderna Síntese Evolucionista,
unindo os estudos de Charles Darwin (1809-1882) com a Genética, a Biologia e a
Paleontologia. Em certa oportunidade quando lhe perguntaram quando se tornara
evolucionista respondeu que “nascera darwinista”.

Por uma
coincidência que, pessoalmente, tenho como providencial, nos dias em que Ernest Mayr
agonizava, o criacionismo retornava ao debate público nos Estados Unidos e
entre nós, sob a liderança de cientistas como o físico Marcelo Gleiser, da
Universidade Dartmouth, de New Hampshire, a geóloga Elaine Kennedy, do
Instituto Geoscience Research, o biólogo Stephen Jay Gould, o norte-americano
Michael Behe, este a estrela do “design inteligente”. Todos voltaram a repropor
o criacionismo o último sem recorrer ao texto bíblico, como costumam fazer os
evangélicos fundamentalistas e tantos outros.

Sintetizando
as coisas, segundo os darwinistas a partir do livro “A Origem das Espécies”, do
inglês Charles Darwin, animais inferiores, durante milênios, foram evoluindo
para espécies superiores, passando pelos primatas, dando no homem e na mulher,
nesta seqüência: Homo erectus, Homo faber e Homo sapiens. Como os darwinistas,
também os criacionistas dividem-se em dois grandes grupos. O primeiro fazendo
uma exegese literal do texto do livro do Gênesis, afirmando ser Deus, por ação
direta, o Criador de todas as espécies vivas e, de modo especial, da espécie
humana. O primeiro casal humano não resultou, portanto, de uma longa milenar
evolução das espécies animais, mas surgiu de uma ação onipotente e sábia do
próprio Deus. O segundo grupo vem se afirmando como uma corrente científica
que, sem apelar para a Bíblia, nega a evolução das espécies dizendo que “grande
parte das estruturas biológicas humanas são complexas demais para terem surgido
de acordo com o modelo darwinista de acúmulo gradual de modificações
aleatórias”. Acrescentam eles haver muitos “buracos” na teoria evolutiva “como
o súbito aparecimento de formas de vida espantosamente variadas no período
cambriano”. Sem a interferência de um “Projetista inteligente” (= Deus), não se
explica nem a impressionante diversidade das espécies vivas e muito menos, da
espécie humana.

Os
opositores do darwinismo que defendem o criacionismo, insistem que a evolução
não é senão uma teoria ou hipótese cientificamente ainda não comprovada.
Acrescentam que é muito improvável e até impossível que estruturas altamente
diferenciadas, como uma proteína ou uma célula viva apareçam por acaso, que as
mutações a que apelam os evolucionistas não produzem novos traços e,
finalmente, que a Biologia Molecular não confirma a evolução das espécies. O
darwinismo é pois uma teoria que, no atual estágio das ciências, não passa de
uma possível hipótese.

Oficialmente,
a Igreja Católica e o Magistério dos Papas não excluem a possibilidade da
teoria evolucionista, desde que o início do processo evolutivo tenha tido
origem partindo de Deus. Ele, o Criador, seria o autor das possíveis leis da
evolução que, atuando durante milênios e milênios teriam resultado no primeiro
casal humano. Assim, a hipótese darwinista da evolução das espécies, até dos
primatas de que teria surgido o homem, é uma possível explicação ao lado do
criacionismo que, também, tem a seu favor fortes razões filosóficas e não
apenas religiosas ou bíblicas.

No momento
em que teria havido o salto do animal irracional para o racional, tornou-se
necessária uma nova intervenção divina no processo evolutivo, se é que houve! Nesse
momento Deus interviu no processo criando e infundindo uma alma humana,
racional, na nova espécie superior a todas as demais, a espécie humana,
inteligente, consciente e livre. O evolucionismo não materialista, mas mitigado
ou “espiritualista”, conduzido pelo próprio Deus, entendido dentro desses
limites, poderá ser admitido pelos que professam a fé católica. Em todo caso, Deus
é o Criador de tudo e, portanto, também do homem e da mulher.

A esse
respeito, leia o interessado a encíclica “Humani Generis”, do Papa Pio XII, do
ano de 1950. Se desejar mais informações poderá, também, ler o substancioso
livro do culto beneditino Dom Estevão Bittencourt “Ciência e Fé na História dos
Primórdios”, editado pela AGIR em 1955. Ficaria honrado se pudesse merecer a
leitura do capítulo “Gênesis: Origem do Homem”, do meu livro “Iniciação à
Leitura da Bíblia”, já com cinco edições (Editora Santuário, 2004, páginas 33 a 36).

Filosoficamente,
o acaso nada explica sendo a “razão dos que não têm razões!”. A todo efeito
sempre deve corresponder uma causa adequada que o explique. Inerte como é, a
matéria jamais poderia tornar-se viva por si mesma e é impossível que seres
irracionais, por mais evoluídos e perfeitos que sejam, como os primatas,
expliquem sem uma interferência de um Ser inteligente e pessoal, livre,
onipotente e vivo, a origem da espécie humana. Chame-se o primeiro casal humano
Adão (= feito do pó) e Eva (= mãe dos viventes) ou desse-lhes outros nomes, a
espécie humana, todas as raças humanas, descendem desse par de protoparentes.
Feitos “à imagem e semelhança” de Deus (Gn 1,26) somos todos irmãos e irmãs
entre nós, chamados a vivermos em fraternidade e solidariedade.
_________________________Dom Amaury
Castanho

Bispo emérito de Jundiaí-SP

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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