Hipnose – EB (Parte 2)

Estes fenômenos produzidos naturalmente, fora de qualquer ambi­ente religioso, explicam casos ocorrentes com pessoas que apresentam memória prodigiosa, como se fossem inspiradas por um espirito do além ou como se fossem espíritos reencarnados após algumas existências pregressas. O estado hipnótico, que torna a memória mais fecunda, é acarretado pelo ambiente do centro espirita ou do terreiro de Umbanda, sem que haja intenção de hipnotizar alguém: o próprio paciente pode-se auto-hipnotizar pela sugestão que ele incute a si mesmo, acreditando que receberá um espirito que lhe revelará o que ele tiver esquecido. Quem compreende o poder da hipnose, dispensa qualquer explicação por re­curso ao além.

4. Escrita automática ou Psicografia

A psicografia (escrita automática) pode ser induzida em laboratório ou em consultório psicológico sem ritual ou independentemente de ambi­entes “místicos”; é um fenômeno natural, explicável pela capacidade do agente, sem intervenção do além.

A técnica da psicografia [e utilizada para tratamento de conflitos psicológicos ou em psicoterapia. Eis o que referem os autores ACMP e ICLM:

“Esta técnica é de grande valor quando surgem na psicoterapia situações que não podem ser resolvidas pela expressão de urna simples palavra ou frase o nome de urna pessoa pode ser de grande significação, mas por razões de consciência o paciente pode não desejar decliná-lo, como por exemplo em um caso de incesto ou pederastia.

Tivemos um caso de uma paciente, professora de nível secundário, que apresentava uma neurose de angústia por conflitos que tinha entre a sua formação rígida e os namoros com os quais ela se defrontava. Entrou na etapa sonambúlica (V) da escala. Usamos a seguinte técni­ca: No consultório, sob hipnose, fizemos sua iniciação na escrita automá­tica, treinando-a da seguinte forma: colocávamos a paciente sentada com uma pasta sobre as pernas e sobre esta pasta, seu braço direito e na mão um lápis. Dávamos as sugestões clássicas da escrita automática que são: “Você não vai sentir o seu braço direito… Seu braço direito vai ficando como que separado de seu corpo… Sua mão direita poderá se mover à vontade… Sua mão poderá escrever sobre o papel à vontade… poderá escrever à vontade… sua mão se mexerá à vontade… independente do que você possa pensar… aliás você não está pensando em nada… Sua mente fica em branco… em branco… em branco…” Decorridos alguns instantes, a mão direita se moveu e começou a fazer urna sede de rabiscos. Em hipnoses posteriores, esses rabiscos se tornaram letras e, depois, palavras e posteriormente frases, como aliás ocorre normalmente com essa técnica” (pp. 73s).

5. Auto-hipnose

A auto-hipnose é a hipnose (o sono hipnótico) provocada pelo próprio paciente a agir sobre si mesmo. Ele se sugestiona voluntariamente para conseguir bons resultados em seu comportamento deficiente. Di­zem ACMP e ICLM:

“A auto-hipnose é um estado altamente sensível no qual as su­gestões são dirigidas a si mesmo. Pode ser altamente eficiente quando judiciosamente empregada, o que quer dizer que em pacientes que fo­ram criteriosamente selecionados, e nos quais se deseja aumentar o relaxamento, a concentração, a autoconfiança, ou prolongar a sua ação em casos como dores crônicas, zumbidos, certos fenômenos do primeiro trimestre da gravidez (corno náuseas, vômitos, sialorréia etc.), ou alguns hábitos (p. ex., tabagismo), mas sempre observando o princípio fundamental jamais remover um sintoma sem saber para que ele serve”. (p.93).

“Schafel; médico do Exército americano durante a Segunda Guer­ra Mundial, relata suas experiências com soldados feridos em Anzio, na Itália, comparando a tolerância destes com a dos soldados italianos. Seus homens, quando feridos, precisaram de muito menos medicação do que os italianos. Eles consideravam os ferimentos como uma honraria da guerra aliviando a dor pela auto-hipnose, enquanto os italianos desiludidos com o final da guerra, para eles desastroso, usualmente necessitavam de muita medicação analgésica. O A. cita também os casos de boxeadores que controlam sua dor de modo que não interfira com sua ação, aprendendo a fazê-lo pela auto-hipnose durante os treinamentos” (p.94).

6. A Hipnose em Medicina

As pp. 131s do livro lê-se um caso muito interessante de emprego da hipnose (técnica sono-hipnótica) para aliviar ou extinguir a angústia e as dores físicas de um paciente. É realmente digno de nota o que a se lê:

“Esta técnica consiste em passar o paciente do sono fisiológico para a hipnose. Só pode ser empregada em condições especiais e nunca sem o consentimento do paciente e/ou seus tutores. Pode ocorrer que o paciente não possa dar esse consentimento previamente, e então deverá haver justificativa ética para o mesmo. Relataremos um caso de nossa clinica, atendido há alguns anos. Os pais de um menino de seis anos de idade nos procuraram pedindo nossa intervenção no caso de seu filho, que sofrera uma grande cirurgia. Já estava em casa, mas diariamente tinha que ir ao hospital fazer curativo. Dois auxiliares de enfermagem iam buscá-lo em casa, pois somente à força e embrulhado em um lençol podiam levá-lo e assim tinha que ser mantido durante o curativo. Seu pai que era médico, foi aconselhado pelo cirurgião a nos procurar em urna tentativa de, através da hipnose, conseguir a tranquilização do menino. Diga-­se de passagem que os curativos, embora imprescindíveis, não eram de provocar dor para tamanha reação. O menino entrava em pânico, aos gritos, ao menor som da campainha da porta de entrada da casa. Um outro colega que tentara atendê-lo, não passou do portão da residência. Convencidos da impraticabilidade de contactar o paciente acordado, resolvemos tentar a técnica sono-hipnótica. O menino costumava dormir em torno das 20 horas; então fomos à sua casa as 22 horas. Silenciosamente nos aproximamos de sua cama e sentamos em urna cadeira ao seu lado. O menino dormia profundamente. Observamos seu ritmo respiratório. Há necessidade de se concatenar a palavra do hipnotista com a inspiração e a expiração do paciente. Com voz baixa e suave começamos a dizer: durma, durma, durma profundamente…” e assim fomos repetindo sempre dentro do ritmo respiratório. Nesta técnica este procedimento deve ser contínuo e só ser testado após uns 20 minutos. Como saber se o rapport já foi estabelecido? É fácil pois basta que o hipnotista diga: ‘Respire profunda e lentamente duas vezes’. Neste caso a resposta foi imediata: O menino respirou profundamente duas vezes: rapport obti­do! 0 paciente já estava em hipnose. Foram feitas sugestões adequadas não só para o momento do curativo, como especialmente para o manter tranqüilo ao sair de casa para o hospital. O resultado, nos informou o pai no dia seguinte, foi espetacular. Quando os auxiliares de enfermagem do hospital chegaram, o menino não chorou e tranquilamente (!) foi logo dizendo: “Não quero que ninguém me amarre… sou um homem e vou só com o papai e a mamãe”. Durante o curativo também ninguém precisou segurá-lo… espanto até do cirurgião, e por que não dizer”: até nosso. Foi um dos casos mais gratificantes que tivemos. Até o fim dos curativos repetimos o mesmo procedimento diariamente. O menino nunca teve contato em vigília conosco. Sempre foi hipnotizado durante o sono. Hoje, 12 anos após, temos sempre informações dele através dos pais. Já tem um elevado conhecimento científico que lhe foi e vem sendo ministrado por professores especializados. Se nos encontrasse, não saberia quem somos. Se o víssemos, certamente não o reconheceríamos)” (pp. 13 is).

7. Conclusão

O livro de ACMP e ICLM não tem finalidades filosófico-religiosas. É um longo relatório de técnicas de hipnose e de seus resultados. Corno quer que seja, contribui eficazmente para ilustrar fenômenos maravilhosos que, na ignorância de urna explicação cientifica, são atribuídos a intervenções do além. Quem conhece um pouco melhor o psiquismo humano, não se deixa impressionar por pretensos portentos “sobrenaturais”; dispensa o recurso ao além, pois sabe que o psiquismo humano é muito mais amplo e poderoso do que comumente se magma. Verdade é que o terreno da parapsicologia é, por vezes, explorado por charlatães, que distorcem a teoria. Mas um livro como o de ACMP e ICLM merece pleno respeito pela honestidade dos respectivos autores.

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1 Editora Ateneu, São Paulo 1998, 160 x 230mm, 159 pp.

1 Hiperestesia é o aumento exagerado da sensibilidade geral ou especial: hiperestesia auditiva  é o ouvir vozes que não existem; hiperestesia cutânea é o sentir na pele sensações sugeridas, mas não provocadas por um estímulo externo. Hiperestesia visual é o ver a que não existe, mas é projetado pelo indivíduo mesmo.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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