Entrevista: Confissões de um padre

Entrevista: Marcelo Rossi
 
Adriana Dias Lopes

 Depois de um período de introspecção, o líder da Renovação Carismática diz ter sido boicotado durante a visita do papa Bento XVI e critica os padres que não usam batina

 O padre Marcelo Rossi continua a ser o maior fenômeno do catolicismo brasileiro. No fim da década de 90, ele levava milhões às suas missas alegres, cheias de cantoria e coreografias festivas. Em dezesseis anos de sacerdócio, vendeu 10 milhões de cópias de oito CDs e quatro DVDs. Aos 43 anos, o padre está mais introspectivo. As missas-show estão mais raras. Há um ano, depois de sofrer um acidente na esteira ergométrica, ele se machucou e entrou em um estado de “tristeza profunda”. Das dores do corpo e da alma, emergiu seu primeiro livro, Ágape – com 3 milhões de cópias vendidas desde que foi lançado, há oito meses. Aos poucos, os números grandiosos voltam à vida de Marcelo Rossi. Em 10 de dezembro, ele pretende inaugurar o novo santuário Mãe de Deus, em São Paulo, um megaprojeto assinado pelo arquiteto Ruy Ohtake, com capacidade para 100000 fiéis. Grisalho, um pouco mais gordo, de bengala (ainda por causa do acidente), ele recebeu VEJA para a seguinte entrevista:

O senhor despontou no fim dos anos 90 como um fenômeno religioso que atraía multidões. Nos últimos anos, porém, tem feito poucas missas grandiosas. O que aconteceu? Em meados de 2007, decidi reduzir as evangelizações em massa. Meu último grande espetáculo de fé, vamos chamar assim, ocorreu em 2008, para a gravação do meu DVD, Paz Sim, Violência Não, que reuniu 3 milhões de pessoas no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Cheguei a fazer três desse tipo por ano. Mas chega uma hora em que precisamos descansar. Em 2007, às vésperas de completar 40 anos, concluí que deveria cuidar da saúde. O desgaste com a maratona de compromissos alterou minha pressão arterial. Tive picos de 19 por 16. Hoje, sou obrigado a tomar betabloqueadores para controlar a pressão alta. Eu estava esgotado, mas não foi só isso que me levou a mudar minha rotina. No início de 2007, passei por um tremendo baque durante a visita de Bento XVI ao Brasil. Eu tinha um sonho na vida: cantar para o papa na minha terra. Nunca escondi isso de ninguém. Mas me colocaram para fazer um espetáculo às 5h40 da manhã, no dia da cerimônia de canonização de Frei Galvão, no Campo de Marte, em São Paulo. Ou seja, em um horário em que não havia quase ninguém – muito menos o papa. Fui vítima de boicote. E isso não aconteceu só comigo. Com o padre Jonas Abib (fundador da Comunidade Canção Nova) também ocorreu coisa semelhante.

Quem o boicotou? Integrantes da Arquidiocese de São Paulo. Alguns organizadores da visita do papa ao Brasil. Eles capricharam na humilhação. Além de nos colocarem para cantar de madrugada, eu e o padre Jonas fomos barrados. Na entrada, fomos informados por um agente da Polícia Federal de que, com o nosso tipo de crachá, não teríamos acesso ao palco, mas apenas à plateia, apesar de escalados para fazer uma apresentação. Ficamos lá, esperando num frio danado, de madrugada, com a garganta doendo, até sermos liberados. Mas, durante todo o tempo, agi humildemente. Depois de me liberar, o agente que nos barrou ainda pediu para tirar uma foto minha para mandar para a mãe. Se eu fosse arrogante, faria um escândalo. Um amigo me disse que eu não deveria nem ter me apresentado. Um padre, contudo, tem de agir com humildade. Posei para a foto do policial, cantei minhas duas músicas e tudo bem. Mas ser impedido de me aproximar do papa, de pedir sua bênção, me magoou profundamente. Faço tanto pela Igreja e fui jogado de lado.

Mas, no ano passado, o senhor ganhou um prêmio das mãos do papa, o Van Thuân, que condecora os “evangelizadores modernos”. Esse prêmio foi muito especial. A confirmação de que estou no caminho certo. Interpreto como um cala-boca na Arquidiocese de São Paulo. Jamais esquecerei as palavras do papa ao me entregar o prêmio: “Continue assim”. Sabe quantos padres me ligaram para me cumprimentar pela condecoração? Um. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil até agora não me procurou. E olhe que havia muito tempo um padre brasileiro não recebia essa condecoração.

Qual seria o motivo desse desdém? No fundo, no fundo? (Ele faz o gesto que indica dor de cotovelo). Mas aprendi, com o sofrimento, a não remoer mágoas. Minha missão é buscar ovelhas, não é agradar a padres.

O senhor chegou a ter depressão por causa desses episódios? Não sei se posso chamar de depressão. Mas, em 2010, passei por um período de tristeza profunda. Hoje, percebo que o gatilho para esse estado foi o fato de ter sido impedido de ver o papa em 2007. No dia 29 de abril do ano passado, enquanto corria na esteira ergométrica, perdi o passo e me estatelei no chão. Foi feio: distendi três tendões e tive uma fissura em um osso do pé esquerdo. No momento da queda, o boicote veio à minha mente. Três dias antes, eu havia sido avisado de que, em outubro, receberia o Van Thuân das mãos do papa. Fiquei apavorado com a possibilidade de ser impedido de ver o papa mais uma vez. Nos catorze primeiros dias, não podia colocar o pé no chão. Passei dois meses em uma cadeira de rodas. Só tomava banho com lencinhos umedecidos. Imagine isso para uma pessoa como eu, ansiosa e agitadíssima. Era a morte! Acordava no meio da noite de tanta dor. Tomei uma batelada de analgésicos e anti-inflamatórios. Durante um mês, só conseguia dormir com benzodiazepínico. Engordei 14 quilos. Ia à missa chorando de dor. Não dividi minha angústia com ninguém, além do meu bispo. Nem para minha mãe contei como estava mal. Sou um padre, e minha missão é ouvir. Não é falar de mim.

O senhor se sentiu abandonado por Deus? Vou tentar lhe responder com um trecho de uma oração, que está no livro Ágape, fruto dos meus pensamentos naquele momento. “Senhor, tenho medo da dor. Senhor, eu já chorei, já sofri e continuo triste. Que os meus dias possam ser iluminados pela alegria. Que a tristeza não fique por muito tempo. Nas perdas, que eu ganhe aprendendo.” Senti-me sozinho e desamparado por Deus. Mas foi apenas por um instante. Senti-me como Cristo no Horto das Oliveiras, quando ele se achou abandonado e pediu a Deus para afastar de si o cálice de sangue.

Nessa passagem do Evangelho, Jesus sofre ao antever a via-crúcis… A meu ver, esse foi o momento de dor mais profunda de Jesus. Como Jesus, que aceitou o desígnio de Deus, eu também aceitei. Jamais pensei em abandonar o sacerdócio. Ao contrário, o sofrimento me fortaleceu. Minha dor se transformou no livro. Ágape foi minha redenção. Comecei a me recuperar no momento em que comecei a escrever. Eu transcrevia trechos do Evangelho e, depois, os interpretava. Em Ágape, não trato diretamente do meu sofrimento. Mas, em diversos momentos, falo de dor e recuperação. Passar por tudo isso me aproximou ainda mais dos fiéis.

Muitos cultivam verdadeira devoção pelo senhor. Como lida com isso? Fui abençoado com o que chamam de carisma. Tenho um dom especial. Deus me mostra algumas coisas quando eu toco nas pessoas. Não sou vidente nem médium – nada disso. Mas, muitas vezes, quando toco em uma grávida, sei o sexo do bebê. Na confissão, consigo prever um pecado antes de ele ser revelado. Se alguém me diz que sou santo, corto a conversa na hora. Não faço milagres. Sou apenas um instrumento do Espírito Santo.

O Vaticano, em especial o papa Bento XVI, é resistente ao estilo das missas da Renovação Carismática. O que o senhor acha disso? Se o papa fosse de fato contrário, não me premiaria pelo modo como evangelizo. O papa Bento XVI é inteligente. Ele prega a união da Igreja Católica – e, para ter unidade, não é necessário que haja uniformidade em todos os aspectos da missa, embora a liturgia tenha de ser preservada.

No fim dos anos 90, com suas missas grandiosas, o senhor incomodou muito os evangélicos. Como é hoje a sua relação com os líderes dessas igrejas? Até hoje, eles viram o rosto para mim. Mas há evangélicos e evangélicos. Eu respeito os que têm uma doutrina, como a Assembleia de Deus. Outros, eu chamo de seita. Seita, para mim, é a Renascer e aquela lá do “bispo” Edir Macedo. O Gugu, que é meu amigo, certa vez me chamou para ir ao programa dele, na Record (do “bispo” Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus). Record não dá, não é? Deus abençoe o Edir Macedo, mas eu não concordo com nada do que ele prega e veicula. Essas seitas primam pela ignorância em relação à história milenar da Igreja Católica. O que mais me assusta é que, como alguns desses líderes de seitas têm carisma, fica mais fácil aproveitar-se de gente pobre e honesta. Se eu, por exemplo, falar para um fiel que água é vinho, ele pode acreditar. Ter carisma implica responsabilidade.

Ao contrário de outros padres que também cantam, o senhor sempre aparece de batina. Por quê? A batina é a maior identidade sacerdotal. Acho um perigo não usá-la. A batina impõe respeito, é uma proteção – inclusive contra o assédio das mulheres. Você não imagina a quantidade de besteiras que eu ouço.

O senhor é muito assediado? Algumas mulheres conseguem até o número do meu celular. Já alertei o Fábio (o padre-cantor Fábio de Melo) para que não deixasse de usar batina. E ele está usando, por acaso? Bem se vê que eu não tenho influência sobre ele.

Qual é a sua opinião sobre os padres que usam roupas de grife e carros importados? Fico chateado. O padre tem de ter um carro apenas para locomoção. Não precisa ser um carro velho, que o coloque em perigo, mas não precisa ser o carro do ano. Roupa cara, nem pensar! Não preciso estar na moda para servir a Jesus.

O senhor não tem nenhuma vaidade? Só tomo o remédio finasterida, para não ficar careca. Um amigo me avisou que só tinha um problema: o medicamento aumenta o risco de impotência. Para um padre que observa fielmente o celibato, não se trata de um problema.

O que o senhor faz com os rendimentos do livro, dos CDs e dos DVs? Doo a comunidades carentes, mas, hoje em dia, a maior parte é destinada ao novo santuário que estou ajudando a erguer desde 2002. O projeto é primoroso, tem a assinatura do arquiteto Ruy Ohtake. O empreendimento terá 6000 metros quadrados de área interna e 25000 de externa. O vão tem 120 metros de comprimento e não haverá uma só coluna na parte de dentro – para que os fiéis possam ver o altar de qualquer ponto da igreja, sem empecilhos. Graças ao que ganhei com meu novo livro, o santuário tem finalmente data de inauguração: 1.º de dezembro de 2011.

Então o senhor pretende voltar a pregar para as multidões. Eu sempre estarei ligado às multidões. Mesmo se quisesse, jamais conseguiria celebrar uma missa para quarenta pessoas. Minha missa, às quintas-feiras, atrai 20000 fiéis. Em apenas uma noite de autógrafos do meu novo livro, costumo reunir 10000 pessoas. Muitas chegam a ficar dez horas esperando por uma dedicatória minha. Por vezes, minha mão incha tanto que tenho de parar e propor uma bênção em vez de autógrafo.

É difícil ser o padre Marcelo? Sinto-me preso às vezes em minha imagem pública. Hoje, passo minhas férias em casa ou na casa dos meus pais, em Itupeva, interior de São Paulo. Adoro praia, mas não dá para ir. Certa vez, decidi passar uns dias no litoral de São Paulo. Fui disfarçado. Vesti um boné que cobria uma parte do rosto e fui andar na areia, cercado de padres antigos. Mesmo assim, uma criança de 5 anos me reconheceu e começou a gritar: “É o padre Marcelo!”. Ela havia me identificado pelas minhas orelhas pontudas. Juntou um monte de geme. De vez em quando, passava férias na Europa, em peregrinações religiosas, mas era obrigado constantemente a interromper a caminhada por causa de turistas brasileiros. Hoje em dia, meu maior tormento é o aeroporto. Depois que inventaram celular com câmera, minha vida virou uma loucura. Uma tortura, na verdade: tenho 1,92 metro de altura, e a maioria das pessoas bate, portanto, na minha cintura. Na primeira foto, a cabeça delas sempre sai cortada. Ou seja, é preciso repetir a pose duas, três vezes por pessoa. Jamais, no entanto, neguei o pedido de um fiel. Sou um padre.

 
Fonte: Veja/Amarelas, 20/04/2011, páginas 19/23.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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