Giordano Bruno e a Inquisição

bruno2O presente artigo apresenta a vida e o pensamento do ex-frade dominicano Giordano Bruno (+1600), que Marcelo Barros tem como vítima da crueldade da Inquisição sem exercer senso crítico sobre as fontes das notícias que ele formula. De resto, a toda sociedade, inclusive à Igreja, toca o direito de preservar a identidade de sua doutrina, denunciando escritos que a ameaçam ou a põem em xeque.

Em sua coluna jornalística de 18/02/05 Leonardo Boff transcreve um artigo de Marcelo Barros, que trata da condenação, por parte da Santa Sé, do livro de Roger Haight intitulado “Jesus Symbol of God – Jesus Símbolo de Deus” – A condenação de R. Haight lembra a M. Barros a de Giordano Bruno também ocorrida em fevereiro (de 1600).

Eis como escreve o articulista, de ânimo exaltado:

1. A Condenação de Giordano Bruno

Escreve Marcelo Barros:

“Fevereiro é um mês profícuo na história das condenações. Em 17 de fevereiro de 1600, o papa Clemente VIII mandou queimar na fogueira o frade dominicano e filósofo Giordano Bruno. Este foi um homem livre, que contestava qualquer dogmatismo. Por isso. foi preso e, durante seis anos, deveu responder como réu em um processo cruel que incluiu torturas. Com o corpo pendurado de cabeça para baixo durante horas e sob ameaça de lhe furarem os olhos, aceitou renunciar a algumas de suas doutrinas e retratar-se oralmente e por escrito. Mas, como não abjurou a todo o seu pensamento e não se dobrou à prepotência do tribunal, foi queimado vivo. Antes de morrer, Giordano Bruno deciarou a seus juízes: ‘Vocês estão com mais medo da sentença que proferiram, do que eu, que por ela serei supliciado’. O inquisidor chefe que condenou Giordano Bruno foi o cardeal Roberto Belarmino, a quem o papa Pio XI proclamou santo e ‘doutor da Igreja'”.

Que dizer?

uma_historia_que_nao_e_contadaAntes do mais, é preciso observar que as atas do processo de Giordano Bruno se perderam, de modo que falta base para formular notícias precisas a respeito. Marcelo Barros apresenta alguns traços cruéis desse processo, mas não indica a fonte – o que permite pôr em dúvida tais notícias. Com efeito, levem-se em conta os seguintes dados:

Durante todo o século XVII (que é o da morte de G. Bruno) raramente se encontra alguma referência a G. Bruno entre os eruditos. No século XVIII, porém, G. Bruno é frequentemente citado, principalmente pelos filósofos “livres pensadores” ou racionalistas que o tomam por expoente de suas ideias. Nos séculos XVIII e XIX a Maçonaria e o anticlericalismo se apoderaram do nome de Giordano Bruno para combater a Igreja, atribuindo a esta uma imaginária sanha de perseguição passional e cruel. Daí a suspeita de que o processo de G. Bruno tenha sido reconstituído em termos exagerados ou mesmo falsos.

Sejam agora apresentados de maneira objetiva o perfil da pessoa e a doutrina de G. Bruno.

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2. Traços Biográficos e Doutrinários

2.1. Quem foi? Que pensava?

Filipe (em religião, Bruno) nasceu em Nola (província de Nápoles) no ano de 1548 em pleno período de ebulição religiosa devida ao Protestantismo. Aos quatorze anos, entrou no Convento de S. Domingos, onde, depois de haver professado a Regra Dominicana, foi ordenado sacerdote em 1572. Esses anos de estudos foram decisivos para a sua formação intelectual: leu filósofos e teólogos da antiguidade e da Idade Média; estudou obras clássicas e outras dentre as muitas que o Renascimento havia posto em evidência no cenário intelectual da Europa. Em breve começou a conceber ideias estranhas, que entravam em conflito com verdades da fé; Bruno mesmo confessou que, desde os dezoito anos de idade, se pôs a duvidar da SS. Trindade e da Encarnação do Verbo. Inclinava-se desde então a uma interpretação racionalista dos artigos do Credo, concebendo o Filho como “o intelecto do Pai” e o Espírito Santo como “a alma e o amor do universo”. As práticas do culto religioso lhe pareciam ser formas de superstição, devidas à ignorância; as religiões seriam boas na medida em que contribuíssem para morigerar os povos e orientar os governos. Assim Bruno já antecipava o racionalismo e o iluminismo dos séc. XVII e XVIII.

Em consequência, foi acusado de heresia no seu convento em Nápoles. Em 1576 fugiu para Roma; depôs o hábito religioso, e começou a viajar a fim de disseminar as suas ideias. Esteve em Savona, Turim, Veneza, Pádua; nesta cidade deixou-se persuadir de que devia retomar o hábito. Partiu para Lião. Ali foi desaconselhado de ficar; por isto seguiu para Genebra (Suíça), esperando “lá viver em liberdade e estar seguro”; tirou de novo o hábito, e inscreveu-se no Calvinismo, religião dominante na cidade; em breve, porém, entrou em conflito com um dos professores de teologia locais; donde resultou ser encarcerado e processado. Bruno doravante concebeu ainda maior aversão do Calvinismo do que do Catolicismo. Afim de reconquistar a liberdade, prometeu emendar-se e, pouco depois, partiu para Tolosa e Paris (1582); nesta cidade publicou algumas obras, entre as quais “Candelaio” (Candelabro), comédia das mais vivazes e obscenas da sua época. Em Paris deram-se tumultos em torno de suas ideias; Bruno tinha Aristóteles na conta do mais estúpido dos filósofos e dizia que, após a morte, a sua alma emigrara para dentro de um asno. Por isto, com os favores do rei Henrique III da França, foi para Londres, onde ficou de 1583 a 1585. Tendo-se indisposto com os intelectuais de Londres e Oxford, voltou para Paris, onde não pôde permanecer; passou então para a Alemanha, detendo-se em Mogúncia, Wittenberg, Helmstàdt e Francoforte; entrementes foi a Praga na Boêmia. Facilmente Bruno atribuía aos seus adversários os cognomes de “asno, porco, urso, lobo, besta, louco”. Vários de seus escritos eram permeados de lascívias e obscenidades ou mesmo de blasfêmias; defendiam a poligamia.

2.2. Perante a Inquisição

Estando Bruno em Francoforte, recebeu de Giovanni Mocenigo, rico comerciante de Veneza, um convite para ensinar a este a arte da memória. Bruno se dirigiu então a Veneza, mas Mocenigo, escandalizando-se por suas ideias, denunciou-o ao S. Ofício (Inquisição) como sendo herege. O primeiro processo do S. Ofício começou em 1592; parecia que acabaria em favor de G. Bruno, pois este reconhecia ter falado “demasiado filosoficamente, desonestamente e não como bom cristão”; pediu perdão e mostrou o desejo de voltar à Igreja Católica.

Terá sido sincero? Há quem julgue que Bruno se retratou apenas para reaver a liberdade e conseguir voltar a Roma, onde tencionava dar nova repercussão à sua doutrina.

Bruno não chegou a ser absolvido pela Inquisição de Veneza, pois Roma pediu que o acusado lhe fosse enviado; pelo que o mesmo partiu para lá em 27/2/1593. O processo, cujas atas se perderam, desenvolveu-se lentamente em Roma. Sabemos que começou aos 27 de fevereiro de 1593; mas só temos ulterior documentação datada de fins de 1599 e início de 1600 (trata-se, aliás, de curtos protocolos). Os escritos de G. Bruno foram examinados; destes foram assinaladas oito proposições heréticas na Congregação do S. Ofício de 14/1/1599. Intimado a abjurá-las, o autor pediu prazos sucessivos, pois hesitava. Finalmente foi julgado solenemente, condenado à degradação e entregue ao braço secular. Depois de proferida a sentença, foram-lhe dados mais oito dias para se retratar. Acompanharam-no então alguns sacerdotes, assim como os irmãos da Fraternidade de S. Giovanni Decollato, que se destinava a reconfortar espiritualmente os prisioneiros condenados à morte. Mas Giordano persistiu em recusar qualquer forma de religião positiva; rejeitou mesmo o Crucifixo que lhe apresentaram quando finalmente, aos 17 de fevereiro de 1600, foi entregue ao fogo no Campo das Flores (Roma).

Um filme de cinema alusivo ao tema reproduz as palavras que G Bruno terá proferido ao ouvir a sua sentença de condenação: “Eles (os juízes) têm mais medo do que eu”. Ora tais palavras não são referidas pelo historiador Gaspar Schopp (Sciopius). Cf. L. v. Pastor, “Geschichte der Pãpste”, t. XI. Freiburg i./Breisgau, 1927, p. 465. Os protocolos dão a saber que Bruno não foi viril quando a Inquisição lhe apresentou sentenças tiradas das suas obras, tanto em Veneza como em Roma; não teve a coragem de sustentar o que escrevera.

Giordano Bruno foi condenado não (como por vezes se diz) por ter defendido o sistema de Copérnico (heliocentrismo) nem a pluralidade de mundos habitados (doutrinas que, de fato, ele professava), mas, sim, por causa de erros filosóficos e teológicos, como também por ter cometido apostasia e perjúrio.

3. Reflexão final

1) Para o homem medieval, era indiscutível o princípio de que o bem da alma mais vale do que os bens do corpo. O cidadão, na Idade Média, tinha consciência de que a alma existe, e a esta dava o lugar devido – lugar de primazia sobre o corpo. Disto se segue que tudo que dizia respeito à salvação da alma, na Idade Média, assumia importância capital; ora, entre os bens referentes à salvação da alma, contava-se (e conta-se) a verdadeira fé; a perversão do Credo, portanto, mediante a heresia era tida como mal gravíssimo.

Habituado a esta maneira de apreciar as coisas, o medieval assim raciocinava: se a jurisprudência da época julga réu de morte o criminoso que põe em perigo a vida do corpo de seu semelhante, muito mais deverá ser considerado réu de morte o herege, que, contaminando a verdade (da qual se nutre a vida da alma), põe em perigo a alma de seu próximo. – Deste raciocínio o medieval, com a consciência tranquila, concluía não somente ser lícito, mas até necessário, eliminar da sociedade os cidadãos cuja obstinação na heresia constituísse evidente perigo de deterioração da verdade revelada por Deus. Esta maneira de pensar ainda se prolongou após a Idade Média.

A tal cidadão – isto é muito importante – nunca era recusada a reconciliação com Deus mediante os sacramentos da Confissão e da Comunhão; ora, absolvido sacramentalmente antes de sofrer a morte física, o réu poderia perfeitamente salvar a sua própria alma e ir para o céu (este é o único objeto que um juiz jamais poderia licitamente recusar ao réu; quanto a uma prolongada permanência neste mundo, sabemos que ela nem sempre é vantajosa para o homem!).

Note-se outrossim que, ao raciocinar de maneira tão fria, o medieval seguia uma das tendências marcantes da época – tendência a se guiar muito mais pelo rigor da lógica do que pela ternura do sentimento. O homem moderno, ao contrário, é menos propenso ao raciocínio rígido no plano da Ética e mais inclinado a se nortear pelo sentimento ou pela afetividade impulsiva (hoje em dia os homens não acreditam muito em princípios perenes, tendendo, antes, a julgar segundo critérios relativos e subjetivistas). Sendo a índole dos medievais mais especulativa e metafísica, não nos surpreenderemos pela rudez com que afirmavam e defendiam a escala dos valores que se oferecem ao homem aqui na terra.

De resto, a fé era algo de tão vivo e espontâneo na Idade Média que dificilmente se admitiria viesse alguém a negar com boas intenções um só dos artigos do Credo.

2) A mentalidade que inspirou a Inquisição, longe de arrefecer no séc. XVI, foi ainda aguçada em virtude da chamada “Renascença” dos séc. XV/XVI.

Com efeito, nessa época as ciências naturais progrediram grandemente, seguindo novos métodos de trabalho, que lhes proporcionaram descobertas de notável relevo. O homem de ciência assim tendia a julgar-se cada vez mais emancipado de qualquer autoridade (inclusive da fé). A “vertigem da inteligência” ia-se apoderando de alguns pensadores que de maneira mais ou menos confessada chegavam a lançar um brado de morte a Deus (tal foi o caso, por exemplo, de Campanella, 1568-1639). Em uma palavra: uma onda de ateísmo revestido da capa de ciência alastrou-se capciosamente por círculos de estudiosos do séc. XVI.

Em consequência, as autoridades eclesiásticas, ciosas de conservar o patrimônio da verdade, se sentiram, a novo título, estimuladas à vigilância: desde que um filho da Igreja, como era Giordano Bruno, se mostrasse arauto da nova mentalidade, aos juízes eclesiásticos devia parecer lógico que não lhe poderiam permitir a propagação das suas ideias dissolventes; o bem coletivo, ou seja, o patrimônio da fé (que é fonte de vida espiritual) corria perigo! É o que explica o fato de que Giordano Bruno, professando uma filosofia pagã revestida ora de termos de ciências naturais, ora de termos de teologia cristã, tenha provocado contra si a ação dos Inquisidores.

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3) De resto, independentemente mesmo do caso de Giordano Bruno, nunca será demasiado inculcar a distinção a se fazer entre a Igreja como tal e estes ou aqueles de seus filhos, por mais graduados que sejam. Frequentemente no decorrer da história o procedimento dos inquisidores destoou das normas oficiais da Igreja e foi objeto de reprovação por parte dos Papas.

4) A todo homem toca o Direito de Pensar com Liberdade. Mas, se alguém filia-se a uma sociedade, é de supor que esteja identificado com o pensamento e a mensagem de tal sociedade. Caso venha a fazer um pronunciamento público contrário à mensagem oficial da sociedade a que pertence, esta tem o direito – e obrigação – de contestar tal pronunciamento e censurar o respectivo arauto.

No caso em foco, à Igreja tocava o dever de intervir, preservando as verdades da fé, pois estas interessam a todo o povo de Deus. Na realidade, a Igreja é Mãe e Mestra tanto daqueles que ensinam como daqueles que aprendem.

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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