Fundamentos Bíblicos: Eucaristia – EB (Parte 2)

Em resposta, far-se-á observar que o contexto de tais versículos indica suficientemente tratar-se de alegoria ou locução figurada, donde natural e evidentemente decorre o sentido simbolista do verbo ser nessas passagens. No contexto, porém, da última ceia, falta todo indício de simbolismo; arbitrário, portanto, e avesso aos princípios básicos da interpretação de qualquer trecho literário seria, na exegese de tais episódios, fugir ao sentido óbvio e literal do verso ser.

Além disto, verifica-se que nas frases citadas o sujeito é um pronome pessoal ou um substantivo, sujeito bem determinado e por si mesmo diverso do respectivo predicado; a aproximação entre sujeito e predicado em tais sentenças só pode ser figurada ou metafórica. Ao contrário, nas frases da consagração eucarística o sujeito é um pronome demonstrativo pronome que por si mesmo é indeterminado e vai receber sua determinação do substantivo com o qual ele é relacionado, podendo mesmo identificar-se com o significado deste substantivo. Na frase de Cristo, portanto, o pronome demonstrativo touto em (grego), isto  ou este,  relacionado com corpo, não somente não se opõe à identificação com corpo, mas exige-a, de tal modo é simples e clara a cópula é. Em outros termos: na afirmação do Senhor, o pronome “isto” (touto) designa uma substância existente sob as aparências externas do pão, substância cuja natureza é enunciada pelo predicado “meu corpo”. De resto, note-se que “isto (ou este) é meu corpo” equivale a “Eis aqui meu corpo”, como incute a comparação de Êx 24, 8 com Hebr 9,20 (a fórmula “Este é o sangue” de Ex reaparece em Hebr como “Eis o sangue”.

No tocante a 1 Cor 10,4, onde São Paulo aplica a metáfora do Rochedo a Cristo, note-se que este texto não pode servir para ilustrar a formula da consagração eucarística, pois o Apóstolo em 1 Cor 10 exprime formalmente sua intenção de recorrer a uma metáfora: “Nossos pais todos beberam do mesmo alimento espiritual;  bebiam, com efeito, de um Rochedo espiritual que os acompanhava; e o Rochedo era o Cristo”. O adjetivo “espiritual”, duas vezes ocorrente nestes dizeres e diretamente associado a “Rochedo”, indica bem que o hagiógrafo quer empregar uma figura de linguagem. São Paulo mesmo, sem negar a realidade da história do êxodo, declarou explicitamente que ele a considerava em 1 Cor 10 como figura do que se dá com os cristãos no Novo Testamento (cf. v. 10). – Na formula da consagração eucarística, ao contrário, falta todo e qualquer indício de uso metafórico das palavras.

b) No início do século passado, os autores liberais apoiavam a sua interpretação simbolista na tese de que a língua aramaica, em que Jesus falou, tinha um só verbo para exprimir a identidade real e a representação simbólica.

Em 1828, porém, N. Wiseman publicou o estudo “Horae syriacae”, em que enumerava mais de quarenta verbos aramaicos capazes de exprimir a noção de “significar”. Além disto, sabe-se que os Evangelistas e São Paulo escreveram em grego, usando a forma verbal esti (= é), e não semainei (= significa); assim fazendo, transmitiram-nos a interpretação autêntica das palavras de Jesus.

c) O Senhor mandou repetir a ceia sagrada em sua memória (cf. 1 Cor 11,24s). Ora, dizem, o memorial só se pode referir a pessoa ausente, não a presente. Cristo, por conseguinte, não está presente sob os véus eucarísticos.

Responder-se-á que não é absurdo falar do memorial de um ser presente desde que este não apareça aos sentidos; com efeito, dizemos que nos  lembramos de Deus, embora Deus nos esteja sempre presente (cf. Sl 76,3 na Vulgata e na tra. De Almeida); analogamente fazemos o memorial de Cristo, que de maneira invisível mas bem real, se acha no sacramento da Eucaristia.

d) Conforme Paulo e Lucas, Jesus disse: “Este cálice é a nova Aliança em meu sangue, que será derramado” (Lc 22,20; cf. 1 Cor 11,25). Ora, assim como o cálice continuou a ser cálice após estas palavras, dir-se-á que também pão e vinha não deixaram de ser pão e vinho após os dizeres que, conforme Mt e Mc Jesus proferiu sobre eles. Que dizer?

Na realidade a fórmula de Pl e Pc coincide com a de Mt e Mc quanto ao sentido doutrinário, incutindo ambas a real presença apenas se diferenciam no plano filosófico ou estilístico. Ao passo que Mt e Mc empregam uma construção de frase muito lisa e clara, a tradição de Paulo e Lucas recorre a dois artifícios de redação, mencionando sucessivamente o recipiente em  lugar do respectivo conteúdo  (o cálice  em lugar de substância do vinho  que ele continha) no sujeito da frase, e o efeito em lugar da causa (a  Nova Aliança  em lugar do  sangue que a tornou possível e a selou) no predicado da mesma frase; por conseguinte, se quiséssemos fazer abstração dos artifícios de estilo, teríamos em Pl e Pc a construção: “Isto  (ou esta substância  que se acha contida no cálice) é  o meu sangue,  o sangue que acarreta e sanciona a Nova Aliança entre  Deus e os homens”. A construção artificiosa de São Paulo e São Lucas serve para exaltar a realidade da Aliança selada pelo corpo e o sangue de Cristo imolados, enquanto a formulação simples de São Mateus  e São Marcos realça principalmente a realidade da presença do corpo e do sangue do Senhor que selara essa Aliança.

e) Em 1 Cor 11,26 lê-se: Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais (katangéllete) a morte do Senhor  até que Ele venha”. Não quer isto dizer que não está presente na ceia eucarística Aquele cuja vinda ainda se espera no porvir?

No texto acima, São Paulo recorda o íntimo nexo que liga a ceia sagrada com a morte do Senhor (o verbo katangéllete no indicativo presente, conforme o autor protestante J. Weiss, implica mesmo a idéia de realização). A seguir, diz-nos O Apóstolo que esse “anúncio” sacramental da imolação do Senhor é permanente ou se efetua todas as vezes  que se celebra a ceia eucarística, até que o Senhor Jesus haja por bem encerrar o atual regime da fé e dos sacramentos, tornando-se presente de maneira visível entre nós. Como se vê, o Apóstolo estabelece distinção entre “presença de Cristo glorioso, manifesto”, tal como é aguardada uma vez para o fim dos tempos, e “presença do Senhor sacramental, velada” (mas bem real, como se deduz do contexto já analisado), tal como a temos na Eucaristia “todas as vezes”, isto é, todos os dias. Não é o binômio “presença-ausência”, que o hagiógrafo quer focalizar, mas, sim, a distinção entre “presença visível (a ser obtida uma vez)” e “presença invisível (que se verifica muitas vezes, permanentemente)”.

3. A celebração da S. Eucaristia

Há uma passagem principal que, atestando a celebração da Eucaristia na Igreja nascente, dá claro testemunho da fé na presença real do Senhor:

“Todo aquele que comer desse pão e beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Por conseguinte, examine-se cada um e então coma desse pão e beba do cálice. Pois todo aquele que come e bebe indignamente, como e bebe a própria condenação, por não discernir o corpo e o sangue do Senhor. É por isso que há muitos doentes e enfermos entre vós e muitos já morreram” (1 Cor 11,27-30).

Neste texto o Apóstolo deduz conseqüências gravíssimas da profanação do pão e do vinho eucarísticos; a razão de tais penas é o fato de que se torna profanador  do corpo mesmo e do sangue do Senhor quem viola o sacramento; a malícia de tal pecado e a condenação à morte, tanto temporal como eterna, de que fala São Paulo, não se entenderiam se a Eucaristia fosse mero símbolo do corpo e do sangue de Cristo. Donde conclui Goguel (o qual, não obstante, é adversário da presença real, por ter São Paulo na conta de grande inovador dentro do Cristianismo primitivo):

“Bachmann observa com razão que, se o Apóstolo diz “réu do corpo e do sangue do Senhor”, e não apenas “réu perante o Senhor”, isto se deve ao fato de que, para Paulo, o pão-corpo e o cálice-sangue são realmente o Senhor, e não (meros) símbolos. O caráter realista da concepção paulina explica também as conseqüências que, aos olhos do Apóstolo, tem a comunhão indigna” (L’Eucharistie des origines à Justin martyr. Paris 1910, 178).

Eis, porém, que contra a interpretação acima parece levantar-se uma objeção por parte de 1 Cor 10, 16-21. Nesta passagem São Paulo parece comparar a Eucaristia com os sacrifícios não-cristãos, sacrifícios em que certamente não se admitia a real presença da Divindade sob os véus das carnes imoladas. Eis as palavras do Apóstolo:

“Porventura o cálice de benção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Já que há um só pão, nós todos, sendo muitos, constituímos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão. Considerai Israel segundo a carne: os que comem das vítimas não estão em comunhão com o altar? Mas que digo? Que a carne sacrificada aos ídolos é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa? (…). Mas o que se sacrifica aos demônios é sacrificado e não a Deus. Ora não quero que entreis em comunhão com os demônios. Não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”.

Que quer esta passagem dizer?

São Paulo intenciona proibir formalmente aos seus fiéis a participação nos banquetes rituais em que se comiam carnes imoladas aos ídolos. Em vista disto, alude a uma crença comumente professada nas antigas religiões: toda ceia ritual produz a união dos convivas entre si e com a Divindade, Divindade que os convivas julgavam estar presente em meio a eles (admitir alguém à sua mesa é um dos sinais mais eloquentes de amizade). Ora, diz o Apóstolo, tal comunhão com o Invisível se dá de fato nos banquetes religiosos pagãos, apenas com a ressalva alguma, é com os demônios ou espíritos maus que os pagãos contraem aliança, pois são os demônios que inspiram a idolatria (cf. Dt 32,17; Bar 4,7; S1 95,5). A comunhão se dá também nos sacrifícios judaicos, reconhece São Paulo, pois os israelitas, comendo parte das vítimas imoladas a Javé, entram no âmbito das coisas consagradas ao Senhor (cf. Dt 12,11s; 18,1-4; Hebr 13,10). Pois bem; a mesma concepção, o Apóstolo transpõe-na para a ceia dos cristãos ou a Eucaristia: a comunhão eucarística dá união com Cristo. Esta expressão, porém, não lhe parece suficiente para traduzir todo o mistério da Eucaristia, que, segundo se depreende, ultrapassa a realidade de qualquer rito não-cristão: é, em termos precisos, com  o corpo e o sangue de Cristo que os fiéis entram em contato (comunhão) quando recebem respectivamente o pão e o vinho eucarísticos. Trata-se, pois, de união com a Divindade não meramente espiritual ou mística (como ela se dá nos cultos não-cristãos), mas física, adquirida precisamente mediante o corpo e o sangue do Senhor recebidos como alimento. Nesse contexto parece merecer atenção especial o fato de que o Apóstolo afirma que o pão é a comunhão com o corpo de Cristo (não apenas a dá ou a representa) e, paralelamente, que o cálice é a comunhão… (não simplesmente a proporciona ou  simboliza).

Quanto ao fato de que o Apóstolo em 1 Cor 11,23-28 fala repetidamente de pão, referindo-se à Eucaristia, não quer dizer que negue a real presença do Senhor: embora as aparências de pão permaneçam as mesmas depois de proferidas as palavras da consagração (permanência que nos habilita a falar sempre de pão), São Paulo muito recomendava aos seus fiéis que discernissem do pão comum esse “pão” que é o Corpo (cf. 1 Cor 11,29).

Em conclusão, verifica-se que a real presença de Cristo na S. Eucaristia constitui uma proposição de fé frequentemente atestada pela Sagrada Escritura. A Tradição cristã, ininterruptamente desde a era dos Apóstolos, ensinou esse dogma e dele até hoje recebe sua vitalidade.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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