Gelado, mas rico – EB (Parte 1)

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, Osb

Nº 531, Ano
2006, p. 400

 

(Revista VEJA)
Em síntese:
Vai tomando vulto crescente o número de pacientes que desejam ser congelados,
caso cheguem ao estado de coma, na expectativa de ser descongelados logo que a
ciência médica descubra o tratamento adequado para lhes restituir a saúde.
Alguns estão mesmo fazendo depósitos de elevadas quantias de dinheiro que
pretendem utilizar quando tiverem recuperado a saúde após a hibernação.

Do ponto de
vista moral, nada há a censurar no caso, desde que ninguém seja coagido ao
congelamento. Seja ele solicitado pelo paciente, que deve ser informado a
respeito dos riscos que tal processo acarreta: o organismo pode não resistir à
baixa temperatura; caso resista, venha a ser descongelado, será cercado de um
ambiente novo, desconhecido ao enfermo – o que lhe tornará a vida mais difícil
e estranha.

Como quer
que seja, a crioterapia não ressuscita mortos, mas estanca um processo de
deterioração; o princípio vital ou a alma humana espiritual permanece no corpo
congelado, que tem vida latente na expectativa de reanimação eventual e
recuperação da saúde. – Tal avanço da medicina nada tem de imoral; é necessário,
porém, que os homens não percam a consciência de que são mortais e, cedo ou
tarde, morrerão e darão contas ao Criador do desempenho de sua conduta durante
os anos passados neste mundo.

A revista
VEJA, edição de 1º de fevereiro 2005, p. 64 apresenta uma notícia que despertou
o interesse de muitos leitores: eis por que será comentada nestas páginas.

Gelado, mas
rico

Além de
congelarem o corpo, muitos investem para ser milionários numa segunda vida.

Riqueza não
se leva para o túmulo? Bem, há um grupo de americanos e europeus com planos de
voltar da morte e usufruir o dinheiro que vão deixar de herança para si
próprios. Explica-se: eles têm contrato com empresas especializadas para que
seus corpos sejam congelados em nitrogênio líquido o mais rápido possível
depois da morte. O objetivo é conservá-los até que a ciência encontre a cura da
doença que causou a morte e, obviamente, descubra como reviver os mortos. Há
pelo menos 1000 pessoas à espera do momento de ser congeladas. Uma dúzia delas,
todas milionárias, tomou o cuidado adicional de criar fundos de investimentos
cujos beneficiários serão elas próprias, numa segunda vida. “A questão é que,
além de voltar a viver, elas querem ter dinheiro para gastar”, diz Robert
Ettinger, diretor do Cryonics Institute, empresa que vende pacotes de
congelamentos post mortem.

QUE DIZER?

Nas páginas
subsequentes examinaremos mais de perto e as questões que o caso suscita.

1.
Hibernação ou congelamento: que é?

Por
“hibernação” entende-se “a maneira de passar o inverno”. Trata-se da faculdade
que certos seres vivos têm, de se adaptar às condições de clima de inverno
rigoroso, com sua baixa temperatura, diminuição da duração dos dias.

A
adaptação, no caso, consiste em reduzir as manifestações vitais, ou seja,
reduzir o gasto de energia. Os vegetais, os animais invertebrados e os
vertebrados obtêm este resultado mediante táticas diversas quando coagidos pelo
clima.

O homem tem
procurado fazer o mesmo em favor da própria humanidade, a partir da primeira
metade deste século: os cientistas tentam submeter certos indivíduos a baixas
temperaturas a fim de mais facilmente atender à saúde dos mesmos: desacelerar a
circulação do sangue, reduzir o consumo de oxigênio em ambiente de baixa
temperatura permitem intervenções cirúrgicas sem sangramento, como se dirá
adiante.

A tática de
hibernação ou congelamento, para o homem, foi concebida por Robert C. W.
Ettinger, cientista norte-americano, professor de Física, Astronomia e
Matemática na Universidade de Wayne. Ettinger, numa tese muito categórica
intitulada “A imortalidade está à vista!”, asseverava que desde já o homem pode
ressuscitar ou reviver fisicamente após a morte. Chegava a apregoar a fundação
da “Sociedade dos futuros Imortais”, reconhecendo todavia que seria necessário
um verdadeiros exército de vigias especializados para guardar os túmulos, ou
melhor, os “dormitórios-geladeiras” (como dizia o próprio Ettinger) desses
aparentes cadáveres. Ao mesmo tempo, perguntava se o nosso planeta poderia dar
abrigo e alimentação a tantos milhões de homens “ressuscitados”, pois já hoje
em dia o problema da alimentação é grave, e tende a se agravar cada vez mais,
dado o extraordinário aumento da população mundial. Ettinger, porém, ainda se
consolava, lembrando que os processos de hibernação, dispendiosos como seriam,
não estariam ao alcance de todos os homens; a congelação de um corpo humano
sairia, sim, por 4 milhões de antigos francos franceses.

Verdade é
que uma grande Companhia que explorava a indústria do frio, foi interpelada
sobre as possibilidades de sua colaboração nesse terreno; respondeu estar, sim,
interessada pelo problema e disposta a examinar com atenção qualquer proposta
concreta que lhe fosse feita.

O método
imaginado por Ettinger para obter a imortalização do indivíduo (como composto
de corpo e alma, não apenas como alma) era em si muito simples: ensinava que,
no momento da morte de uma pessoa, se deveria congelar o seu cadáver em
temperatura próxima do zero absoluto (273º abaixo do zero comum). Nessa
temperatura, julga-se que a matéria já não é capaz de atividade; fica por
completo paralisada, de modo a não poder sofrer deterioração ou destruição
alguma. Tal efeito se poderia alcançar mergulhando o organismo em hélio
líquido, cuja temperatura é de – 269º. Feito isto, esse mesmo organismo seria
posto em um “dormitório-geladerira”. E os médicos aguardariam…

– Que
aguardariam?

– Duas
coisas… que a medicina estivesse em condições de progresso tal que já pudesse
curar a doença do corpo congelado, e que pudesse descongelar o organismo
convenientemente, de modo a lhe aplicar o remédio descoberto.

A
congelação, porém, (observam os cientistas) exigiria que os trabalhos a ser
executados no momento do desenlace do doente se efetuassem com toda a rapidez
possível. Com efeito, a imobilização do coração (que caracteriza a morte)
acarreta a asfixia progressiva dos tecidos do organismo; ao cabo de 5 ou 6
minutos, as células do córtice cerebral (que são as primeiras atingidas)
sucumbem de modo tal que doravante já não é possível conseguir a reanimação do
corpo; faz-se mister, por conseguinte, aproveitar os 5 ou 6 minutos que
decorrem entre a paralisação do coração e a conseqüente asfixia das células
cerebrais.

Eis as
ideias e os planos de Ettinger e de seus colaboradores.

2. O
Histórico do procedimento

As técnicas
de hibernação ou de congelação dos organismos se devem principalmente aos
estudos do sábio francês Henri Laborit. Este pesquisador verificou que,
baixando de 37º para 30º a temperatura de um corpo vivo, o processo de asfixia
das células do cérebro se torna mais lento; em vez de durar 5 ou 6 minutos
apenas, já dura 15 minutos; este intervalo já fornece ao médico maior margem
para intervir no organismo, efetuando aí alguma operação cirúrgica que lhe
possa ser benéfica. Acontece, porém, que, quando a temperatura do organismo
baixa a 25º, os tecidos geralmente se destroem de maneira fatal. Por
conseguinte, a arte dos médicos em tal setor de trabalho deverá consistir em
congelar o organismo segundo ritmo tão lento e suave que a progressiva
diminuição de temperatura se torne como que algo de natural.

Conscientes
disto, os sábios têm realizado experiências com animais irracionais, a fim de
averiguar as suas reações e as possíveis aplicações à hibernação do homem.

Já em 1780
o jesuíta italiano Pe. Spallanzani conseguiu conservar em vida animais que
vivem em musgo, os Rotíferos e os Tardígrados, congelando-os à temperatura de –
19º. Em conseqüência, tais pequenos animais foram chamados “ressuscitantes”. No
ano de 1950, o cientista francês Becquerel colocou esses mesmos seres em
ambiente de temperatura próxima a zero absoluto; depois aqueceu-os de novo e
reidratou-os, verificando que voltavam a viver como outrora. A experiência foi
certamente digna de nota, mas não permite conjeturar o que se daria com o
homem, pois Rotíferos e Tardígrados são seres elementares, capazes de se
desidratar sem perder a vida. Em animais de sangue quente, a reação seria
diferente. Não se pode desidratar um corpo humano sem lhe tirar a vida; e, caso
alguém queira congelar um organismo humano sem o ressecar previamente, verifica
que a água dos tecidos se transforma em gelo e assim destrói os próprios
tecidos.

Outras
experiências têm sido efetuadas.

Assim em
1946 Jean Rostand comunicava à Academia das Ciências da França que pudera
conservar vivo o esperma de rã durante 20 dias, em vez das poucas horas
habituais, recorrendo, para isto, a uma solução de glicerina.

Em 1949 um
grupo de cientistas ingleses dirigido pelo Prof. Parkes demonstrou que a
glicerina permite conservar espermas de aves e mamíferos a – 70º durante várias
semanas.

Em 1953 os
americanos Bunget e Sherman, usando do mesmo método, conservaram esperma humano
durante mais de um mês à temperatura de – 79º; depois, reaqueceram-no e com ele
praticaram a inseminação artificial em três mulheres, que tiveram filhos
normais.

Em 1956, o
iugoslavo Giaja e seu discípulo Andjus congelaram alguns ratos à temperatura de
– 6º, conseguindo reanimá-los posteriormente. Verificaram então que estes ratos
eram mais robustos e resistentes do que os seus semelhantes não congelados. Em
particular, o seu coração era mais forte. O metabolismo vital do organismo não
se interrompera, mas apenas diminuíra notoriamente a velocidade do seu ritmo. A
maior parte da água contida nesses corpos não se reduzira ao estado de cristais
nocivos aos tecidos.

Em 1958, o
sábio francês Louis Rey foi mais longe ainda. Congelou um coração de embrião de
galinha, mergulhando-o em azoto líquido à temperatura de – 196º. Nesse caso
houve vitrificação, isto é, o coração se tornou duro como uma pedra; mas,
depois de haver sido aquecido em banho líquido conservado ao calor de 37º, tal
coração recomeçou a bater.

Enfim no
mês de março de 1963 o biólogo russo Lesinalozinski mergulhou vinte larvas de
borboleta de milho em hélio liquefeito e reduzido à temperatura de – 269º. A
seguir, averiguou que treze dessas larvas voltaram a manifestar a vida de
outrora.

3. A tática
hoje

Em suma,
tal é o procedimento a ser observado para congelar alguém:

É
fundamental que o processo de crionização seja feito o mais rápido possível em
relação ao último suspiro…

O corpo é
transferido envolto em pedras de gelo comuns. Uma vez na mesa de operação, todo
o sangue do paciente é retirado para evitar a coagulação e a expansão das
células (se o sangue congelasse, se expandiria e destruiria todas as células).
Em seu lugar é injetado glicerol (um álcool) misturado com heparina
(anticoagulante), vitaminas e fortificantes para os tecidos. Outras duas
substâncias são aplicadas: uma para o corpo não tremer durante a operação e
outra para o morto não abrir os olhos. Isso é apenas uma garantia para não
assustar a equipe médica. Uma máquina de respiração artificial é acionada para
que as substâncias circulem. Todo esse processo sucede sob uma temperatura não
inferior a 4º C. Terminada a fase da operação, o paciente é colocado em uma
caixa de madeira e alumínio e fica coberto por gelo seco por três dias. Ao
final dos três dias, o corpo atinge 74ºC negativos.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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