“Hoje se vive, se pensa e se age como se Deus não existisse”, afirma Dom Dadeus Grings

Porto Alegre (Quinta-Feira, 22-09-2011, Gaudium Press) Com o título “A divinização da economia”, o arcebispo metropolitano da cidade gaúcha de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, aborda em seu mais recente artigo as consequências da corrupção e a tentativa da humanidade de querer substituir Deus pelo dinheiro. O prelado afirma que a queda das ideologias trouxe à tona um sistema social que parecia estar definhando desde 1917, quando se implantou, com a Revolução Russa, o socialismo marxista.

Segundo o prelado, esse sistema recebeu o nome de neoliberalismo e remetia ao veteroliberalismo, doutrina que surgiu em 1789 com a Revolução Francesa, e que pregava, contra o absolutismo do Estado, a trilogia da liberdade, da fraternidade e da igualdade. O arcebispo ainda ressalta que, ressurgindo com as vestes de neo, o sistema restringiu o tríptico à liberdade econômica. “Garantia de que a economia tem dinâmica própria, à semelhança das ciências, que seguem seus métodos, sem ingerência externa. Está, por assim dizer, acima do bem e do mal”, completa.

Para comentar a respeito do sistema socialista, Dom Dadeus cita a encíclica social “Centesimus Annus”, na qual o Papa João Paulo II analisa as razões da queda do socialismo real. Neste documento, conforme o arcebispo, o pontífice afirma que a causa da queda do sistema foi a ignorância do pecado original. Em outras palavras, explica o prelado, o marxismo apregoava bastar uma mudança das estruturas sociais, que tudo estaria resolvido, pois vivia da convicção de que o homem é naturalmente bom, o que o torna mau é a propriedade. Sendo assim, eliminando as propriedades estariam resolvidos os problemas do mundo.
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“Quando o coração abre lugar para a ganância, o primeiro a ser extrojetado é Deus”, afirma Dom Dadeus

No entanto, de acordo com o arcebispo, não foi isso que aconteceu. “Pelo contrário: sob o regime marxista os problemas se agravaram, a pobreza generalizou-se e as iniciativas particulares foram forçadas à paralisia Acabou num caos, apesar de todo aparato de repressão. Implodiu”, destaca dom Dadeus, afirmando ainda que o neoliberalismo, ao contrário do marxismo, não só ignorou o pecado original, como se aproveitou dele ao máximo.

“Abriu-lhe as porteiras. Não proibiu a fé religiosa, mas a substituiu pela lei do mercado. Incentivou, ao inverossímil, a ganância e promoveu, ao máximo, o lucro. Vale o princípio: ‘tanto podes quanto ousares’. Na verdade, tentou-se substituir Deus pelo dinheiro. É corrupção por toda parte”, analisa o bispo.

O prelado lembra ainda que o próprio Evangelho nos assegura que não se pode servir a dois senhores, e já naquele tempo se contrapunha o dinheiro a Deus, a ganância à piedade. Para Dom Dadeus, a riqueza tem o condão de ocupar todo o espaço do coração, não deixando lugar para mais nada. “Tudo gira em torno do dinheiro. Perde-se o contato com a alma. A insensibilidade cria uma sociedade cada vez mais dura e ressequida. Quando o coração abre lugar para a ganância, o primeiro a ser extrojetado é Deus”.

O ano de 2008, conforme lembra Dom Dadeus, entrou para a história como o ano da crise. Contudo, argumenta o prelado, antes de uma crise de economia, sentiu-se a crise de Deus e da religião. Para o arcebispo, sem um adequado suporte de fé em Deus e de confiança mútua, foi muito difícil sair do buraco feito na economia. “Vivemos, por muito tempo, de ilusão. Usufruímos de um capital com fundo falso”, sublinha.

Por fim, Dom Dadeus enfatiza que apesar de falar de economia, o que interessa a ele no seu texto é a crise de fé, “pois muitas vezes os homens agiram com a pretensão de querer substituir sistematicamente Deus pelo dinheiro”. Fazendo uma breve retrospectiva de seu artigo, o prelado afirma que foi lembrado em seu texto do ateísmo teórico, de cunho marxista, que chegou a criar, no seu tempo, uma faculdade para estudar e difundir o ateísmo no mundo. Contudo, segundo ele, hoje se sente mais incisivamente o ateísmo prático.

“Se vive, se pensa e se age como se Deus não existisse. Os antigos romanos diriam que seu Deus é o ventre. Os modernos neoliberais creem que seu Deus é o dinheiro”, conclui. (FB).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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