Haverá céu novo? EB

tumblr_m7io1qvfKl1qklhh3o1_500_large“Onde se situam o inferno e o purgatório?”

“Onde estão os corpos de Jesus e Maria, de Henoque e Elias?”

“Haverá céu novo e terra nova no fim dos tempos?”

Essas questões nos levam a conjeturar o que se chama “a topografia da vida póstuma”. Veremos o que comumente se diz sobre o assunto, para depois verificar o que se pensar a respeito.

1. O habitual modo de falar

Já a tradição judaica costumava associar os estados póstumos (de bem-aventurança ou de reprovação) a certos lugares. Os cristãos herdaram esse modo de pensar, exprimindo-o por uma terminologia bem característica; assim

a) “Inferno”, segundo a etimologia latina (infernus, inferi, vocábulos derivados de infra,  abaixo de…), lembra um lugar situado debaixo da superfície da terra.

Em geral, os judeus e os gregos julgavam que as almas dos defuntos vão habitar o subsolo da nossa terra. – É o que lembra o termo cheol, com que os israelitas designavam a mansão dos defuntos; tal palavra deriva-se provavelmente de chaal, cavar, escavar. Quanto ao Hades, morada póstuma dos gregos, provém etimologicamente de a (privação) e idein, ver, significando, por conseguinte, lugar invisível, tenebroso, subterrâneo.

Para os cristãos, a localização dos réprobos em subterrâneos parecia sugerida até por textos do Novo Testamento, que falam do abismo dos iníquos (Lc 8,31 ; Apc 9,11 ; 20,1-3) ou de uma fornalha ardente (Mt 13, 42.50) ou de um lago de fogo e enxofre (Apc 19,20; 20, 9.15)…

Há mesmo quem em nossos dias se adiante nesta matéria e afirme que o inferno ocupa o centro do globo terrestre, centro incandescente donde procedem as chamas dos vulcões. Para corroborar esta opinião, um ou outro autor feito cálculos eruditos, que visam mostrar quanto ela parece plausível: dizem-nos, por exemplo, que o núcleo central incandescente da terra (sobre o qual estão duas zonas concêntricas sólidas) tem um raio de 3470 km; ora, supondo-se que  a cada réprobo toque um perímetro de 100 m³; esse núcleo central poderia alojar redondamente um quintilhão e 750 quatrilhões de condenados, cifra que, conforme julgam os autores do cálculo, excede o número real de réprobos. Admitindo-se então um perímetro de 1000 m³ ( 10 x 10 x 10) para cada condenado, chega-se a ter 175 trilhões de compartimentos… O núcleo central da terra é, segundos bons astrônomos, um mar imenso de materiais derretidos em estado de ebulição. Sabendo-se que a temperatura vai aumentando à razão de 1º por 34,5 m ou, mais exatamente, de 2,9º por 100 m, à medida que se desce para o centro da terra, conclui-se que o calor no núcleo do nosso globo deve exceder os 20.000 graus. Ora essa realidade parece a alguns autores corresponder bem ao tanque de fogo e enxofre em que, conforme Apc 19,20; 20, 7-10, o demônio e seus sequazes têm mansão… Na base destas considerações, vai sendo propalada a tese de que é no centro do globo que se encontra o fogo do inferno…

Apenas a título de ilustração, notamos ainda as seguintes sentenças sobre a localização do inferno:

1) São João Crisóstomo (+ 407) supunha que o lugar dos réprobos existe fora do nosso planeta;

2) São Gregório de Nissa (+ 394) aproximadamente) colocava-o no ar tenebroso;

3) Swinden, autor inglês do séc. XVIII, dizia estar o inferno no sol;

4) outros enfim, como o monge cistercience St. Wiest, teólogo do séc. XVIII, localizam-no na Luz, em Marte ou nos extremos confins inferiores do universo.

Já a variedade destas opiniões é indício de que carecem de sólido fundamento objetivo.

b) O “limbo” (do latim limbus, orla) seria o lugar colocado à orla ou à margem do inferno.

c) O “purgatório” estaria também contíguo ao inferno, de modo que o mesmo fogo atormentaria os réprobos do inferno e os justos do purgatório.

d) O “Céu” seria um lugar elevado acima da nossa terra e distribuído em esferas diversas (os antigos mencionavam sete céus ou três céus; cf. 2 Cor 12,3; os medievais falavam do céu empírico ou  de fogo,  assim chamado por causa do seu esplendor, etc.). – Na Antigüidade, o lugar de bem-aventurança dos justos também era dito “o seio de Abraão” (cf. Lc 16,22).

2. Que se há de pensar sobre o assunto?

Já a simples exposição acima dá a impressão de que toda a geografia do Além é mais sugerida pela fantasia do que por dados seguros.

Com efeito, a Teologia Dogmática é muito sóbria nas suas afirmações concernentes ao assunto. Em vez de fornecer descrições muito precisas, ela prefere limitar-se a indicar alguns princípios, que se poderiam assim formular:

1) Os nomes de (inferno, limbo, purgatório e céu” designam, antes do mais, estados de alma (e de corpo, após a ressurreição final) e tem que ser entendidos primariamente como tais, ficando para o segundo plano qualquer descrição de índole sensível e material. O céu é o estado de plena familiaridade com Deus visto face a face e de conseqüente felicidade para o homem. Quanto ao estado de alheamento, em grau maior ou menor, de Deus, Fim Último sobrenatural, é designado respectivamente pelos apelativos de inferno (alheamento voluntário e definitivo do homem em relação a Deus); limbo (posse definitiva de Deus, fim último do homem mediante as faculdades limitadas da natureza humana; a existência do limbo não constitui estritamente dogma de fé); purgatório (alheamento temporário de Deus, que a alma há de chegar a contemplar face a face).

2) A Tradição associou esses estados de alma (e corpo) a certos lugares, que ela indicava de acordo com as concepções cosmológicas dos antigos judeus e cristãos (veja-se o catálogo do parágrafo anterior; supõe o geocentrismo, visto que coloca o inferno abaixo da terra e o céu acima da mesma). Hoje em dia os teólogos reconhecem que tais concepções topográficas são arcaicas (o sistema geocêntrico de Ptolomeu serviu em determinada época para dar expressão contingente a concepções religiosas cristãs). Contudo os teólogos conservam a idéia de que os estados finais estão associados a certos lugares (se bem que de modo nenhum apresentem tal associação como matéria de fé).

3) Para explicar melhor o seu pensamento, recorrem os autores à seguinte distinção:

a) Após a ressurreição da carne, no fim dos tempos entende-se que o homem, constando de alma e corpo dimensional, esteja situado num lugar dimensional, pois é normal que criaturas quantitativas se achem contidas em um mundo quantitativo.

Os justos ressuscitados num corpo glorioso estarão localizados no cenário renovado da natureza que nos cerca; sim, no fim dos tempos o mundo material (macrocosmos) será glorificado juntamente com o corpo humano (microcosmos); assim como as criaturas irracionais foram entregues à desordem no início dos séculos por causa da desobediência do homem, assim serão redintrgradas e dotadas de novo esplendor quando a Redenção, mediante a ressurreição da carne, estiver consumada nas almas e nos corpos humanos (cf. 2 Pdr 2.13 ; Is 65,17; 66,22 ; Apc 21,1 ; Rom 8,19-22). Nestes cosmos rejuvenescido, por assim dizer, e plenamente harmonioso, os justos deverão gozar da visão de Deus face a face; o céu assim existirá sobre a terra, como insinua a S. Escritura, dizendo que a Cidade de Deus, a Jerusalém nova, baixará sobre a terra (cf. Apc 21,2).

Quanto ao lugar dimensional em que as almas e os corpos dos réprobos sofrerão as penas do inferno, é difícil dizer alguma coisa, pois não se tem fundamento sólido na Revelação para propor alguma teoria a respeito. Remova-se a idéia de que o inferno está situado no centro da terra; é de todo inconsistente e mais provoca zombaria do que edificação espiritual. As expressões bíblicas que falam do abismo dos réprobos, são reconhecidamente metafóricas; baseiam-se no expressionismo dos antigos unicamente para incutir o horror do estado de reprovação, não a fim de ensinar a topografia do Além.

b) Antes da ressurreição da carne, céu, inferno, purgatório e limbo são estados que afetam apenas espíritos, separados do corpo (anjos bons e maus, almas humanas), exceção feita dos poucos casos abaixo mencionados. Ora, segundo a filosofia tomista, o espírito por si mesmo não ocupa determinado lugar; não tendo dimensões, não está contido dentro de um espaço dimensional. Sendo assim, vê-se que a questão do local dos estados póstumos antes da ressurreição toma caráter diverso do que ela tem após a ressurreição. Embora associe, como os autores anteriores, os estados póstumos antes da ressurreição toma caráter diverso do que ela tem após a ressurreição. Embora associe, como os autores anteriores, os estados póstumos a certos lugares físicos, São Tomas observa explicitamente que as almas depois da morte “se acham em seus lugares dimensionais segundo o modo conveniente  às substâncias espirituais, modo que a nós não pode ser plenamente manifesto” (In IV Sent., dist. 45, q. 1, a. 1, sol. 1 ad 1).

Contudo alguns teólogos propõem a seguinte tentativa de explicação: é por sua atividade que o espírito separado do corpo se acha presente em determinado lugar; ora a atividade do espírito consiste em conhecer com a inteligência e armar com a vontade. Assim sendo, pode-se conhecer com a inteligência e amar com a vontade. Assim sendo, pode-se crer que as almas separadas dos respectivos corpos e os anjos (bons e maus) sejam por Deus destinados a exercer estas duas atividades (conhecimento intelectivo e amor) unicamente em torno dos objetos que determinado espaço dimensional lhes apresente; tal lugar torna-se então a mansão própria de tal alma ou tal anjo. Assim se explicaria que, já antes da ressurreição da carne, céu e inferno, limbo e purgatório sejam lugares dimensionais… Não se queira, porém, pesquisar ulteriormente… e assinalar o local preciso de tais estados.

Há quem tencione corroborar a tese de que já agora a bem-aventurança celeste se localiza em determinado espaço físico, pelo fato de que já estão gozando da felicidade definitiva alguns corpos gloriosos, como o de Cristo, o de Maria, provavelmente os dos justos que ressuscitaram com Jesus segundo Mt 27,52s (nada nos obriga a afirmar que tenham morrido de novo). Também os corpos de Henoque e Elias que, vivos, foram arrebatados aos céus, se devem acrescentar a esta lista (na verdade, não se poderia provar que Henoque e Elias voltarão a terra no fim dos tempos e morrerão para ressuscitar no último dia). Não estarão esses corpos todos em um espaço dimensional?

Seria normal afirmar que sim, já que o corpo pede por si localização dimensional. Contudo, como que para impor reservas a esta afirmação, São Tomas observa que o corpo de Cristo ressuscitado e, de modo geral, qualquer corpo glorioso podem estar, mas não estão necessariamente, contidos em lugar físico (S. Teol. III 57, 4). Destarte nem o fato de se acharem agora na posse da bem-aventurança celestes os corpos de Jesus, Maria e outros justos nos obriga a admitir que, antes da ressurreição universal e do aparecimento de céu novo e terra nova, a visão beatífica esteja associada a determinado espaço dimensional.

Quanto ao inferno, o fato de que nele se encontra um agente físico chamado “fogo do inferno” tem levado vários teólogos a admitir que, mesmo antes da ressurreição dos corpos, ele se situe em alguma região geográfica. Contudo a quem assim pensa, é preciso lembrar que a natureza do fogo do inferno escapa às nossas noções comuns (cf. “P. R.” 12/1958, correspondência miúda), tornando-se destarte exígua base para se deduzirem conclusões sobre a possível topografia do estado dos réprobos.

Após quanto acaba de ser ponderado, vê-se quão necessária é a cautela ao se tratar da “geografia” do Além. As concepções e narrativas populares tem ultrapassado longe o que de certo podem dizer os teólogos no assunto… Que os fiéis cristãos se habituem a considerar céu e o inferno primariamente (embora não exclusivamente) como  estudos de alma! Esta verdade leva-nos a afirmar que céu e inferno se acham em toda parte onde haja um espírito de justo ou uma alma de réprobo. Isto se verifica, sem dúvida, já na vida presente: os justos levam consigo, e para toda à parte, o céu, ou seja, a felicidade da união com Deus, assim como os pecadores carregam continuamente o seu inferno, ou seja, o tremendo mal-estar que decorre do ódio a Deus e aos homens!

Certas imagens populares do inferno e do purgatório devem sem hesitação ser removidas da mente dos fiéis, pois se tornaram nocivas ao reto entendimento do dogma, dando a este um caráter ridículo ou um colorido mais ou menos pagão.

Principalmente a descrição poética que Dante faz do inferno na sua “Divina Comédia”, contribui para alimentar, através dos séculos, noções inoportunas do inferno na literatura e na iconografia cristãs. Eis aqui, a título de ilustração, uma tentativa de descrever o inferno encontrada na obra “Dedalus” de James Joyce, famoso escritor irlandês contemporâneo (a peça abaixo é atribuída pelo romancista a um personagem de seu romance, isto é, a zeloso homem de Deus, que, assim falando, tenta converter um de seus ouvintes, o jovem Stephen):

“O inferno é uma masmorra estreita, sombria e fétida, um habitáculo de demônios  e almas perdidas, cheio de chamas e de fumaça. A exigüidade dessa masmorra é por Deus destinada a punir aqueles que se recusaram a permanecer dentro dos limites das leis divinas… Lá, em virtude do grande número de réprobos, os prisioneiros são acumulados uns sobre os outros na sua horrível prisão, cujas muralhas, dizem, tem quatro mil milhas de grossura; os condenados estão a tal ponto imobilizados e reduzidos à impotência que… não têm nem mesmo a possibilidade de desviar a vista do verme que os vai roendo.

O horror dessa prisão estreita e sombria é acrescido pelo seu espantoso mau cheiro. Todas as imundices do mundo, todo o esterco, toda a lamaceira do mundo escoarão para lá, dizem, como para vasta cloaca fumegante, quando a terrível conflagração do último dia tiver purificado o mundo…

Imaginai um cadáver imundo e pútrido, deteriorado, decomposto no fundo de um túmulo, um acervo gelatinoso de corrupção liquefeita. Imaginai esse cadáver entregue às chamas, devorado pelo fogo do enxofre ardente, a espalhar o forte e sufocante odor de decomposição repugnante e nauseabunda. A seguir, imaginai esse desatinante mau cheiro multiplicado milhões e milhões de vezes pela multidão de milhões e milhões de carcassas fétidas acumuladas nas trevas enfumaçadas, nesse imenso cogumelo de podridão humana (…).

Mas o mau cheiro, por muito horroroso que seja, não constitui a maior tortura física que sofrem os réprobos. A tortura pelo fogo a maior tortura física que sofrem os réprobos. A tortura pelo fogo  é a mais cruciante que um tirano tenha jamais infligido aos seus semelhantes. Colocai por um instante vosso dedo na chama de uma vela e sentireis a dor que o fogo causa. Mas o nosso fogo terrestre foi criado por Deus para bem do homem, para conservar neste a centelha da vida, para o auxiliar em seus trabalhos úteis, ao passo que o fogo do inferno é de natureza totalmente diversa; foi criado por Deus para torturar e punir o pecador impenitente (…). O enxofre que arde no inferno, é uma substância especialmente destinada a arder eternamente com indescritível furor; o fogo do inferno possui a propriedade de conservar o que ele queima, se bem que ele se enfureça com incrível impetuosidade”.

Na obra de Hoyce dizíamos, este sermão é concebido pelo orador com o fim de incutir temor e, conseqüentemente, arrependimento, conversão do pecador. O escritor irlandês, mostra bem como Stephen, o destinatário de tais palavras, reagiu: acabou julgando indigna de fé uma religião que atribuía à Justiça Divina tão requintadas atrocidades; justamente a peça de pregação que o devia converter acabou por distanciá-lo da fé!

Infelizmente a narrativa de romance acima não carece de base na realidade histórica.

As representações iconográficas do inferno também deixam muito a desejar Uma imagem assaz comum é a de enorme güela de animal, disforme, munida de dentes agudos, escancarada para receber suas vítimas. Também se vê o quadro de um fosso ou de uma caverna subterrânea, donde jorram chamas ou torrentes de fogo a envolver os réprobos à guisa de espiral.

O purgatório é muitas vezes representado como o inferno, o que vem a ser diretamente contrário à Teologia. No purgatório as almas não são atormentadas pelo demônio; sofrem voluntariamente a dilação da visão beatífica, desejosas elas mesmas de se purificar; experimentam, portanto, alegria profunda ao verificar que se preparam para ver face a face a Beleza incriada. É esta atitude de alma e não a respectiva moldura sensível, que constitui a essência do purgatório essa atitude interior, porém, é o elemento que menos se focaliza nas descrições orais e gráficas do estado de purificação; deste desvio de acento resulta naturalmente detrimento para a crença e a piedade dos fiéis.

Sendo assim, só se pode recomendar aos cristãos, em vista da honra de Deus e da salvação das almas, evitem concepções fantasistas relativas aos estados póstumos, lembrando-se de que mais vale a sobriedade do que o prolixo saber em assunto sobre os quais a Revelação Divina não nos transmite senão o essencial para granjearmos a salvação eterna!

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 14, Ano 1959, p. 66

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.