Filho da nação polaca

Origens e formação de Karol Wojtyla explicam muito sobre o seu pontificado

Bernand Lecomte

Dia 27 de Abril (2011) está disponível na Itália o nosso especial para a beatificação de João Paulo II para o qual foi escrito o artigo que antecipamos. O autor acabou de publicar Le Roman des papes. De la Révolution française à nos jours (Monaco, Éditions du Rocher, 2011, 253 páginas).

“Eis que os veneráveis cardeais elegeram um novo bispo de Roma! Chamaram-no de um país distante…”.
Na praça de São Pedro, naquele 18 de Outubro de 1978 a multidão irrompe em aplausos. Alguns minutos antes, da varanda da Bênção, o cardeal Pericle Felici anunciou o nome do eleito pelo conclave: “… cardinalem Wojtyla!”. Houve um momento de surpresa. Quem? Um africano? Não, um polaco!

O nome do arcebispo de Cracóvia era quase desconhecido. Mas a surpresa em si já era grande: o novo Papa não era italiano! O colégio dos cardeais tinha interrompido uma tradição antiga de cinco séculos. Só mais tarde, ao ver João Paulo II dando os seus primeiros passos como Papa, os observadores compreenderam que o novo bispo de Roma não é só um “não italiano”, mas é polaco.
 Karol Wojtyla nasceu na Polónia em Maio de 1920, na época em que o seu país tinha acabado de readquirir a independência depois de cento e vinte anos de ocupação estrangeira. Filho do capitão, Karol Wojtyla, crescido no culto de Jozef Pilsudski, o vencedor da batalha do Vístula em Agosto de 1920, o futuro Papa é imerso num clima de fervor patriótico e de entusiasmo nacional. “O meu país só sobreviveu graças à sua cultura”, dirá, sessenta anos mais tarde, num importante discurso na UNESCO. Ele, Polaco, sabe que a cultura não é o produto das forças económicas como afirmam os marxistas, mas da mente humana. E que a comunidade natural dos homens, a nação, é antes de tudo uma realidade cultural: “É pensando em todas as culturas”, acrescenta o Papa diante da prestigiosa plateia em Junho de 1980, “que quero dizer em voz alta aqui: “Eis o Homem”!”.

Não nos devemos admirar por ver este Papa pregar constantemente a realidade da nação, ao ponto de sugerir à ONU a elaboração de uma Carta dos direitos das Nações: “Não existem direitos do homem”, diz, “onde os direitos da nação são violados”. Não nos devemos admirar por ouvi-lo valorizar a história de cada nação, recordando a cada povo as suas raízes cristãs: quantos aniversários celebrou, os de santa Isabel (1981), são Casimiro (1984), são Metódio (1985), são Vladimiro (1988) e muitos outros, até ao baptismo da França por parte de Clodoveu (1996)!
Este Papa vindo de um país no qual o regime confiscou a história, não poupou esforços para recordar aos europeus que não deviam esconder as suas raízes cristãs. Assim em Santiago de Compostela em Novembro de 1982 disse: “Eu, Bispo de Roma e Pastor da Igreja universal, de Santiago, elevo o meu brado com amor a ti, antiga Europa: “Reencontra-te a ti mesma. Sê tu mesma”. Redescobre as tuas origens. Reaviva as tuas raízes. Volta a viver dos valores autênticos que tornaram gloriosa a tua história”. Era preciso que o Papa fosse “filho da nação polaca” para ousar fazer afirmações semelhantes.
 A Polónia não é um país como os outros. Na época em que o pequeno Karol cresceu em Wadowice, na Galícia ocidental, a Polónia era o país do mundo no qual havia mais judeus. A história da Europa decidiu assim. O seu melhor amigo, Zerzy Kluger, é judeu, como muitos dos seus companheiros de futebol ou de teatro: Goldberger, Selinger, Zweig, Beer e assim por diante. Quando a Polónia, depois da tomada do poder por parte dos coronéis em 1935, afunda no antissemitismo de Estado, Karol sofre os efeitos devastadores daquele veneno: piquetes diante das lojas judaicas, insultos, pogrom, numerus clausus na universidade, e outros. Em 1945, quando são libertados os presos do campo de concentração de Auschwitz, não distante de Cracóvia onde viveu durante toda a guerra, o jovem Wojtyla descobre, com horror, até que nível de loucura os nazistas chegaram com a baixeza e o ódio.

Não devemos admirar-nos por ver, depois da sua eleição em 1978, o Papa polaco iniciar um longo e difícil processo de reconciliação entre cristãos e judeus: visita à grande sinagoga de Roma em 1986, reconhecimento do Estado de Israel por parte do Vaticano, “arrependimento” em relação ao antijudaísmo cristão, viagem extraordinária a Jerusalém em 2000, com uma visita ao museu do Yad Vashem e uma oração diante do Muro das lamentações. A imagem deste Papa que insere numa brecha do muro uma oração pessoal, com a sua mão que já tremia, permanecerá certamente nos livros de história. Um Papa africano, italiano, brasileiro ou francês teria feito tantos esforços neste sentido? É preciso recordar que foi do grande poeta Mickiewicz, emblema da Polónia eterna, que João Paulo II tirou a expressão “irmãos maiores” com a qual se dirigiu aos judeus?
Outro estigma indelével desta Polónia com um destino tão trágico: a brutal invasão nazista de 1 de Setembro de 1939, que marcou o início da Segunda Guerra Mundial. Estudante na Universidade de Cracóvia, Karol foge para o leste, juntamente com o seu pai, mas os dois homens voltam para trás perante a Armada Russa, que, cúmplice de Hitler, acabou de invadir o seu desventurado país. De regresso a Cracóvia, o jovem Wojtyla vive na própria carne as deportações, as execuções, o terror quotidiano. Nenhum país sofreu cinco anos de atrocidades como a Polónia, que nesse arco de tempo perdeu um sexto dos seus filhos. O pai de Karol, perturbado e prostrado, não sobrevive: morre em Fevereiro de 1941.

Face a esta história dramática, podemos admirar-nos do facto que João Paulo II tenha decidido lutar com todas as suas forças, dia após dia, pela paz? Desde a sua primeira intervenção para evitar a guerra entre o Chile e a Argentina em 1979, até aos numerosos esforços feitos – em vão – para evitar a guerra entre os Estados Unidos e o Iraque em 2003, João Paulo II orientou todas as forças da Santa Sé para a defesa da paz. Envolveu até na sua luta os representantes de todas as religiões do mundo, em Assis, no Outono de 1986, num encontro inédito que permanecerá um tempo forte do seu pontificado.
E depois, logo que saiu dos horrores da guerra, a Polónia de Karol Wojtyla sofreu outro grande totalitarismo do século XX: o comunismo. Jovem sacerdote depois jovem bispo, Wojtyla esforça-se por não se intrometer na luta política, até quando toma conhecimento com estupefacção de que o governo polaco capturou e aprisionou o cardeal Stefan Wyszynski, primaz da Polónia. Mas a política apodera-se de novo dele: quando os habitantes do novo bairro Nowa Huta, na sua diocese, decidem construir uma igreja não obstante a oposição do partido comunista, em 1963, o bispo Wojtyla celebra ostentadamente uma missa à meia-noite em público!

Arcebispo e cardeal, o futuro João Paulo II forjou pouco a pouco uma verdadeira teologia dos direitos do homem, que coincidia com as aspirações de todos os que, no Leste, pensavam “de maneira diversa”, em particular os dissidentes.
É este homem que, a partir de 1978, multiplicará as palavras e os gestos a favor dos direitos do homem, começando pela sua primeira encíclica, Redemptor hominis, que redige pessoalmente, em polaco, e que é publicada a 4 de Março de 1979. Se fosse preciso resumir este importante texto em poucas palavras, elas seriam: “Prioridade ao homem!”. Ao próprio homem, ou seja a cada um de nós, ao homem real, encarnado, que deve ser, como repetirá muitas vezes, “o caminho da Igreja”. João Paulo II contará a seguir que “trazia em si” esta encíclica que reflectia “aquilo que já vivia desde o início do seu pontificado”.
Alguns meses mais tarde, em Junho de 1979, a primeira viagem no seu país natal, o que significa por detrás da cortina de ferro, é um verdadeiro terramoto naquela Europa que, como dirá, está acidentalmente “cortada em duas”. O apoio do Papa ao sindicato Solidarno, sobretudo depois da instauração do estado de guerra na Polónia, em Dezembro de 1981, depois as outras duas visitas pastorais que realiza em 1983 e em 1987, mas também a esperança que suscitou em todas as populações próximas da Europa oriental – incluída a Lituânia e a Ucrânia ocidental, no próprio coração da União soviética – farão do “Papa eslavo” um actor importante do processo que levou à queda do bloco comunista.

Sob este aspecto, foi com frequência criticada a João Paulo II a sua oposição à “teologia da libertação”, expressa em Puebla (México) precisamente no início daquele famoso ano de 1979. É preciso compreender bem que este Papa de evidente peso político nunca atraiçoou os opressores destes países, exigindo que as Igrejas locais se comprometessem corajosamente pela “opção preferencial pelos pobres”. O que o Papa polaco não podia aceitar era que algumas “comunidades de base” latino-americanas se infiltrassem, em nome do Evangelho, na ratoeira da luta de classes: que um dia, sacerdotes pudessem empunhar as armas contra alguns dos seus bispos acusados de frequentar demasiado de perto ditadores locais, eis o que era impensável para este Papa vindo do Leste.

Polaco, João Paulo II permaneceu-o até ao fim da sua vida. Se não tivesse sido formado no âmbito de uma Igreja tão dinâmica quão conservadora, teria prestado tanta atenção à conservação de tradições e ritos de outrora, como a procissão do Corpus Domini, o culto do Santíssimo Sacramento ou a recitação do Rosário? Teria sido tão decididamente contrário ao matrimónio dos sacerdotes ou ao sacerdócio das mulheres? Por fim, teria sido tão tenazmente apegado aos valores familiares tradicionais, tão radicados no seu país natal?
João Paulo II mostrou-se até ao fim fiel aos seus anos de formação e de sacerdócio. Manteve sempre com paixão o culto da Virgem Maria, querido ao coração de todos os polacos, a ponto de dedicar solenemente o seu pontificado, a Igreja e o mundo inteiro à Mãe de Deus. Foi à Virgem Maria de Kalwaria Zebrydowska que dirigiu as suas orações com o pai desde a infância, depois à de Kzlstochowa, tão querida a todos os seus conterrâneos, que reencontrará em Guadalupe, em Fátima, em Lourdes, e em todos aqueles santuários onde as suas viagens no mundo inteiro o levaram.

Outro aspecto original do seu pontificado é que beatificou e canonizou mais pessoas de quanto tenham feito todos os seus predecessores. A ideia muito moderna segundo a qual os santos são modelos para todas as nações do mundo vem-lhe claramente da sua juventude transcorrida na devoção a são José, a são João da Cruz, a são Luís Maria Grignon de Montfort – do qual tirou emprestado o seu mote Totus Tuus – e a tantas figuras prestigiosas da história da Igreja. Não é porventura um sinal da Providência que a beatificação deste Papa coincida com a recordação de santa Faustina Kowalska, a jovem polaca, encarnação da Misericórdia divina, que ele mesmo canonizou durante o Grande Jubileu do ano 2000?
Por fim, o maior paradoxo do longo pontificado de João Paulo II provém indubitavelmente da sua nacionalidade. Este pontífice tão orgulhoso das suas origens polacas e tão atento aos direitos das nações, justamente estimulou a Igreja católica a ser cada vez menos “romana” e sempre mais universal. Um Papa italiano, quaisquer que fossem as suas virtudes, teria podido encarnar a tal ponto a comunidade católica mundial, cujo centro de gravidade se situa hoje mais no hemisfério sul do que em volta do Mediterrâneo?

De sínodo em consistório, o Papa vindo da Polónia internacionalizou a Cúria de modo irreversível. Durante as suas viagens apostólicas fora de Roma – das quais mais de cem fora da Itália – transportou pessoalmente o governo da Igreja em todos os recantos do planeta. Depositário de uma cultura bimilenária, atento à unidade de uma comunidade de mais de um bilião de indivíduos, o primeiro Papa polaco da história fez entrar os católicos de todo o mundo no III milénio com a ideia de que a Igreja deve ser, como jamais o foi, a Igreja de todos os homens.

Fonte:
L’Osservatore Romano – 30 de Abril de 2011

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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