Exortação Apostólica Familiaris Consortio – Papa João Paulo II (Parte 10)

II – ESTRUTURAS DA PASTORAL
FAMILIAR

A acção pastoral é sempre
expressão dinamica da realidade da Igreja, empenhada na missão de salvação.
Também a pastoral familiar – forma particular e específica da pastoral – tem
como seu principio operativo e como protagonista responsável a mesma Igreja,
através das suas estruturas e dos seus responsáveis.

A comunidade eclesial e a
paróquia em particular

70. Sendo ao mesmo tempo
comunidade salva e salvadora, a Igreja deve considerar-se aqui na sua dupla
dimensão universal e particular: esta exprime-se e actua-se na comunidade
diocesana, pastoralmente dividida em comunidades menores entre as quais se
distingue, pela sua importância peculiar, a paróquia.

A comunhão com a Igreja
universal não mortifica, mas garante e promove a consistência e originalidade
das diversas Igrejas particulares; estas últimas são o sujeito operativo mais
imediato e mais eficaz para a actuação da pastoral familiar. Em tal sentido
cada Igreja local e, em termos mais particularizados, cada comunidade
paroquial, deve ter consciência mais viva da graça e da responsabilidade que
recebe do Senhor em ordem a promover a pastoral da família. Nenhum plano de
pastoral organica, a qualquer nível que seja, pode prescindir da pastoral da
família.

À luz de tal
responsabilidade deve compreender-se também a importância de uma adequada
preparação da parte de quantos estarão mais especificamente empenhados neste
género de apostolado. Os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, desde o
tempo de formação, sejam orientados e formados de maneira progressiva e
adequada para os respectivos deveres. Entre outras iniciativas alegro-me de
poder sublinhar a recente criação em Roma, na Pontifícia Universidade
Lateranense, de um Instituto Superior consagrado ao estudo dos problemas da
família. Já em algumas dioceses foram fundados Institutos deste género: Os
bispos empenhem-se para que o maior número possivel de sacerdotes, antes de
assumirem responsabilidades paroquiais, frequente cursos especializados.
Noutras partes realizam-se periodicamente cursos de formação em Institutos Superiores
de estudos Teológicos e Pastorais. Tais iniciativas são de encorajar,
sustentar, multiplicar e abrir obviamente também aos leigos que desempenharão o
seu trabalho profissional (médico, legal, psicológico, social e educativo) de
ajuda à família.

A família

71. Mas deve sobretudo
reconhecer-se o lugar especial que, neste campo, compete à missão dos cônjuges
e das famílias cristãs, em virtude da graça recebida no sacramento. Tal missão
deve ser posta ao serviço da edificação da Igreja, da construção do Reino de
Deus na história. Isto é pedido como acto de obediência dócil a Cristo Senhor
Com efeito, Ele, pela força do matrimónio dos baptizados elevado a sacramento,
confere aos esposos cristãos uma missão peculiar de apóstolos, enviando-os como
operários para a sua vinha, e, de forma muito particular, para este campo da
família.

Na sua actividade eles agem
em comunhão e colaboração com os outros membros da Igreja, que também trabalham
para a família, pondo a render os seus dons e ministérios. Tal apostolado de
senvolver-se-á antes de tudo no seio da própria família, com o testemunho da
vida vivida em conformidade com a lei divina em todos os aspectos, com a
formação cristã dos filhos, com a ajuda dada ao seu amadurecimento na fé, com a
educação à castidade, com a preparação para a vida, com a vigilancia para os
preservar dos perigos ideológicos e morais de que são muitas vezes ameaçados,
com a sua gradual e responsável inserção na comunidade eclesial e na civil, com
a assistência e o conselho na escolha da vocação, com a mútua ajuda entre os
membros da família para um comum crescimento humano e cristão, e assim por
diante. O apostolado da família irradiar-se-á com obras de caridade espiritual
e material para com as outras famílias, especialmente aquelas mais necessitadas
de ajuda e de amparo, para com os pobres, os doentes, os mais velhos, os
deficientes, os órfãos, as viúvas, os cônjuges abandonados, as mães solteiras e
aquelas que em situações difíceis são tentadas a desfazerem-se do fruto do seu
seio, etc.

As associações de famílias
ao serviço das famílias

72. Sempre no âmbito da
Igreja, responsável pela pastoral familiar, são para lembrar as diversas
associações de fiéis, nas quais se manifesta e se vive de algum modo o mistério
da Igreja de Cristo. Devem, portanto reconhecer-se e valorizar-se – cada uma em
relação às características, finalidades, influxo e métodos próprios – as
diversas comunidades eclesiais, os vários grupos, e os numerosos movimentos
empenhados de modo vário, a diversos títulos e a diversos níveis, na pastoral
familiar.

Por este motivo o Sínodo
reconheceu expressamente a utilidade de tais associações de espiritualidade, de
formação e de apostolado. Será seu dever suscitar nos fiéis um vivo sentido de
solidariedade, favorecer uma conduta de vida inspirada no Evangelho e na fé da
Igreja, formar as conciências segundo os valores cristãos e não de acordo com
os parametros da opinião pública, estimular para as obras de caridade mútua e
para com os outros com um espírito de abertura, que faça das famílias cristãs
uma verdadeira fonte de luz e um fermento sadio para as demais.

Igualmente é desejável que,
com um sentido vivo do bem comum, as famílias cristãs se empenhem activamente a
todos os níveis, mesmo com outras associações não eclesiais. Algumas destas
associações visam a preservação, transmissão e tutela dos sãos valores éticos e
culturais de cada povo, o desenvolvimento da pessoa humana, a protecção médica,
jurídica e social da maternidade e da infancia, a justa promoção da mulher e a
luta contra o que calca a sua dignidade, o incremento da solidariedade mútua, o
conhecimento dos problemas conexos com a regulação responsável da fecundidade
segundo os métodos naturais conformes à dignidade humana e à doutrina da
Igreja. Outras têm em vista a construção de um mundo mais justo e mais humano,
a promoção de leis justas que favoreçam a recta ordem social no respeito pleno
da dignidade e da legítima liberdade do indivíduo e da família, a nível
nacional ou internacional, a colaboração com a escola e com as outras
instituições que completam a educação dos filhos, e assim sucessivamente.

III – OS RESPONSÁVEIS DA
PASTORAL FAMILIAR

Para além da família – objecto,
mas sobretudo ela mesma sujeito da pastoral familiar – devem recordar-se
também, os outros principais responsáveis neste sector particular.

Bispos e presbíteros

73. O primeiro responsável
da pastoral familiar na diocese é o bispo. Como Pai e Pastor, ele deve estar
atento de um modo particular a este sector da pastoral, sem dúvida prioritário.
Deve consagrar-lhe uma grande dedicação, solicitude, tempo, pessoal, recursos;
sobretudo, porém, apoio pessoal às famílias e a quantos, nas diversas estruturas
diocesanas, o ajudam na pastoral da família. Empenhar-se-á particularmente no
propósito de fazer com que a sua diocese se torne sempre mais uma verdadeira
«família diocesana» modelo e fonte de esperança para tantas famílias que a
integram. A criação do Conselho Pontifício para a Família está neste contexto:
sinal da importância que atribuo à pastoral da família no mundo, e ao mesmo
tempo in strumento eficaz de aj uda à su a promoção em todos os níveis.

Os bispos são auxiliados de
modo particular pelos presbíteros, cuja missão – como expressamente sublinhou o
Sínodo – integra essencialmente o ministério da Igreja para com o matrimónio e
a família. O mesmo se diga dos diáconos, aos quais eventualmente venha a ser
confiado este sector da pastoral.

A sua responsabilidade
estende-se não só aos problemas morais e litúrgicos, mas também aos pessoais e
sociais. Devem sustentar a família nas suas dificuldades e sofrimentos,
pondo-se ao lado dos seus membros, ajudando-os a ver a vida à luz do Evangelho.
Não é supérfluo notar que, se tal missão for exercida com o devido
discernimento e com um verdadeiro espírito apostólico, o ministro da Igreja
recebe novos estímulos e energias espirituais mesmo para a própria vocação e
para o exercício do seu ministério.

Oportuna e seriamente
preparados para tal apostolado, o sacerdote ou o diácono devem portar-se
constantemente, em relação às famílias, como pai, irmão, pastor e mestre,
ajudando-as com os dons da graça e iluminando-as com a luz da verdade. O seu
ensinamento e os seus conselhos, portanto, deverão estar sempre em plena
consonancia com o Magistério autêntico da Igreja, de modo a ajudar o Povo de
Deus a formar-se um recto sentido da fé a aplicar à vida concreta. Tal
fidelidade ao Magistério permitirá também aos sacerdotes procurar
empenhadamente a unidade nos seus juízos, para evitarem ansiedades na
consciência dos fiéis.

Pastores e leigos
participam, na Igreja, da missão profética de Cristo: os leigos, testemunhando
a fé com palavras e com a vida cristã; os pastores, discernindo em tal
testemunho o que é expressão da fé genuína e o que não corresponde
originalmente à luz da mesma fé; a família, enquanto comunidade cristã, com a
sua participação peculiar e testemunho de fé. Pode estabelecer-se assim um
diálogo entre os pastores e as famílias. Os teólogos e os peritos em problemas
familiares podem ajudar muito a tal diálogo, explicando com exactidão o
conteúdo do Magistério da Igreja e o da experiência da vida em família. Desta
maneira a ensinamento do Magistério será melhor compreendido e será aplanada a
estrada para o seu progressivo desenvolvimento. Convém contudo recordar que a
norma próxima e obrigatória na doutrina da fé – mesmo sobre os problemas da
família – compete ao Magistério hierárquico. A clareza de relações entre
teólogos, peritos de problemas familiares e o Magistério ajudam muito a uma
recta inteligência da fé e à promoção – dentro dos seus próprios limites – do
legítimo pluralismo.

Religiosos e religiosas

74. O contributo que os
religiosos e as re]igiosas, e as almas consagradas em geral, podem dar ao
apostolado da família encontra a primeira, fundamental e original expressão
exactamente na consagraçao a Deus que os torna «diante de todos os fiéis…
chamada daquele admirável conúbio realizado por Deus e que se manifestará
plenamente no século futuro, pelo que a Igreja tem Cristo como único esposo», e
testemunhas daquela caridade universal que por meio da castidade abraçada pelo
Reino dos céus, os torna sempre mais disponíveis para se dedicarem generosamente
ao serviço divino e às obras do apostolado.

Daqui a possibilidade de que
os religiosos e as religiosas, membros de Institutos seculares e de outros
Institutos de perfeição, singularmente ou associados, desenvolvam um serviço
seu às famílias, com solicitude particular para com as crianças, especialmente
se abandonadas, indesejadas, órfãs, pobres ou deficientes; visitando as
famílias e tendo em atenção especial os doentes; cultivando relações de
respeito e de caridade com as famílias incompletas, em dificuldade ou
desagregadas; oferecendo o próprio trabalho de ensino e de consulta para a
preparação dos jovens ao matrimónio e para a ajuda aos casais em relação a uma
procriação verdadeiramente responsável; abrindo as próprias casas à
hospitalidade simples e cordial, a fim de que as famílias possam encontrar lá o
sentido de Deus, o gosto da oração e do recolhimento, o exemplo concreto de uma
vida vivida em caridade e alegria fraterna como membros de uma família maior
que é a de Deus.

Desejo acrescentar uma exortação
mais solícita aos responsáveis dos Institutos de vida consagrada, para que
queiram considerar – sempre no respeito substancial pelo seu carisma original e
próprio – o apostolado ao serviço das famílias como um dos deveres
prioritários, tornado mais urgente pelo estado hodierno das coisas.

Leigos especializados

75. Podem prestar grande
ajuda às famílias os leigos especializados (médicos, juristas, psicólogos,
assistentes sociais, consulentes, etc….) quer individualmente quer empenhados
em diversas associações e iniciativas, com trabalho de esclarecimento, de
conselho, de orientação, de apoio. A eles bem podem aplicar-se as exortações
que tive ocasião de dirigir à Conferência dos consulentes familiares de
inspiração cristã: «A vossa tarefa bem merece o qualificativo de missão, tão
nobres são as finalidades que visa e tão determinantes, para o bem da sociedade
e da mesma comunidade cristã, os resultados que dela derivam… Tudo o que
conseguirdes fazer em favor da família é destinado a ter uma eficácia que,
ultrapassando o âmbito próprio, chegará também a outras pessoas e influirá
sobre a sociedade. O futuro do mundo e da Igreja passa através da família».

Usuários e operadores da
comunicacão social

76. Deve reservar-se uma
palavra para esta categoria tão importante na vida moderna. É mais que sabido
que os instrumentos de comunicação social «influem, e muitas vezes
profundamente, quer sob o aspecto afectivo e intelectual, quer sob o aspecto
moral e religioso, no animo de quantos os usam», especialmente se jovens. Podem
ter um influxo benéfico sobre a vida e sobre os costumes da família e sobre a
educação dos filhos, mas escondem também «insídias e perigos consideráveis», e
poder-se-ão tornar veículo – às vezes hábil e sistematicamente manobrado como
infelizmente acontece em vários países do mundo – de ideologias desagregadoras
e de visões deformadas da vida, da família, da religião, da moralidade, não
respeitosas da verdadeira dignidade e do destino do homem.

Perigo tanto mais real,
enquanto «o modo hodierno de viver – principalmente nas nações mais
industrializadas – leva bastantes vezes as famílias a descarregarem-se das suas
responsabilidades educativas, encontrando na facilidade de evasão
(representada, em casa, especialmente pela televisão e por certas publicações)
o meio de terem ocupado o tempo e as actividades das crianças e dos jovens».
Daqui «o dever … de proteger especialmente as crianças e os jovens das
“agressões” que sofrem por parte dos mass-media», procurando usá-los
em família de modo cuidadosamente regrado. Assim também deveria preocupar a
família encontrar para os seus filhos outros divertimentos mais sadios, mais
úteis e formativos física, moral e espiritualmente, «para potenciar e valorizar
o tempo livre dos jovens e encaminhar-lhes as energias».

Já que os instrumentos de
comunicação social – ao mesmo tempo que a escola e o ambiente – influem muitas
vezes notavelmente na formação dos filhos, os pais, enquanto usuários, devem
constituir-se parte activa no seu uso moderado, crítico, vigilante e prudente,
individuando qual a repercussão tida nos filhos, e exercendo mediação
orientadora «de educar a consciência dos filhos a exprimir juízos serenos e
objectivos, que depois a guiem na escolha e na rejeição dos programas
propostos».

Com idêntico interesse, os pais procurarão
influir na escolha e na preparação dos programas, mantendo-se – com iniciativas
oportunas – em contacto com os responsáveis dos vários momentos da produção e
da transmissão para se assegurarem que não serão abusivamente postos de lado ou
expressamente conculcados aqueles valores
humanos fundamentais que fazem parte do verdadeiro bem comum da sociedade, mas,
pelo contrário, sejam difundidos programas aptos a apresentar, na sua
verdadeira óptica, os problemas da família e a sua adequada solução. A tal
propósito o meu predecessor de veneranda memória, Paulo VI, escrevia: «Os
produtores devem conhecer e respeitar as exigências da família, o que supõe,
por vezes, uma grande coragem e sempre um alto sentido de responsabilidade. Com
efeito, devem evitar tudo o que possa lesar a família na sua existência, na sua
estabilidade, no seu equilíbrio, na sua felicidade. A ofensa aos valores
fundamentais da família – trate-se de erotismo ou de violência, de apologia do
divórcio ou de atitudes anti-sociais dos jovens – é uma ofensa ao bem
verdadeiro do homem».

E eu mesmo, em ocasião
análoga fazia notar que as famílias «devem poder contar não pouco com a boa
vontade, rectidão e sentido de responsabilidade dos profissionais dos media: editores,
escritores, produtores, directores, dramaturgos, informadores, comentadores e
actores». Por isso, é imperioso que também a Igreja continue a dedicar toda a
atenção a estas categorias de res ponsáveis, encorajando e sustentando, ao
mesmo tempo, aqueles católicos que se sentem chamados e que tem dotes, a um
empenhamento neste sector tão delicado.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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