Exortação Apostólica Familiaris Consortio – Papa João Paulo II (Parte 2)

SEGUNDA PARTE

O DESÍGNIO DE DEUS SOBRE O
MATRIMÓNIO
E SOBRE A FAMÍLIA

O homem imagem de Deus Amor

11. Deus criou o homem à sua
imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo
ao amor.

Deus é amor e vive em si
mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e
conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da
mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da
comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano.

Enquanto espírito encarnado,
isto é, alma que se exprime no corpo informado por um espírito imortal, o homem
é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor abraça também o corpo
humano e o corpo torna-se participante do amor espiritual.

A Revelação cristã conhece
dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade
ao amor: o Matrimónio e a Virgindade. Quer um quer outro, na sua respectiva
forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu
«ser à imagem de Deus».

Por consequência a
sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os
actos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente
biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Esta
realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do
amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à
morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação
pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está
presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir
de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente.

Esta totalidade, pedida pelo
amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável,
que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua
própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores
pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde
contributo dos pais.

O «lugar» único, que torna
possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio, ou seja o
pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a
mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio
Deus, que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição
matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a
imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor
conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja
vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de
mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em
relação ao subjectivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria
Criadora.

O matrimônio e a comunhão
entre Deus e os homens

12. A comunhão de amor entre Deus e os homens, conteúdo
fundamental da Revelação e da experiência de fé de Israel, encontra uma sua
significativa expressão na aliança nupcial, que se instaura entre o homem e a
mulher.

É por isto que a palavra
central da Revelação, «Deus ama o seu povo», é também pronunciada através das
palavras vivas e concretas com que o homem e a mulher se declaram o seu amor
conjugal. O seu vínculo de amor torna-se a imagem e o símbolo da Aliança que
une Deus e o seu povo. E o mesmo pecado, que pode ferir o pacto conjugal,
torna-se imagem da infidelidade do povo para com o seu Deus: a idolatria é
prostituição, a infidelidade é adultério, a desobediência à lei é abandono do
amor nupcial para com o Senhor. Mas a infidelidade de Israel não destrói a
fidelidade eterna do Senhor e, portanto, o amor sempre fiel de Deus põe-se como
exemplar das relações do amor fiel que devem existir entre os esposos.

Jesus Cristo, esposo da
Igreja, e o sacramento do matrimônio

13. A comunhão entre Deus e os homens encontra o seu definitivo
cumprimento em Jesus
Cristo, o Esposo que ama e se doa como Salvador da
humanidade, unindo-a a Si como seu corpo.

Ele revela a verdade
originária do matrimónio, a verdade do «princípio» e, libertando o homem da
dureza do seu coração, torna-o capaz de a realizar inteiramente.

Esta revelação chega à sua
definitiva plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade,
assumindo a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de si mesmo
sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício descobre-se
inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da
mulher, desde a sua criação; o matrimónio dos baptizados torna-se assim o
símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O
Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher
capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela
plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o
modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver
a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz.

Numa página merecidamente
famosa, Tertuliano exprimia bem a grandeza e a beleza desta vida conjugal em
Cristo: «Donde me será dado expor a felicidade do matrimónio unido pela Igreja,
confirmado pela oblação eucarística, selado pela bênção, que os anjos anunciam
e o Pai ratifica? … Qual jugo aquele de dois fiéis numa única esperança, numa
única observância, numa única servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem
divisão quanto ao espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa
só carne e donde a carne é única, único é o espírito».

Acolhendo e meditando
fielmente a Palavra de Deus, a Igreja tem solenemente ensinado e ensina que o
matrimónio dos baptizados é um dos sete sacramentos da Nova Aliança.

De facto, mediante o
baptismo, o homem e a mulher estão definitivamente inseridos na Nova e Eterna
Aliança, na Aliança nupcial de Cristo com a Igreja. E é em razão desta
indestrutível inserção que a íntima comunidade de vida e de amor conjugal,
fundada pelo Criador, é elevada e assumida pela caridade nupcial de Cristo,
sustentada e enriquecida pela sua força redentora.

Em virtude da
sacramentalidade do seu matrimónio, os esposos estão vinculados um ao outro da
maneira mais profundamente indissolúvel. A sua pertença recíproca é a
representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo
com a Igreja.

Os esposos são portanto para
a Igreja o chamamento permanente daquilo que aconteceu sobre a Cruz; são um
para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação da qual o sacramento os
faz participar. Deste acontecimento de salvação, o matrimónio como cada
sacramento, é memorial, actualização e profecia: «Enquanto memorial, o
sacramento dá-lhes a graça e o dever de recordar as grandes obras de Deus e de
as testemunhar aos filhos; enquanto actualização, dá-lhes a graça e o dever de
realizar no presente, um para com o outro e para com os filhos, as exigências
de um amor que perdoa e que redime; enquanto profecia dá-lhes a graça e o dever
de viver e de testemunhar a esperança do futuro encontro com Cristo».

Como cada um dos sete
sacramentos, também o matrimónio é um símbolo real do acontecimento da
salvação, mas de um modo próprio. «Os esposos participam nele enquanto esposos,
a dois como casal, a tal ponto que o efeito primeiro e imediato do matrimónio
(res et sacramentum) não é a graça sacramental propriamente, mas o vínculo
conjugal cristão, uma comunhão a dois tipicamente cristã porque representa o
mistério da Encarnação de Cristo e o seu Mistério de Aliança. E o conteúdo da
participação na vida de Cristo é também específico: o amor conjugal comporta
uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa – chamada do corpo
e do instinto, força do sentimento e da afectividade, aspiração do espírito e
da vontade – ; o amor conjugal dirige-se a uma unidade profundamente pessoal,
aquela que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração
e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação
recíproca definitiva e abre-se à fecundidade (cfr. Enciclica Humanae Vitae, n.
9). Numa palavra, trata-se de características normais do amor conjugal natural,
mas com um significado novo que não só as purifica e as consolida, mas eleva-as
a ponto de as tornar a expressão dos valores propriamente cristãos».

Os filhos, dom preciosíssimo
do matrimônio

14. Segundo o desígnio de
Deus, o matrimónio é o fundamento da mais ampla comunidade da família, pois que
o próprio instituto do matrimónio e o amor conjugal se ordenam à procriação e
educação da prole, na qual encontram a sua coroação.

Na sua realidade mais
profunda, o amor é essencialmente dom e o amor conjugal, enquanto conduz os
esposos ao «conhecimento» recíproco que os torna «uma só carne», não se esgota
no interior do próprio casal, já que os habilita para a máxima doação possível,
pela qual se tornam cooperadores com Deus no dom da vida a uma nova pessoa
humana. Deste modo os cônjuges, enquanto se doam entre si, doam para além de si
mesmo a realidade do filho, reflexo vivo do seu amor, sinal permanente da
unidade conjugal e síntese viva e indissociável do ser pai e mãe.

Tornando-se pais, os esposos
recebem de Deus o dom de uma nova responsabilidade. O seu amor paternal é
chamado a tornar-se para os filhos o sinal visível do próprio amor de Deus, «do
qual deriva toda a paternidade no céu e na terra».

Não deve todavia esquecer-se
que, mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a vida conjugal
perde o seu valor. A esterilidade física, de facto, pode ser para os esposos
ocasião de outros serviços importantes à vida da pessoa humana, como por
exemplo a adopção, as várias formas de obras educativas, a ajuda a outras
famílias, às crianças pobres ou deficientes.

A família, comunhão de
pessoas

15. No matrimónio e na
família constitui-se um complexo de relações interpessoais – vida conjugal,
paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa
humana é introduzida na «família humana» e na «família de Deus», que é a
Igreja.

O matrimónio e a família dos
cristãos edificam a Igreja: na família, de facto, a pessoa humana não só é
gerada e progressivamente introduzida, mediante a educação, na comunidade
humana, mas mediante a regeneração do baptismo e a educação na fé, é
introduzida também na família de Deus, que é a Igreja.

A família humana,
desagregada pelo pecado, é reconstituída na sua unidade pela força redentora da
morte e ressurreição de Cristo. O matrimónio cristão, partícipe da eficácia
salvífica deste acontecimento, constitui o lugar natural onde se cumpre a
inserção da pessoa humana na grande família da Igreja.

O mandato de crescer e de
multiplicar-se, dirigido desde o princípio ao homem e à mulher, atinge desta
maneira a sua plena verdade e a sua integral realização.

A Igreja encontra assim na
família, nascida do sacramento, o seu berço e o lugar onde pode actuar a
própria inserção nas gerações humanas, e estas, reciprocamente, na Igreja.

Matrimônio e virgindade

16. A virgindade e o celibato pelo Reino de Deus não só
não contradizem a dignidade do matrimónio, mas a pressupõem e confirmam. O
matrimónio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único
Mistério da Aliança de Deus com o seu povo. Quando não se tem apreço pelo
matrimónio, não tem lugar a virgindade consagrada; quando a sexualidade humana
não é considerada um grande valor dado pelo Criador, perde significado a
renúncia pelo Reino dos Céus.

De modo muito justo diz S.
João Crisóstomo: «Quem condena o matrimónio, priva a virgindade da sua glória;
pelo contrário, quem o louva, torna a virgindade mais admirável e esplendente.
O que parece um bem apenas quando comparado ao mal, não é pois um grande bem;
mas o que é melhor do que aquilo que todos consideram bom, é certamente um bem
em grau superlativo»

Na virgindade o homem está
inclusive corporalmente em atitude de espera, pelas núpcias escatológicas de
Cristo com a Igreja, dando-se integralmente à Igreja na esperança de que Cristo
se lhe doe na plena verdade da vida eterna. A pessoa virgem antecipa assim na
sua carne o mundo novo da ressurreição futura.

Por força deste testemunho,
a virgindade mantém viva na Igreja a consciência do mistério do matrimónio e
defende-o de todo o desvio e de todo o empobrecimento.

Tornando livre de um modo
especial o coração humano, «de forma a inebriá-lo muito mais de caridade para
com Deus e para com todos os homens», a virgindade testemunha que o Reino de
Deus e a sua justiça são aquela pérola preciosa que é preferida a qualquer
outro valor, mesmo que seja grande, e, mais ainda, é procurada como o único
valor definitivo. É por isso que a Igreja, durante toda a sua história,
defendeu sempre a superioridade deste carisma no confronto com o do matrimónio,
em razão do laço singular que ele tem com o Reino de Deus.

Embora tendo renunciado à
fecundidade física, a pessoa virgem torna-se espiritualmente fecunda, pai e mãe
de muitos, cooperando na realização da família segundo o desígnio de Deus.

Os esposos cristãos têm
portanto o direito de esperar das pessoas virgens o bom exemplo e o testemunho
da fidelidade à sua vocação até à morte. Como para os esposos a fidelidade se
torna às vezes difícil e exige sacrifício, mortificação e renúncia, também o
mesmo pode acontecer às pessoas virgens. A fidelidade destas, mesmo na provação
eventual, deve edificar a fidelidade daqueles.

Estas reflexões sobre a
virgindade podem iluminar e ajudar os que, por motivos independentes da sua
vontade, não se puderam casar e depois aceitaram a sua situação em espírito de
serviço.

TERCEIRA PARTE

OS DEVERES DA FAMÍLIA CRISTÃ

Família, torna-te aquilo que
és!

17. No plano de Deus Criador
e Redentor a família descobre não só a sua «identidade», o que «é», mas também
a sua «missão», o que ela pode e deve «fazer». As tarefas, que a família é
chamada por Deus a desenvolver na história, brotam do seu próprio ser e
representam o seu desenvolvimento dinâmico e existencial. Cada família descobre
e encontra em si mesma o apelo inextinguível, que ao mesmo tempo define a sua
dignidade e a sua responsabilidade: família, «torna-te aquilo que és»!

Voltar ao «princípio» do
gesto criativo de Deus é então uma necessidade para a família, se se quiser
conhecer e realizar segundo a verdade interior não só do seu ser mas também do
seu agir histórico. E porque, segundo o plano de Deus, é constituída qual
«íntima comunidade de vida e de amor», a família tem a missão de se tornar cada
vez mais aquilo que é, ou seja, comunidade de vida e de amor, numa tensão que,
como para cada realidade criada e redimida, encontrará a plenitude no Reino de
Deus. E numa perspectiva que atinge as próprias raízes da realidade, deve
dizer-se que a essência e os deveres da família são, em última análise,
definidos pelo amor. Por isto é-lhe confiada a missão de guardar, revelar e
comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação real do amor de Deus pela
humanidade e do amor de Cristo pela Igreja, sua esposa.

Cada dever particular da
família é a expressão e a actuação concreta de tal missão fundamental. É
necessário, portanto, penetrar mais profundamente na riqueza singular da missão
da família e sondar os seus conteúdos numerosos e unitários.

Em tal sentido, partindo do
amor e em permanente referência a ele, o recente Sínodo pôs em evidência quatro
deveres gerais da família:

1) a formação de uma
comunidade de pessoas;

2) o serviço à vida;

3) a participação no
desenvolvimento da sociedade;

4) a participação na vida e
na missão da Igreja.

I – A FORMAÇÃO DE UMA
COMUNIDADE DE PESSOAS

O amor, princípio e força de
comunhão

18. A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma
comunidade de pessoas: dos esposos, homem e mulher, dos pais e dos filhos, dos
parentes. A sua primeira tarefa é a de viver fielmente a realidade da comunhão
num constante empenho por fazer crescer uma autêntica comunidade de pessoas.

O princípio interior, a
força permanente e a meta última de tal dever é o amor: como, sem o amor, a
família não é uma comunidade de pessoas, assim, sem o amor, a família não pode
viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas. Quanto escrevi na
Encíclica Redemptor Hominis encontra, exactamente na familía como tal, a sua
aplicação originária e privilegiada: «O homem não pode viver sem amor. Ele
permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de
sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se
não o experimenta e se não o torna algo próprio, se nele não participa
vivamente».

O amor entre o homem e a
mulher no matrimónio e, de forma derivada e ampla, o amor entre os membros da
mesma família – entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, entre parentes e
familiares – é animado e impelido por um dinamismo interior e incessante, que
conduz a família a uma comunhão sempre mais profunda e intensa, fundamento e
alma da comunidade conjugal e familiar.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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