História da Igreja: Igreja e Império nos séculos IV/V

Continuaremos a percorrer a história das relações entre a Igreja e o Império Romano, desde 363 até o fim do século V. A história dos dogmas da fé que se desenvolveu contemporaneamente, ficará para os capítulos 8-13 até o fim do século IV.

1. Sucederam a Juliano, o Apóstata, os Imperadores Joviano (363-4), Valentiniano I (364-375) no Ocidente, e Valente (364-78) no Oriente; Graciano (375-83) e Valentiniano II (383-92) no Ocidente, e Teodósio I, o Grande, (379-395) no Oriente.

Todos estes monarcas contribuíram para a restauração da vida e das instituições do Cristianismo onde haviam sido interrompidas. A fé cristã foi-se implantando cada vez mais nas grandes cidades; era nas aldeias ou pagi (em latim) que se encontravam redutos da antiga religião helenista, de modo que os adeptos desta ficaram sendo os pagani (habitantes das aldeias); daí se deriva a palavra portuguesa pagão para designar o cultor de mitos ou deuses9. É numa lei de 370 que  pela primeira vez na história ocorre o termo paganus para designar o não cristão.

2. O imperador Graciano (375-83), no Ocidente, recusou o título e a veste de Pontifex Maximus (Pontíficie Máximo). Mandou suspender as contribuições do Estado para o culto pagão e afastou do Senado de Roma o altar da deusa Victória (382). Estas medidas suscitavam forte agitação na sociedade não cristã. O alto patriciado de Roma, que ainda conservava muitas das suas tradições mitológicas, enviou ao Palácio do Imperador em Milão uma delegação, chefiada pelo celebre senador e orador Símaco, a fim de solicitar a restituição do altar de Victória ao seu lugar no Senado. Graciano, porém, recusou-se a receber em audiência tais legados.

A Graciano sucedeu seu irmão Valentiniano II (383-92), com 13 anos de idade. A facção pagã da sociedade repetiu seu apelo, desta vez por escrito. Os conselheiros do Imperador estavam dispostos a ceder, mas o Bispo de Milão, S. Ambrósio, em atitude prudente e enérgica, dissuadiu o Imperador de aceitar a solicitação de restaurar a Ara Victoriae no Senado (384); o próprio S. Ambrósio, em uma de suas cartas, afirmou queentão a maioria dos membros do Senado já era cristã (ep. 17, 9,10).

3. Sob Teodósio I (379-95), que reinou no Oriente do Império, registraram-se acontecimentos importantes. Aos 28/02/380, o Imperador assinou um decreto que tornava oficial a fé católica “transmitida aos romanos pelo apóstolo Pedro, professada pelo Pontífice Dâmaso e pelo Bispo de Alexandria, ou seja, o reconhecimento da Santa Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Com estas palavras, Teodósio abraçava, para si e para o Império, o Credo que, proveniente dos Apóstolos, era professado então pelo Papa São Dâmaso (366-84) e pelo Bispo S. Atanásio de Alexandria, grande defensor da fé ortodoxa na controvérsia contra os arianos (ver módulo 8). Assim o Cristianismo, que Constantino I tornara lícito em 313, era feito religião oficial do Império Romano.

Teodósio continuou a extirpação dos resquícios do politeísmo pagão. De 388 em diante mandou fechar numerosos templos; em Alexandria foi destruído o famoso Serapeion (391); o povo e os monges por vezes tomavam parte ativa nessa campanha de extinção do paganismo. Em 392 Teodósio deu ulterior passo: um decreto imperial equiparava os sacrifícios pagãos de animais imolados e o aruspício (exame das vísceras de animais para adivinhar o futuro ou esclarecer dúvidas) a alta traição e os punia com o confisco de bens.

No Ocidente, o assassínio de Valentiniano II (392) por parte do general franco Argobasto e a ascensão do usurpador Eugênio (392-4) deram ocasião, por breve tempo, a novo surto do paganismo; em Roma foi permitido o exercício da religião politeísta, e a Ara Victoriae foi devolvida ao Senado. Teodósio, porém, interveio em Isonzo perto de Aquiléia (394) e pôs termo às expressões do paganismo, que doravante já não teria vitalidade para tentar reassumir a sua posição do outrora.

Os múltiplos favores concedidos pelos Imperadores à Igreja poderiam contribuir para lhe tirar a autonomia, reduzindo-a à qualidade de feudo manipulado pelos interesses políticos da corte. Tal não foi o caso, de modo geral. Tenha-se em vista, de modo especial, o comportamento do Bispo de Milão, S. Ambrósio, frente ao Imperador Teodósio: este , em Tessalônica (Grécia), querendo vingar um comandante morto num movimento revolucionário, mandou matar sete mil pessoas, inclusive mulheres e crianças (390). Ao saber disto, S. Ambrósio condenou o crime e ameaçou excomungar o Imperador. Este quis reagir diante da atitude do Bispo, mas caiu em si e se arrependeu. Na noite de Natal de 390, o Imperador, poderoso como era, revestiu-se do hábito dos penitentes, acusou e repudiou publicamente o seu pecado; em seguida, absolvido pelo Bispo, foi readmitido à Comunhão Eucarística. S. Ambrósio assim lembrava um princípio muito antigo entre os cristãos, mas esquecido na época: “O Imperador está dentro da Igreja, e não acima dela”.

Ao morrer em 395, Teodósio deixou a Igreja consolidada neste mundo tanto em relação ao paganismo, que a perseguia, como em relação à heresia ariana, que encheu o século IV por inteiro e que o Imperador contribuiu para afastar, aderindo incondicionalmente ao Concílio de Constantinopla I (381); ver capítulo 8.

O século V

Teodósio deixou o Império a seus dois jovens filhos, assaz imaturos para governar: Arcádio (395-408) no Oriente, e Honório (395-423) no Ocidente.

1. No Oriente novas medidas foram sendo tomadas para eliminar os resquícios do paganismo. Arcádio aboliu os privilégios de que gozavam os sacerdotes pagãos e mandou fechar os templos construídos nas zonas rurais. Seu filho Teodósio II (408-450), influenciado por Pulquéria, irmã de Teodósio II, excluiu os pagãos dos cargos estatais, e em 448 mandou que as obras do filósofo Porfírio, contrárias ao Cristianismo, fossem queimadas. Em 423 um edito do Imperador dava a entender (hiperbolicamente) que já não havia pagãos.

Sob Teodósio II deu-se o famoso caso da filósofa neoplatônica Hipácia de Alexandria (370-415). Esta se dedicava à matemática, à astronomia e, principalmente, à filosofia; praticava, além do mais, a teurgia (ritos destinados a mover os deuses e os demônios em favor de quem a eles recorria). Entre os discípulos de Hipácia, havia um certo Sinésio de Cirene (? 414 aproximadamente). Ainda não batizado, Sinésio foi eleito em 411 Bispo de Ptolemaida; só aceitou o cargo à condição de não ter que renunciar às suas concepções neoplatônicas referentes à preexistência das almas, à eternidade do mundo e à interpretação alegórica da ressurreição dos corpos. Feito Bispo, Sinésio revelou-se pastor zeloso e defensor da Igreja; aos poucos foi assimilando a doutrina cristã. É figura muito estranha na antiguidade; representa bem o período de transição da cultura pagã para a fé cristã por que passavam muitos intelectuais da época.

Quanto a Hipácia, sabe-se, pelas fontes antigas, que morreu assassinada: ao voltar de uma viagem,  foi , por um grupo de pessoas, puxada para fora de sua carreta, arrastada para uma igreja e assassinada com pedras e cacos; o seu cadáver terá sido esquartejado e espalhado pelos arredores. Sobre a causa deste atentado, refere a fonte mais minuciosa e segura10 o seguinte: a comunidade cristã de Alexandria julgava que Hipácia tramava com o Prefeito Orestes de Alexandria contra o Bispo S. Cirilo; ora, no ambiente de tensões então vigente, o leitor Pedro terá chefiado um punhado de gente acalorada para cometer o morticínio; S. Cirilo não terá tomado parte na façanha, apesar do que refere o filósofo Damásio, discípulo da escola neoplatônica como Hipácia. Não se pode deixar de condenar o procedimento dos cristãos de Alexandria, que resolveram fazer justiça com as próprias mãos contra Hipácia. De resto, naquele ambiente de animosidade também os pagãos se lançaram contra os cristãos; narram as fontes, entre outros casos, o linchamento de um estudante cristão por volta de 485-7. Tais fatos são típicos da época que estamos analisando; havia certo antagonismo entre o Cristianismo e a cultura (letras, pintura, música, jogos, ciência, filosofia…) existente no Império, pois toda esta se achava impregnada de mentalidade pagã; a própria filosofia em Alexandria estava associada a práticas mágicas. Era preciso separar mitologia e cultura para que o Cristianismo pudesse assumir a cultura clássica. Esta tarefa foi executada com muito zelo pelos mosteiros dos séculos VI-X: os monges “copistas” transcreveram as obras dos autores romanos e as utilizaram para elaborar uma nova cultura – a medieval -, que recorria copiosamente aos grandes sistemas filosóficos de Platão e Aristóteles.

2. No Ocidente, as invasões de tribos germânicas causaram devastações a partir do século IV; houve em consequência, o despovoamento de algumas regiões. Em virtude da situação caótica assim instaurada, a implantação do Cristianismo foi mais lenta do que no Oriente. Ainda em fins do século VI, o Papa São Gregório Magno referia-se ao paganismo existente nas ilhas da Sardenha, da Córsega e em regiões distantes. O número de cristãos no Ocidente, por volta do ano de 600, era de 7 a 8 milhões numa população global de cerca de 10 milhões.

Nem todos esses cristãos haviam recebido sólida catequese; como se dirá no capítulo 7 , os povos germânicos se convertiam ao Evangelho coletivamente, seguindo o exemplo de seu chefe. Havia, pois, muitos batizados ministrados sem a devida doutrinação anterior. Tais cristãos guardaram algo das suas práticas supersticiosas (magia, astrologia…) e não podiam dar o testemunho de vida fervoroso e coerente que as comunidades dos primeiros séculos ofereciam ao mundo pagão.

A ação evangélica da Igreja

A Igreja, através dos seus bispos e missionários, dedicou-se à ação evangelizadora. Interessava-se por converter em verdadeiros cristãos aqueles que haviam abraçado a fé superficialmente ou para atender a pressões do Imperador, como também atingia os pagãos, romanos ou bárbaros, que povoavam o Império.

A obra missionária foi grandemente favorecida pelo teor mesmo da mensagem evangélica. Esta era de conteúdo muito superior ao das crenças pagãs: apresentava, sim, um só Deus, que por amor criou o mundo e o homem, e exerce sábia providência em relação à história de cada criatura; o Pai Celeste é Senhor de todos os maus espíritos ou demônios; exclui o fato ou o destino, e convida os homens a uma conduta filial, para a qual está reservado o prêmio da vida eterna. O anúncio destas verdades, corriqueiras para quem já nasceu em civilização cristã, era altamente significativo para os pagãos.

Nos tempos entre Constantino I e Juliano as instituições e as normas do Direito Civil foram sendo progressivamente impregnadas de espírito cristão, sobretudo no que diz respeito à mulher, à criança, à família, ao trabalho…

Além da função estritamente evangelizadora, os Bispos tiveram que assumir tarefas de ordem temporal, pois o Ocidente se achava sob os golpes das invasões e os Imperadores, residentes em Bizâncio (Oriente), pouco se importavam com as sortes das populações ocidentais. Em meio à desordem, os Bispos tiveram, por vezes, que administrar os bens materiais das suas comunidades, como também foram levados a proteger, alimentar  e abrigar as populações mais carentes. Em particular, destaca-se a figura de São Leão Magno (440-461): era um autêntico romano, de caráter nobre e corajoso. Foi ao encontro de Átila, chefe dos Hunos, nas proximidades de Mântua em 452, persuadindo-o a tomar o caminho de volta; em 455, dirigiu-se ao rei dos vândalos, Genserico, que, atendendo ao Papa, renunciou a depredar a cidade de Roma a ferro e fogo. Socorreu os romanos com sua solicitude e seus bens, fazendo o que não fazia o representante do Imperador residente em Ravena.

Outra figura de Bispo notável foi a de São Martinho de Tours (316-397) na Gália. Recebeu o Batismo aos dezoito anos de idade; tornou-se monge e, depois, foi feito Bispo. Introduziu o monarquismo na França e mandou ordenar  como presbíteros os seus monges; em consequência, os monges na França se tornaram os mestres de espiritualidade e os responsáveis pela configuração da Igreja. Além disso, São Martinho se dedicou intensamente à evangelização das zonas rurais, onde o apego aos costumes próprios resistia à penetração do Evangelho: montado em jumentinho e pobremente equipado, ia S. Martinho de aldeia em aldeia chamando para Cristo todos os homens carentes.

Outros grandes nomes de Bispos defensores das populações e da civilização podem ser citados: São Paulino de Nola (353-431), S. Máximo de Turim (? após 465), S. Agostinho de Hipona (? 430), S. Hilário de Poitiers (315-367), S. Pedro Crisólogo, de Ravena (? 450). Pode-se dizer que foi a Igreja que salvou a civilização na tempestade das invasões bárbaras e assegurou a união dos habitantes do Império Romano. Como dissemos, na falta de um Governo forte no Ocidente, os Bispos tinham que assumir não somente a pregação do Evangelho, mas também a administração dos bens da sua Comunidade, o contato com os bárbaros, a proteção e a alimentação das populações carentes.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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