Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini do Papa Bento XVI (Parte 8)

Palavra de
Deus e Eucaristia

54. Quanto
foi dito de modo geral a respeito da relação entre Palavra e Sacramentos, ganha
maior profundidade aplicado à celebração eucarística. Aliás a unidade íntima
entre Palavra e Eucaristia está radicada no testemunho da Escritura (cf. Jo 6;
L?c 24), é atestada pelos Padres da
Igreja e reafirmada pelo Concílio
Vaticano II
.[191]
A este propósito, pensemos no grande discurso de Jesus sobre o pão da vida na
sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6, 22-69), que tem como pano de fundo o confronto
entre Moisés e Jesus, entre aquele que falou face a face com Deus (cf. Ex 33,
11) e aquele que revelou Deus (cf. Jo 1, 18). De facto, o discurso sobre o pão
evoca o dom de Deus que Moisés obteve para o seu povo com o maná no deserto,
que na realidade é a Torah, a Palavra de Deus que faz viver (cf. Sl 119; Pr 9,
5). Em Si mesmo, Jesus torna realidade esta figura antiga: «O pão de Deus é o
que desce do Céu e dá a vida ao mundo. (…) Eu sou o pão da vida» (Jo 6,
33.35). Aqui, «a Lei tornou-se Pessoa. Encontrando Jesus, alimentamo-nos por
assim dizer do próprio Deus vivo, comemos verdadeiramente o pão do céu».[192]
No discurso de Cafarnaum, aprofunda-se o Prólogo de João: se neste o Logos de
Deus Se faz carne, naquele a carne faz-Se «pão» dado para a vida do mundo (cf.
Jo 6, 51), aludindo assim ao dom que Jesus fará de Si mesmo no mistério da
cruz, confirmado pela afirmação acerca do seu sangue dado a «beber» (cf. Jo 6,
53). Assim, no mistério da Eucaristia, mostra-se qual é o verdadeiro maná, o
verdadeiro pão do céu: é o Logos de Deus que Se fez carne, que Se entregou a Si
mesmo por nós no Mistério Pascal.

A narração
de Lucas sobre os discípulos de Emaús permite-nos uma reflexão subsequente
acerca do vínculo entre a escuta da Palavra e a fracção do pão (cf. L?c 24, 13-35). Jesus foi ter com eles
no dia depois do sábado, escutou as expressões da sua esperança desiludida e,
acompanhando-os ao longo do caminho, «explicou-lhes, em todas as Escrituras,
tudo o que Lhe dizia respeito» (24, 27). Juntamente com este viajante que
inesperadamente se manifesta tão familiar às suas vidas, os dois discípulos
começam a ver as Escrituras de um novo modo. O que acontecera naqueles dias já
não aparece como um fracasso, mas cumprimento e novo início. Todavia, mesmo
estas palavras não parecem ainda suficientes para os dois discípulos. O
Evangelho de Lucas diz que «abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No» (24,
31) somente quando Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lho deu; antes,
«os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem» (24, 16). A presença de
Jesus, primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, tornou
possível aos discípulos reconhecê-Lo e apreciar de modo novo tudo o que tinham
vivido anteriormente com Ele: «Não estava o nosso coração a arder cá dentro,
quando Ele nos explicava as Escrituras?» (24, 32).

55. Vê-se a
partir destas narrações como a própria Escritura leva a descobrir o seu nexo
indissolúvel com a Eucaristia. «Por conseguinte, deve-se ter sempre presente
que a Palavra de Deus, lida e proclamada na liturgia pela Igreja, conduz, como
se de alguma forma se tratasse da sua própria finalidade, ao sacrifício da
aliança e ao banquete da graça, ou seja, à Eucaristia».[193]
Palavra e Eucaristia correspondem-se tão intimamente que não podem ser
compreendidas uma sem a outra: a Palavra de Deus faz-Se carne,
sacramentalmente, no evento eucarístico. A Eucaristia abre-nos à inteligência
da Sagrada Escritura, como esta, por sua vez, ilumina e explica o Mistério eucarístico.
Com efeito, sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia,
permanece incompleta a compreensão da Escritura. Por isso, «à palavra de Deus e
ao mistério eucarístico a Igreja tributou e quis e estabeleceu que, sempre e em
todo o lugar, se tributasse a mesma veneração embora não o mesmo culto. Movida
pelo exemplo do seu fundador, nunca cessou de celebrar o mistério pascal,
reunindo-se num mesmo lugar para ler, “em todas as Escrituras, aquilo que Lhe
dizia respeito” (L?c 24, 27) e
actualizar, com o memorial do Senhor e os sacramentos, a obra da salvação».[194]

A
sacramentalidade da Palavra

56. Com o
apelo ao carácter performativo da Palavra de Deus na acção sacramental e o
aprofundamento da relação entre Palavra e Eucaristia, somos introduzidos num
tema significativo, referido durante a Assembleia do Sínodo: a sacramentalidade
da Palavra.[195]
A este respeito é útil recordar que o Papa João Paulo
II
já aludira «ao horizonte sacramental da Revelação e, de forma
particular, ao sinal eucarístico, onde a união indivisível entre a realidade e
o respectivo significado permite identificar a profundidade do mistério».[196]
Daqui se compreende que, na origem da sacramentalidade da Palavra de Deus,
esteja precisamente o mistério da encarnação: «o Verbo fez-Se carne» (Jo 1,
14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na «carne» do Filho. A
Palavra de Deus torna-se perceptível à fé através do «sinal» de palavras e
gestos humanos. A fé reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e as
palavras com que Ele mesmo se nos apresenta. Portanto, o horizonte sacramental
da revelação indica a modalidade histórico-salvífica com que o Verbo de Deus
entra no tempo e no espaço, tornando-Se interlocutor do homem, chamado a
acolher na fé o seu dom.

Assim é
possível compreender a sacramentalidade da Palavra através da analogia com a
presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados.[197]
Aproximando-nos do altar e participando no banquete eucarístico, comungamos
realmente o corpo e o sangue de Cristo. A proclamação da Palavra de Deus na
celebração comporta reconhecer que é o próprio Cristo que Se faz presente e Se
dirige a nós[198]
para ser acolhido. Referindo-se à atitude que se deve adoptar tanto em relação
à Eucaristia como à Palavra de Deus, São Jerónimo afirma: «Lemos as Sagradas
Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas
Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e
beber o meu sangue” (Jo 6, 53), embora estas palavras se possam entender do
Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de
Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber
o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando
estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de
Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não
incorremos em grande perigo?».[199]
Realmente presente nas espécies do pão e do vinho, Cristo está presente, de
modo análogo, também na Palavra proclamada na liturgia. Por isso, aprofundar o
sentido da sacramentalidade da Palavra de Deus pode favorecer uma maior
compreensão unitária do mistério da revelação em «acções e palavras intimamente
relacionadas»,[200]
sendo de proveito à vida espiritual dos fiéis e à acção pastoral da Igreja.

A Sagrada
Escritura e o Leccionário

57. Ao
acentuar o nexo entre Palavra e Eucaristia, o Sínodo quis justamente evocar
também alguns aspectos da celebração inerentes ao serviço da Palavra. Quero
mencionar, em primeiro lugar, a importância do Leccionário. A reforma desejada
pelo Concílio
Vaticano II
[201]
mostrou os seus frutos, tornando mais rico o acesso à Sagrada Escritura que é
oferecida abundantemente sobretudo nas liturgias do domingo. A estrutura
actual, além de apresentar com frequência os textos mais importantes da Escritura,
favorece a compreensão da unidade do plano divino, através da correlação entre
as leituras do Antigo e do Novo Testamento, «centrada em Cristo e no seu
mistério pascal».[202]
Certas dificuldades que se sentem ao querer identificar as relações entre as
leituras dos dois Testamentos devem ser consideradas à luz da leitura canónica,
ou seja, da unidade intrínseca da Bíblia inteira. Onde se sentir a necessidade,
os organismos competentes podem prover à publicação de subsídios que tornem
mais fácil compreender o nexo entre as leituras propostas pelo Leccionário, que
devem ser todas proclamadas na assembleia litúrgica, como previsto pela
liturgia do dia. Eventuais problemas e dificuldades sejam assinalados à
Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

Além disso,
não devemos esquecer que o Leccionário actual do rito latino tem também um
significado ecuménico, visto que é utilizado e apreciado mesmo por confissões
em comunhão ainda não plena com a Igreja Católica. De modo diverso se apresenta
o problema do Leccionário nas liturgias das Igrejas Católicas Orientais, que o
Sínodo pede para ser «examinado com autoridade»[203]
segundo a tradição própria e as competências das Igrejas sui iuris e tendo em
conta também o contexto ecuménico.

Proclamação
da Palavra e ministério do leitorado

58. Na
assembleia sinodal sobre a Eucaristia, já se tinha pedido maior cuidado com a
proclamação da Palavra de Deus.[204]
Como é sabido, enquanto o Evangelho é proclamado pelo sacerdote ou pelo
diácono, a primeira e a segunda leitura na tradição latina são proclamadas pelo
leitor encarregado, homem ou mulher. Quero aqui fazer-me eco dos Padres
sinodais que sublinharam, também naquela circunstância, a necessidade de
cuidar, com uma adequada formação,[205]
o exercício da função de leitor na celebração litúrgica[206]
e de modo particular o ministério do leitorado que enquanto tal, no rito
latino, é ministério laical. É necessário que os leitores encarregados de tal
serviço, ainda que não tenham recebido a instituição no mesmo, sejam
verdadeiramente idóneos e preparados com empenho. Tal preparação deve ser não
apenas bíblica e litúrgica mas também técnica: «A formação bíblica deve levar
os leitores a saberem enquadrar as leituras no seu contexto e a identificarem o
centro do anúncio revelado à luz da fé. A formação litúrgica deve comunicar aos
leitores uma certa facilidade em perceber o sentido e a estrutura da liturgia
da Palavra e os motivos da relação entre a liturgia da Palavra e a liturgia
eucarística. A preparação técnica deve tornar os leitores cada vez mais idóneos
na arte de lerem em público tanto com a simples voz natural, como com a ajuda
dos instrumentos modernos de amplificação sonora».[207]

A
importância da homilia

59. «As
tarefas e funções que competem a cada um relativamente à Palavra de Deus são
diversas: aos fiéis compete ouvi-la e meditá-la, enquanto a sua exposição cabe
somente àqueles que, em virtude da Ordem sacra, receberam a tarefa do
magistério, ou àqueles a quem é confiado o exercício deste ministério»,[208]
ou seja, bispos, presbíteros e diáconos. Daqui se compreende a atenção
particular que, no Sínodo, foi dispensada ao tema da homilia. Já na Exortação
apostólica pós-sinodal Sacramentum
caritatis
, recordei como, «pensando na importância da palavra de Deus,
surge a necessidade de melhorar a qualidade da homilia; de facto, “esta
constitui parte integrante da acção litúrgica”, cuja função é favorecer uma
compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fiéis».[209]
A homilia constitui uma actualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal
modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra
de Deus no momento actual da sua vida. Aquela deve levar à compreensão do
mistério que se celebra; convidar para a missão, preparando a assembleia para a
profissão de fé, a oração universal e a liturgia eucarística. Consequentemente
aqueles que, por ministério específico, estão incumbidos da pregação tenham
verdadeiramente a peito esta tarefa. Devem-se evitar tanto homilias genéricas e
abstractas que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus, como inúteis
divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que para o
coração da mensagem evangélica. Deve resultar claramente aos fiéis que aquilo
que o pregador tem a peito é mostrar Cristo, que deve estar no centro de cada
homilia. Por isso, é preciso que os pregadores tenham familiaridade e contacto
assíduo com o texto sagrado;[210]
preparem-se para a homilia na meditação e na oração, a fim de pregarem com
convicção e paixão. A assembleia sinodal exortou a ter presente as seguintes
perguntas: «O que dizem as leituras proclamadas? O que dizem a mim
pessoalmente? O que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação
concreta?».[211]
O pregador deve deixar-se «interpelar primeiro pela Palavra de Deus que
anuncia»,[212]
porque – como diz Santo Agostinho – «seguramente fica sem fruto aquele que
prega exteriormente a Palavra de Deus sem a escutar no seu íntimo».[213]
Cuide-se, com atenção particular, a homilia dos domingos e solenidades; e mesmo
durante a semana nas Missas cum populo, quando possível, não se deixe de
oferecer breves reflexões, apropriadas à situação, para ajudar os fiéis a
acolherem e tornarem fecunda a Palavra escutada.

Conveniência
de um Directório homilético

60. Pregar
de modo adequado referindo-se ao Leccionário é verdadeiramente uma arte que
deve ser cultivada. Por isso, dando continuidade à solicitação feita no Sínodo
anterior,[214]
peço às autoridades competentes que, correlativamente ao Compêndio Eucarístico,[215]
se pense também em instrumentos e subsídios adequados para ajudar os ministros
a desempenhar da melhor forma possível a sua tarefa, como, por exemplo, um
Directório sobre a homilia, de modo que os pregadores possam encontrar nele uma
ajuda útil a fim de se prepararem no exercício do ministério. E depois, como
nos lembra São Jerónimo, a pregação deve ser acompanhada pelo testemunho da
própria vida: «Que as tuas acções não desmintam as tuas palavras, para que não
aconteça que, quando tu pregares na igreja, alguém comente no seu íntimo:
“Então porque é que tu não ages assim?” (.) No sacerdote de Cristo, devem estar
de acordo a mente e a palavra».[216]

Palavra de
Deus, Reconciliação e Unção dos Doentes

61. Embora
no centro da relação entre Palavra de Deus e Sacramentos esteja
indubitavelmente a Eucaristia, todavia é bom sublinhar a importância da Sagrada
Escritura também nos outros Sacramentos, particularmente nos Sacramentos de
cura: a Reconciliação ou Penitência e a Unção dos Doentes. Nestes Sacramentos,
muitas vezes é negligenciada a referência à Sagrada Escritura, quando, ao
contrário, é necessário dar-lhe o espaço que lhe compete. De facto, nunca se
deve esquecer que «a Palavra de Deus é palavra de reconciliação, porque nela
Deus reconcilia consigo todas as coisas (cf. 2 Cor 5, 18-20; Ef 1, 10). O
perdão misericordioso de Deus, encarnado em Jesus, reabilita o pecador».[217]
Pela Palavra de Deus, «o fiel é iluminado para poder conhecer os seus pecados e
é chamado à conversão e à confiança na misericórdia de Deus».[218]
Para que se aprofunde a força reconciliadora da Palavra de Deus, recomenda-se
que o indivíduo penitente se prepare para a confissão meditando um trecho
apropriado da Sagrada Escritura e possa começar a confissão com a leitura ou a
escuta de uma advertência bíblica, como aliás está previsto no próprio ritual.
Depois, ao manifestar a sua contrição, é bom que o penitente utilize «uma
oração composta de palavras da Sagrada Escritura»,[219]
prevista pelo ritual. Sempre que possível, seria bom que, em momentos
particulares do ano ou quando houver oportunidade, a confissão individual da
multidão de penitentes tenha lugar no âmbito de celebrações penitenciais, como
previsto pelo ritual, no respeito das várias tradições litúrgicas, para se
poder dar amplo espaço à celebração da Palavra com o uso de leituras
apropriadas.

Passando ao
sacramento da Unção dos Doentes, não se esqueça que «a força salutar da Palavra
de Deus é apelo vivo a uma conversão pessoal constante do próprio ouvinte».[220]
A Sagrada Escritura contém numerosas páginas de conforto, amparo e cura, que se
devem à intervenção de Deus. Em particular, recorde-se a atenção dada por Jesus
aos doentes e como Ele mesmo, Verbo de Deus encarnado, carregou as nossas dores
e sofreu por amor do homem, dando assim sentido à doença e à morte. É bom que,
nas paróquias e sobretudo nos hospitais, se celebre – desde que as
circunstâncias o permitam – o Sacramento dos Doentes de forma comunitária. Em
tais ocasiões, seja dado amplo espaço à celebração da Palavra e ajudem-se os
fiéis doentes a viver com fé a própria condição de sofrimento, em união com o
Sacrifício redentor de Cristo que nos liberta do mal.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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