História da Igreja: Inocêncio III – O apogeu do poder temporal

inocc3aancioOs antecedentes

Deixamos a história do Papado em 1085, quando morreu Gregório VII. Após esta data, a Idade Média entra mais decididamente na sua fase ascendente, pois a Igreja está mais livre da ingerência do poder secular. Com efeito, os reis e nobres ainda tentaram entravar a reforma de costumes empreendida por Gregório VII mas não o conseguiram. Realizaram-se o 9º o 10º e o 11º Concílios Ecumênicos no Latrão (o 1º em 1123, o 2º em 1139 e o 3º em 1179) destinados a reafirmar a disciplina da Igreja e a autonomia do Papado frente aos Imperadores e nobres, que procuravam dominar a Itália (o reino de Nápoles e Sicília estava sob o domínio dos alemães, o que facilitava a estes o cerco do Estado Pontifício); os monarcas da época, embora professassem a fé cristã nem sempre se comportaram como filhos da Igreja, fazendo prevalecer os seus interesses políticos sobre os da ideal “Cidade de Deus”.

Nos séculos XI e XII deu-se também o surto e o desenvolvimento da heresia cátara, em conseqüência da qual foi instituída a Inquisição em etapas sucessivas (tema dos capítulos 32 e 33). O capítulo 52 oferecerá uma visão geral dos vinte Concílios Ecumênicos, permitindo ao estudioso repassar os séculos XI e XII, que sobrevoamos neste momento para abordar diretamente o século XIII ponto culminante da ascensão anterior.

O século XIII foi uma fase privilegiada da história da Igreja, marcada por cinco personagens de grande vulto: o Papa Inocêncio III (1198-1216), o rei São Luís da França (1226-70), o teólogo doutor São Tomás de Aquino (1225-1274), e dois frades: São Francisco de Assis (1181-1226) e São Domingos de Gusmão 1170-1234).

Examinaremos a figura e o pontificado de Inocêncio III, que foi o mais bem sucedido da Idade Média.

Lotário de Segnei era filho de família nobre da Itália, nascido em 1161 e dotado de muito talento. Estudou em Roma e Bolonha Teologia, Filosofia e Direito. Seu tio Clemente III nomeou-o Cardeal-diácono em 1189 Afastou-se, porém, dos negócios públicos da Igreja para se dedicar é reflexão; donde resultaram diversas obras, principalmente de ascética; sobressai o seu tratado “Sobre o Sagrado Mistério do Altar”. Aos 37 anos de idade foi unanimemente eleito Papa; no dia dos funerais mesmos de seu antecessor Celestino III, foi arrancado ao seu recolhimento; era o membro mais jovem do colégio cardinalício. A eleição unânime e tão rápida era testemunho da confiança que nele depositavam o clero e os fiéis. Sendo apenas diácono, foi eleito Papa aos 08/01/1198; ordenado presbítero aos 21/02 e sagrado bispo de Roma (Papa) aos 22/02.

Embora a sua idade juvenil surpreendesse a muitos, Inocêncio revelou o entusiasmo, a energia e a capacidade de trabalho da juventude assim como a prudência, a sabedoria, a ciência teológica e jurídica de experimentado homem da Igreja. As circunstâncias em que assumia o governo da Igreja, eram difíceis; a disciplina interior e a ortodoxia eram abaladas pelos cátaros ou albigenses dualistas (ver capítulo 32); os Imperadores germânicos ameaçavam a liberdade da Igreja e o Patrimônio de São Pedro, pois desejavam cercar Roma pelo Norte e pelo Sul (tinham um ponto de apoio na Sicília); a Terra Santa era ocupada pelos muçulmanos. Inocêncio soube lutar com justiça e dignidade, levando ao auge a obra concebida por Gregório VII (?1085) em prol da liberdade da Igreja.

O Pontificado

Como se desenvolveu o pontificado de Inocêncio III?

Estava convencido de que a principal condição para a liberdade da Igreja era emancipá-la do poder imperial. – Ora o Imperador Henrique VI morreu em 1198 (ano da eleição do Papa); redigia um testamento que fazia grandes concessões ao Papa, a fim de obter para seu filhinho Frederico II Rogério (nascido em 1194) a coroa imperial e o título de rei da Sicília. Logo após a morte do Imperador, Constança, a Imperatriz viúva, renunciou a muitos direitos sobre a Igreja, que Henrique e seus antecessores tinham reivindicado para si; a Imperatriz e seu filhinho se reconheciam vassalos do Papa; ao morrer, em novembro de 1198, Constança pediu a Inocêncio que assumisse a tutela e a regência sobre seu filho Frederico até a maioridade deste; Inocêncio então seria o administrador do reino da Sicília (que pertencia aos Imperadores germânicos); por dez anos, o Papa administrou as funções assim confiadas para o bem do príncipe, com sabedoria e desprendimento; o próprio Frederico, declarado de maioridade por Inocêncio aos 14 anos em 1208, proclamou ser o Papa seu protetor e benfeitor, embora mais tarde este monarca se revelasse pouco fiel ao Papa e às suas diretrizes. – Já estes fatos asseguravam a Inocêncio uma posição temporal nunca vista anteriormente.

O Papa teve que intervir em questões internas dos reinos da Europa.

Na Alemanha, por exemplo, o partido dos Staufen – com seu pretendente Filipe da Suábia – e o partido dos Guelfos – com seu candidato Oto de Braunschweig disputavam entre si o trono real. Solicitado para fazer a arbitragem, o Papa preferiu deixar que os interessados se entendessem entre si. Após três anos, porém, resolveu intervir dando razão a Oto, que se tornou o rei dos germanos; infelizmente, porém, este monarca não cumpriu seus propósitos de respeito à Igreja; pelo que foi excomungado em 1210. Os príncipes alemães, então, abandonaram Oto e aclamaram Frederico II como rei; Inocêncio deixou partir para a Alemanha o seu antigo pupilo, que também não manteve promessas feitas ao Pontífice a respeito dos direitos da Igreja.

Na Inglaterra, de 1199 a 1216 reinou João sem Terra, senhor ambicioso. Em 1207 recusou-se a reconhecer o novo bispo de Cantuária, Estêvão Langton, eleito por recomendação do Papa. Já que as admoestações ficavam sem resultado, Inocêncio lançou o interdito40 sobre a Inglaterra (1208); o rei revidou com violência contra igrejas e clérigos; por isto foi excomungado (1209) e deposto do trono (1212); João, por prudência, resolveu submeter-se ao Papa; em 1213 prometeu reparar os males cometidos e reconhecer Estêvão Langton. Mais: colocou a Inglaterra e a Irlanda sob a proteção do Papa, na qualidade de feudos. Em consequência, foi absolvido da excomunhão em 1213, ao passo que o interdito só foi levantado em 1214 por causa de dificuldades na restituição dos bens usurpados. Por essa ocasião, eclesiásticos e leigos da Inglaterra se reuniram para proclamar uma série de reivindicações, que restringiam o poder do rei na administração dos feudos e garantiam maior liberdade aos cidadãos. Tal é a famosa Magna Charta Libertatum, que constava de 63 artigos e se tornou um dos primeiros modelos de Constituições democráticas.

Com a França Inocêncio teve que usar de energia, não por motivos políticos, mas para defender a Moral cristã. O rei Filipe Augusto (1180-1223) tinha esposado a princesa Ingeburga, que, depois do casamento, ele repudiou em favor da Condessa Inês de Merano (alemã) já que o rei não se rendia às admoestações pontifícias, Inocêncio lançou o interdito sobre o reino da França (1200). Em consequência, Filipe em 1203 reassumiu Ingeburga como esposa e rainha, mas só depois que Inês morreu (em 1201) e após muito relutar contra o cumprimento de sua promessa.

Com os reis Pedro II da Aragônia (Espanha) e Afonso IX de Leão (Espanha) o Papa também teve divergências por motivos matrimoniais: Pedro II queria separar-se de sua legítima esposa, Maria de Montpellier, e Afonso IX queria casar-se com uma sobrinha sua. Por fim, Pedro II acabou reconhecendo-se vassalo do Papa, como João sem Terra. Ao rei Sancho I de Portugal (1185-1211) Inocêncio infligiu a excomunhão por ter violado a liberdade da Igreja. Ainda mais: com os soberanos da Boêmia, da Bulgária, da Sérbia, da Hungria, da Albânia, da Polônia, da Suécia, da Dinamarca… o Pontífice teve relacionamento mais ou menos intenso, que visava a garantir a liberdade da Igreja, a boa disciplina do clero e dos fiéis naqueles países; combateu os abusos tanto dos grandes como dos pequenos com igual destemor.

Até o Oriente foi objeto dos cuidados de Inocêncio. A quarta cruzada foi essencialmente obra deste Papa; erigiu, com sede em Constantinopla, um Império e um Patriarcado latinos no Oriente (1204).

Digno fecho do pontificado de Inocêncio III foi o Concílio do Latrão IV, reunido em três sessões aos 11, 20 e 30 de novembro de 1215. Foi o maior e mais imponente Concílio da ldade Média, frequentado por mais de 1200 prelados (412 bispos, 800 abades e priores grande número de representantes de bispos e de capítulos catedrais) e por quase todos os príncipes cristãos (Frederico II, Henrique imperador latino de Constantinopla, os reis da França, da Inglaterra, de Jerusalém, de Aragão, da Hungria…). Tinha em vista tríplice finalidade: condenar as heresias (especialmente a cátara), sanar e favorecer a disciplina eclesiástica e promover nova expedição contra os turcos. Inocêncio abriu o Concílio em famosa oração, na qual parafraseava as palavras de Lc 22,15: dizia quanto desejara celebrar essa Páscoa antes de morrer, a fim de realizar um tríplice trânsito (= Páscoa): corporal ou local, do Ocidente para o Oriente (a fim de libertar Jerusalém); espiritual, do estado dos vícios ao das virtudes, ou seja, a reforma da disciplina da Igreja; eterno, da vida temporal para a vida eterna e bem-aventurada. Este Concílio baixou decretos importantes na vida da Igreja: comungar ao menos na Páscoa da Ressurreição (os medievais eram certamente muito devotos, mas, por motivo de respeito ao “tremendo mistério” da Eucaristia, pouco se aproximavam da Comunhão); confessar-se ao menos uma vez por ano; legislação precisa sobre o hábito clerical e a pobreza dos monges, sobre o rito do casamento, tido como algo muito santo. Foi o Concílio do Latrão IV que, pela primeira vez, usou o termo “transubstanciação” na linguagem oficial da Igreja, para designar teologicamente algo que desde o século I estava na crença dos cristãos: a conversão do pão e do vinho no corpo e sangue do Senhor (cf. Jo 6,51-58; lcor 11,23-29; Mt 26,26-29 par.).

Pouco depois do Concílio, Inocêncio III, de viagem para a Lombardia, foi colhido por febre maligna, que o vitimou aos 16/07/1216.

O pensamento de Inocêncio III

O pontificado de Inocêncio III representa o apogeu do Papado na Idade Média; muitas das suas manifestações não seriam entendidas em nossos dias, nem podem ser reproduzidas, mas hão de ser consideradas no contexto da respectiva época, que tendia a realizar o ideal da Cidade de Deus mediante a estreita colaboração do Papado e do Império sob a hegemonia daquele.

Pela primeira vez na história, o Papa, na pessoa de Inocêncio III se denominou “Vigário de Deus” na terra. Até então os Pontífices Romanos se haviam designado “vigários de Pedro”; este último título não se encontra na coleção de Bulas de Inocêncio III. O clero espontaneamente recorria a Inocêncio para resolver problemas administrativos ou pastorais. Assim dava-se uma centralização progressiva do governo da Igreja, que na época podia acarretar inconvenientes, pois havia dificuldades de comunicação e a Cúria Romana estava ainda em fase de organização e, portanto, de trabalho lento.

Perante os soberanos deste mundo, o Papa era o “representante de Cristo, ou seja, do Rei dos reis e do Senhor dos senhores” (cf. Ap 19,16); mais de vinte vezes ocorre esta fórmula nos documentos do Pontífice. Daí se seguia que o poder do Império devia estar subordinado ao Sacerdócio, ao menos no foro ético ou na medida ‘ em que o comportamento do Imperador estava sujeito às normas da moralidade. A Igreja seria o “luzeiro maior”, que ilumina o dia, ao passo que o Estado seria o “luzeiro menor”, que ilumina a noite (cf. Gn 1,16). Por isto Inocêncio chegava a dizer que é o Papa quem confere e tira as coroas dos soberanos.

Estas ideias não deixaram de suscitar protestos mesmo na sua época; assim os partidários de Filipe da Suábia (os Staufen) reclamavam contra a intervenção pontifícia na eleição do rei da Alemanha, afirmando a separação nítida do Sacerdócio e do Império. Inocêncio podia ignorar esses protestos, pois o século XIII acariciava, apesar de tudo, o ideal da teocracia (ou do regime de Deus). Em breve, o ambiente estaria mudado, pois, quando Bonifácio VIII (1294-1303) quis repetir os dizeres e as atitudes de Inocêncio III perante Filipe IV o Belo da França, foi desrespeitado e perseguido pelo monarca.

Embora exercesse função de grande autoridade, Inocêncio III cultivou as virtudes, entre as quais a simplicidade e a pobreza pessoal: cortou gastos inúteis, dispensou a maioria dos porteiros e servidores que o cercavam, a fim de que três vezes por semana qualquer pessoa o pudesse abordar; substituiu vasos e talheres de metal por outros de vidro e madeira; refreou a avareza e a ambição dos cortesões, que procuravam gorjetas no exercício de suas funções. Foi também o amigo dos frades mendicantes, especialmente de S. Francisco de Assis, que “esposara a Dama Pobreza” e cuja Regra Inocêncio III aprovou oralmente. O vulto deste Pontífice merece a reverência dos pósteros, embora tenha sido fortemente criticado por haver sido aparentemente a antítese do “Poverello de Assis”.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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