Homem e Mulher: Complementaridade

casal na praiaEm síntese: O feminismo avançado tende a igualar entre si homem e mulher, esquecendo as diferenças específicas que fazem a riqueza da humanidade. G. Martinetti mostra que não se podem confundir entre si o masculino e o feminino, pois cada qual tem seus predicados peculiares, que devem ser respeitados e ativados para o bem da sociedade civil e da Igreja. Enquanto o homem procura a eficiência fria e, às vezes, cega, a mulher representa a afetividade, que dá graça e significado à racionalidade eficiente do homem.

Em nossos dias registra-se uma certa competição entre o masculino e o feminino; há quem julgue que a mulher deve abandonar seus afazeres específicos para se igualar em tudo ao homem – o que redunda em nova forma de subserviência do feminino ao masculino. Giovanni Martinetti, já citado no artigo anterior deste fascículo, analisa a questão, mostrando que a grandeza da mulher está precisamente em cultivar o que lhe é peculiar – a afetividade e a capacidade de amar – para temperar e complementar o senso de eficiência fria que muitas vezes move o homem. Sem a presença da mulher, com seus traços femininos peculiares, as façanhas do homem poderiam facilmente redundar em desgraça para o próprio homem. As considerações do autor vão, a seguir, transcritas a partir do livro “Razões para Crer” pp. 383-384, 388, 390-2, 34as, 398-400.

“A mulher é a ponte entre o homem e Deus”

A feminilidade tem uma missão espiritual especial, que deriva de sua própria natureza. É verdade que hoje muitos sustentam que as diferenças psicológicas entre homem e mulher se devem apenas a fatores culturais e que tenderão a desaparecer quando houver perfeita igualdade social entre os dois sexos. Contudo, é difícil concordar com isso, quando se pensa que a maternidade, despertando na mulher o gosto e o desejo de cuidar do recém-nascido, também lhe dá qualidades que são úteis a semelhante tarefa, qualidades essas que formam a alma feminina.

Por isso devemos dizer que apenas algumas diferenças psicológicas podem ser creditadas ao papel que historicamente o homem dominante atribuiu à mulher, especialmente à sua presumida inferioridade quando se trata de dirigir e organizar, de fazer política, ciência, técnica e arte. Outras, ao contrário, provêm da natureza e de Deus, que, com a perspectiva da maternidade e da educação dos filhos, dirige a mulher para a doçura, a delicadeza, a beleza suave, a afetividade, a ternura e o amor, enquanto orienta o futuro pai para a coragem, a racionalidade, a organização, a luta contra os obstáculos e outras qualidades úteis ao trabalho fora de casa.

A civilização atual atravessa uma fase de rápido declínio, porque está dominada por fatores culturais de origem masculina (tecnologia, racionalismo, busca excessiva de bem-estar econômico, amor como sinônimo de sexo). Entrementes a mulher não-contaminada pela mentalidade dominante, com a sua intuição, sua preferência pelo amor profundo e estável, pela fraternidade e pela fé religiosa, exerce uma tarefa muito elevada, indispensável para ajudar o homem a alcançar os valores superiores.

Poder-se-ia dizer que hoje a mulher autêntica é uma espécie em vias de extinção, mas que, onde ela se conserva, é a ponte entre os homens que a rodeiam, e Deus.

A opinião pública atual, fruto da cultura machista do passado, pressiona psicologicamente a mulher para que ela realize, mais que a igualdade de direitos, um nivelamento espiritual com os homens. Para que busque o sexo mais que o amor, o trabalho e a ciência mais que a geração e a educação dos filhos, o racionalismo mais que a fé, o feminismo e o conflito mais que a influência do coração, a igualdade de pensamento e de obrigações sociais mais que a paridade de dignidade e a complementaridade da missão humana, o sacerdócio exterior e institucionalizado mais do que o interior, do qual tem a capacidade exclusiva.

Uma presença cada vez maior da mulher na filosofia e na literatura, no jornalismo e no direito, na sociologia, na política e também na teologia será portanto bastante benéfica para o desenvolvimento equilibrado de nossa cultura, até agora monopólio masculino, se a mulher em vez de se limitar a copiar o homem, exercer o seu carisma próprio.

Porque Deus dotou a mulher de um sacerdócio que lhe é natural, mais interior que o dos padres. Sem mulheres capazes de amar e de fazer-se amar profundamente como esposas, mães, dirigentes ou amigas, e de orar sobretudo com o seu coração e a sua vida, o sentido da vida e a fé desaparecem. E com eles desaparecem também os ministros sagrados.

A mulher é verdadeiramente, por vocação, a ponte sagrada com Deus não quando, abandonando a fonte divina, volta-se totalmente para a fonte do homem e procura imitá-lo, e não apenas quando gera o homem, mas sobretudo quando, com o Amor divino, o regenera interiormente¹” (pp. 383s).

“Complemento recíproco homem-mulher”

O impulso fundamental da mulher é o dom de si, do mesmo modo que o do homem é a afirmação de si. A primeira quer o amor, o segundo a justiça. O sentimento feminino se aplica àpessoa individual, enquanto o do homem é mais universal (política) e objetivo (ciências).

O intelecto do homem é dominado mais pelo pensamento abstrato e científico, enquanto a mulher busca o ser das coisas com a intuição. O mundo da mulher é compreender, sentir, perdoar, simpatizar. Ela é biologicamente feita para ser mãe e psicologicamente para ser materna. O homem é feito para a organização, a técnica, para vencer as resistências e os obstáculos, para proteger e garantir a existência da mulher e da criança.

Até no campo religioso homem e mulher foram feitos um para o outro: enquanto a mulher está mais preparada para atingir a perfeição sobrenatural, que é de ordem passiva e tem como elemento principal a Graça, o homem, ao contrário, está mais equipado para conquistar a perfeição ética natural, que é de ordem ativa e consiste no perfeito domínio da racionalidade sobre todas as ações e sentimentos.

A perfeição da natureza humana reside, portanto, na integração entre força racional e afetividade intuitiva. Sem o homem, a mulher cai no sentimentalismo; sem a mulher, o homem se congela na aridez e no tecnicismo soberbo. Kiekegaard observava em seu Diário:

“Um eminente intelectualidade viril liga-se imediatamente a um enorme egoísmo […] Em certo sentido, a mulher está mais capacitada para o serviço religioso, porque a sua natureza é toda feita de abandono de si […] Uma eminente intelectualidade de viril que se doa em sujeição feminina, eis a verdadeira religiosidade”² (p. 388).

“O sacerdócio aplica-se à mulher”

Depois de explicar às crianças a obra da criação de Deus no relato bíblico da Criação, um catequista lhes perguntou: “Por que vocês acham que Deus criou a mulher depois do homem?” Então uma menina levantou a mão e respondeu: “Eu acho que, depois de fazer o homem, o Senhor pensou: Se a primeira tentativa não der certo, talvez eu me saia melhor agora. E assim criou a mulher!”

Embora não possamos afirmar que a mulher tenha saído melhor que o homem, sustentemos contudo que ela tem um papel fundamental para que a humanidade possa alcançar o Objetivo Primeiro da vida.

Hoje há muitas discussões sobre o ministério sacerdotal e alguns dizem que ele também deveria ser exercido pelas mulheres. Talvez fosse melhor, por ora, descobrir e enfatizar o Sacerdócio próprio da mulher que foi ignorado até agora. Para abrir a Porta de Deus são necessárias duas chaves diferentes. A questão não é saber se ambas devem ser seguradas pelas filhas de Eva, mas qual das duas é a mais apropriada para elas: a “petrina” (a chave de S. Pedro) ou a “mariana” (as chaves da maternidade espiritual).

O que dissemos anteriormente, ou seja, que a condição feminina é mais inclinada ao Amor profundo do que a masculina, não é um lugar-comum desprovido de fundamento científico. Os maiores psicólogos, até os mais atuais, sustentam que existem diferenças reais de personalidade entre o homem e a mulher (maior agressividade no primeiro, afetividade mais intensa na segunda) e que elas dependem não apenas de causas culturais, mas também de fatores biológicos que têm reflexos na alma e no espírito” (pp. 390s).

“O homem tende mais à eficiência, a mulher ao Amor”

Os estudos psicológicos sobre as características femininas fazem referência àquela mulher que Hélene Deutsch e outros psicólogos chamam de tipo feminino e que representa a grande maioria das mulheres, do mesmo modo que o tipo masculino se expressa na maioria dos homens. A psicologia encontra confirmação desses dados fundamentais em dados de ordem fisiológica, dos quais resulta que em cada um dos dois sexos predominam hormônios sexuais próprios (os “estrógenos” na mulher e os “andrógenos” no homem).

Por isso, considera-se comprovado que em cada sexo predominam características psicológicas próprias. C. G. Jung chama de “anima” ao conjunto de características femininas e a elas faz corresponder o “animus” da parte do homem. As qualidades próprias de cada sexo são um dado da natureza, mesmo quando ulteriormente determinadas por fatores culturais.

Dentre as muitas tentativas de sistematizar as diferenças entre os dois sexos, a mais promissora parece ser a de referir as diferenças entre os estereótipos sexuais a duas escalas de valores diferentes e complementares: a da “eficiência” e a da “afetividade”, que costumam ser personificadas, no grupo familiar, pelo pai e pela mãe.

Seguindo o trabalho de Roger Piret, da Universidade de Liège, “Psychologie différentielle des sexes”,  vamos dar uma rápida olhada nas características dos dois sexos.

A mulher de tipo feminino põe no centro dos próprios pensamentos e da própria vida o amar e ser amada. Enquanto para o homem o amor vem junto com outros interesses e certamente não é o mais importante, para a mulher ele é o elemento essencial da sua existência, especialmente na juventude. A mulher aprecia principalmente o aspecto afetivo e sentimental do amor, enquanto no homem prevalece o desejo físico (pp. 123ss).

A mulher manifesta maior “benevolência social”. Enquanto as mulheres estão mais interessadas em relações humanas, os homens são mais atraídos pelo estudo e pelas atividades relativas às causalidades físicas (ciências, técnica, trabalho). As primeiras formam grupos baseados mais na simpatia, enquanto os segundos buscam interesses comuns. As mulheres são muito menos agressivas, e por isso há muito menos mulheres nas prisões por cometerem furtos, estelionatos e homicídios (pp. 149ss)” (pp. 341).

“Não é a igualdade de direitos que está em jogo, mas a especificidade de tarefas”

A discussão sobre o sacerdócio da mulher não envolve culturas machistas ou igualdade de direitos, como a publicidade dominante faria pensar, mas envolve o mistério de Deus e sua ação salvífica por meio da Igreja. Masculino e feminino são portadores de significados e valores complementares também na revelação e são compreendidos à luz do princípio petrino e do princípio mariano, como ilustrou João Paulo II ao falar da missão específica da mulher (cf. Mulieris Dignitatem, n. 27). “O perfil mariano”, escreve o Papa, “é tão ou mais fundamental e marcante para a Igreja quanto o perfil apostólico e petrino, ao qual está profundamente unido […] A dimensão mariana da Igreja antecede a petrina, embora esteja estreitamente unida a ela e a complemente”.

Citando Von Balthasar, o Papa afirma o primado de Maria e, nela o da mulher e do feminismo sobre o princípio petrino, e portanto sobre o homem e o masculino: “Maria é rainha dos apóstolos, sem pretender para si os poderes apostólicos. Seus poderes sãooutros e maiores” (MD 27, n. 55).

O grande teólogo suíço esclarece em que consistem esses poderes outros e maiores quando aborda o tema da mulher não do ponto de vista sociológico ou cultural, mas do propriamenteteológico: “A Igreja é em primeira instância feminina, antes de receber o seu lado masculino complementar no Ofício eclesiástico…”

Hoje assistimos a um progressivo ingresso da mulher de fé no ministério da Palavra, nas Associações, nos movimentos eclesiais, nos encontros, em escolas de todo tipo e também nas de Teologia. A substância do cristianismo é o Amor que vem de Deus, e este é transmitido sobretudo pelo exemplo e pela palavra (…).

A Igreja é uma empresa de aparelhos para a telecomunicação com Deus. As mulheres estão mais inclinadas a projetá-los e produzi-los. Já os homens se saem melhor na administração, na publicidade e no marketing. É pouco provável que abolir as especializações fosse muito vantajoso para a Igreja” (pp. 398-400).
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¹ Cf. P. Evdokimov, “La femme et le salut du monde”, in VV.AA. La donna nella Chiesa oggi, Leumann (Turim): Elle Di Ci, 1981, pp. 128ss.

² S. Kierkegaard, Diário, Brescia: Morcelliana, 1951, p. 228, Cf. R. Piret, Psicologia differenziale dei sessi, Roma, 1973.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 447 – Ano 1999 – p. 347

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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