”Hoje, se ouvirdes a Sua voz…”

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, Osb

Nº 223, Ano 1978, p. 273

(Sl 94,7s)

A imprensa, aos
9/06/78, noticiou um discurso proferido pelo escritor russo Alexander
Soljenitzyn na Universidade de Harvard (U.S.A.). O famoso pensador cristão
comentou a situação geral dos povos ditos ocidentais (Europa Ocidental e
América) apontando entre os mesmos graves lacunas, que Soljenitzyn tem como
sintomas de falência moral. Eis um dos trechos mais significativos da sua
alocução:

“O declínio da coragem
pode ser o aspecto mais gritante que um observador de fora nota no Ocidente de
nossos dias. O mundo ocidental perdeu sua coragem… em cada país, em cada
Governo, em cada Partido político e, naturalmente, nas Nações Unidas. Esse
declínio de coragem é particularmente claro entre os grupos governantes da
elite intelectual…

É preciso dizer que
desde os tempos o declínio da coragem tem sido considerado o começo do fim”
(cf. “Jornal do Brasil” 9/06/78, 1º cad., p. 13).

E se perguntássemos a
Soljenitzyn quais as causas da falta de coragem que ele denuncia, responderia
com palavras do mesmo discurso: os bens materiais ou o culto do materialismo
vem embotando a fibra dos homens pela civilização do bem-estar ou do consumo. O
escritor julga que, ao contrário, “o povo tem passado, alcançou tal
desenvolvimento espiritual que o sistema ocidental, a ele comparado, não
apresenta atrativos”. Na verdade, o povo russo, sujeito a pressão ou
redescobrir os valores da transcendência e da mística que o regime soviético
lhe quis extirpar; cf. PR 221/1978, pp. 193-214.

As observações de Soljenitzyn fazem, de certo modo, eco às de outro
grande pensador: Arnold Toynbee (cf. PR 175/1974, pp. 273s). Parecem
diagnosticar fielmente a realidade a desmoronar, pois, sob o império do egoísmo
e do comodismo, vai perdendo valores fundamentais como são o respeito à
família, à vida, à honra, à palavra dada… O escritor russo reconhece que as
suas ponderações são severas, mas afirma que as propõe como amigo, e não como
adversário. Na verdade, trata-se de um cristão que fala ao mundo ocidental
berçado pelo Evangelho e que é cioso de preservar os valores ameaçados de ruína
pela filosofia não cristã do hedonismo e do materialismo.

Em réplica, Soljenitzyn propõe um reerguimento espiritual  e assevera: “Ninguém na terra tem outro
caminho a não ser para cima”.

Tais palavras falam vivamente a todo cristão consciente da sua missão.
Pode-se dizer, sem hesitação, que um dos mais graves males do nosso mundo é a
falta de decisão ou coragem necessárias para se levarem a termo os grandes
ideais do Evangelho. Um dos mais rudimentares preceitos do Senhor é
precisamente: “Seja o vosso “sim” sim e o vosso “não” não. O que passa disto,
vem do Maligno” (Mt 5,37). Já este aspecto da mensagem do Evangelho, por mais
modesto que pareça, pode ser objeto de sério exame de consciência. A
experiência leva a perguntar se ainda tem sentido para muitos… E que por esta
pergunta? – Porque a execução de tal norma supõe certa austeridade de vida ou
capacidade de renúncia.

É, pois, a identidade dos cristãos que Soljenitzyn interpela. Se o
mundo vai mal, sofrendo de covardia e incoerência, compete aos discípulos de
Cristo assumir a sua parte de responsabilidade; lembre-se de que o Senhor os
quis constituir “sal da terra”, “luz do mundo” e “fermento na massa” (cf. Mt
5,13s; 13,33). Este programa exige de cada um austeridade, sobriedade e
coerência de vida; exige mais definida adaptação à mensagem do Evangelho. Claro
está que a problemática geral do mundo toma proporções que ultrapassam longe a
capacidade de ação de um cristão isolado ou mesmo de muitos cristãos reunidos.
Pouco importa, porém; o que o Senhor pede a cada um, é tão somente o esforço e
a luta que lhe estão ao alcance; Ele sabe aproveitar tudo o que cada qual lhe
queira oferecer de bom, dando imprevisível fecundidade ao mais insignificante
dos nossos atos sinceros. O cristão crê nesta verdade; ele crê que o Senhor
quer salvar os homens mediante os homens,… mediante cada um, e que, por isto,
cada qual é valioso no plano de Deus.

“Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações …!
(Sl 94,7s).

 

 

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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