Exercícios quaresmais

BELO HORIZONTE, domingo, 10 de abril de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos
artigo do arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
divulgado à imprensa na sexta-feira, intitulado ‘Exercícios Quaresmais’.

* * *
Os exercícios quaresmais, na vivência litúrgica que a Igreja Católica
oferece como preparação para a celebração da Páscoa do Senhor Jesus, o
Salvador do mundo, são riquezas de um caminho que constituem uma das
páginas insubstituíveis na qualificação da vida de todos. Esses
exercícios trazem consequências e resultados mais fecundos na
participação de cada pessoa na grande teia da cidadania, que cada um, em
conjunto com outros, ajuda a tecer e manter. Exercícios que conquistam a
saúde do corpo são indispensáveis, essa demanda gera na atualidade uma
verdadeira indústria de serviços, que traz benefícios variados para além
da questão estética, muitas vezes buscada de maneira superficial na
velocidade efêmera da vida que passa. É preciso também o suporte e a
articulação com o que tece e sustenta a interioridade, o que está na
mente e no coração. Com o que eiva a constituição cerebral de cada um
com entendimentos, sentimentos e vivências. Propriedades de alimentar as
transmissões que ali se operam para garantir, além do bem estar, uma
postura qualificada e madura diante da vida e na condução cotidiana. 

Saúde não é apenas condição física. A interioridade é coluna mestra que a
sustenta, uma coordenação articulada de energias e a constituição de
vínculos e ligações que abrem a vida para a transcendência, para o
infinito do amor de Deus. E, também, para cada outro, dando sentido ao
viver, ao serviço que se presta e ao gosto de amar e comprometer-se com a
vida de todos. Os exercícios quaresmais, na bimilenar tradição
espiritual e litúrgica da Igreja Católica, à medida que são seguidos e
vivenciados, propiciam conquistas que não se alcançam por outros
caminhos e metodologias. Especial menção merece a busca da própria
identidade e dos valores pessoais, pois ela alimenta a consistência
indispensável enquanto constituição da fonte que sustenta o viver a cada
dia, não permite perder o rumo da vida. Trata-se de uma qualificação da
existência que faz das pessoas um instrumento da paz, em razão da
profunda ligação e intimidade cultivadas com o Senhor Único da vida.
Nada é mais precioso!
No Sermão da Montanha, o evangelista Mateus (capítulos 5 a 7) relata
regras de ouro que Jesus ensina aos seus discípulos, em vista de uma
vida qualificada e vivida com gosto e proveito. O Mestre inclui na
dinâmica dos exercícios que qualificam o discípulo a indicação da
prática da esmola, da oração e do jejum. Na verdade, Jesus não propõe a
prática de simples gestos descomprometidos. A esmola, mais do que a
disponibilização do supérfluo, como muitas vezes se entende e pratica,
aponta como significação o compromisso com a vida de todos –
especialmente a dos pobres e dos miseráveis. Esse comprometimento
implica uma compreensão da realidade que gera posturas cidadãs para
traduzi-las em empenhos com causas e projetos. Define prioridades e dá, a
quem se dispõe, a condição de porta-voz para fazer valer o direito de
todos e a cabível opção preferencial pelos que precisam mais. A esmola é
um gesto de partilha localizado na atitude de quem compreende seu
compromisso de defender a vida, de forma incondicional, em todas as suas
etapas, e trabalhar sem descanso para promovê-la. Suscita uma visão
social e política da mais alta qualidade por colocar à luz da presença
de Deus, o outro, particularmente o pobre, que não tem o necessário, é
enfermo, excluído ou sofredor, como centro de preocupações e de
reverências. 

Jesus inclui, ainda, na dinâmica desse exercício de qualificação da
existência e do dom da vida, o jejum. Certamente parece obsoleta essa
atitude, num tempo de tanta fartura, de desperdícios, contracenando com
um mundo de pelo menos um bilhão de famintos. Jejuar é um exercício de
correção de costumes e hábitos que nos levam a tratar o alimento com
respeito, nos motiva a repartir nosso bocado com quem tem fome,
superando a gula que despersonaliza e fomenta irracionalidades. É ainda
um exercício que dá a temperança indispensável para não cairmos nos
exageros da corrupção, dos apegos nascidos da voracidade que põem o
indivíduo diante das coisas e dos bens.
Na riqueza das considerações possíveis das muitas vivências dos
exercícios quaresmais há um verdadeiro tratado de ciência do bem viver e
de qualificação da existência, que repercute na vida: a importante
prática da oração. Essa indicação sábia de mestre a discípulos já foi
pensada como hábito piegas. Aberturas e interesses por milenares
práticas meditativas são sinais de que a cultura ocidental precisa e
pode revisitar os tesouros de sua herança cristã, de modo a entendê-la,
como no dizer de um autor do século quarto: “a oração é a luz da alma”. E
adorná-la com modéstia e a luz resplandecente da justiça, temperando a
conduta do orante com o sal do amor de Deus.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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