Escatologia: O que é

INTRODUÇÃO

A
palavra escatologia é  formada  de 
duas  palavras  gregas: eschatos = último, fim e lógos =
palavra, discussão, instrução, ensino, assunto, tema. Portanto escatologia é o
estudo do fim ou o estudo das últimas coisas, ou ainda o estudo dos últimos
dias.

Várias
passagens das Escrituras empregam a palavra eschatos juntamente com heméra =
dia. Assim temos eschatê heméra = último dia, usado em Jo 6,39 e 7,37. A
primeira ocorrência  se refere ao último
dia da ressurreição, um dia escatológico, enquanto que a segunda apenas faz
alusão ao último dia da festa de casamento. Temos eschatais hemerais = últimos
dias em At 2,17; 2 Tm 3,1; Tg 5,3; e eschatou tôn hemerôn = últimos dias em
Hb1,2. Todas estas passagens aludem ao período de tempo entre a 1ª e a 2ª
vindas de Jesus. Os últimos dias iniciaram-se com a 1ª vinda de Jesus que veio
na “plenitude do tempo”(Gl 4,4), pois o tempo anterior da dispensação
da lei já estava cumprido (Mc 1,15; Lc 16,16). Estamos vivendo os últimos dias.
Esse período de tempo que a Bíblia chama de últimos dias, recebe ainda outras
designações, tais como: “tempo aceitável… dia da salvação”
(Is 49,8) ou “ano aceitável do Senhor”(Is 61,2a); “dispensação
da plenitude dos tempos” (Ef 1,10) ou “dispensação da raça”(Ef 3,2)1 ou
“dispensação do mistério” (Ef 3,9); “tempo da
oportunidade”, “tempo sobremodo oportuno”, “dia da
salvação” (2 Cor 6,2), “tempos oportunos”   (2 Tm 2,6), “tempos devidos”
(Tt 1,3); “hoje” (Hb 3,7,15; 4,7.8); “fins dos séculos”  (1 Cor 10,11); “última hora”
(1 Jo 2,18).

Durante
este período a Igreja tem a incumbência de proclamar o evangelho antes que
venha o “grande e terrível dia do Senhor” (Ml 4,5), que porá fim aos
últimos dias, para inaugurar o “dia da vingança do nosso
Deus”(Is 61,2b).

A
Bíblia é categórica em afirmar a existência de três dias (considerados como
períodos) nos quais se deve fazer distinção quanto ao programa de Deus para
cada um deles. O dia do homem é o dia da salvação, dia de oportunidade. O dia
do Senhor e o dia de Cristo2 é dia do arrebatamento da Igreja e de tribulação
para Israel, e de castigo para os gentios (conforme o pré-milenismo). O dia de
Deus é o dia quando  “os céus
incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão”
( 2Pd 3,12). Inicia-se no dia do juízo final, e talvez (conforme o amilenismo
ou pós-milenismo), o dia do fim (1 Cor 15,24), quando “Deus será tudo em
todos” (1Cor 15,28).

O
estudo da escatologia deve levar o crente a proclamar o dia do homem(a
salvação), o dia do Senhor (a volta de Cristo)e o dia de Deus(após o
juízo).Veja Jo 16,8; Hb 6,2. Se queremos conhecer as profecias apenas para
satisfazer nossa curiosidade, então estaremos nos aplicando aos estudo das
Escrituras de uma forma que não agrada a Deus. Deve ser nosso objetivo
discernir os tempos para que nossos espíritos se entreguem à mais nobre tarefa
da qual fomos incumbidos: o anúncio da morte do Senhor, sua ressurreição e seu
retorno à esta terra: “anunciais a morte do Senhor até que Ele
venha”(1 Cor 11,26).

Estudando
escatologia, veremos que muitas profecias se cumpriram, demonstração clara e
evidente de que as demais profecias hão de se cumprir, e portanto devemos
proclamá-las com ardente fervor. Ouçamos, pois, a advertência do apóstolo:
“E digo isto a vós outros que conheceis o tempo, que já é hora de vos
despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que
quando no princípio cremos. Vai alta a noite e vem chegando o
dia…”(Rm 13,11.12). Anunciemos o evangelho enquanto é dia (Jo 9,4),
antes que venha o “dia de escuridade e densas trevas” (Jl.2,2).   

Além
deste, podemos citar vários outros motivos porque devemos estudar profecias:

1)
Sua importância nas Escrituras é estabelecida pelo fato de que 25% da Bíblia é
composta de profecias. Convém mencionar que todas elas, com uma única excessão,
são literais.

2)
Há a promessa da iluminação do Espírito Santo no estudo das profecias
(Jo 16,13).

3)
A profecia serve de consolo para os crentes (2 Ts1,4-10; Hb 10,32-39).

4)
As profecias causam influência nos descrentes (Is 44,28; 2 Cr 36,22.23;
Ed.1,1,2).

5)
Devemos estudar as profecias para combater as falsas interpretações dada pelas
seitas.

6)
As profecias nos dão claras orientações para os últimos dias.

7)
As profecias nos incitam à uma vida de pureza (1 Jo 3,1-3).

8)
Oferece equilíbrio doutrinário na vida do estudante de profecias.

É
mister lembrar que o estudo da escatologia não nos levará a desvendar todos os
mistérios, épocas e tempos estabelecidos por Deus. Deus nos dará compreensão
apenas às coisas que nos foram reveladas (Dt 29,29), mas as coisas encobertas
pertencem ao Senhor nosso Deus, e  não
nos “compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua
exclusiva autoridade”(At 1,7).

CAPÍTULO
I

ESCATOLOGIAS
CONTEMPORÂNEAS

A
doutrina ortodoxa da Igreja, embora com nuances de variações, sempre dominou
sobre as demais tendências teológicas. Em todos os séculos sempre houveram
segmentos religiosos inclinados a uma corrente mais liberal. Mas sempre a
ortodoxia dominou sobre esses movimentos que geralmente eram mais externos do
que internos.

No
século XIX, entretanto, o liberalismo teológico invadiu o interior da Igreja,
ressurgindo com uma força mais expressiva, atingindo as bases, fazendo com que
surgissem novas abordagens teológicas. A ortodoxia sofreu todo tipo de ataques,
vindo de todas as partes, da ciência natural às ciências humanas. No campo da
filosofia, por exemplo, podemos mencionar Schleiermacher que “propôs um
cristianismo como sendo meramente uma questão de sentimentos,”1
negando a questão ética.

Foi
nesse tempo de distúrbios teológicos, somado às novidades na área científica,
como a teoria das espécies de Darwin, que fez com que a Igreja adotasse novos
rumos, a fim de responder aos desafios da época. Foi nesse período que surgiram
a Escatologia Consistente de Schweitzer e a Escatologia Realizada de Dodd.

1.
ESCATOLOGIA CONSISTENTE:

Alguns
defendiam que a essência do cristianismo era de caráter ético. O
estabelecimento do reino de Deus não se daria de forma cataclística (como a 2ª
vinda de Cristo), mas seria introduzido progressivamente através dos esforços
dos cristãos. Entre os defensores dessa corrente encontramos Albercht Ritschl.2

Johannes
Weiss propôs um meio termo “juntando um conceito verdadeiramente
escatológico ou futurista com a idéia do reino como uma realidade ética
presente”.3

Weiss
defendia que Jesus era totalmente escatológico, apocalíptico e futurista.

Mas
o pensador de maior expressão dessa tendência teológica foi Albert Schweitzer
(1875-1965), porque Schweitzer ampliou a proposta de Weiss, aplicando a sua
teologia consistente à todo o Novo Testamento, e não somente aos ensinos de
Jesus.

“Segundo
a Escatologia Consistente de Schweitzer, Jesus, crendo ser o Messias de Israel,
descobriu que a consumação não chegou quando Ele a esperava (cf. Mt.10:23) e
aceitou de bom grado a morte, a fim de que a sua parousia4 com o Filho do Homem pudesse
ser forçosamente realizada. Visto que a roda da história não atenderia ao toque
de sua mão, girando para completar sua última volta, Ele se lançou sobre ela e
foi quebrado por ela, apenas para dominar a história decisivamente por meio do
seu fracasso, mais do que poderia ter feito se tivesse realizado sua ambição
mal interpretada. A mensagem dele, conforme sustentava Schweitzer, era
totalmente escatológica no sentido exemplificado pelo apocalipcismo
contemporâneo mais grosseiro. Seus ensinos éticos eram planejados para o
período entre o início do seu ministério e a sua manifestação em glória. Mais
tarde, quando se percebeu que a morte dele destruíra as condições
escatológicas, ao invés de introduzi-las, a proclamação do reino foi
substituída pelo ensino da igreja”.5

Podemos
concluir, por outras palavras, que a Escatologia Consistente defende a idéia de
que Jesus não consumou suas predições escatológicas. Nenhum dos fatos
“previstos” por Jesus se cumpriram, mas os fatos foram forjados e
adaptados às circunstâncias históricas. Jesus previa o óbvio, planejando
sistematicamente suas ações, mas nem sempre o óbvio acontecia, portanto Jesus
teve que adaptar suas previsões escatológicas. Por isso essa escatologia
recebeu o nome de consistente, porque devia ser consistente (de acordo) com os
fatos.

2.
ESCATOLOGIA REALIZADA:

Enquanto
a Escatologia Consistente considerava que os eventos antecipados por Jesus
nunca ocorreram, a Escatologia Realizada, ao contrário, afirmava que os eventos
já haviam ocorrido, já tinham sido realizados.

O
defensor dessa tendência foi Charles H. Dodd (1884-1973). Para Dodd “a
nova era já está aqui; Deus estabeleceu o reino. O conceito mitológico do dia
do Senhor foi transferido a um evento histórico específico que já ocorreu, ou,
na realidade, a uma série de tais eventos – o ministério, a morte e a
ressurreição de Jesus Cristo. A escatologia foi cumprida ou ‘realizada’. Aquilo
que era futuro nos tempos das profecias do Antigo Testamento tornou-se
presente. Ao invés de procurar duas vindas de Cristo, devemos entender que há
apenas uma; devemos interpretar estas ‘predições’ à luz das suas declarações de
que o Reino de Deus está aqui – está próximo. Jesus não estava falando de como
seria, mas de como era”.6


quatro maneiras de interpretar a escatologia bíblica: “A interpretação
idealista (ou simbólica) tira o elemento temporal da apocalíptica. Os símbolos
ou eventos que descreve não ocorrerão em qualquer ponto específico na história,
mas, sim, representam e apresentam ‘verdades eternas’, verdades acerca da
natureza da realidade ou da existência humana que ou estão continuamente
presentes ou recorrem continuamente. Não perguntamos delas: ‘Quando?’ mas, sim,
‘O quê?’ O futurista faz os elementos proféticos e apocalípticos nas Escrituras
referirem-se primeiramente a um ‘tempo do fim’ quando todos os eventos virão a
acontecer. A maior parte dele ainda é futuro para nós, como era para aqueles que
viviam nos tempos bíblicos. O historicista considera que a apocalíptica
pertence a eventos que ainda eram futuros na ocasião em que foram descritos (o
período bíblico), mas que já ocorreram e continuam a ocorrer dentro da vida
histórica da igreja. A abordagem preterista considera que o cumprimento da
apocalíptica ocorreu mais ou menos contemporaneamente com o registro bíblico
dela. Destarte, os ‘últimos tempos’ já teriam acontecido quando o escritor
bíblico os descreveu”.7

Com
esses conceitos, agora podemos melhor definir a Escatologia Realizada. Fica
claro perceber que a Escatologia Realizada adota uma abordagem preterista na
sua interpretação.

J.
A. T. Robinson, que foi aluno de Dodd, “interpreta a ‘parousia’ de Cristo
não como um evento literal do futuro, mas como uma apresentação simbólica ou
mitológica daquilo que acontece sempre que Cristo vem com amor e poder,
demonstrando os sinais da sua presença e as marcas da sua cruz. (…) Robinson
nega que Jesus usasse linguagem que subentendesse a sua volta do céu para a
terra. As expressões dele que assim foram entendidas apontam para os temas
paralelos da vindicação e da visitação – notavelmente sua resposta à pergunta
do sumo sacerdote no seu julgamento (Mc.14:62), onde a frase adicional ‘desde
agora’ (Lc.22:69; Mt.26:64) é entendida como parte autêntica da resposta. O
Filho do Homem, condenado pelos juizes humanos, será vindicado no tribunal da
justiça divina; sua visitação consequente ao seu povo em julgamento e redenção
acontecerá ‘desde agora’ tão seguramente como a sua vindicação.

Ao
invés de falar na Escatologia Realizada, Robinson (seguindo Georges Florovski)
fala de uma ‘Escatologia Inaugurada’ – uma escatologia inaugurada pela morte e
ressurreição de Jesus, que lançaram e iniciaram uma nova fase do reino em que
‘desde agora’ o plano divino de redenção atingiria o seu cumprimento. Ao
ministério de Jesus antes de sua paixão, Robinson aplica o termo ‘Escatologia
Proléptica’, porque naquele ministério os sinais da era do porvir tornaram-se
previamente visíveis”.8

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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