Homeopatia: Ciência ou superstição? (Parte 1)

por Hermann Windisch Neto

Conceito

O termo homeopatia vem do
grego “homoios-pathos” (sofrimento semelhante) e designa a doutrina
que prega a cura de doenças pela administração de substâncias que, aplicadas
num indivíduo são, geram sofrimento semelhante ao do paciente.

O medicamento aplicado num
indivíduo são causará artificialmente uma doença. Quanto mais semelhantes forem
os sintomas do paciente, realmente doente, com os sintomas causados por esta
substância, maior a eficácia deste medicamento para a cura deste doente. Por
exemplo, a ingestão de café pode causar insônia. Logo, se um paciente tem um
problema de insônia, um remédio de café deveria curá-lo.

Esta doutrina será mais
detalhada no cap IV.

Seu fundador

Christian Friedrich Samuel
Hahnemann nasceu em Meissen, Saxônia, em 10 de abril de 1755. Meissen, fundada
em 929 no leste da Alemanha, ficou luterana no século XVI e era bastante
afamada pela porcelana no séc. XVIII.

O pai de Hahnemann,
Christian Gottfried, artesão na arte da porcelana, possuía uma forte convicção
no luteranismo.

Durante a Guerra dos 7 anos
(1756 – 1763), Frederico II invadiu a Saxônia e determinou o fechamento da
fábrica de porcelana em Meissen, transferindo-a para Berlim. Assim, o pai de
Hahnemann perdeu sua atividade econômica, o que resultou numa educação
conturbada.

Hahnemann teve sua educação
primária em casa. Aos
12 anos (1767) começou a frequentar a escola primária, porém, de maneira
irregular.

Com 15 anos (1770), com a
proteção do duque da Saxônia, ele matriculou-se na escola do principado. Nos 4
anos que permaneceu lá, aprendeu línguas, matemática, geometria e botânica. No
fim do curso, escreveu uma tese em latim sobre a anatomia da mão humana,
mostrando sua tendência para medicina.

Aos 20 anos (1775) foi
estudar medicina na universidade de Leipzig, sustentando-se com aulas de
francês/alemão e traduzindo do grego e do inglês.

Como a faculdade de Leipzig
não oferecia a possibilidade da prática médica em hospitais, com a proteção do
Dr. Joseph von Quarin (médico da imperatriz Maria Theresa), muda-se em 1776
para Viena, estudando e praticando no Hospital dos Irmãos Misericordiosos.

Após 9 meses, vendo-se sem
condições financeiras de sustentar-se, pela influência do Dr. Quarin, o
governador da Transilvânia, barão Samuel von Brunkenthal, o empregou como
médico da família e diretor da biblioteca. Hahnemann permaneceu 1 ano e 9 meses
em Hermanstadt, época em que entrara na Maçonaria.

Em 1779 muda-se para Erlagen
para concluir sua formação acadêmica. A universidade de Erlagen era considerada
anti-ortodoxa. Era a sede do movimento “Aufklärung” (esclarecimento),
que tinha suas raízes no pensamento de intelectuais como Goethe, Shiller e
Lessing.

Formou-se em 1779, com a
apresentação da tese “A cãibra, suas causas e tratamento”.

Após formado mudou-se para
Hettstedt, porém, não permaneceu mais que 9 meses, mudando-se para Dassau.

Em Dassau Hahnemann apaixona-se pela Química, mas também pela
“Naturphilosophie”, filosofia de Scheeling com caráter mais pagão que
cristão.

Em 1781, casa-se com Joana
Henriete Leopoldine Kuchler, filha do farmacêutico da cidade, e um ano depois,
muda-se para Gomern, onde sua prática médica foi um fracasso. O povo preferia
os remédios caseiros e as bruxarias. Lá, ele publica seu primeiro trabalho:
“Diretrizes para a cura de velhas feridas e úlceras”. Em 1785, muda-se
para Dresden, capital da Saxônia, onde vive por mais de 4 anos fazendo

traduções e com um cargo
público, onde supervisionava parteiras e cirurgiões, e cuidava de órfãos, de
prisioneiros, da prevenção de doenças e da realização de exames post-mortem. Em
1789, retorna a Leipzig. Desiludido pela prática médica vigente, ele não
pratica a Medicina. Impossibilitado de sustentar-se em Dresden, tem uma vida
errante por cerca de 12 vilas entre 1789 e 1805. Nesta época escreve o livro
“O amigo da saúde”, onde ele protesta contra os métodos da Medicina,
principalmente nos casos de loucura.

A Medicina da época de
Hahnemann era bastante precária, para não dizer perniciosa. Seus métodos eram
ilógicos e agressivos, geralmente agravando os quadros clínicos e levando-os ao
óbito. Os principais procedimentos terapêuticos eram:

1- Sangrias

O tratamento de muitas
doenças tinha como base a retirada de sangue do paciente, em geral de 1 a 2 litros. Alguns
recomendavam que a sangria fosse feita até a inconsciência para facilitar a
redução de fraturas pelo relaxamento muscular e ausência de queixas.

O médico François Broussais
(1722-1838) foi apelidado de Robespierre médico, pois tinha retirado mais
sangue de seus pacientes do que tinham derramado nas guerras Napoleônicas.

As sangrias eram
recomendadas em casos de Coqueluche, Cólera, Febre, e até mesmo hemorragias (o
poeta Goethe, após sofrer uma hemorragia digestiva, foi sangrado em mais um
litro).

George Washington, em 14 de
dezembro de 1779, teve uma severa dor de garganta. Foi feita uma sangria
parcelada de dois litros, seguida de vesiculações e administração de Calomelano
(cloreto de mercúrio). No mesmo dia ele veio a falecer.

As sangrias também eram
feitas por meio de sanguessugas. Em 1833, a França importou 41 milhões de sanguessugas
para completar sua produção. Os gastos hospitalares com estes animais chegavam
a ser maiores que todos os outros medicamentos.

2- Eméticos/purgantesO Calomelano (cloreto de
mercúrio) e outras substâncias tóxicas eram recomendados como eméticos e purgantes,
com a falsa idéia de que a diarréia e os vômitos provocados eliminariam as
impurezas internas.

3- Vesiculações

A aplicação de substâncias
cáusticas e irritantes sobre a pele (vesiculação) provocavam infecções na pele,
e as supurações de pus eram também interpretadas como eliminações de impurezas
internas.

Também vale ressaltar que
houve uma grande procura por outros meios anti-racionais de medicina
(frenologia de Gall, siderismo de Ritter, brownismo importado da Inglaterra e
magnetismo animal de Mesmer). As pessoas se apaixonavam por todas as formas de
telepatia, clarividência, leitura do pensamento e hipnotismo. A exploração do
inconsciente, que a escola romântica tinha posto em moda, chegou ao seu apogeu.

Em 1792, Hahnemann foi
convidado a cuidar de um asilo de loucos em Georgentahl, porém, com a morte de
seu único paciente, abandona o ducado em 1793.

Enquanto ficou na vila de
Molschleben, traduziu o “Tratado sobre matéria médica”, do Dr.
Willian Cullen. Neste livro existia uma descrição dos efeitos da quinina
(substância extraída da casca de uma árvore peruana e usada no combate da
malária). Não satisfeito com a descrição dada, Hahnemann resolveu experimentar
a raiz e descreveu os sintomas que sentiu como semelhantes aos sintomas da
malária. Assim começa a pregação do princípio da similitude.

Em 1799, publica o ensaio
“Novo princípio para interpretar o poder curativo das drogas e o exame dos
princípios existentes” no jornal Medizinische Practic, que defende o
princípio da homeopatia (similia similibus curantur).

Entre 1805 e 1811, Hahnemann
fixa residência em Torgau, cidade próxima de Meissen.

Em Torgau, ele publica 19
livros e ensaios. Entre eles, o ensaio “A medicina da experiência”,
onde todos os pontos da homeopatia já estão definidos.

Em 1810, Hahnemann publica
sua principal obra, o livro “Organon”, que possui toda a base da
homeopatia e toda a sintomatologia sobre várias substâncias experimentadas por
ele próprio.

Em 1811, mudou-se para
Leipzig para tentar difundir suas idéias através de um instituto criado por
ele, porém, não teve nenhum interessado. Assim sendo, ele tenta obter o grau de
docente na Universidade de Leipzig para poder dar conferências e cursos.

Em 1812, ele passa no exame
oral, defendendo uma tese, em latim, sobre uma erva medicinal antiga, o
heléboro branco. Sua tese era que esta erva era na verdade o veratrum album
moderno. Sua tese fugia completamente da polêmica doutrina da homeopatia.

Em 1813, por causa da guerra
com Napoleão, Leipzig fica repleta de mutilados e moribundos, que enchiam os
hospitais da cidade. Não tardou a começar uma crise de febre tifóide. Hahnemann
acabou tendo prestígio pela utilização do método homeopático, o qual obteve
resultados superiores aos da medicina convencional de então.

Em Leipzig, Hahnemann e seus
discípulos fabricavam seus próprios medicamentos, isto fez com que os
farmacêuticos de Leipzig reclamassem seus direitos aos conselheiros da cidade.
A denúncia foi aceita e Hahnemann ficou proibido de fabricar seus medicamentos.
Assim, em 1821, Hahnemann mudou-se para Kothen, cidade a 16 milhas de Leipzig. O
duque de Kothen era profundo admirador de Hahnemann, concedendo-lhe o cargo de
médico da corte.

Em Kothen, Hahnemann elabora
a teoria das dinamizações, e, em 1827, apresenta a obra “As doenças crônicas”,
a qual causou polêmica mesmo entre homeopatas.

Em 1830, sua esposa faleceu,
e, em 1835, aos 80 anos, ele se casa com Melanie d’Hervilly, moça de 32 anos de
idade, que foi para Kothen para ser curada por Hahnemann. Segundo Haehl,
biógrafo de Hahnemann, Melanie foi a Kothen com a definitiva intenção de
aprender a homeopatia.

Em 1835, Hahnemann refaz seu
testamento, deixando Melanie como única herdeira, retirando seus filhos.

Melanie o convence a
mudar-se para Paris, onde abre uma luxuosa clínica com sua esposa como
ajudante. O rei Luís Felipe lhe dá o direito de clinicar, e sua clínica obtém
um prestígio mundial. Duques, príncipes, políticos e pessoas influentes
procuravam sua famosa clínica.

Em 1843, Hahnemann falece, e
seu sepultamento ocorreu da maneira mais simples possível, sem padre, orações
ou discursos. A viúva não chamou ninguém. Ele foi sepultado na mesma cova em
que foram colocados dois homens que tiveram relacionamento com Melanie: no
começo dos anos 20, o “último presidente da república francesa”, e em
1932, o pintor La Thière.

Leituras

Hipócrates, Paracelso, Van
Helmont, Sydenham, Boerhaave,Stahl,Haller.

Raízes Doutrinárias

3.1. Hipócrates (460 – 375 AC)

Na época de Hipócrates, duas
correntes de medicina se definiram. A escola de Cnido e a de Cos.

Na escola de Cnido, a
patologia era localizada e os sintomas eram analisados e combatidos. Existiam
doenças.

Para a escola de Cos, a
doença era interpretada como um quadro específico de cada paciente, que era
tratado como um todo indivisível. O remédio era para restabelecer a ordem da
pessoa e não para atacar os sintomas. Não existiam doenças, mas sim doentes.

Hipócrates defendia a escola
de Cos, apesar de admitir a utilidade do método de Cnido.

Nas escola de Cos, existia o
princípio de que a cura dos doentes era feita pela administração de remédios
que produziam sintomas semelhantes aos que o doente apresenta:

“A doença é produzida
pelos semelhantes, e pelos semelhantes que prescrevemos ao paciente, ele
retorna da doença à saúde. A febre é suprimida pelo que a produz e produzida
pelo que a suprime” (Hippocrate. Euvrés Completes em Landman pg 84).

3.2. Paracelso, Filipe
Bombast von Hohenhelm (1493 – 1591)

Mestre de Alquimia, médico e
filósofo alemão, amigo do heresiarca Zwinglio, de ideias iconoclastas,
conseguiu difundir suas doutrinas sem ser condenado pela Igreja. É considerado
o personagem mais característico do Naturalismo alemão na Renascença. Definia o
fundamento da Medicina como uma conjugação entre o mundo exterior e as
diferentes partes do organismo humano. Célebre pela doutrina dos medicamentos
específicos e por sua teoria da múmia, bálsamo natural que deveria preparar
todos os tecidos.

É considerado o pai da
Medicina Hermética e destruidor da Medicina Escolástica.

Fundiu seus conhecimentos
alquímicos com a prática médica.

Paracelso foi discípulo de
Johannes Trithemius (1462-1516), abade de Sponheim – expert em Ocultismo e
famoso for fazer luzes mágicas que nunca se consumiam. É dito que o imperador
Maximiliano I pagou 6.000 coroas por uma destas lâmpadas e que depois de 20
anos abandonada, continuava acesa.

Princípios de Paracelso

Introduziu a noção de metais
e minerais como agentes medicinais importantes.

Rejeitou a Escola de Galeno
(129-199) sobre os quatro humores (sangue, fleuma, bile e linfa),

que dizia que todas as
doenças eram desequilíbrios destes humores. Como também negou o princípio que o
contrário cura o contrário (a Medicina utiliza estes conceitos. Por exemplo,
dá-se um remédio que abaixa a temperatura para aqueles que têm febre. Esta
medicina é conhecida como Alopatia).

Introduziu a idéia dos 3
princípios majoritários (enxofre, mercúrio e sal, considerados por ele como a
manifestação da trindade divina), sistema que veio da antiga literatura
alquímica do Islã. Segundo Paracelso, os 4 elementos (terra, fogo, água e ar)
seriam fundamentados nos 3 princípios.

O igual cura o igual.
“Onde as doenças afloram, também podem se encontrar as raízes da saúde,
pois a saúde deve se originar das mesmas raízes que a doença e se a saúde vai
de lá para cá, a doença também deve ir” (Hahnemann. “Lesser Writings
em Danciger, pg. 34). “Jamais uma doença quente foi curada por alguma
coisa fria, nem a fria, por alguma coisa quente. Mas já aconteceu do igual
curar igual” (ibid, pg. 34). Ele propôs que os mineiros de Fuggens
(Áustria), que sofriam de enfermidades causadas pelos minérios, fossem tratados
com os mesmos metais que geraram suas doenças.

Teoria dos Arcanos:
qualidade essencial existente numa substância que a torna curativa. “…o
princípio da Medicina consiste destes arcanos e que os arcanos formam a base de
um médico. Agora, se a essência fatal da matéria reside nos arcanos, conclui-se
que o fundamento de tudo é a Alquimia” (Hahnemann “Lesser
Writings” em Danciger pg 35).

Como a astrologia influía
sobre as partes do organismo, os remédios deveriam ser proporcionados a isto.

Não importa a quantidade do
Arcano: “Quem consegue pesar a luminosidade do sol… ou o spiritum
arcanum?… Ninguém” (Alan Debus em Danciger pg 40).

A existência de uma causa
espiritual das doenças. “… Mas, uma vez que o corpo não possui nenhuma
participação nesta forma de vida (espiritual), ela é o ens spirituale, o
princípio ativo espiritual, de onde brota a doença…” (Hahnemann
“Lesser Writings” em Danciger pg 41).

Defendia a analogia
desenfreada das formas.

Prescrevia a saxífraga na
litíase renal em virtude da forma desta planta ser parecida com a de um rim.
Ou, o ciclame nas afecções do aparelho auditivo devido ao formato auricular de
suas folhas, etc… (Romanach em Landman pg 85).

3.3. Van Helmont, Jean
Baptiste (1578 – 1644)

Flamengo, praticante de
ocultismo, foi condenado pela Inquisição em 1634 por 2 anos, sob a acusação de
superstição, magia e artes diabólicas.

Em sua doutrina são
encontrados os seguintes pontos:

Contra os remédios
sintomáticos.

Como Paracelso, acreditava
que os Archeus geravam as doenças, quando em desarmonia.

Archeus: Princípio
imaterial, força vital e espiritual, mas não era a alma.

A doença provinha do
espírito para a matéria.

Não existe doença e sim
doentes. As causas exteriores eram ocasionais e não essenciais para a doença.

3.4. Stahl, George Ernest
(1660 – 1734)

Médico e químico alemão

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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