Ensinamentos de São João da Cruz (Parte 3)

Para vires ao que não possuis, hás de ir por onde não possuis.

Para chegares ao que não és, hás de ir por onde não és.

Guiemo-nos, pois, agora pela doutrina de Cristo-homem, de sua Igreja e seus ministros; e por este caminho, humano e visível, encontraremos remédios para nossa ignorância e fraqueza espiritual.

Quando tiveres algum aborrecimento e desgosto, lembra-te de Cristo crucificado e cala-te.

Na cruz, quando sofria o maior abandono sensível, Cristo realizou a maior obra que superou os grandes milagres e prodígios operados em toda a sua vida: a reconciliação do gênero humano com Deus, pela graça.

Queira tornar-te, no padecer, algo semelhante a este nosso grande Deus, humilhado e crucificado, pois que esta vida só tem razão de ser se for para imitá-lo.

A luz da fé comunica à alma toda a sabedoria de Deus; isto é, o próprio Filho de Deus é quem se comunica à alma na pura fé.

Há muito que aprofundar em Cristo, sendo ele, qual abundante mina com muitas cavidades cheias de ricos veios: por mais que se cave, nunca se chega ao fim, nem se consegue esgotar.

Ao criar todas as coisas, Deus as achou muito boas, porque as criou no Verbo, seu Filho.

Tenha a alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida, meditando-a para saber imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.

Não é bem orientado o espírito que quer caminhar por doçuras e facilidades, fugindo de imitar a Cristo.

A pessoa crucificada interior e exteriormente com Cristo, viverá feliz e satisfeita e, na paciência, possuirá a sua alma.

Fortalece o teu coração contra todas as coisas que te inclinam ao que não é Deus, e sê amigo da paixão de Cristo.

Nunca tomes o homem por exemplo no que tiveres que fazer, o santo que seja, porque o demônio porá diante de ti as suas imperfeições; imita, porém, a Cristo que é sumamente perfeito e sumamente santo e nunca errarás.

Se quiseres chegar a possuir Cristo, jamais o busques sem a Cruz.

O Filho de Deus se compraz na alma, isto é, permanece na alma, como em lugar onde acha grandes delícias, porque este mesmo lugar a própria alma também acha nele verdadeiramente seu gozo.

Deus só coloca sua graça e predileção numa alma, na medida da vontade e do amor da mesma alma.

Adquire-se a sabedoria através do amor, do silêncio e da mortificação; grande sabedoria é saber calar e não inserir-se em ditos ou fatos e na vida alheia.

Quando a alma se acha livre e purificada de tudo, em união com Deus, nenhuma coisa poderá aborrecê-la. Daqui se origina para ela, neste estado, o gozo de uma contínua suavidade e tranqüilidade, que ela nunca perde nem jamais lhe falta.

Ora, não há maior grandeza para a alma do que ser igualada a Deus. Por isso, ele se serve somente do amor da alma, pois é próprio do Amor igualar o que ama com o objeto amado.

Considerem isto os que são muito ativos: bem maior proveito fariam à Igreja, e maior satisfação dariam a Deus  além do bom exemplo que proporcionariam a si mesmos se gastassem ao menos a metade do tempo empregado nessas boas obras, em permanecer com Deus na oração.

Tal é a alma que está enamorada de Deus. Não pretende vantagem ou prêmio algum a não ser perder tudo e a si mesma, voluntariamente, por Deus, e nisto encontra todo o seu lucro.

Não basta que Deus nos ame para dar-nos virtudes; é preciso que, de nossa parte, também o amemos, a fim de podermos recebê-las e conservá-las.

É próprio do perfeito amor nada querer admitir ou tomar para si, nem atribuir-se coisa alguma, mas tudo referir ao Amado. Se nos amores da terra é assim, quanto mais no amor de Deus.

Para Deus, amar a alma é, de certa maneira, integrá-la em si mesmo, igualando-a consigo; ama, então, essa alma, nele e com ele, com o próprio amor com que se ama.

Quando Deus vê a alma ornada de graça a seus olhos, muito se inclina a conceder-lhe ainda maior graça, em razão de permanecer dentro dela com agrado.

O olhar de Deus produz na alma quatro bens, isto é, a purifica, a favorece, a enriquece e a ilumina. É como o sol que, dardejando na terra os seus raios, seca, aquece, embeleza e faz resplandecer os objetos.

Logo que a alma se desembaraça das suas potências, esvaziando-as de tudo quanto é inferior, e de toda a posse , e as deixa em completa solidão, Deus as ocupa imediatamente.

O padecer é, para a alma, o meio para penetrar mais intimamente na espessura da deleitosa sabedoria de Deus, porque o mais puro padecer traz mais íntimo e puro entender, e, consequentemente, mais puro e sublime gozo.

Não fujas dos sofrimentos, porque neles está a tua saúde.

Ó grande Deus de amor e Senhor! quantas riquezas pondes naquele que não ama nem gosta senão de vós, pois a vós mesmo vos dais e fazeis uma só coisa com ele por amor!

A alma que quer que Deus se lhe entregue inteiramente, há de se entregar toda sem reservar nada para si.

Amado meu, tudo o que é difícil e trabalhoso o quero para mim, e tudo o que é suave e saboroso o quero para ti.

Na união com o Amado, a alma verdadeiramente se rejubila e louva a Deus, com o mesmo Deus, e assim este louvor é perfeitíssimo e muito agradável a ele.

Só Deus é quem move as potências das almas, postas no estado de união, para aquelas obras conforme à sua santa vontade e divinos decretos, sem que possam agir de outro modo. E assim as obras e súplicas dessas almas são sempre eficazes. Tais eram as da gloriosíssima Virgem Nossa Senhora, elevada, desde o princípio, a este sublime estado; jamais teve impressa na alma a imagem de alguma criatura, nem se moveu por ela; mas sempre agiu sob a moção do Espírito Santo.

Oh! que bens serão aqueles que gozaremos com o olhar da Santíssima Trindade!

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.