História da Igreja: As perseguições

Cristãos perseguidosO Cristianismo expandiu-se com rapidez surpreendente, apesar dos obstáculos que encontrou no mundo pagão. Vejamos, pois, quais os principais fatores que favoreceram a sua difusão e quais os grandes obstáculos que se lhe opuseram.

Fatores positivos

Distinguiremos quatro pontos:

1. O mundo greco-romano estava decadente no plano da filosofia e dos costumes. Com efeito; o fracasso da razão, mencionado no módulo 1, levava os cidadãos do Império a procurar uma resposta diferente, que não fosse mero produto do gênio do homem, mas viesse “do Alto”; disto dão testemunho as religiões de mistérios e certas tendências ao monoteísmo dentro do Império.

No plano ético, o gozo, a futilidade e a procura de prestígio predominavam, apesar da severa doutrinação dos estoicos. O pobre era desprezado em favor do rico e poderoso; também a mulher sofria marginalização; mais ainda, o escravo, tido como base econômica do Império, era tratado como “coisa”.

Ora a essa sociedade o Evangelho propunha a valorização de toda e qualquer pessoa humana, feita à imagem e à semelhança de Deus (cf. Gl 3,27-29; Cl 3,11), a caridade para com todos, o amor à pobreza e à renúncia. Desvendava também o sentido da vida inspirado pelo amor daquele que primeiro nos amou (1Jo 4,19) e que nos chamou ao consórcio da sua bem-aventurança a ser alcançada pela configuração a Cristo.

2. Como foi insinuado, o Cristianismo aparecia aos pagãos como algo absolutamente novo e inaudito (cf. 2Cor 5,17), mas correspondente às aspirações mais profundas do ser humano. Por isto podia dizer Tertuliano, o jurista romano convertido à fé cristã no fim do século II: “A alma humana é naturalmente cristã”; encontra no Evangelho a resposta aos seus anseios inatos.

historia_da_igrejaCom outras palavras: o Cristianismo não tinha em seu favor nem dinheiro nem tropas nem o apoio imperial, mas contava com o poder de atração e o fulgor da verdade: especialmente os problemas do sofrimento, da retribuição e do além encontravam (e encontram) no Evangelho uma solução que não é filosófica (a filosofia é incapaz de os resolver), mas que a sã razão pode aceitar pela fé sem trair a sua dignidade. Muitos estudiosos greco-romanos, depois de haver percorrido diversas escolas filosófico-religiosas, encontraram finalmente na Igreja a verdadeira sabedoria, que eles estimavam como a única na qual podiam confiar (S. Justino, Diálogo com Trifão nº 8).

3. Além de proferir a verdade, os cristãos a traduziam em vida. Embora não se fechassem em grupos ou facções, os discípulos de Cristo primavam pela retidão de costumes, pelo amor fraterno, pela castidade… Tertuliano nos transmite a observação feita pelos pagãos: “Vede como se amam mutuamente e como estão prontos a morrer um pelo outro!” (Apologeticum 39). Notório testemunho da conduta santa dos cristãos é a epístola a Diogneto, dirigida por um cristão anônimo a um interlocutor pagão.

Mesmo diante das ameaças dos perseguidores, muitos discípulos de Cristo se mantinham intrépidos e aceitavam a própria morte. A sua firmeza heroica dissolvia calúnias e convencia muitos dos que lhes eram alheios, como notam alguns escritores antigos. Dizia Tertuliano (? 220): “Plures efficimur quoties metimur a vobis, semen est sanguis christianorum. – Mais numerosos nos tornamos todas as vezes que somos por vós ceifados; o sangue dos cristãos é semente”(Apologeticum 50). E Latâncio (? após 317): “Cresce a religião de Deus quanto mais é premida” (Instituições V 19,9).

4. Os cristãos tinham o zelo missionário, expressão do fervor de sua fé. Homens e mulheres, livres e escravos, comerciantes e soldados sentiam o dever de transmitir a Boa-Nova, cientes de que assim estavam servindo a seus irmãos.

Eis, porém, que a expansão do Cristianismo se defrontou com sérios obstáculos, como se verá a seguir.

Fatores Negativos

Enumeraremos os cinco seguintes:

1. Já São Paulo notava que a mensagem da Cruz é “escândalo para os judeus e loucura para os gregos”(1Cor 1,23). O Cristianismo exigia renúncia à vida devassa e morte ao velho homem para possibilitar a formação da nova criatura em cada indivíduo; cf. Ef 4,22s.

2. O politeísmo era o culto oficial do Império; parecia ameaçado pelo monoteísmo cristão, que parecia até mesmo ateísmo. Os cristãos pareciam infensos aos homens e ao Estado, pois estavam solapando as bases destes. Notemos que os romanos eram tolerantes para com a religião dos povos conquistados; colocavam os deuses destes no Panteon de Roma; teriam feito isto também com Jesus Cristo, mas os cristãos de modo nenhum aceitavam pactuar com o politeísmo. Verdade é que o judaísmo era estritamente monoteísta e, não obstante, conseguia bom relacionamento com as autoridades romanas (cf. 1Mc 14,16-24); acontece, porém, que o judaísmo era uma religião nacional, de pouco proselitismo, ao passo que o Cristianismo tinha destinação universal, voltada para todos os homens.

3. Em particular, o culto do Imperador divinizado foi-se difundindo desde fins do século I. Veio a ser a pedra de toque da lealdade civil e do patriotismo; quem o recusasse, era acusado de traição à pátria.

4. Toda a vida civil, em família ou na sociedade, era impregnada do espírito e das expressões do paganismo; assim as festas do lar comemoravam os deuses domésticos (penates e manes); os espetáculos públicos, os torneios esportivos, as feiras de comércio, o regime militar… deixavam transparecer a sua inspiração básica politeísta. – Os cristãos eram fiéis aos seus deveres de cidadãos, como lhes ensinava o Evangelho: “Dai a César o que é de César”(Mt 22,21; cf. Rm 13,1; 1Pd 2,13-17); mas não podiam participar de manifestações que, direta ou indiretamente, professassem o politeísmo.

5. O modo de vida singular dos cristãos provocou-lhes, da parte dos pagãos, calúnias fantasiosas e duras. Eram acusados a três títulos principais:

– ateísmo – o que seria também antipatriotismo e misantropia (ódio ao gênero humano);

– banquetes de orgia, nos quais se comia carne de crianças; assim era entendida a Eucaristia, por vezes celebrada às ocultas por causa dos perseguidores. O culto cristão se dirigiria a um asno crucificado (tal era o mal-entendido que o Crucifixo suscitava; seria “burrice”!);

– causa de calamidades públicas, como pestes, inundações, fome, invasões de bárbaros… Eram tidas como castigos dos deuses, que os cristãos irritavam por seu “ateísmo”. Esta acusação persistiu até o século V, mesmo quando as outras queixas iam cessando.Os cristãos pareciam inimigos do bem comum, lucifuga natio (facção que foge à luz), recrutada nas classes mais desprezíveis da sociedade. De modo especial, os comerciantes, os artistas, os sacerdotes pagãos, os adivinhos, os hostilizavam, pois a fé cristã prejudicava os seus interesses profissionais.

Compreende-se que o clima assim criado tenha suscitado violentas perseguições aos cristãos. Estas, de fato, ocorreram desde 64 até 313.

Leia também: Quanto tempo durou o período da perseguição romana aos cristãos?

Qual Imperador Romano começou a segunda perseguição aos cristãos, no primeiro século?

A Perseguição de Valeriano

A luta sangrenta

Distinguimos duas fases na era das perseguições: a primeira vai até o Imperador Filipe o Árabe (244-249); a segunda começa com Décio, seu sucessor (249-251). A primeira fase foi mais longa, contudo menos cruel; aos anos de perseguição se seguiam anos de paz. Ao contrário, a segunda fase desenvolveu sistematicamente a sanha do Império contra o Cristianismo.

De Nero (54-68) a Filipe (244-249)

Nero foi um Imperador cruel. Na noite de 18 para 19/07/64 começou um incêndio em Roma, que durou seis dias e devastou três quartos da cidade. A opinião pública atribuía – talvez erroneamente – a desgraça à loucura de Nero. Este terá procurado desviar de si a suspeita oferecendo ao povo motivos de divertimento: com efeito, mandou prender multidão de cristãos – acusados de ateísmo, orgias e misantropia – e na noite de 15/08/64, dentro do jardim imperial (circo de Nero, onde atualmente se ergue a basílica de S. Pedro), submeteu-os a tormentos (crucificação, tochas vivas, representação cruenta de cenas mitológicas), à guisa de espetáculos para o povo. De então por diante o nome cristão era banido; ser cristão equivalia a arriscar-se a morrer.

Após Vespasiano e Tito, imperadores mais tranquilos, Domiciano (81-96) reacendeu a perseguição, fazendo-se chamar oficialmente Dominus ac Deus (Senhor e Deus). O Apóstolo São João foi então exilado para a ilha de Patmos (cf. Ap 1,9).

O Imperador Trajano (98-117) fixou uma norma de conduta para os oficiais do Império: os cristãos são ateus; por isto, desde que convictos, hão de ser punidos; mas não devem ser procurados; as denúncias anônimas não têm valor; caso reneguem a sua fé, sejam postos em liberdade. Esta norma estabeleceu jurisprudência para o futuro.

Marco Aurélio (161-180) desencadeou outra perseguição, em parte devida à insatisfação do povo, que acusava os cristãos de responsáveis por calamidades que afligiam a sociedade.

Setímio Severo (193-211), em 202, assinou um decreto que atingia tanto os judeus como os cristãos; estes últimos surpreendiam o Imperador por crescerem numericamente nas camadas elevadas da sociedade. Proibiu, pois, as conversões ao Cristianismo; os magistrados não deveriam esperar denúncias, mas haveriam de procurar os cristãos. Assim catecúmenos e neófitos (cristãos recém-batizados) foram violentamente golpeados, especialmente no Norte da África, onde existiam em maior número.

Seguiram-se quarenta anos de relativa paz.

Assista também: Qual foi a mais cruel das perseguições na História da Igreja?

Desde Décio (249-251) até Constantino (313)

Décio (249-251) quis restaurar o Império em seu esplendor de tempos passados, consolidando-o contra inimigos externos e internos. Para tanto haveria de reforçar a religião oficial do Império, visando especialmente aos cristãos, que ele considerava como os inimigos mais perigosos do Estado. Por conseguinte, em 250 decretou que todos os cidadãos do Império Romano deveriam manifestar expressamente a sua adesão à religião do Estado, oferecendo aos deuses um sacrifício propiciatório; quem o fizesse, receberia um certificado (libellus) de dever cumprido; quem resistisse, seria submetido a penas diversas (cárcere, confiscação de bens, exílio, trabalhos forçados…) até à pena de morte. Os bispos estavam particularmente na mira do Imperador, que dizia tolerar mais facilmente um rival no Império do que um Bispo cristão em Roma. Os cristãos, colhidos de surpresa por este decreto, fraquejaram em parte; mas houve também uma multidão de mártires de todas as idades e de ambos os sexos.

Após dois anos de paz sob o Imperador Galo (251-253), Valeriano (253-260) em 257, vendo o Estado em grande miséria, quis remediar-lhe mediante novo golpe contra os cristãos. Visou a dissolver a organização das comunidades cristãs, ferindo Bispos, sacerdotes e diáconos; mandou, pois, que estes oferecessem sacrifícios aos deuses sob pena de exílio; a visita aos cemitérios e a participação nas reuniões de culto eram proibidas sob ameaça de morte. Naquela época já havia muitos cristãos exercendo funções no palácio imperial; foram condenados a trabalhos forçados na condição de escravos. Logo, porém, que Valeriano foi preso na guerra persa (259), a tormenta foi-se amainando.

hist_igreja_antigaDiocleciano (284-305) profunda reforma administrativa,, que haveria de implicar nova tentativa de restaurar ou fortalecer a religião do Estado. O Cristianismo estava muito difundido, contando entre 7 e 10 milhões de fiéis num total de 59 milhões de habitantes do Império; Prisca, a esposa de Diocleciano, e sua filha Valéria eram provavelmente favoráveis ao Evangelho, além de altos oficiais do exército e da corte. – Desencadeou-se assim a última, a mais grave e a mais longa perseguição, que tendia a aniquilar o Cristianismo numa luta de vida ou morte: foram condenados à destruição os templos e os livros sagrados cristãos. Em 304 um decreto imperial obrigava todos os cidadãos a sacrificar aos ídolos – o que provocou o derramamento de copioso sangue ou execuções em massa.

Todo esse esforço perseguidor havia de ser vão; o Estado havia de capitular diante da tenacidade dos discípulos de Cristo. Após muitas peripécias dentro de um Império esfacelado, Constantino, um dos sucessores de Diocleciano, houve por bem publicar em 313 o Edito de Milão: este concedia a todos os habitantes do Império e, em particular, aos cristãos plena liberdade de religião e de culto; às comunidades cristãs se faria a restituição ou a indenização dos edifícios e das terras confiscadas durante as perseguições. Assim dissolvia-se pela raiz o vínculo existente entre o Império Romano e o culto pagão; abria-se uma era nova na política religiosa do Estado e inaugurava-se um novo segmento de história do Cristianismo.

É difícil dizer ao certo o número de mártires que tombaram nos quase três séculos de perseguição: 100.000 ou talvez apenas algumas dezenas de milhares? As Atas de Martírio que nos chegaram às mãos, foram retocadas para servir à edificação dos leitores em vários casos, como as de Sta. Cecília, S. Jorge, S. Cristóvão, S. Sebastião, S. Lourenço…, reconhecendo isto após um estudo objetivo de tais documentos, a Igreja quis dizer aos fiéis que nem tudo o que se narra a respeito dos mártires antigos é seguramente histórico; tal declaração nada tem que ver com “cassação de Santos”; os Santos serão sempre santos, mas hão de ser cultuados na base de informações históricas, e não na de narrações fantasiosas. É de notar, porém, que temos também testemunhos de autenticidade garantida, que nos referem a virtude heroica dos mártires cristãos.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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