Encosto e descarrego – EB

Em síntese: A revista ÉPOCA de 26/04/03 publicou significativa reportagem sobre o procedimento do descarrego (pretenso exorcismo) praticado na Igreja Universal do Reino de Deus. Esta, embora combata as religiões afro-brasileiras, conserva certa afinidade com elas: todas as desgraças seriam produto de um “espírito encostado”, que deve ser “descarregado” na Igreja Universal do Reino de Deus. Esta também distribui aos carentes objetos usuais nos terreiros afro-brasileiros: arruda, sal, óleo, (…).

A revista ÉPOCA, edição de 26/04/03 publicou uma reportagem intitulada “O Exorcismo e Atração da Noite” e redigida por Alexandre Mansur e Luciana Vicária. Tem por subtítulo: “Humilhantes rituais para ganhar fiéis pela TV baseiam-se em técnicas conhecidas para produzir um transe”. Os repórteres analisam um programa de televisão filmado numa sessão da IURD, põem em evidência as táticas de libertação ou curam aplicadas pelos respectivos pastores. – Tal artigo, embora nada de novo diga, merece a atenção do grande público.

Pressuposto

Na raiz dos mencionados rituais  está a premissa segundo a qual toda desgraça – financeira, profissional, afetiva, doentia(…) – é devida a um espírito “encostado”, que pode ser um anjo mau (demônio) como pode ser uma “alma penada” que tenha o poder de entravar a vida das pessoas na terra.

Ora tal concepção não é cristã. A fé cristã ensina que o demônio existe, sim, e, por permissão de Deus, tenta os homens ao pecado; é esta a sua grande meta; pode também apoderar-se do corpo de alguém em casos raros, mas não se pode dizer que seja o autor de todos os males que acometem o homem. As criaturas humanas e infra-humanas, limitadas como são, trazem em si mesmas a causa de muitos dos males que padecem. A respectiva solução, porconseguinte, não está em rituais religiosos, mas na medicina e no emprego dos recursos humanos (que a oração e a graça divina podem tornar eficientes).

O neopentecostalismo da Igreja Universal do Reino de Deus (URD) retrocede assim ao plano do animismo dos povos primitivos.

Eis como os repórteres descrevem o programa de televisão “Atração da noite”.

Os rituais aplicados

Num desses programas, o bispo da Igreja Universal Romualdo Panceiro interroga, no púlpito, uma fiel que se debate, como se estivesse possuída. Com voz rouca e enrolada, ela se identifica como um “mau espírito” – a serviço de inimigos da pobre mulher.  O bispo, então, a agarra, puxa seus cabelos, torce-lhe o braço e verga seus joelhos.  No ponto alto da cena humilhante, Panceiro pergunta quais desgraças o anjo caído causa na vida daquela cristã. A voz gutural retruca:

– Deram um bode para mim matar ela. O marido dela já ficou sem as duas pernas. Ele tem que fumar maconha até morrer.

A câmera se aproxima.

– Eu quero deixar o filho dela morrer primeiro.  É para fazer ela sofrer – completa a voz.

O bispo assegura-se de que a plateia extasiada da Catedral da Fé, o maior templo da Universal em São Paulo, acompanhou o depoimento.  Depois, acena a expulsa do espírito.  Profere uma oração invocando o poder de Jesus e ordena que ele deixe o corpo sofredor.  A fiel acorda do transe.

Encerrado o espetáculo, o mesmo bispo exorcista com leta a pregação.  Diz que dificuldades da vida de todo tipo são causadas por olho gordo ou feitiçaria materializados nos “encostos”. E a única coisa a fazer é correr para um templo da Universal e submeter-se a um ritual de exorcismo – as “sessões de descarrego”. Na Sexta-feira 18 de abril, o programa se superou ao exibir o exorcismo de um jovem em conflito com sua sexualidade. Ao expulsar o “encosto”, o bispo explicou que as inclinações gays  do rapaz eram resultado de um “feitiço” encomendado por um homem que se apaixonara por ele. “Agora você pode engrossar sua voz.  O encosto foi embora”, disse.

Esses rituais são corriqueiros em cultos da Universal e de outras igreja neopentecostais.

O teatro da possessão demoníaca é eficiente também porque é divertido. O paulistano Eduardo Oliveira, de 28 anos, tornou-se figura conhecida no placo da Catedral da Fé, megatemplo da Igreja Universal. Incorpora encostos e demônios quase toda semana.  “Não tenho culpa, sou mais sensível que os outros e me entrego com mais facilidade”, explica. Oliveira foi batizado na Igreja Católica.  Há pouco mais de um ano, abalado pela perda do emprego e do fim de um antigo namoro, foi atraído por um programa de TV da Igreja Universal. “Já experimentei outras Igrejas, mas, em matéria de libertação, não existem melhor que a Universal :  a reza é forte e específica”. Oliveira fecha os olhos, une e aperta as mãos contra o peito. Começa a rezar em voz alta.  Um obreiro atento aos fiéis mais exaltados se aproxima. “Eu ordeno, se manifeste”, diz o obreiro,  fazendo movimentos circulares com a cabeça do fiel. Oliveira se joga no chão e começa a se debater. “Minha perna fica bamba, meus braços amolecem, quando dou por mim estou no altar”, diz.

Comentam os repórteres

A pretexto do combater “espíritos do mal”, o programa Coisas da Vida exibe rituais de exorcismo que reproduzem transes da umbanda e do espiritismo.

Igrejas de massa precisam dominar a televisão para sobreviver. Programas de rádio e televisão religiosos não atraem receita publicitária, mas não há modo melhor de chamar fiéis para os templos – o verdadeiro celeiro de ofertas. Oito em cada dez fiéis para os templos – o verdadeiro celeiro de ofertas. Oito em cada dez fiéis que chegam a um templo de Edir Macedo foram cativados pela pregação no vídeo. A cada minuto, o programa da Universal exibe o telefone do SOS Espiritual, que fornece o endereço da igreja mais próxima do espectador. “A TV é vital para garantir que o crente vá a um templo e lá entregue dízimos e ofertas”, diz Regina Novaes, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser).

Ainda que impressionem à primeira vista, os transes testemunhados nos templos e nas TVs da Igreja Universal recorrem a truque conhecidos. A começar por uma mensagem sedutora: o pastor diz que o fiel é uma boa pessoa e todo o mal que ele faz ou sofre é causado por um espírito maligno. Quem vive dramas insuperáveis se entrega facilmente à fantasia.

“As pessoas são sugestionadas pela voz autoritária do pastor até atingirem uma espécie de estado hipnótico”, diz a psicóloga paulista Denise Ramos. A repetição das orações em voz alta, de olhos fechados, conhecia pela medicina como respiração holotópica, produz um fenômeno de superoxigenação no cérebro. O resultado é um rebaixamento dos níveis de consciência.  Quem está no meio de um agrupamento tomado pela euforia tende a se deixar contaminar pela emoção. Há um mecanismo do sistema límbico do cérebro, o mais básico da área nervosa, que induz a pessoa a se comportar segundo as atitudes da multidão que a cerca. “É por isso que choramos em comícios ao ouvir o Hino Nacional”, compara Denise Ramos.

A gritaria dos milhares de fiéis que participam das sessões de descarrego contagia a quem está lá carregando conflitos psicológicos. “O povão não tem acesso á psicanálise. As pessoas procuram esses cultos populares para aplacar seu inferno interior”, diz o pastor Mozart Noronha, da Igreja Luterana do Brasil.  Pastores e seus auxiliares, chamados de obreiros, aprendem a induzir o transe. “Quando a pessoa está tonta, fica mais aberta para manifestar os demônios”, diz a obreira Aparecida Santos, ex-fiel da Igreja Universal, atualmente na Igreja Internacional da Graça de Deus. Ela costuma a mão na cabeça dos fiéis e faze-la rodar. Outro recurso que funciona é tocar músicas altas no teclado, com acordes bem tenebrosos. “Porque o demônio não gosta de silêncio”, explica a obreira.  Aparecida aprendeu as técnicas do exorcismo na Universal, onde passou cinco anos como auxiliar de pastores.  Está convencida de que as cenas na Igreja são manifestações reais de entidades do mal. “O diabo está lá mesmo”, afirma. Só discorda dos métodos de sua ex-igreja. “A Universal expõe muito a privacidade da pessoa”. Nos cultos dos quais participa hoje, Aparecida identifica quem está possesso e o encaminha a um canto da Igreja.

Jogar a culpa por tudo que há de errado no demônio é uma solução confortável para quem busca alívio nos cultos. As consequências podem ser perigosas. “A pessoa sai da Igreja acreditando que não tem responsabilidade moral pelos erros que comete”, diz o pastor evangélico Ariovaldo Ramos. O crente também fica convencido de que possui uma personalidade frágil e influenciável. “Ele está pronto para ser manipulado por qualquer líder espiritual que se apresente como solução. Escapa dos vícios para virar escravo desses pregadores”, acusa.

O neopentecostalismo se desenvolve nos extratos mais pobres da população. Pesquisas revelam que um terço dos fiéis sobrevive com menos de dois salários mínimos, 68% não passaram do ensino fundamental e um em cada dez é analfabeto. Em geral, acreditam em magia negra e forças ocultas. “O povo acha que o demônio está por aí. Agindo através dos incautos”, diz a antropóloga Regina Novaes, do Iser.

Até aqui os repórteres da revista ÉPOCA.

Objetos  “poderosos”

Em complemento do descarrego, a IURD  distribui aos seus fiéis objetos tidos como poderosos.  A fim de obter seus benefícios, as pessoas vão buscá-los no altar, prometendo fazer ofertas generosas.  Eis o que vem oferecido:

1. Pedras, pois não é só com orações que se expulsam os encostos.  As pedras devem ser atiradas contra um boneco gigante colocado sobre o altar da Catedral da Fé em São Paulo, como representante do gigante Golias, que Davi venceu com um lance de pedra (cf. 1Sm 17, 43-54).

2. Arruda sob forma de sabonete, destinado a livrar o corpo de impurezas.

3. Óleo: o azeite é colocado em frascos.  Seja agitado para afastar “maus olhados”.

4. Sal: vem em pratos de plástico, tendo por finalidade purificar o lar e o local de trabalho.

5. Envelope vazio, que na semana seguinte deverá se devolvido com a respectiva oferta, sinal da fé do oferente.

Estes dados bem mostram quanto a IURD se aproxima das religiões afro-brasileiras e se vai afastando da autêntica mensagem cristã.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº  495 – Ano:  2003  – p.  418

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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