História da Teologia na América Latina – EB

Em síntese: A coletânea de artigos acima apresentada inspira-se nos princípios da CEHILA (Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina), que procura ter a história do continente através das categorias de luta de classes, análise marxista da sociedade, história “versus” metafísica, mentalidade semita “versus” mentalidade grega (…). Tal perspectiva desfigura não raro a narração histórica, impondo-lhe esquemas pré-concebidos e artificiais. Ademais o historiador não deve julgar a conduta dos antepassados segundo categorias de pensamento contemporâneas; é necessário procurar entender as gerações passadas a partir das premissas de história, geografia, cultura e desabrochamento ético que lhes estavam ao alcance. Isto não quer dizer que o bem e o mal sejam relativos, mas, sim, que nem todas as consciências desfrutam da mesma maturidade para perceber as exigências da moralidade em toda a sua extensão e profundidade.

Es por que a coletânea em pauta nos parece unilateral e inadequada para espelhar com fidelidade os fatos passados e a evolução da teologia no nosso continente.

Comentário: O volume acima indicado contém nove estudos apresentados e debatidos, sob a coordenação de Pablo Richard, no Simpósio sobre História da Teologia na América Latina, realizado pela Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA) em Lima, no Peru de 23 a 26 de julho de 1980¹. Quatro desses ensaios refere-se ao Brasil: o de Riolando Azzi, que esboça um quadro geral da produção teológica no Brasil ao longo da sua história; o de Eduardo Hoornaert sobre a teologia do Pe. Antônio Vieira no seu período missionário no Maranhão; o do Pe. José Oscar Beozzo, sobre o pensamento do Pe. Júlio Maria no alvorecer da República, e o de Rubem Alves, sobre as idéias teológicas no protestantismo brasileiro. Os outros artigos se deve ao Prof. Enrique Dussel, presidente da CEHILA, ao Prof. SamuelSilva Gotay, de Porto Rico ao Prof. Otto Maduro, da Universidade de Merida na Venezuela, ao Prof. Agustin Churruca Peláez, do México, e ao Prof. Pe. Gustavo Gutierrez, do Peru.

Essa coletânea de artigos, como diz a Introdução (p. 7), é o gérmen de uma obra mais vasta referente à história da Teologia na América Latina. Merece a atenção do estudioso pelos seus enfoques característicos.

Algumas linhas-mestras

O grupo CEHILA compartilha as teses da Teologia da Libertação na sua forma mais extremada – o que quer dizer que considera a história da América Latina como cenário em que opressores e oprimidos se defrontam numa luta de séculos, que chega ao seu auge nos últimos decênios.

Alguns artigos são moderados e assaz objetivos, como os de Oscar Beozzo sobre o Pe. Júlio Maria (pp. 107-126) e o de E. Hoornaert sobre o Pe. Antônio Vieira (pp. 63-74); a sua leitura é interessante e enriquecedora. Em outros ensaios torna-se mais patente a tendência filosófico-ideológica, que tem a sua expressão máxima no estudo de Samuel Silva Gotay sobre “Origem e desenvolvimento do pensamento cristãos revolucionário a partir da radicalização da doutrina social nas décadas de 1960 e 1970” (pp. 139-164).

Samuel Silva Gotay, detendo-se sobre uma faixa cronológica assaz restrita (1960-1980), tentadescrever a passagem do Cristianismo social (ou do Cristianismo que segue a doutrina social da Igreja oficial) ao Cristianismo revolucionário; o estudo é rico em documentação e bibliografia. O autor desenvolve a sua exposição dentro de parâmetros filosófico-teológico, que assim se podem resumir:

O pensamento bíblico não é metafísico, essencialista, mas historicista e dinâmico; o próprio Jesus teve uma cosmovisão histórica e materialista. É o que Gotay sugere na seguinte passagem, que sintetiza bem o seu pensamento:

“A cosmovisão histórica e materialista com a qual Jesus e a Igreja primitiva interpretam a realidade e entendem a sua fé, é transformada, graças à influência da cosmovisão essencialista, em metafísica greco-romana, mediante esse processo de “tradução” da linguagem e da filosofia dos “gentios”. Daí as sérias consequências sobre a ética e a política da Igreja que sofremos até os nossos dias” (pp. 157s, nota 1).

Com outras palavras: segundo Gotay, a preocupação com a verdade imutável e com valores transcendentais e estranha à mensagem do Antigo Testamento e ao Evangelho; foi a contaminação do pensamento bíblico pela filosofia grega a responsável pelos interesses metafísicos do Cristianismo antigo e medieval até os últimos tempos. Em nossos dias, é preciso remover a influência grega sobre a teologia e voltar às fontes do pensamento bíblico.

“A verdade da fé não é aquilo que se ajusta com o que é metafisicamente, segundo a definição do preexistente e do imutável, revelado a partir do mundo das ideias ou do espírito metafísico, mas, sim, aquilo que se faz com eficácia e amor para a libertação do homem e para a construção do Reino e do homem novo” (p. 156).

Nesta proposição nota-se a antítese entre ser e fazer, entre ortodoxia e ortopraxis (…). A fé consequentemente não é adesão a verdades perenes (das quais decorram normas práticas de vida), mas é a afirmação de um agir que é revolucionário, visando a transformar a América Latina mediante luta de classes:

“A fé, como tal, não é “crença” em um sistema de idéias reveladas do além – como se fosse uma epistemologia idealista defeituosa -, mas a atitude de esperança do compromisso com o Reino de Deus na história. A fé, vista assim, implica uma praxis de libertação histórica e política” (p. 156).

A Moral cristã, segundo tais premissas, e a Moral da revolução; eticamente louvável e tudo aquilo que acelera a mudança sócio-político-econômica da América Latina. Diga-o o próprio autor:

“A Moral hebraica-cristã da Bíblia não corresponde às normas reveladas a partir do mundo metafísico dos princípios eternos e universais mas é aquela que se depreende das necessidades concretas de uma ação política eficaz para se conseguir a libertação e estabelecer a justiça para os pobres, os oprimidos e os explorados. Como consequência dessas afirmações posso postular que a Teologia da Libertação se caracterize pelos seguintes traços:

a) Reestrutura a reflexão teológica de tal maneira que abandona a cosmovisão de raízes platônicas e opta pela cosmovisão materialista e histórica da tradição bíblica dos hebreus, o que torna possível incorporar a compreensão científica da história e da sociedade à sua reflexão teológica. Em outras palavras, submete à crítica final o dualismo céu-terra da teologia tradicional, e afira esta história terrena como a única história existente…” (p. 156).

Como se depreende, a “compreensão científica da história e da sociedade” a ser incorporada à teologia é a da análise marxista, habitualmente preconizada pelos teólogos da libertação.

Será instrutivo, para o estudioso, ler os restantes pontos característicos da teologia da libertação expostos à pp. 155-157 do artigo em pauta.

Pergunta-se agora:

Que dizer a propósito?

O exame do artigo de Gotay, como também  da coletânea toda, pode impressionar o leitor imperito no assunto, pois os autores insinuam que a visão bíblica é materialista e revolucionária (= marxista), ao passo que o pensamento cristão vigente desde os primeiros séculos é grego, platônico, não bíblico. O próprio Jesus terá sido um revolucionário materialista(?), traído pela interpretação das gerações dos primeiros séculos.

A propósito observamos:

1) É errôneo vincular a mensagem bíblica a alguma concepção filosófica – a dos semitas, por exemplo -, em oposição a outra. A mensagem revelada utiliza tanto os recursos do pensamento semita como os do pensamento grego; tenham-se em vista especialmente o livro da Sabedoria (escrito em Alexandria no século I a. C.) e os do NovoTestamento, que se referem não raro às categorias da filosofia grega, como por exemplo, a epístola aos Hebreus.

2) Também é errôneo afirmar que a filosofia grega é dualista, ou seja, propensa à antítese entre matéria e espírito, corpo e alma, céu e terra… Aristóteles corrigiu Platão e o pensamento órfico, afirmando o hilemorfismo, ou seja, a doutrina da alma “forma do corpo”, doutrina que S. Tomás de Aquino (+ 1274) e sua escola adotaram. Donde se vê que a mensagem bíblica pode ser validamente penetrada e ilustrada mediante o instrumental da filosofia grega sem cair no dualismo ou no maniqueísmo.

3) Não se pode reduzir a fé a uma profissão de praxis ou atividade revolucionária. A verdade, com o que ela tem de perene e imutável, é anterior à atividade do homem e ilumina a esta. A primazia atribuída à verdade a-temporal e absoluta não implica alienação ou descaso em relação à ordem temporal, mas, antes, garante orientação e direcionamento à atividade do homem.

O cristão colabora na construção de um mundo novo porque, para tanto, é incitado pela consciência de que o Reino de Deus começa na terra. O profissional cristão joga não somente com o seu nome e os seus valores pessoais, mas com o nome e a honra de Deus; daí a necessidade de se esmerar mais ainda do que se ele fosse motivado por objetivos meramente humanos; é o que se lê na Constituição Gaudium et Spes do Concílio do Vaticano II:

“O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de uma e outra cidade, a procurarem desempenhar fielmente as suas tarefas terrestres, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo não termos aqui cidade permanente, mas buscarmos a futura, julgam, por conseguinte, poder negligenciar os seus deveres terrestres, sem perceber que estão mais obrigados a cumpri-los por causa da própria fé, de acordo com a vocação à qual cada um foi chamado… Este divórcio entre a fé professada e a vida cotidiana de muitos deve ser enumerado entre os erros mais graves do nosso tempo… Portanto não se crie oposição artificial entre as atividades profissionais e sociais, de uma parte e, de outra, a vida religiosa” (nº 43).

4) A Sagrada Escritura não acena apenas a uma ordem temporal, mas tem em mira o Reino de Deus consumado num plano transcendente; os bens temporais são transitórios e, por sua própria índole transitória, devem levar o cristão a ultrapassá-los numa perspectiva de eternidade. Para não multiplicar citações, sejam recordados apenas os seguintes textos bíblicos:

Mt 6,19-21: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam, mas acumulai para vós tesouros nos céus, onde nem a traça nem o caruncho destroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”.

2Cor 4,18: “Não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não veem, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno”.

Fl 1,21-23: “Para mim o viver e Cristo e o morrer é lucro… Desejo partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor; mas permanecer na carne é mais necessário por vossa causa”.

Aliás, verifica-se que a teologia da libertação, a fim de apoiar seu programa de expectativas temporais, recorre mais aos primeiros livros da Bíblia do que aos escritos do Novo Testamento; apela para as páginas do Êxodo como se estas significassem a promessa de um Reino de Deus confinado ao tempo e ao espaço. Na verdade, o Êxodo, visto e perspectiva neotestamentára e especialmente, paulina, acena para um Reino de Deus transcendental a ser obtido plenamente ao termo da presente peregrinação. Tenham-se em vista as seguintes passagens:

1Cor 10,2-4.11: “Nossos pais, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo… Estas coisas lhe aconteceram para servir de exemplo e foram escritas para a nossa instrução, nós que fomos atingidos pelo fim dos tempos”.

Hb 3,5s: “Moisés era fiel em toda a sua casa, como servo, para ser testemunha das coisas que deveriam ser ditas. Cristo, porém, na qualidade de Filho, esta acima de sua casa”.

Por conseguinte, cometeria violência contra os textos bíblicos quem quisesse explanar os livros iniciais do Antigo Testamento em detrimento da ótica transcendental que os escritos cristãos inspiram. A terra onde correm o leite e o mel, só pode ser entendida como figura de uma plenitude que a história jamais oferecerá, mas apenas preparará. A consciência desta verdade incute ao cristão a certeza de que não deve subordinar à atividade temporal a tendência aos valores transcendentais; a história é assim relativizada, perdendo o caráter de referencial único e decisivo que a teologia da libertação lhe quer atribuir. O Cristianismo clássico não recusa a história e seus valores: apenas coloca-os na perspectiva da eternidade.

5) Não se deve julgar o procedimento dos antepassados segundo categorias hoje vigentes, mas não plenamente desabrochadas na consciência de gerações anteriores. Certos tipos de comportamento hoje condenados podiam parecer legítimos ou mesmo necessários aos olhos de nossos antepassados. Dizendo isto, não defendemos o relativismo ético da situação. Mas pomos em relevo que o desabrochamento ainda incompleto da consciência moral assim como certos dados históricos e geográficos, podiam dificultar aos antigos a percepção de valores éticos que a vida moderna apresenta mais claramente aos nossos contemporâneos Observa a propósito o Pe. Arlindo Rubert no seu volume “A Igreja o Brasil. Origem e desenvolvimento (século XVI)”, p. 17:

“Se quisermos compreender a história, sentir as atitudes dos nossos maiores, muitas delas para o homem de hoje chocantes e paradoxais, procuremos estudar a mentalidade de cada época, o sentido social do tempo, os critérios em que se estribava a legislação vigente (…). Assim podemos melhor entender certos episódios históricos, tais como a chamada intolerância religiosa, a inquisição, a distinção entre cristão-novo e cristão-velho, o fato da escravatura (…). Aduzimos tais exemplos não para levantar loas aos aspectos menos evangélicos dessas instituições político-religiosas, mas para descobrir menos má vontade ou ignorância nos homens do tempo. Aliás, nos homens do findar do século XX somos, com frequência, assaz ingênuos e incoerentes. Condenamos episódios passados que nos parecem monstruosos e calamos fenômenos históricos em edições contemporâneas ainda mais volumosas e cruéis, porque apresentados sob o disfarce de intenções aparentemente legítimas ou em nome de leis sociais que parecem válidas e aceitáveis (…)”.

Estas ponderações têm a importância de atenuar o espírito sistematicamente crítico de historiadores contemporâneos, que se tornam unilaterais e injustos, a título mesmo de praticar a justiça.

São estas algumas reflexões que a coletânea “História da Teologia na América Latina” nos sugere, numa tentativa de juízo imparcial e objetivo.
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¹ História da Teologia na América Latina por diversos. – Ed. Paulinas, São Paulo, 160 x 230 mm, 198 pp.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 268 – Ano 1983 – p. 240

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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