Estupidez em nome de Deus – por D. Henrique Soares

Caro(a) internauta, aqui vão dois textos: um, da revista VEJA; o outro, minha resposta, enviada ao Autor por e-mail. Espero que ajude a refletir.

‘Estupidez em nome de Deus’

André Petry

“É quase inacreditável, mas, às vésperas de
votar o assunto, existem senadores dispostos
a levar em conta os argumentos de autoridades
religiosas e proibir a pesquisa de células-tronco”

O Congresso Nacional está para votar nos próximos dias um projeto fundamental: a lei que vai autorizar (ou proibir) a pesquisa científica com as células-tronco de embriões humanos. As células-tronco, com seu notável potencial de reprodução e especialização, são a esperança mais promissora da medicina atual para encontrar a cura de doenças graves como diabetes, esclerose, infarto, distrofia muscular, Alzheimer, Parkinson. De um lado, batalhando pela autorização da pesquisa com as células-tronco embrionárias, está a comunidade científica. Em peso. De outro, contra a pesquisa, estão os religiosos, principalmente os representantes dos católicos e evangélicos. As autoridades religiosas até admitem as pesquisas com células-tronco, desde que sejam as células extraídas da medula óssea ou do cordão umbilical, e não de embriões humanos. A Igreja diz que pesquisar com embriões é uma ofensa à vida, tal como o aborto. Afinal, a manipulação impediria o embrião de crescer. Seria, portanto, como matar alguém. A questão é que as células-tronco mais potentes e versáteis são justamente as embrionárias, razão pela qual pesquisá-las tende a ser muito mais eficiente.

É quase inacreditável, mas, às vésperas de votar o assunto, existem senadores dispostos a levar em conta os argumentos de autoridades religiosas e proibir a pesquisa. Sim, querem proibir a pesquisa que pode salvar vidas e reduzir o sofrimento humano – e tudo, é claro, “em nome de Deus”. Ora, mas que Deus é esse? Que Deus irônico nos daria talento, dom e fé para chegar perto das descobertas mais sensacionais da vida, mas nos proibiria de exercer nosso talento, nosso dom e nossa fé? Era tudo só para Deus ver? Que Deus mordaz nos daria condições de prolongar a vida e reduzir o sofrimento, mas, apesar da generosa doação, nos proibiria de fazê-lo, obrigando-nos a permanecer, mesmo doentes ou à beira da morte, infensos à intervenção humana, feito relíquias de redoma, apenas para que nosso Criador, egoísta e genial, pudesse contemplar Sua obra intocada? Que Deus mórbido e tirânico exigiria de nós, Suas criaturas, a resignação com o sofrimento e a dor apenas para que ficasse patente o respeito que Lhe devotamos?

Do bispo de Alexandria, que colocou abaixo o mais efervescente centro de ciência e cultura dos primórdios da era cristã até o inquisidor que calou Galileu Galilei, a Igreja Católica sempre reagiu poderosamente quando os avanços científicos punham à prova seus dogmas e sua moral. Foi assim no passado. Com variações de tom e intensidade, é assim hoje em dia, quando as autoridades eclesiásticas, por exemplo, chegam ao ponto de, tateando entre a irresponsabilidade e o crime, torpedear o uso de camisinha para evitar a transmissão da aids. Com essas posições, a Igreja está a favor da vida humana ou de sua moral religiosa? Não surpreende que os igrejeiros sejam contra a pesquisa de células-tronco embrionárias, que estejam novamente no clima do obscurantismo medieval, minando a ideologia da razão e do progresso. O estarrecedor é que o Senado, como instituição, laica aliás, seja capaz de pensar do mesmo modo. Seria bom que o Brasil deixasse essas tolices apenas aos fundamentalistas cristãos de George W. Bush. Por sinal, Bush proibiu a pesquisa de células-tronco embrionárias nos Estados Unidos, mas, como isso ainda vai render muito dinheiro, já tem até republicano querendo mudar de idéia. Até eles.

(Texto aparecido na Revista VEJA 1857, de 09/06/04, p. 138)

***

Uma resposta:

Senhor André Petry,

Li sua coluna na VEJA. O senhor é simplório. O senhor é irresponsável. O senhor é sofista.

Não se trata aqui de acusações feitas ao sabor da paixão. São acusações que lhe faço com tranquilidade, com plena convicção e serenamente.

O senhor é simplório. É-lo porque seu raciocínio na defesa das pesquisas com células-troco derivadas de embriões evita considerar problemas éticos seríssimos. O senhor “joga para a galera”, escamoteando questões urgentes. Para os cristãos, Sr. Petry, o embrião é um ser humano. E não só para os cristãos. Para muitos “laicos”, cientistas ou não, para muitos filósofos, o embrião é já uma vida plenamente humana. Aqui está o ponto, meu senhor! Mas, o senhor, demagogicamente, foge desta questão. A Igreja não é contra a vida. Defende-a! Mas, não de modo irresponsável e amoral, como o senhor. De modo demagógico, o senhor afirma: “querem proibir a pesquisa que pode salvar vidas e reduzir o sofrimento humano”. O senhor acha ético, acha decente, acha humano, matar embriões humanos para curar outros seres humanos? Quem é o senhor ou a comunidade científica, para escolher entre uma vida humana e outra? Quem é o senhor, para determinar o aniquilamento de embriões indefesos? Depois, o senhor também poderia propor que exterminássemos os retardados mentais, os anciãos e os analfabetos pobres, que gastam o dinheiro do Governo, dinheiro que poderia servir para salvar vidas de outras pessoas mais úteis para o sistema produtivo… É sempre o mesmo princípio: escolher quem deve viver e quem deve morrer, não é? O senhor é simplório demais! O senhor passa por cima de qualquer consideração ética, em nome de uma “ideologia da razão e do progresso”. Belo positivismo cretino e ultrapassado! Que “razão”, Sr. Petry? A razão atéia, imanentista, do homem medida de todas as coisas? Sua “ideologia da razão e do progresso” levou à guilhotina, ao nazismo, ao stalinismo e à crise ética na qual o mundo atual se debate. Nenhum filósofo sério acredita mais numa “ideologia da razão e do progresso”. O senhor ficou preso numa dobra temporal entre os séculos XVIII e XIX!

Seu artigo parece ser cheio de compaixão por quem sofre e tem a vida truncada por males tristes como diabetes, esclerose, Alzheimer, Parkinson… No entanto, a questão não é tão simples, como o senhor quer fazer crer ou, o que é pior, crê de verdade. O sofrimento na vida, ainda que em si seja negativo e deva ser evitado, pode ser integrado numa dimensão positiva, que nos amadurece, abre-nos para um novo sentido da existência e faz-nos descobrir novos valores. Devemos fazer o possível para evitar o sofrimento, sobretudo o alheio, mas não a qualquer preço e, sobretudo, não às custas de vidas humanas – ainda que de embriões! O que nos faz felizes, em última análise, não é a ausência de sofrimento, mas uma existência realizada, integrada, coerente com os valores mais profundos, pelos quais nosso coração anela. Mas, penso que o senhor não poderá compreender isso. O senhor é simplório… Ao menos pelo que mostrou no seu raciocínio. Se for verdade que pelo dedo se conhece o gigante…

Além de simplório, o senhor é sofista. Seus argumentos são furados. Não é acusando a Igreja de modo apaixonado e descabido que o senhor prova a sustentabilidade do seu ponto de vista. A Igreja cometeu erros históricos, como também teve momentos e ocasiões de acertos louváveis. Ela não é e nunca foi sistematicamente contra a ciência. Não esqueça – sei que o senhor sabe – que muitos cristãos deram grande contribuição no campo das artes, das ciências e do pensamento humano. O senhor não é tolo; o senhor sabe. Quando a Igreja defende a proibição do uso dos embriões na pesquisa em questão, é por motivos éticos. O senhor pode discordar dela, mas faça-o com dignidade e argumentos inteligentes, com respeito por uma instituição que, ao contrário do que o senhor afirma, não tateia “entre a irresponsabilidade e o crime”. A questão, meu senhor, é que as considerações sobre o certo e o errado, o permitido e o proibido no mundo atual não envolvem ética, mas somente um maldito pragmatismo desumano e desavergonhado, como se a razão prática e pragmática fosse o único critério de moralidade. É este, exatamente, o seu raciocínio medíocre, quando insinua que tudo quanto a razão humana possa compreender e dominar seja, por si só, aceitável. E ainda usa o nome de Deus para afirmar semelhante despropósito. Se assim é, a bomba atômica e tudo mais quanto a razão criou, deve ser louvado, porque dom de Deus! É interessante também como o senhor usa a palavra fé. Fé em quem? Na razão? No senhor mesmo? Vê-se que o senhor não entende nada de religião! Aliás, não sei como escreveu “Deus” com “D” maiúsculo. Seria mais coerente escrevê-lo com minúscula, pois um deus inócuo, que somente saberia dizer amém ao homem e à sua razão brilhante. Recordo-me de Max Horkheimer e Theodor W. Adorno no início de sua Dialética do Esclarecimento: “O iluminismo, no sentido mais amplo de pensamento em contínuo progresso, perseguiu sempre o objetivo de tirar dos homens o medo e de os tornar senhores. Mas a terra inteiramente iluminada resplende como triunfal desventura”. A Igreja não é contra a razão nem contra a ciência, mas os cristãos sabem que a razão e a ciência não esgotam a realidade. Para além da razão prática, da razão pragmática, da razão científica, há uma razão ético-filosófica e uma razão teológica. Esses níveis de razão devem colocar-se em fecundo diálogo e tensão, sob pena de desumanizar a humanidade. Por isso, sr. Petry, acuso-o de simplório e sofista!

O senhor recorda que o Congresso é uma instituição laica. É verdade. Laica e representativa da sociedade brasileira, cuja maioria é de fé cristã. O Congresso não pode reger-se simplesmente por um colegiado de “cientistas” iluminados, que decidem sobre o bem e o mal. A Igreja católica e as comunidades evangélicas, como quaisquer outros seguimentos da sociedade, têm o direito de se manifestar e fazer pressão, sobretudo quando se trata de um assunto que envolve a vida e a dignidade humana. Compreenda o senhor que aqui, nesta específica questão, estão em jogo vidas humanas, não somente as dos pacientes que seriam beneficiados com a pesquisa, mas também a dos embriões. Haverá outros modos de pesquisar as células-tronco, sem matar, sem exterminar uns seres humanos em favor de outros.

Finalmente, o senhor é irresponsável, pois apresenta suas idéias sem levar em conta que pode estar contribuindo não só para minorar sofrimentos de uns, mas também para assassinar outros. E usando uma revista de ampla divulgação nacional, com argumentos absolutamente levianos. Para o senhor, as palavras de Jesus – em quem o senhor também não deve acreditar: “Sereis julgados por cada palavra inútil que disserdes!” Nesta coluna, o senhor disse várias.

O senhor, nobre iluminado, trata a religião e os religiosos como obscurantistas e, num golpe de falácia, equipara-os a Geroge W. Bush. Eu poderia compará-lo a Stalin, a Mengele e a outros “cientistas”. Mas, não farei isso. Dói-me também encontrar no seu escrito o preconceito barato em relação à Idade Média, cujo clima – na sua visão iluminada – era de obscurantismo. O senhor repete o velho preconceito iluminista. Não surpreende, para quem endeusa a “ideologia da razão e do progresso”.

Senhor, não pude deixar de escrever-lhe. Poucas vezes um texto causou-me tanta indignação. E aqui – creia-me – não se trata de um tolo fanático ou obscurantista, mas de alguém muito aberto em relação aos passos da ciência e muito crítico em relação à realidade. Espero que o senhor seja mais cauteloso no que escreve e um pouco mais profundo no que defende.

Atenciosamente,

Pe. Henrique Soares da Costa
Maceió – AL

Fonte: www.padrehenrique.com

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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