Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini do Papa Bento XVI (Parte 1)

AO EPISCOPADO, AO CLERO

ÀS PESSOAS CONSAGRADAS

E AOS FIÉIS LEIGOS

SOBRE

A PALAVRA DE DEUS

NA VIDA E NA MISSÃO DA IGREJA

 

ÍNDICE

Introdução
[1]

Para que a
nossa alegria seja perfeita [2]
Da «Dei
Verbum
» ao Sínodo sobre a Palavra de Deus [3]
O Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus [4]
O Prólogo do Evangelho de João por guia [5]

I PARTE
VERBUM
DEI

O
Deus que fala

Deus em
diálogo [6]
Analogia da Palavra de Deus [7]
Dimensão cósmica da Palavra [8]
A criação do homem [9]
O realismo da Palavra [10]
Cristologia da Palavra [11-13]
Dimensão escatológica da Palavra de Deus [14]
A Palavra de Deus e o Espírito Santo [15-16]
Tradição e Escritura [17-18]
Sagrada Escritura, inspiração e verdade [19]
Deus Pai, fonte e origem da Palavra [20-21]

A
resposta do homem a Deus que fala

Chamados a
entrar na Aliança com Deus [22]
Deus escuta o homem e responde às suas perguntas [23]
Dialogar com Deus através das suas palavras [24]
A Palavra de Deus e a fé [25]
O pecado como não escuta da Palavra de Deus [26]
Maria «Mater Verbi Dei» e «Mater fidei» [27-28]

A
hermenêutica da Sagrada Escritura na Igreja

A Igreja,
lugar originário da hermenêutica da Bíblia [29-30]
«A alma da sagrada teologia» [31]
Desenvolvimento da investigação bíblica e Magistério eclesial [32-33]
A hermenêutica bíblica conciliar: uma indicação a acolher [34]
O perigo do dualismo e a hermenêutica secularizada [35]
Fé e razão na abordagem da Escritura [36]
Sentido literal e sentido espiritual [37]
A necessária superação da «letra» [38]
A unidade intrínseca da Bíblia [39]
A relação entre Antigo e Novo Testamento [40-41]
As páginas «obscuras» da Bíblia [42]
Cristãos e judeus, relativamente às Sagradas Escrituras [43]
A interpretação fundamentalista da Sagrada Escritura [44]
Diálogo entre Pastores, teólogos e exegetas [45]
Bíblia e ecumenismo [46]
Consequências sobre a organização dos estudos teológicos [47]
Os Santos e a interpretação da Escritura [48-49]

II PARTE
VERBUM
IN ECCLESIA

A
palavra de Deus e a Igreja

A Igreja
acolhe a Palavra [50]
Contemporaneidade de Cristo na vida da Igreja [51]

Liturgia,
lugar privilegiado da palavra de Deus

A Palavra
de Deus na sagrada Liturgia [52]
Sagrada Escritura e Sacramentos [53]
Palavra de Deus e Eucaristia [54-55]
A sacramentalidade da Palavra [56]
A Sagrada Escritura e o Leccionário [57]
Proclamação da Palavra e ministério do leitorado [58]
A importância da homilia [59]
Conveniência de um Directório homilético [60]
Palavra de Deus, Reconciliação e Unção dos Doentes [61]
Palavra de Deus e Liturgia das Horas [62]
Palavra de Deus e Cerimonial das Bênçãos [63]
Sugestões e propostas concretas para a animação litúrgica [64]
a) Celebrações da Palavra de Deus [65]
b) A Palavra e o silêncio [66]
c) Proclamação solene da Palavra de Deus [67]
d) A Palavra de Deus no templo cristão [68]
e) Exclusividade dos textos bíblicos na liturgia [69]
f) Canto litúrgico biblicamente inspirado [70]
g) Particular atenção aos cegos e aos surdos [71]

A
palavra de Deus na vida eclesial

Encontrar a
Palavra de Deus na Sagrada Escritura [72]
A animação bíblica da pastoral [73]
Dimensão bíblica da catequese [74]
Formação bíblica dos cristãos [75]
A Sagrada Escritura nos grandes encontros eclesiais [76]
Palavra de Deus e vocações [77]
a) Palavra de Deus e Ministros Ordenados [78-81]
b) Palavra de Deus e candidatos às Ordens Sacras [82]
c) Palavra de Deus e vida consagrada [83]
d) Palavra de Deus e fiéis leigos [84]
e) Palavra de Deus, matrimónio e família [85]
Leitura orante da Sagrada Escritura e «lectio divina» [86-87]
Palavra de Deus e oração mariana [88]
Palavra de Deus e Terra Santa [89]

III PARTE
VERBUM MUNDO

A
missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo

A Palavra
que sai do Pai e volta para o Pai [90]
Anunciar ao mundo o «Logos» da Esperança [91]
Da Palavra de Deus deriva a missão da Igreja [92]
A Palavra e o Reino de Deus [93]
Todos os baptizados responsáveis do anúncio [94]
A necessidade da «missio ad gentes» [95]
Anúncio e nova evangelização [96]
Palavra de Deus e testemunho cristão [97-98]

Palavra
de Deus e compromisso no mundo

Servir
Jesus nos seus «irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40) [99] 
Palavra de Deus e compromisso na sociedade pela justiça [100-101]
Anúncio da Palavra de Deus, reconciliação e paz entre os povos [102]
A Palavra de Deus e a caridade activa [103]
Anúncio da Palavra de Deus e os jovens [104]
Anúncio da Palavra de Deus e os migrantes [105]
Anúncio da Palavra de Deus e os doentes [106]
Anúncio da Palavra de Deus e os pobres [107]
Palavra de Deus e defesa da criação [108]

Palavra
de Deus e culturas

O valor da
cultura para a vida do homem [109]
A Bíblia como grande código para as culturas [110]
O conhecimento da Bíblia nas escolas e universidades [111]
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas [112]
Palavra de Deus e meios de comunicação social [113]
Bíblia e inculturação [114]
Traduções e difusão da Bíblia [115]
A Palavra de Deus supera os limites das culturas [116]

Palavra
de Deus e diálogo inter-religioso

O valor do
diálogo inter-religioso [117]
Diálogo entre cristãos e muçulmanos [118]
Diálogo com as outras religiões [119]
Diálogo e liberdade religiosa [120]

Conclusão

A palavra
definitiva de Deus [121]
Nova evangelização e nova escuta [122]
A Palavra e a alegria [123]
«Mater Verbi et Mater laetitiae» [124]

1. A palavra do senhor permanece
eternamente. E esta é a palavra do Evangelho que vos foi anunciada» (1 Pd 1,
25; cf. Is 40, 8). Com esta citação da Primeira Carta de São Pedro, que retoma
as palavras do profeta Isaías, vemo-nos colocados diante do mistério de Deus
que Se comunica a Si mesmo por meio do dom da sua Palavra. Esta Palavra, que
permanece eternamente, entrou no tempo. Deus pronunciou a sua Palavra eterna de
modo humano; o seu Verbo «fez-Se carne» (Jo 1, 14). Esta é a boa nova. Este é o
anúncio que atravessa os séculos, tendo chegado até aos nossos dias. A XII
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se efectuou no Vaticano de
5 a 26 de Outubro de 2008
, teve como tema A Palavra de Deus na vida e na
missão da Igreja. Foi uma experiência profunda de encontro com Cristo, Verbo do
Pai, que está presente onde dois ou três se encontram reunidos em seu nome (cf.
Mt 18, 20). Com esta Exortação apostólica pós-sinodal, acolho de bom grado o
pedido que me fizeram os Padres de dar a conhecer a todo o Povo de Deus a
riqueza surgida naquela reunião vaticana e as indicações emanadas do trabalho
comum.[1] Nesta linha,
pretendo retomar tudo o que foi elaborado pelo Sínodo, tendo em conta os
documentos apresentados: os Lineamenta,
o Instrumentum
laboris
, os Relatórios ante e post disceptationem e os textos das
intervenções, tanto os que foram lidos na sala como os apresentados in
scriptis, os Relatórios dos Círculos Menores e os seus debates, a Mensagem
final ao Povo de Deus
e sobretudo algumas propostas específicas (Propositiones),
que os Padres  consideraram de particular relevância. Desejo assim indicar
algumas linhas fundamentais para uma redescoberta, na vida da Igreja, da
Palavra divina, fonte de constante renovação, com a esperança de que a mesma se
torne cada vez mais o coração de toda a actividade eclesial.

Para que a
nossa alegria seja perfeita

2. Quero,
antes de mais nada, recordar a beleza e o fascínio do renovado encontro com o
Senhor Jesus que se experimentou nos dias da assembleia sinodal. Por isso,
fazendo-me eco dos Padres, dirijo-me a todos os fiéis com as palavras de São
João na sua primeira carta: «Nós vos anunciamos a vida eterna, que estava no
Pai e que nos foi manifestada – o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos,
para que também vós tenhais comunhão connosco. Quanto à nossa comunhão, ela é
com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo» (1 Jo 1, 2-3). O Apóstolo fala-nos de
ouvir, ver, tocar e contemplar (cf. 1 Jo 1, 1) o Verbo da Vida, já que a Vida
mesma se manifestou em
Cristo. E nós, chamados à comunhão com Deus e entre nós,
devemos ser anunciadores deste dom. Nesta perspectiva querigmática, a
assembleia sinodal foi um testemunho para a Igreja e para o mundo de como é
belo o encontro com a Palavra de Deus na comunhão eclesial. Portanto, exorto
todos os fiéis a redescobrirem o encontro pessoal e comunitário com Cristo,
Verbo da Vida que Se tornou visível, a fazerem-se seus anunciadores para que o
dom da vida divina, a comunhão, se dilate cada vez mais pelo mundo inteiro. Com
efeito, participar na vida de Deus, Trindade de Amor, é a alegria completa (cf.
1 Jo 1, 4). E é dom e dever imprescindível da Igreja comunicar a alegria que
deriva do encontro com a Pessoa de Cristo, Palavra de Deus presente no meio de
nós. Num mundo que frequentemente sente Deus como supérfluo ou alheio,
confessamos como Pedro que só Ele tem «palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Não
existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem actual o acesso a Deus, a
Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância
(cf. Jo 10, 10).

Da «Dei
Verbum
» ao Sínodo sobre a Palavra de Deus

3. Com a XII
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus
,
estamos conscientes de nos termos debruçado de certo modo sobre o próprio
coração da vida cristã, dando continuidade à assembleia sinodal anterior sobre
a Eucaristia como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. De facto, a
Igreja funda-se sobre a Palavra de Deus, nasce e vive dela.[2] Ao longo de
todos os séculos da sua história, o Povo de Deus encontrou sempre nela a sua
força, e também hoje a comunidade eclesial cresce na escuta, na celebração e no
estudo da Palavra de Deus. Há que reconhecer que, nas últimas décadas, a vida
eclesial aumentou a sua sensibilidade relativamente a este tema, com particular
referência à Revelação cristã, à Tradição viva e à Sagrada Escritura. Pode-se
afirmar que, a partir do pontificado do Papa Leão XIII,
houve um crescendo de intervenções visando suscitar maior consciência da
importância da Palavra de Deus e dos estudos bíblicos na vida da Igreja,[3] que teve o seu
ponto culminante no Concílio
Vaticano II
, de modo especial com a promulgação da Constituição dogmática
sobre a Revelação divina Dei
Verbum
. Esta representa um marco miliário no caminho da Igreja. «Os Padres
Sinodais (.) reconhecem, com ânimo agradecido, os grandes benefícios que este
documento trouxe à vida da Igreja a nível exegético, teológico, espiritual,
pastoral e ecuménico».[4] De modo
particular cresceu, nestes anos, a consciência do «horizonte trinitário e
histórico-salvífico da Revelação»[5] em que se deve
reconhecer Jesus Cristo como «o mediador e a plenitude de toda a Revelação».[6] A Igreja
confessa, incessantemente, a cada geração que Ele, «com toda a sua presença e
manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e
sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição e, enfim, com o envio do Espírito
de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a
Revelação».[7]

É de conhecimento
geral o grande impulso dado pela Constituição dogmática Dei
Verbum
à redescoberta da Palavra de Deus na vida da Igreja, à reflexão
teológica sobre a Revelação divina e ao estudo da Sagrada Escritura. E
numerosas foram também as intervenções do Magistério eclesial sobre estas
matérias nos últimos quarenta anos.[8] A Igreja,
ciente da continuidade do seu próprio caminho sob a guia do Espírito Santo, com
a celebração deste Sínodo sentiu-se chamada a aprofundar ainda mais o tema da
Palavra divina, seja para verificar a realização das indicações conciliares
seja para enfrentar os novos desafios que o tempo presente coloca a quem
acredita em Cristo.

O Sínodo
dos Bispos sobre a Palavra de Deus

4. Na XII
Assembleia sinodal
, Pastores vindos de todo o mundo congregaram-se ao redor
da Palavra de Deus, colocando simbolicamente no centro da Assembleia o texto da
Bíblia, para redescobrirem algo que nos arriscamos de dar por adquirido no
dia-a-dia: o facto de que Deus fale e responda às nossas perguntas.[9] Juntos
escutámos e celebrámos a Palavra do Senhor. Narrámos uns aos outros aquilo que
o Senhor está a realizar no Povo de Deus, partilhando esperanças e
preocupações. Tudo isto nos tornou conscientes de que só podemos aprofundar a
nossa relação com a Palavra de Deus dentro do «nós» da Igreja, na escuta e no
acolhimento recíproco. Daqui nasce a gratidão pelos testemunhos sobre a vida
eclesial nas diversas partes do mundo, surgidos nas várias intervenções feitas
na sala. Ao mesmo tempo foi comovedor também ouvir os Delegados Fraternos, que
aceitaram o convite para participar no encontro sinodal. Penso de modo
particular na meditação que nos ofereceu Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca
Ecuménico de Constantinopla, pela qual os Padres sinodais exprimiram profunda
gratidão.[10]
Além disso, pela primeira vez, o Sínodo dos Bispos quis convidar também um
Rabino, que nos deu um testemunho precioso sobre as Sagradas Escrituras
judaicas; estas são precisamente uma parte das nossas Sagradas Escrituras.[11]

Pudemos
assim constatar, com alegria e gratidão, que «na Igreja há um Pentecostes
também hoje, ou seja, que ela fala em muitas línguas; e isto não só no sentido
externo de estarem nela representadas todas as grandes línguas do mundo mas
também, e mais profundamente, no sentido de que nela estão presentes os
variados modos da experiência de Deus e do mundo, a riqueza das culturas, e só
assim se manifesta a vastidão da existência humana e, a partir dela, a vastidão
da Palavra de Deus».[12]
Além disso, pudemos constatar também um Pentecostes ainda a caminho; vários
povos aguardam ainda que seja anunciada a Palavra de Deus na sua própria língua
e cultura.

Como
não recordar também que, durante todo o Sínodo, nos acompanhou o testemunho do
Apóstolo Paulo? De facto, foi providencial que a XII
Assembleia Geral Ordinária
se tenha realizado precisamente dentro do ano
dedicado à figura do grande Apóstolo das Nações, por ocasião do bimilenário do
seu nascimento.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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