Evangelizar para que?

O
“Semanário Litúrgico-catequético” O DOMINGO assinaturas@paulus.com.br  tel. – 11- 3789 4000), de 13-06-2020, trouxe um artigo intitulado ECOLOGIA E MISSÃO,
do padre João Batista Libânio, sj, onde exagera no relativismo doutrinário e no
sincretismo religioso. Entre outras afirmações vagas e numa critica solerte à
evangelização da Igreja no Ocidente, diz que:

“O conceito
de vida ampliou-se. Os grandes empreendedores do passado se ofenderiam se lhes
dissesemos que batalharam pela morte. “Não”, diriam. “Levamos a vida da fé
católica, a vida da cultura ocidental, a vida da tecnologia européia a regiões
sem fé, sem cultura, sem tecnologia.”. Eles tinham, porém, uma compreensão
restrita da vida, fixada neles mesmos. Desconheciam que a vida se expande de
mil maneiras. Vida de Deus existe em todas as religiões. Cultura se constrói em
todos os povos. Fabricam-se até mesmo tecnologias na simplicidade de humanos primitivos”.

Ora, dizer
que “Vida de Deus existe em todas as religiões”, é lançar joio no trigo puro do
Senhor; é um convite terrível para que os católicos se liguem a outras
religiões, já que em todas elas existe “Vida de Deus”. No mínimo essa afirmação
dá à Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo um sentido relativo; algo
dispensável. Se todas as religiões são boas, se em todas elas está a “Vida de
Deus”, então, todos os deuses são verdadeiros e todos os credos dessas
religiões são válidos e a morte de Cristo foi em vão, o trabalho de
evangelização da Igreja é inútil; os mártires morreram e morrem hoje em
vão. 

Desta forma
se nivela Jesus Cristo com Buda, Maomé, Massaharu Tanigushi, Alan Kardec, etc.
Se é assim, então, para que 2000 de lutas da Igreja contra as heresias, os 21
Concílios ecumênicos para vencer o arianismo, o pelagianismo, o nestorianismo,
o macedonismo, o monofisismo, o monoteletismo, o iconoclasmo, o jansenismo, o
protestantismo e outras heresias?

Será que
tudo isso foi em vão? Uma perda de tempo da Igreja e dos seus santos padres,
santos e doutores? Não, ao aprovar o Catecismo em 1992, na “Constituição Fidei
depósitum” o Papa disse: “Guardar o depósito da fé é a missão que o Senhor
confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos”. A Igreja sabe que se
o sagrado “depósito” (1Tm 6,20) , a “sã doutrina” (1Tm 1, 10; Tt 2, 1), for
corrompido, tudo estará perdido. Para S. Paulo, a salvação está na verdade e
esta está na Igreja. “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da
verdade!” (1Tm 2, 4); mas, “A Igreja é a coluna e fundamento da  verdade”
(1Tm 3,15). S. Paulo fala do perigo das “doutrinas estranhas” (1 Tm 1,3); dos
“falsos doutores” (1 Tm 4, 1-2).

 Sinceramente não podemos ficar
calados diante de um absurdo tão grande – infelizmente notado por poucos –
temos de protestar, pois, relativizar a salvação que só Jesus tem para nos dar
é trair Cristo e a Igreja.

Evangelizar
é levar o Evangelho da salvação a todos os povos. A ordem do Senhor é esta: “Ide,
pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou
convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19-20).

E sabemos
que não há salvação fora de Jesus Cristo e da Igreja Católica. São Pedro diz
claro:

“Em nenhum
outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens,
pelo qual devamos ser salvos”. (At 4, 12). São Pedro explica-nos que essa
salvação eterna foi conquistada “não  por  bens 
perecíveis,  como a prata e o ouro… mas pelo  precioso sangue de
Cristo, o Cordeiro imolado” ( I Pe 1,18).

“Carregou
os nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro, para que, mortos aos nossos
pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos curados” (1 Pe
2,24).

Jesus não
disse: eu sou “um” caminho, como se houvesse muitos, não. Ele disse:  eu
sou “o” Caminho, “a” Vida, “a” Verdade. Fora de Jesus Cristo  não há vida
eterna. O nosso Catecismo diz no seu §846 que:

“Fora da
Igreja não há salvação”. “Como entender esta afirmação, com freqüência repetida
pelos Padres da Igreja? Formulada de maneira positiva, ela significa que toda
salvação vem de Cristo-Cabeça através da Igreja que é o seu Corpo: Apoiado na
Sagrada Escritura e na Tradição, [o Concílio] ensina que esta Igreja peregrina é
necessária para a salvação. O único mediador e caminho da salvação é Cristo,
que se nos torna presente no seu Corpo, que é a Igreja. Ele, porém, inculcando
com palavras expressas a necessidade da fé e do batismo, ao mesmo tempo
confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo, como
que por uma porta. Por isso não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a
Igreja católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como instituição
necessária, apesar disso não quiserem nela entrar, ou então perseverar (LG 14)”.

 Fora da Igreja Católica, há sementes de verdade e de bem, que devem ser
reconhecidas, como disse o Concílio Vaticano II, mas não a verdade plena, e nem
a “plenitude dos meios da salvação”, que só existe na Igreja católica (Unitatis
Redintegratio, 3).  

No
Consistório dos Cardeais, em Roma, de 4 a 6 de abril de 1991, o Cardeal Josef Tomko,
Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, fez um alerta
importante: apresentou uma nova teoria nascida em alguns ambientes teológicos
que distingue entre o Cristo cósmico Logos e Jesus Cristo histórico. O Cristo
Logos cósmico “estaria presente em todas as religiões do mundo”, não só no
Cristianismo, ao passo que o Cristo histórico só no Cristianismo.  Isto
leva à conclusão de que não se deveria fazer um esforço missionário de
evangelização e catequese dos povos não católicos, mas apenas cuidar da
promoção temporal e econômica de todos os povos.

A tese é
muito perigosa, pois anula o conceito de verdade e relativiza todas as
mensagens religiosas, colocando no mesmo plano o politeísmo, o panteísmo e o
monoteísmo, como se todas as religiões fossem boas e igualmente verdadeiras.

Eis um
resumo das colocações do Cardeal sobre este perigo:

“As
conseqüências sobre a missão são simplesmente devastadoras. A finalidade da
evangelização é desviada e reduzida, a necessidade da fé em Jesus Cristo, do
batismo e da Igreja, é posta em dúvida.  “Neste contexto do pluralismo
religioso – exclama um teólogo indiano – ainda tem sentido proclamar Cristo
como o único Nome em que todos os homens encontram a salvação a chamar a
fazerem-se discípulos mediante o batismo e a entrar na Igreja”?

A
evangelização no sentido global, em que o “novo ponto focal” é a construção do
Reino, ou seja, da nova humanidade, consistiria só no diálogo, na inculturação
e na libertação. Estranha mas significativamente, é omitido o anúncio ou
proclamação; antes, ela é classificada como propaganda ou proselitismo.  A
evangelização é reduzida ao diálogo de tipo social ou à promoção
econômico-social e à “libertação” das raças com todos os meios, incluída a
violência.  Sobre a conversão, um teólogo indiano escreve: “A conversão
religiosa é o resultado do jacobinismo ocidental e da sua intolerância… A
conversão nasce do sentido de superioridade de uma religião a respeito de
outra, enquanto nenhuma religião tem o monopólio da verdade”.

O abandono
das estações missionárias, das pregações do Evangelho e da catequese, por parte
dos missionários, do clero, das religiosas, e a fuga para obras sociais, como
também o contínuo falar em sentido redutivo dos “valores do Reino” (justiça,
paz) é um fenômeno difundido na Ásia e propagandeado por alguns centros
missionários, também noutros continentes.”

Note que
este Jesus histórico teria outras manifestações paralelas e equivalentes.
Assim,  o objetivo do catolicismo não seria reunir todos os povos na
Igreja fundada por Jesus Cristo, e entregue a Pedro e seus sucessores (cf.
Lumen Gentium nº 14; Decreto Ad. Gentes nº 7), mas apenas reunir todos os
homens, de qualquer religião, no Reino de Deus. Mas este Reino não seria
caracterizado por uma única crença religiosa, um Credo católico, mas, por amor,
justiça, paz, bem estar da humanidade, ecologia, libertação dos homens…;
logo, o zelo missionário seria condenável como proselitismo e intolerância, e a
evangelização se reduziria à promoção econômico-social e à libertação das raças.

Penso que
um Semanário “litúrgico-catequético” não é o lugar para se fazer catequese
ecológica, social e sincretista, mas de anunciar o “Kerigma”, o grito, de que Jesus
Cristo, e só Ele, é o salvador e redentor do  homem.
_______________________Prof.
Felipe Aquino

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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