Entrevista do Prof. Felipe Aquino concedida ao site católico ACIDigital no dia 14 de outubro de 2014

Professor-Felipe-Aquino-nos-25-anos-da-TV-Cancao-NovaComo deve ser a preparação para que um casal possa receber o Sacramento do Matrimônio?

É preciso que o casal seja batizado, antes de tudo. Se for o casamento de uma pessoa católica com outra cristã não católica (casamento misto); será preciso verificar a validade do batismo.

O matrimônio exige “maturidade” do casal, isto é, estarem preparados para a missão a cumprir como esposos fiéis e pais dedicados aos filhos. Esta preparação deve começar no namoro; no conhecimento profundo entre ambos para chegarem ao casamento se conhecendo bem. Muitos casais se casam sem se conhecerem direito. Ambos precisam conhecer as responsabilidades de uma família e suas dificuldades. Devem estar preparados para dar a vida pelo outro e pelos filhos. Como São Paulo disse: “Maridos, amai as vossas esposas como Cristo amou a Igreja, e se entregou por ela” (Ef 5,25). O casal precisa ter vida espiritual, pois a vida matrimonial necessita da graça de Deus para superar todos os seus problemas. “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5), disse Jesus. O casal deve entender que o casamento é uma missão sagrada, onde ambos crescem juntos e se multiplicam nos filhos. Não é uma “curtição” a dois, é missão.

Para receber a Primeira Comunhão e a Crisma, as crianças e os adolescentes se preparam em média durante dois anos, para receber a Ordem, o sacerdote estuda durante cerca de seis anos, mas o sacramento do matrimônio é dado para casais que fazem o encontro de noivos em dois dias, em média. O que o sr. acha da preparação pré-matrimonial que é feita atualmente?

Infelizmente o chamado “curso de noivos”, embora possa dar alguns frutos, é uma preparação muito precária, insuficiente. Como disse, a preparação deve começar no namoro, em casa, com os pais educando bem seus filhos para viverem bem o namoro, o noivado e o casamento. É no berço paterno que se recebe a formação para se construir uma futura família. Os jovens precisam aprender o que é um namoro cristão, o seu belo sentido, sem vida sexual. Ensinar a eles a doutrina sobre o matrimônio; suas exigências e responsabilidades. As normais morais que regem a vida do casal em relação aos filhos, à fecundidade, o controle da natalidade segundo os métodos naturais, etc. Isto exige cursos e Encontros sobre namoro, casamento, família, etc.

A falta de um preparo adequado para receber o sacramento e também de um acompanhamento pós-matrimonial são algumas das principais causas para que os casamentos sejam desfeitos?

Sim, muitos se casam sem saber bem o que estão fazendo. Não estão preparados para dizer aqueles três “Sim” no altar, que expressa todo o compromisso assumido:

“Vocês estão aqui para se casar, é de livre e espontânea vontade?”

“Vocês prometem um ao outro, amor e fidelidade, é por toda a vida que o prometeis?”

“Vocês prometem receber os filhos que Deus lhes enviar, educando-os na fé do Cristo e da Igreja?”

Se a resposta a essas três perguntas, não for um SIM muito consciente, maduro, desejado, verdadeiro, o matrimônio pode não ser válido por falto de “consentimento pleno”. Então, os noivos precisam estar conscientes do que isso significa.

Depois de casados eles vão precisar cultivar o amor conjugal que os une, a unidade de ambos, a harmonia conjugal e sexual, uma vida espiritual guiada pela Igreja, através de um sacerdote ou de um grupo de casais.

Como a Pastoral Familiar precisa atuar no acompanhamento dos recém-casados?

É preciso que cada paróquia tenha uma ativa pastoral familiar, com bons cursos para jovens sobre namoro, casamento, família, e casais que possam orientar os casais com problemas de relacionamento, visitando-os em casa, rezando com eles, trazendo-os a participar de um grupo de casais, e outras atividades.

Qual o segredo para um casamento feliz?

Antes de tudo que haja Deus na vida do casal, uma boa vida espiritual, com a participação nos sacramentos da Eucaristia e Confissão, oração diária em casa, sobretudo o Terço, e muito diálogo com paciência, compreensão, tolerância, humildade e carinho com o outro. Não pode haver ofensas, brigas, discussões, críticas ácidas, falta de atenção, displicência com outro, menosprezo, orgulho e egoísmo. É vencendo essas fraquezas e erros que se constrói a felicidade conjugal. “Amar não é querer alguém construído, é construir alguém querido”. Para construir o outro é preciso tudo isso.

O que é necessário fazer para superar as dificuldades da vida em comum?

Sobretudo é preciso ter maturidade, nunca colocar a paz do casal e da família em risco com atitudes apressadas, agressivas e grosseiras. Com a graça de Deus, e um bom diálogo, tudo é possível de ser resolvido, com calma e confiança em Deus, que cuida do casal. É preciso evitar a irritação mútua, os gritos, as ofensas, não jogar no rosto do outro os erros do passado, nunca ir dormir brigados, sempre dizer ao outro uma palavra amorosa, um elogio, saber pedir perdão quando se errou, saber corrigir o outro corretamente e com amor, sem que seja na frente dos outros ou dos filhos…

Quantos anos o sr. esteve casado com sua esposa? Quantos filhos e netos tiveram? Qual a importância de um casal estar aberto à geração da vida?

Estivemos casados 40 anos, tivemos cinco filhos e hoje tenho 11 netos; eles são o tesouro da minha vida. Um casal que não quer ter filhos, podendo, não sabe o que é felicidade conjugal e familiar. Diz o nosso Catecismo que: “Os filhos são o dom mais excelente do matrimônio” (§2378). “A Sagrada Escritura e a prática tradicional da Igreja veem nas famílias numerosas um sinal da bênção divina e da generosidade dos pais” (§2373). Ter filhos não é algo facultativo para o casal, é uma missão dada por Deus, “multiplicai-vos”. O casal só deve limitar o número de nascimentos quando de fato o amor exige isso, não o comodismo, o egoísmo ou o medo de enfrentar o futuro. É preciso viver pela fé.

Como é olhar para trás e ver toda essa linda trajetória construída?

O mais importante na nossa vida, é poder olhar para traz e constatar que se foi fiel a Deus e a missão que nos deu, mesmo que isso seja feito com imperfeições e erros. Somos felizes por aquilo que nós construímos; e não há nada mais belo e sagrado que dar a vida a um ser humano e o educar para Deus e para a sociedade. É nisto que está a felicidade. É claro que haverá momentos de dores e de lágrimas, mas “a beleza da vida supera todas as suas dores”. Se eu tivesse de começar de novo, faria tudo outra vez, mas, com mais generosidade.

Muitas vezes, uma pessoa se separa e quando está no terceiro ou quarto “casamento” percebe que se tivesse tido um pouco mais de paciência não teria se separado da primeira esposa ou marido. É assim mesmo? O que o sr. gostaria de dizer para um casal que recebeu de forma válida o Sacramento do Matrimônio e está pensando em se separar?

Eu diria a este casal não ter pressa em se separar, que procurem alguém para orientá-los, conversar, ouvir os seus desabafos, etc. E dar tempo ao tempo para que as mágoas possam ser vencidas, perdoadas, etc. Que se voltem para Deus e peçam a sua graça para superar os problemas. Não há casal que não tenha problemas, isso faz parte do casamento. O feio não é ter problemas, o feio é não saber superá-los com amor e carinho. Esta é a grande beleza e vitória do casamento, saber superar as diferenças, as dificuldades e defeitos que cada um trouxe para a vida a dois. Não somos anjos. O bonito no casamento é saber “construir o outro”. Para isso é preciso ter o verdadeiro amor que é “dar-se”. Eu não posso dizer sim ao outro, se não disser não a mim mesmo.

Atualmente, muitas pessoas querem que a Igreja permita que os casais de segunda união recebam a Comunhão Eucarística. O que precisa ser dito para essas pessoas? A solução é prevenir e não remediar?

O Papa São João Paulo II, escreveu na Exortação Apostólica sobre a Família, **Familiaris Consortio**, de 1981, que os casais de segunda união não podem ser discriminados na Igreja, devem ser ajudados, devem educar seus filhos na fé, etc.; mas disse que eles não podem participar do sacramento da Eucaristia e da Confissão, por não estarem vivendo segundo a lei de Cristo (n. 84; cf. CIC §1651). Então, esses casais devem fazer na Missa a “Comunhão Espiritual”, receber Cristo no coração em desejo profundo, e suplicar-lhe as graças para superar o problema. Sempre é conveniente o casal examinar se o primeiro casamento rompido foi válido; e se convier, entrar com a Petição de “declaração de nulidade” no Tribunal da Igreja.

O que mais o sr. gostaria de dizer sobre esse assunto?

Eu gostaria de recordar o que diz o Catecismo sobre esse assunto:

“A respeito dos cristãos que vivem nesta situação e geralmente conservam a fé e desejam educar cristãmente seus filhos, os sacerdotes e toda a comunidade devem dar prova de uma solicitude atenta, a fim de não se considerarem separados da Igreja, pois, como batizados, podem e devem participar da vida da Igreja: Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o sacrifício da missa, a perseverar na oração, a dar sua contribuição às obras de caridade e às iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorar, dia a dia, a graça de Deus” (§1652).

Que Deus os abençoe!

Fonte: http://www.acidigital.com/noticias/muitos-se-casam-sem-saber-bem-o-que-estao-fazendo-afirma-professor-felipe-aquino-74004/

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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