Eis por que a Fé Está em Crise

261_261_5Entrevista com o Cardeal Ratzinger em 1985

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé pôs à disposição do nosso enviado [Revista Communio] alguns dias das suas férias que transcorreu em Bressanone. Trata-se da mais longa e completa entre as raras entrevistas concedidas pelo responsável de um organismo vaticano, cuja discrição é legendária. Respondendo com franqueza às perguntas, o Cardeal Ratzinger traçou um “mapa”, inédito e autorizado, da situação da Igreja. Antecipamos aqui alguns dos conteúdos mais significativos.

Os textos completos do colóquio serão publicados num volume das Edizioni Paoline, com o título de “Relatório sobre a fé” (Rapporto sulla fede).

Um serviço à Igreja muitas vezes incompreendido e difamado

“Defender a Ortodoxia é defender os pobres”

O que a “Congregação para a Doutrina da Fé” oferece aos católicos, é um serviço essencial. Se a fé é o bem mais alto (e assim é, verdadeiramente, numa perspectiva religiosa), quem vela para que ela não se corrompa, deveria ser considerado pelos fiéis ainda mais benemérito do que quem cuida da saúde do corpo. Não somos por acaso admoestados a “não temer aqueles que matam o corpo”, mas antes aqueles que “junto ao corpo, podem matar a alma” (Mt 10,28).

Em realidade, o ocultamento da esperança na história, com a conseqüente diminuição de uma tensão primária para com a vida eterna, fez com que a muitos católicos apareça irrelevante (quando não anacrônico ou até daninho) o dever da Congregação da qual Ratzinger é o Prefeito. Com relação a isto, circulam fáceis chavões: conforme um destes, o que conta hoje seria “comportar-se bem”, “amar o próximo” (a ortopráxis), ao passo que seria secundária a preocupação de “crer bem”, isto é, o crer, segundo a Escritura lida no interno da Tradição da Igreja (a ortodoxia). Chavão fácil, porque superficial: principalmente hoje os conteúdos do “amor pelo próximo” não mudam, talvez, conforme os modos de entender

1. O presente artigo é a tradução de um original italiano publicado com o título “Parchê Ia fede ê in crisl” na revista “JESUS”, das Edições Paulinas da Itália, ano VI, n9 11, novembro 1984, pp. 67-81. O entrevistador, no caso, é o escritor Vittorio Messori. (Nota da redação).
A fé? Para dar um exemplo do tema quente da América Latina, não depende talvez de um aprofundamento da “ortodoxia”, descobrir qual seja a “ortopráxis”, o modo justo de ajudar eficazmente os pobres? Como escolher entre propostas de ação muitas vezes contrastantes, todas convictas de descender legitimamente do Evangelho, se não confrontando-se com a teologia e, portanto, com os modos de entender a fé de modo correto?

Como me disse o próprio Cardeal Ratzinger: “Num mundo onde o ceticismo contagiou também os crentes, é considerada um escândalo a convicção da Igreja de que existe uma verdade de fé e de que esta verdade seja definível e exprimível de modo preciso. É um escândalo compartilhado mesmo por aqueles cristãos que perderam de vista a estrutura da Igreja, que não é uma organização somente humana e que, portanto, deve defender um depósito que não é seu. Não seria mais a ‘Catholica’, se aquele depósito não fosse comum, aceita por todos. Certo: unidade na fé não significa uniformidade dos instrumentos técnicos e dos tipos de reflexão; mas, no fim, tudo deve referir-se a uma verdade que é redentora e única”. Aparece logo aqui um raciocínio sobre a Igreja e sobre os modos de entendê-la, que é central na reflexão de Ratzinger; aliás com razão, porque as más interpretações eclesiológicas estão na raiz de muitos dos desvios atuais.Falaremos disso mais adiante.

Aqui urge observar como certas suspeitas e preconceitos contra tudo o que vem daquele que muitas vezes é definido como “o ex-Santo Ofício”, remontam às lendas criadas ao redor desta instituição, pela polêmica anticristã dos séculos 18 e 19. Em realidade(isto nos é confirmado por um estudioso leigo, aliás agnóstico, dos movimentos heréticos, Luigi Firpo, “Jesus”, abril de 1984) o Santo Ofício foi muito mais justo, moderado e cauto do que imagina uma certa fama sinistra. Nem a “Inquisição Romana” deve ser confundida, como freqüentemente acontece, com a lnquisição Espanhola, que foi um tribunal estatal, régio, e agiu muitas vezes em contraste com Roma, de onde os Papas não deixaram de protestar e admoestar. Em todo caso, é certo que a atual Congregação para a Doutrina da Fé, assim como a quis Paulo VI, atendendo a um desejo do Concílio, tem poucos temas para oferecer aos apaixonados por lendas tenebrosas. O próprio “Grande Inquisidor” (como não deixaram de defini-lo certos jornais) aparece como antítese da imagem sinistra e brutal que alguns gostariam de impingir-lhe.

Joseph Ratzinger, 57 anos, provém do colorido, vivaz e fiel catolicismo da Baviera. “Oh, não!”, foi a sua resposta espontânea quando lhe perguntei se, num país multiconfessional como a Alemanha, nunca fora atraído pelo protestantismo: “Não, não! O catolicismo do sul da Alemanha tocava Mozart nas igrejas, sabia deixar lugar para tudo que é humano: para a oração, mas também para a festa, para a penitência, mas também para a alegria. Como ser atraído, então, pelo cristianismo luterano ou reformado?”. Nos dias em que passamos juntos, este homem que ocupa um dos cargos mais altos da Igreja universal, pareceu-me um homem manso, humilde, talvez até tímido, firme nas suas convicções, mas ao mesmo tempo sensível a problemas, como é próprio de quem é também um grande intelectual.

Quando lhe perguntei se lhe tinha custado passar da condição de teólogo (quiçá controlado por Roma … ) àquela de fiscal do trabalho teológico, não hesitou em responder: “Nunca teria aceito dedicar-me a este serviço eclesial se o meu dever fosse principalmente fiscalizar. Em realidade, assim como foi reestruturada pelo ‘Motu-proprio’ Integrae servandae, de 7 de dezembro de 1965 – último dia do Vaticano II – a nossa Congregação conservou, sim, o dever de definir e de intervir, mas sempre acompanhado por um papel positivo de estímulo, de incentivo, de esclarecimento, de orientação”. O que provocou nervosismo em alguns, é exatamente o fato de que o suposto “policial da fé”, em realidade não somente tem o gabarito de grande teólogo (ocupou cátedras entre as mais prestigiosas e publicou livros de grande difusão), mas também de teólogo aberto, moderno, atento aos sinais dos tempos. Perito do episcopado alemão no Vaticano II, foi um dos fundadores da revista “Concilium”, da qual saiu a assim chamada “ala progressista” da teologia católica.

“Um pecado de juventude, Eminência, este empenho por ‘Concilium’?, pergunto-lhe brincando. “Nada disso”, respondeu-me. “Não sou eu, mas são eles que mudaram. Desde as primeiras reuniões, em 1964, deixei claro para os meus colegas duas exigências: a primeira é que o nosso grupo não deveria ser sectário, arrogante, como se somente nós fôssemos a verdadeira Igreja, um novo magistério que teria no bolso a verdade sobre o cristianismo do futuro. A segunda exigência era que seria necessário confrontar-se com a letra e com o espírito dos documentos do Vaticano ll, naqueles tempos ainda em andamento, sem fugas solitárias para frente. Depois, tais exigências não foram mais tidas em consideração”.

Exatamente por ocasião dos vinte anos da revista, foi escrita uma frase significativa: “O Vaticano 11 pertence ainda à fase eclesiástica, clerical; com tais documentos, não é possível ir adiante, é necessário superá-los”. Comenta Ratzinger: “É uma observação importante: mostra que, se tomados na sua integridade, os documentosdo Vaticano 11 estão completamente dentro da tradição da Igreja, e não são de modo nenhum aquela reviravolta que alguns imaginam ou gostariam de fazer acreditar, ou para deplorá-lo ou para abusar dele. Aliás, diante do Vaticano li, tanto a ‘direita’ como a ‘esquerda’, pelo menos nas suas formas mais extremas, caem em contradição. Quem tem saudades do Concílio de Trento e do Vaticano I ou quem, pelo contrário, gostaria de considerar já superado o ensinamento daqueles dois concílios, esquece que eles estão sustentados pela mesma autoridade – o

Colégio dos Bispos em comunhão com o Papa – que sustenta o Vaticano ll, Não é possível escolher, na Tradição da Igreja, o que nos está mais a gosto.
Eis-nos, portanto, diante da temática do Vaticano ll. O nosso colóquio – e não podia ser de outra maneira – partiu naturalmente do fato de que no próximo ano se celebrarão os vinte anos do encerramento do Concílio. Vinte anos que mudaram a Igreja muito mais que dois séculos. Mas, sobre os frutos da árvore do Concílio, o juízo não é unânime: as dificuldades, as crises que todos bem conhecemos, são febres de crescimento ou são sintomas de uma doença grave? Raciocinando humanamente, foi realmente uma intuição profética ou foi uma decisão inoportuna, a do papa João XXIII de reunir a Igreja naquele momento do século XX? Que dizer dos resultados, visto que – depois de tanto esforço para “tornar a Igreja novamente crível para o homem de hoje” – em realidade nunca como hoje o homem parece estar tão longe da Igreja e talvez do Evangelho? As igrejas esvaziaram-se drasticamente, e aqueles que ainda as freqüentam não são propriamente “novos” – convencidos da “renovada apresentação da fé” -, mas são representantes dos cristãos “velhos”, daqueles que já antes iam à missa. Se pedimos um encontro com o Cardeal que está num dos pontos de observação mais elevados, foi para procurar entender.

Cardeal Ratzinger, -ajude-nos, portanto, também o senhor, a responder a estas perguntas: que foi o Vaticano li? Foi uma prova ou um prêmio para a Igreja?
Começou, portanto, daqui, a desenvolver-se o nosso colóquio. E aqui referimos quanto surgiu de uma conversa que, tendo tratado de quase todos os pontos vitais da fé, exigirá o espaço de um livro para ser mais adequadamente tratada.
Aqui nos devemos limitar a alguns temas, a provocações que conservam ainda a espontaneidade da conversa.
Eis, portanto, a síntese das palavras do “Prefeito da Fé”.


Uma avaliação do Vaticano II

“Existe uma só Igreja, não um pré ou pós concílio”

“O início da década de 1960 era realmente o momento justo para convocar um Concílio? A história – sobretudo a história da Igreja, que Deus guia através de percursos misteriosos – não se faz com os se. Naquele período estava por aparecer no cenário a segunda geração do pós-guerra, aquela que não tinha visto o desastre do conflito e estava, pelo contrário, vendo o “boom” econômico do Ocidente. Existia – mesmo entre os Bispos, como depois se viu – grande otimismo, grande confiança no progresso, nas conquistas da técnica, na distensão internacional. Circulava também, na Igreja, certa expectativa por uma nova reflexão sobre a fé. A respeito disto, todo o mundo estava de acordo, também o meu predecessor, o Cardeal Ottaviani. Naturalmente, era necessário estar de acordo sobre o que se queria fazer.

Permanece o fato de que, tendo sido anunciado que haveria o Concílio, a Cúria Romana trabalhou com empenho para preparar aqueles esquemas que depois foram deixados de lado e que (conformando-se às intenções do Papa João XXIII) não tocavam certamente um “depositum fidei” que se dava por adquirido, óbvio, mas procuravam, no máximo, uma apresentação pastoralmente mais adequada”. “Certo”, continua, “os resultados parecem cruelmente opostos à expectativa de todos, começando por aquelas de João XXIII e, depois, de Paulo VI: esperava-se uma nova unidade católica e, pelo contrário, veio uma divergência que – usando as palavras do Papa Montini – pareceu passar da autocrítica à autodestruição. Esperava-se um novo entusiasmo e tantos acabaram por desencorajar-se e entediar-se. Esperava-se um salto adiante e, pelo contrário, nos encontramos diante de um processo progressivo de decadência, que se desenvolveu, em grande parte, exatamente sob o signo de um apelo ao Concílio e que, portanto, contribuiu para desacreditá-lo diante de muitos. O balanço parece, pois, negativo; repito aqui o que já disse aos dez anos do encerramento dos trabalhos: é incontestável que este período foi decididamente desfavorável para a Igreja católica. Mas este balanço amargo é, verdadeiramente, atribuível, pelo menos em parte, a forças postas em movimento, involuntariamente, pelo Vaticano II”.

Eu creio que o Concílio não possa em realidade ser considerado responsável por evoluções ou involuções que – pelo contrário – contradizem seja ao espírito, seja à letra dos seus documentos. Já durante as sessões, e depois, de modo sempre mais vasto, circulou aquilo que nós alemães chamamos “Konzils-Ungeist”, aquele “anti-espírito do Concílio”, segundo o qual tudo aquilo que é “novo” (ou suposto como tal: quantas antiqüíssimas heresias reapareceram nestes anos como novidade), seria sempre e de qualquer modo melhor do que aquilo que já existe. Um “anti-espírito” segundo o qual a história da Igreja deveria ser recomeçada pelo Concílio Vaticano II”.

“É necessário opor-se a este esquematismo”, diz ainda, “é necessário deixar de falar de Igreja pré e pós-conciliar: existe uma só e única Igreja que caminha para o Senhor que deve vir, aprofundando sempre mais e entendendo sempre melhor a bagagem de fé que Ele nos confiou. Mas, nesta história, não existiram nem existem rupturas ou soluções de continuidade. O Concilio de Trento, o Vaticano I, e em geral toda a Tradição, até a mais antiga, Pio XII e com ele todos os Papas dos séculos 19 e 20: eis as fontes tomadas em consideração, juntamente com a Escritura, pelos documentos conciliares, que em cada afirmação sublinham a continuidade com o passado. É minha impressão que os estragos na Igreja nestes vinte anos sejam devidos, mais do que ao Concílio “verdadeiro”, ao desencadear-se – interior a ele – de forças latentes agressivas, polêmicas, centrífugas, talvez até irresponsáveis; e – exterior a ele – ao impacto da mudança cultural: a afirmação, no Ocidente, da classe média-alta, da nova “burguesia do terciário”, com a sua ideologia liberal-radical, de caráter individualista, racionalista, edonista”.
Novos problemas da missão com os não-cristãos

“Atenção a enfase excessiva sobre os valores dos outros”

A propósito da crise que atingiu com particular dureza os missionários, diz o Cardeal: “É doutrina tradicional, antiga, da Igreja, que todo homem é chamado à salvação e pode de fato salvar-se (se obedece com sinceridade aos ditames da própria consciência) mesmo se não é membro visível da comunidade católica. Esta doutrina que – repito – era já aceita por todos, foi, porém, excessivamente enfatizada a partir dos anos do Concílio, apoiando-se em teorias como a do “cristianismo anônimo”. Chegou-se a dizer que existe sempre a graça quando uma pessoa – que não crê em nenhuma religião ou que segue qualquer religião – aceita a si mesma como homem; o cristão teria a mais somente a consciência de uma graça que, em todo caso, seria de todos. A ênfase foi levada depois também aos valores das religiões não cristãs, que algum teólogo apresenta não como vias ‘extraordinárias’, mas ‘ordinárias’ para a
salvação. Estas hipóteses têm, obviamente, enfraquecido em muito a tensão missionária. “Por que molestar os não cristãos induzindo-os ao batismo e à fé em Cristo”, começaram a perguntar-se alguns, “visto que a sua religião é o caminho de salvação na sua cultura, na sua parte do mundo?.”

“Esqueceu-se, entre outras coisas”, continua, “a ligação que o Novo Testamento instaura entre salvação e verdade, cujo conhecimento (assim afirma Jesus explicitamente) liberta, e, portanto, salva. Ou, como diz Paulo: “Deus, nosso Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”; a qual, acrescenta imediatamente, consiste no saber que “há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se deu em resgate por todos” (1Tm 2,4-7)”.

“Muitos, pois, nestes anos”, acrescenta, “fizeram um juízo injusto sobre a conexão entre atividade missionária e colonialismo, cujos excessos foram mitigados exatamente pelos missionários que (reconhecem-no os mesmos africanos mais objetivos) criaram oásis de humanidade, em zonas devastadas por misérias e opressões. Tantos evangelizadores levaram, sim, um cristianismo em categorias ‘ocidentais’ (e que podiam fazer de diferente, senão começar com um catecismo, o único que conheciam?), mas transformaram-se em verdadeiros pais das pessoas a eles confiadas; deve-se a eles, se é ainda possível, uma certa amizade entre a Europa e a África. Não é o
caso de exaltar as condições pré-cristãs, aquele tempo dos ídolos que era também o tempo do medo, num mundo onde Deus está longe e a terra está abandonada aos demônios. Como já aconteceu na bacia do Mediterrâneo, no tempo dos apóstolos, assim também na Africa, o anúncio do Cristo, que pode vencer as forças do mal, foi uma experiência de libertação do terror. O paganismo sereno, inocente, é um dos tantos mitos da idade contemporânea” .

“Mesmo que não seja a doutrina de certos teólogos superficiais”, observa ainda, “o diabo é, para a fé cristã, uma presença misteriosa, mas real, pessoal, não simbólica. E é uma realidade potente (‘o príncipe deste mundo’, como o chama o Novo Testamento, que relembra a sua existência muitas vezes), uma maléfica liberdade sobre-humana oposta àquela de Deus: como mostra uma leitura realística da história, com o seu abismo de atrocidades sempre renovadas e não explicáveis somente ao homem, o qual, sozinho, não tem força suficiente para opor-se a Satanás; mas este não é um outro deus, e, unidos a Jesus, temos a certeza de vencê-lo, É o Cristo, o ‘Deus vizinho’, que tem a força e a vontade de libertar-nos: por isso, o Evangelho é verdadeiramente ‘boa notícia’. E, também por isso, devemos continuar a anunciá-lo àqueles regimes de terror que são muitas vezes as religiões não-cristãs. Digo ainda mais: a cultura atéia do Ocidente moderno vive ainda graças à liberdade do medo dos demônios, trazida pelo cristianismo. Mas, se esta luz redentora do Cristo deve apagar-se, mesmo com toda a sua sabedoria e com toda a sua tecnologia, o mundo recairia no terror e no desespero. Existem já sinais desta volta de forças obscuras, enquanto crescem no mundo secularizado os cultos satânicos”.

As relações Igreja-mundo: entre fechamento e abertura

“Restauração? Sim, contato que signifique um novo equilíbrio”

Para voltar ao Vaticano II e aos seus efeitos, alguém disse que a primeira revolução burguesa, a francesa de 1789, atingiu fortemente a Igreja, porque estava enfraquecida internamente por um certo espírito “libertino” e externamente por decisões surpreendentes como a dissolução da então formidável Companhia de Jesus. A última, até agora, das revoluções burguesas, aquela de 1968, encontrou a Igreja vulnerável pela fase do pós-Concílio, pelas modificações laboriosas da atualização: se os trabalhos não tivessem sido começados, a tempestade teria causado menos danos?

Diz Ratzinger: “Uma vez mais é impossível raciocinar por hipóteses; Deus assim o quis. É certo que muitos membros da Igreja passaram naqueles anos de um fechamento algumas vezes exagerado a uma abertura sem filtros nem freios, ao mundo contemporâneo e à sua cultura. O Vaticano II tinha razão de augurar uma revisão das relações entre a Igreja e o mundo. Todavia, não conhece nem a Igreja nem o mundo, quem pensasse que estas duas realidades possam encontrar-se sem conflito ou até mesmo misturar-se. Pelo contrário, hoje mais do que nunca, o cristão deve ser consciente de pertencer a uma minoria e de estar em contraste com o que parece bom, óbvio, lógico para o “espírito do mundo”, como o chama o Novo Testamento. Entre os deveres mais urgentes para o cristão, está a recuperação da capacidade de opor-se a muitas tendências da cultura circunstante, renunciando a uma certa solidariedade pós-conciliar demasiado eufórica”.

Portanto, ao lado da Gaudium et Spes, podemos ter ainda a Imitação de Cristo? “Trata-se, obviamente, de duas espiritual idades muito diferentes. A Imitação é um texto que reflete a grande tradição monástica medieval. Mas o Vaticano não queria absolutamente tirar as coisas boas dos bons”. E a Imitação de Cristo (tomada, entende-se, como símbolo de uma certa espiritualidade) está ainda entre as coisas “boas”? “Aliás, entre os objetivos mais urgentes do católico moderno, está exatamente a recuperação dos elementos positivos de uma espiritualidade como aquela, com sua consciência de separação qualitativa entre a mentalidade de fé e a mentalidade mundana. Certo, na Imitação existe uma acentuação unilateral da relação privada do cristão com o seu senhor. Mas, em muitas produções teológicas contemporâneas existe uma compreensão insuficiente da interioridade espiritual. Condenando em bloco e sem apelo à fuga saeculi, que está no centro da espiritualidade clássica, não se entendeu que naquela fuga havia também um aspecto social.

Fugia-se do mundo não para abandoná-lo a si mesmo, mas para recriar, no espírito, uma nova possibilidade de vida cristã e, portanto, humana. Dava-se conta da alienação da sociedade e – no eremitério ou no mosteiro – reconstruíam-se oásis habitáveis, de esperança de salvação para todos.
Existem motivos para refletir: vinte anos atrás, dizia-se que o problema mais urgente do católico era encontrar uma espiritualidade ‘nova’, ‘comunitária’, ‘aberta’, ‘não sacral’, ‘secular’, ‘solidária com o mundo’. Agora, depois de tanto vagar, descobre-se que o dever urgente é reencontrar uma relação com a espiritualidade antiga, aquela da ‘fuga do século’ “.
Mas então – pergunto a Ratzinger – não estão errados aqueles que afirmam que, depois dos fervores e dos furores pós-conciliares, verifica-se realmente, na Igreja, uma espécie de “restauração”? A resposta é, como sempre, calma, meditada, mas de nenhum modo ambígua (com Joseph Ratzinger – tive prova concreta disto fazendo-lhe dezenas de perguntas, às quais ele respondeu com franqueza – não funciona nem sequer o estereótipo que quer o “cardeal de cúria” arisco e soturnamente diplomático). Diz, portanto, a resposta: “Se por restauração entende-se voltar atrás, então, nenhuma restauração é possível: a Igreja vai adiante, para o cumprimento da história, olha adiante, para o Senhor. Mas, se por ‘restauração’ entendemos a procura de um novo equilíbrio, depois do exagero de uma abertura indiscriminada ao mundo, depois das interpretações demasiado positivas de um mundo agnóstico e ateu: pois bem, então sim, esta ‘restauração’ é desejável e, aliás, já está em ato”.

O ponto é demasiado delicado para não procurar entendê-lo melhor. Alguém afirmou – digo – que, com o Vaticano li, a Igreja fechou a longa era pós-tridentina. Do mesmo modo, poderia a Igreja declarar fechada a fase pós-Vaticano II, estabelecendo-se sobre posições diferentes, talvez menos “abertas”? Ratzinger sorri: “Não é certamente um costume da Igreja declarar ‘fechada’ uma experiência da sua história; o que acontece é que ela, dando-se conta de que a situação mudou, considera-a como é e age conseqüentemente”. E então, insisto um pouco inquieto, a situação verdadeiramente mudou? “Sim. O problema da década de 1960 era de adquirir os melhores valores expressos por dois séculos de cultura “liberal”.

Existem de fato valores que, embora nascidos fora da Igreja, podem encontrar o seu lugar – depurados e corrigidos – na sua visão do mundo. Isto se fez. Mas agora o clima é diferente, piorou muito para aquele que justificava um otimismo talvez ingênuo. É necessário, portanto, procurar novos equilíbrios”.
Antes de escandalizar-se, de falar de “enterro do Vaticano II”, é preciso não esquecer que aquilo que diz o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, é apoiado por uma experiência única: aquela de quem, do alto do seu observatório, vê toda a situação da Igreja universal. E é uma situação que o Cardeal Ratzinger sintetiza numa palavra: “crise”. Nem otimista, nem pessimista, é realista. E a realidade é aquela que é: a fé proíbe abandonar-se ao desconforto, naturalmente, mas convida também a não continuar com o novo triunfalismo do otimismo fácil. O cristão sabe que a história está salva e que, portanto, no final, o desfecho será positivo. Mas não sabe através de que acontecimentos e travessias chegar-se-á àquele grande final. Sabe que “as potências do inferno não prevalecerão” sobre a Igreja, mas ignora em que condições isto acontecerá. Em todo caso, diante dos problemas sempre mais complexos, dos perigos sempre mais insidiosos para a ortodoxia, o Cardeal

Ratzinger tem uma receita, que é, aliás, aquela cristã de sempre: “Hoje, mais que nunca, devemos ser conscientes de que só o Senhor pode salvar a sua Igreja. Ela é de Cristo, e cabe a ele providenciar. A nós, é pedido trabalhar ao máximo das forças, sem angústias, com a serenidade de quem é consciente de ser servo inútil, incapaz de enfrentar e resolver sozinho a situação que se criou”.

Deus como criador, eclesiologia, dogma e moral, Escritura

“São estes os quatro circulos do mal-estar da Fé”

“Crise”, portanto. E, em pelo menos quatro círculos, quatro rodadas fundamentais. Assim, pelo menos, pareceu-me poder concluir, refletindo sobre a gravação das muitas horas de colóquio em Bressanone, e, confrontando-a com textos, às vezes inéditos, como o relatório que Ratzinger leu para os Bispos latino-americanos reunidos em Bogotá, no mês de março passado. Relatório que tem um título significativo: “Principais problemas da teologia contemporânea, do ponto de observação da Congregação para a Doutrina da Fé”.
Nestas quatro “rodadas de crise” (mas, muitas outras poderiam ser acrescentadas), pareceu-nos configurar-se a situação espiritual mundial, estruturas em diversas maneiras conforme as áreas geográficas.

Eis, portanto: conforme a diagnose do Cardeal, existe, antes de tudo, e no fundo de tudo, uma crise da fé em Deus, na Primeira Pessoa Trinitária, no Deus Pai Criador.

“Temendo, naturalmente sem razão, que o Pai possa obscurecer o Filho, certa teologia tende hoje a transformar-se em cristologia. Esta, entre outras coisas, multas vezes acentua sobretudo a natureza humana de Jesus, obscurecendo ou calando (ou exprimindo de modo insuficiente) a natureza divina que convive na mesma Pessoa. É a volta da antiga heresia ariana. Numa sociedade que, depois de Freud, desconfia de todo pai e de todo paternalismo e que, com o feminismo extremo, quer até rebatizar, de forma feminina, o nome de Deus, compreende-se esta crise também do Pai, enquanto primeira Pessoa da Trindade”.
“Este é rejeitado”, continua, “também porque não se aceita a idéia de um Deus a quem nos dirigimos de joelhos; as pessoas preferem falar de ‘partnership’, de relação de amizade, quase entre iguais, de homem a homem, com o homem Jesus. Tende-se, pois, a deixar de lado o problema de Deus Criador, também porque gostariam de evitar os problemas levantados pela relação entre fé na criação e ciências naturais, começando pelas perspectivas abertas pelo evolucionismo. Assim, existem novos textos para a catequese que partem não de Adão e Eva, do início do livro do Gênesis, mas da vocação de Abraão: concentra-se, somente, na ‘história’, evitando confrontar-se com o ‘ser’. Deste modo, porém, tudo se reduz somente a Cristo – talvez apenas ao homem Jesus – Deus não é mais Deus. E, de fato, parece que uma certa teologia não crê mais num Deus que pode entrar nas profundidades da matéria: daí as dúvidas sobre os aspectos “materiais” da Revelação, como a virgindade de Maria, a ressurreição concreta e real de Jesus, a ressurreição dos corpos prometida a todos no fim da história.

Não é certamente por acaso que o Credo começa confessando: “Creio em um só Deus, ‘Pai todo-poderoso’, ‘Criador’ do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Esta fé primordial no Deus que cria é como o prego, no qual todas as outras verdades da revelação estão penduradas. Se vacila, tudo cai”.
Haveria depois, e é o segundo círculo, a crise da fé na Igreja como mistério. Ouçamos também aqui as palavras do Cardeal Ratzinger: “Em muitos teólogos católicos difundiu-se uma mentalidade que se diria vizinha, ainda mais que do modelo clássico protestante, daquele de certas seitas ou ‘igrejas livres’ norte-americanas. É o conceito de uma Igreja somente como organização humana, cujos membros seriam livres de estruturá-la e de organizá-la como quisessem, conforme as exigências do momento. De fato, para muitos acabou a fé na fundação divina da Igreja, confiada aos homens, mas querida nas suas estruturas fundamentais por Deus mesmo; não suscetível, portanto, de contínuas recriações para favorecer as tendências da moda ou as necessidades de um certo momento. Na visão católica, atrás da fachada humana, está o mistério de uma realidade sobre-humana, sobre a qual o sociólogo ou o reformador humano não tem nenhuma autoridade para intervir. Se esta concepção mistérica, sacramental da Igreja, escapa, escapa também, consequentemente, a indiscutibilidade da sua estrutura hierárquica. Não se entende mais a necessidade da obediência como virtude, porque não se crê numa autoridade querida por

Deus, que tem as suas raízes em Deus e não somente no consentimento da maioria, como acontece nas estruturas políticas. Sem esta visão também sobrenatural, não somente sociológica, também a cristologia se esvazia: assim como a Igreja é uma estrutura humana, também o Evangelho é um projeto humano, o projeto-Jesus”.

“Uma tal eclesiologia, reduzida ao horizontal”, continua, “presta-se a uma visão errada do problema ecumênico. Tantos católicos pensam que seja o último fruto de uma mentalidade intolerante a não aceitação, por parte de Roma, da inter-comunhão, de uma eucaristia junto com as igrejas protestantes. Não se reflete que, para o católico, a Igreja – estrutura que o próprio Cristo quis que fosse assim – tem a sua base na sucessão apostólica e, portanto, não pode existir eucaristia (que exige o sacerdócio hierárquico), se aquela sucessão interrompeu-se. Nós cremos que o próprio Fundador do cristianismo assim o quis”.

Eis-nos na terceira “rodada da crise”: está estritamente ligada à precedente, talvez não seja senão um dos seus aspectos, mas tem tal importância que merece ser tratada à parte. É a crise da fé no dogma e na ética da Igreja. Ratzinger: “Muitos teólogos parecem ter esquecido que o ‘sujeito’ que faz teologia não é o teólogo em particular, mas é a comunidade católica inteira, isto é, a Igreja. Deste esquecimento deriva um pluralismo teológico que é, muitas vezes, um subjetivismo, um individualismo que frequentemente tem muito pouco em comum com as bases da tradição comum. Assim, a fé divide-se numa série de escolas e correntes. Perdeu-se também de vista o serviço à verdade exercido pelo dogma, considerado, pelo contrário, como uma jaula intolerável, um atentado à liberdade. É, ao contrário, a autoridade, assim como é querida por Deus, que propõe como dom aos crentes a expressão mais adequada dos mistérios da fé, na fórmula dogmática”.

“Ora: já que a teologia não parece transmitir mais um modelo comum da fé”, diz ainda, “também a catequese está exposta à divisão, à experiência que mudam continuamente. Alguns catecismos e muitos catequistas não ensinam mais a fé católica no seu conjunto – onde ‘tout se tient’ e cada verdade pressupõe e explica a outra -, mas procuram tornar humanamente ‘interessantes’, conforme as orientações culturais do momento, alguns elementos do patrimônio cristão. Nada de formação global para a fé, mas reflexos e acenos de experiências antropológicas parciais. Na realidade, desde os primeiros tempos do cristianismo, aparece um ‘núcleo’ permanente e irrenunciável da catequese. Esse foi utilizado também por Lutero, como pelo Catecismo Romano de Trento. Este núcleo irrenunciável é constituído pelo ‘Credo’, pelos ‘Sacramentos’, pelo ‘Decálogo’ e pelo ‘Pai-Nosso’. Estes quatro ‘trechos’ clássicos são o resumo do ensinamento da Igreja, a base da vida do cristão, que ali encontra aquilo em que deve crer (o Símbolo), esperar (o Pai-Nosso), fazer (o Decálogo), e o espaço vital no qual tudo isto se deve cumprir (os Sacramentos). Ora, esta estrutura é abandonada por muitas catequeses católicas atuais, com o resultado da desagregação que constatamos nas novas gerações, muitas vezes incapazes de uma visão de conjunto da sua religião.”

Continuando na sua análise sobre este ponto, Ratzinger vê a teologia contemporânea concentrar-se sobre a “soteriologia”, isto é, sobre o problema da salvação, da redenção, aliás, da ‘libertação’, como se diz com um termo posto ultimamente no centro das atenções. Observa: “Procura-se ‘libertação’ na América do Sul, entendendo-a sobretudo no sentido sócio-econômico, com os riscos de deslizar para uma interpretação exclusivamente política da fé. Mas, procura-se ‘libertação’ também no mundo opulento, na Europa e na América do Norte: aqui é entendida como libertação da ética cristã, sobretudo da visão tradicional da sexualidade, com os resultados muitas vezes aberrantes de um permissivismo moral que não é senão um aspecto do ‘liberalismo’ dominante nestas zonas do mundo.

Procura-se a ‘libertação’ também na África e na Ásia, entendendo-a sobretudo como libertação da herança colonial européia. Mas, muitas vezes não é fácil estabelecer o que é verdadeiramente ‘indígena’, ‘autóctone’, graças à complexidade daquelas culturas; nem é claro, no cristianismo que conhecemos, o que é importado da cultura ocidental ou, ao contrário, um elemento perene, válido para todos os climas. Além disso; não nos esqueçamos de que todos, mesmo na Europa, recebemos o Evangelho do ‘exterior’, de uma cultura semita, através da mediação do helenismo. Algumas tendências parecem dar-nos sinais de que certas ‘aculturações’ ou ‘indigenizações’ apressadas, poderiam levar a religiões novas, com relação ao catolicismo que conhecemos”.

“Enfim”, resume, “na América Latina o conceito profundamente bíblico de ‘libertação é exposto aos riscos das influências marxistas; no ‘Primeiro Mundo’, a riscos de contaminação com a cultura libertária liberal-radical; no resto do Terceiro Mundo, a riscos de indigenismos discutíveis: olhando atentamente, deve-se dizer que muitas das coisas que se apresentam como africanas, são uma importação européia e têm muito menos relações com as tradições negras que a tradição cristã-clássica”.

As tendências centrífugas são muitas vezes alimentadas por intelectuais europeus (é conhecido que as centrais de uma certa “teologia da libertação” estão emParis ou na Alemanha), que exportam os seus esquemas teóricos, as suas utopias: são ocidentais, entre outras coisas, muitos dos teólogos que sustentam a necessidade de salvaguardar a poligamia africana, mesmo para os batizados. Todas as variantes de “libertação”, pois, participam do risco comum de fixar-se somente sobre a história, esquecendo o sobrenatural, a dimensão vertical que, em equilíbrio com a horizontal, permite ao cristianismo continuar a ser ele mesmo.

E passemos à quarta zona de crise: a crise de fé na Escritura, assim como é lida pela Igreja

Diz Ratzinger: “O vínculo entre a Bíblia e a Igreja foi quebrado. A interpretação histórico-crítica da Escritura a transformou numa realidade independente da Igreja: não a partir desta e com esta se lê a Bíblia, mas a partir do último método que pretende ser “científico”, afirmando que somente assim é possível lê-Ia corretamente. Esta independência tornou-se até, em alguns, uma contraposição, visto que a fé tradicional da Igreja, os seus dogmas não parecem mais justificados pela exegese crítica, mas aparecem somente como obstáculos à compreensão autêntica do cristianismo”.

“Esta separação, porém”, diz, “tende a esvaziar a partir do interior tanto a Igreja quanto a Escritura. De fato: uma Igreja sem fundamento bíblico torna-se um produto histórico casual, certamente não mais a Igreja de Jesus Cristo, mas aquela organização humana, aquela moldura organizacional da qual falávamos.

Mas, também uma Bíblia sem a Igreja não é mais a Palavra eficaz de Deus, mas uma reunião de diversas fontes históricas das quais procura-se tirar, à luz da atualidade, o que se retém útil. A última palavra sobre a Palavra de Deus não corresponde mais, assim, aos legítimos pastores, ao Magistério, mas ao especialista, ao professor, às suas hipóteses sempre volúveis. Devemos começar a ver os limites de uma exegese que se apresenta com a mágica etiqueta de ‘científica’, mas, na realidade, é também essa uma leitura condicionada por preconceitos filosóficos, por pré-compreensões ideológicas, e não faz mais que substituir uma filosofia por outra”.

Portanto, pergunto, também um católico que queira ser “atualizado” pode ler a sua Bíblia sem preocupar-se muito com as sempre mais complexas questões exegéticas?

“Certamente”, responde. “Todo católico deve ter a coragem de crer que a sua fé (em comunhão com aquela da Igreja, unida aos legítimos pastores) supera todo novo ‘magistério’ dos especialistas, dos intelectuais. As hipóteses destes últimos podem ser úteis para entender a gênese dos livros da Escritura, mas é um preconceito de derivação evolucionista que se entenda o texto somente estudando como se desenvolveu e se criou. A regra de fé, hoje como ontem, não é constituída pelas descobertas sobre as fontes e sobre os estratos bíblicos, mas pela Bíblia ‘como é’ e como sempre foi lida pela Igreja, dos Padres até hoje”.

Sobre os “movimentos carismáticos”

A re-descoberta do Espírito

Interrogado sobre o “estado de saúde”, na teologia contemporânea, das Pessoas da Trindade, o Cardeal Ratzinger, falou-nos do “esquecimento, quando não da recusa do Pai”; depois acenou à “redução em sentido ariano” do Filho, muitas vezes visto como somente o Jesus-homem.

Falou-nos também na “re-descoberta do Espírito Santo que, diz-se hoje, foi muito esquecido pela teologia ocidental, com respeito àquela oriental. Esta re-descoberta, porém, é utilizada por alguns para pedir o superamento da Igreja hierárquica a favor de uma estrutura de Igreja ‘pneumática”’. Ora, segundo o Prefeito, “é necessário também ter cuidado com a ênfase excessiva e considerar o Espírito (‘que não fala de si mesmo’, como diz o Evangelho) em equilíbrio com as duas outras Pessoas trinitárias”.

Os movimentos carismáticos de “renovação no Espírito” não são, talvez, uma novidade positiva e uma esperança para a Igreja?, nós lhe perguntamos. “Certo”, foi a resposta. “É a re-descoberta da alegria de rezar contra uma espiritualidade e uma teologia racionalista, secularizada. Na minha diocese, em Munique, destes movimentos nasceram algumas vocações sacerdotais. É certamente um dom de Deus para a nossa época. Naturalmente, como acontece para todas as realidades humanas, também aqui se pode ter o reverso da medalha. Mas esta necessária cautela não muda o Juízo positivo de fundo”.

Da Europa à África, passando pela URSS e os USA

“Em certas zonas, a mensagem Católica parece agora um corpo estranho”

Seria, portanto, este o cenário geral de uma crise que martiriza a fé da Igreja e, com ela, o mundo e o homem de hoje, mesmo fora da comunidade católica. Não é talvez o célebre início da “Constituição sobre a Igreja e o homem contemporâneo” que afirma: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, principalmente dos pobres, e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe aí de genuinamente humano que não encontre eco no seu coração”, sendo a Igreja “real e intimamente solidária como gênero humano e a sua história”? Procurar pôr em evidência aquilo que pode ameaçar a fé retamente entendida não é, portanto, uma conversa “de botequim”, mas contribuir para a salvação do mundo, seja ele crente ou não.

Mas – pergunto – no quadro inquietante assim esboçado, qual o continente, qual a área geopolítica que merece a atenção mais urgente da Congregação, por qualidade e quantidade dos perigos?

“Os fatores gerais de crise”, responde, “se estruturam concretamente em modo diferente segundo as culturas, mas é difícil dizer qual situação seja mais ameaçadora. Se olhamos a Europa, tem-se a impressão de que – também no plano teológico – seja um mundo desencantado, já velho, aflito pela soberba acadêmica e pela frieza ‘blasée’; a tal ponto que, se muitas vezes não tem mais para com Roma reações agressivas, é porque, na sua arrogância, as julga já inúteis”.

“Olhando a América do Norte”, continua, “vemos um mundo onde a riqueza é a medida de tudo e onde os valores e o estilo de vida propostos aparecem mais que nunca um escândalo. A moral da Igreja é vivida como um corpo estranho, longínquo, que contrasta não somente com os concretos costumes de vida, mas também com o modelo básico de pensamento.

Torna-se difícil, se não impossível, apresentar a autêntica ética católica racional, demasiado distante como está, daquilo que é considerado normal, óbvio. Assim, muitos moralistas dos Estados Unidos (é sobretudo sobre a ética que se trabalha ali, enquanto que no campo da teologia e da exegese são tributários da Europa), crêem ser contrangidos a escolher entre a divergência com a sociedade e a divergência com o Magistério.

 Muitos escolhem esta última divergência, adaptando-se a compromissos com uma ética secular que muitas vezes acaba por transtornar homens e mulheres na sua natureza profunda, conduzindo-os a novas escravidões, enquanto pensavam livrar-se delas”. “Se olhamos a África e a Ásia”, diz ainda, “encontramos aquela ‘aculturação’ muitas vezes problemática à qual se acenava. Criou-se tempos atrás uma ‘União ecumênica dos teólogos africanos’, que reúne expoentes de todas as confissões: mas, o perigo é que, em nome de uma ‘negritude’ com conotações incertas (e de um ecumenismo que considera uma confissão igual à outra no que se refere ao essencial), venha esquecida a unidade católica. Aquela União esforça-se para a convocação de um ‘Concílio’ africano, cujos conteúdos não aparecem, porém, muitos claros”. Antes de passar à América Latina, restam os países do Leste. Paradoxalmente, (mas não muito), a fé parece estar mais segura, justamente lá onde ela é oficialmente perseguida.

De fato, diz o Prefeito: “No plano doutrinal, não existe quase nenhum problema com a teologia católica naquelas zonas. Ali, tentar dialogar não expõe certamente ao perigo de converter-se às posições do interlocutor: os cristãos experimentam, cada dia, a falência do messianismo humano. O povo sente na própria pele a realidade de um sistema que tentou, sim, uma libertação, mas de Deus. Hoje em dia, somente onde o marxismo não está no poder, existem pessoas que crêem nas suas ilusórias ‘verdades científicas’. Aliás, em alguns países do Leste, parece emergir a idéia de aprofundar a dimensão da libertação na teologia, na perspectiva de experiências feitas em outros lugares, em regimes não marxistas. O que não significa que vemos com simpatia as ideologias e os costumes dominantes no Ocidente. O Cardeal Primaz da Polônia, Stefan Wyszynski, era um homem que temia somente a Deus: não obstante, admoestava sobre o hedonismo e o permissivismo ocidentais, não menos que sobre a repressão marxista. Alfred Bensch, Cardeal de Berlim, me dizia que era necessário ver um perigo mais grave para a fé no consumismo ocidental, e numa teologia contaminada por esta atitude, que naquela da ideologia marxista”.

É o mesmo Ratzinger que me fala de um exemplo entre muitos, segundo o qual, não no Oriente, mas no Ocidente, parece-lhe notar a marca do satânico: “Existe alguma coisa de diabólico no modo com o qual se explora o mercado da pornografia e das drogas; na indiferença perversa com a qual se corrompe o homem, aproveitando sua debilidade, sua possibilidade de ser tentado e vencido. É infernal uma cultura que persuade a pessoas cujo único objetivo da vida são os prazeres e o interesse privado”. E, apesar de tudo, se lhe perguntamos qual lhe parece o mais perigoso entre os muitos ateísmos do nosso tempo, diz: “Parece-me que seja o marxismo, por causa da sua elaboração filosófica e das suas intenções morais, uma tentação mais profunda que o ateísmo superficial. Na ideologia marxista aparece também a herança judeu-cristã, transformada num profetismo sem Deus, que instrumentaliza para os seus fins políticos as forças religiosas do homem, a sua esperança sob o signo de liberdade e de vida prometido pela Bíblia. Ernst Bloch, por exemplo, dá uma interpretação da Escritura oposta à leitura clássica. Para ele, a serpente que tenta Adão e Eva, transforma-se no primeiro cristão, como aquele que anuncia a Libertação do homem; e a expulsão do paraíso, é lida como o início bendito da revolta contra todos os limites, começando por Deus. Tal aplicação da herança bíblica, dá a muitos crentes em Cristo a ilusão de combater pela mesma causa, pela mesma esperança”.

O difícil diálogo com os teólogos da América do Sul

“Alguns repetem: ‘Revolução!’, mas não dizem o que fazer depois”

E aqui, a conversa chega à América Latina e àquelas formas de “teologia da libertação” que encontraram ali a sua evolução. É com uma expressão sofrida, mais que com olhar severo de inquisidor, que o Cardeal Ratzinger falou-me da impossibilidade de dialogar com os teólogos que aceitam “aquele mito ilusório que bloqueia as reformas e agrava as misérias e as injustiças, que é a luta de classes como instrumento para criar uma sociedade sem classes”. Diz: “Se, com a Bíblia e a Tradição na mão, procura-se confrontar com certas interpretações que se desviam do cristianismo, isto é imediatamente etiquetado como atitude de servo de uma classe dominante que quer conservar o próprio poder, até apoiando-se na Igreja. Cada intervenção do magistério eclesiástico, até mesmo o mais pensado e respeitoso, é lido com desconfiança, quando não rejeitado ‘a priori’ como expressão de quem, não tendo feito a ‘opção de classe’ (‘scelta di clase’) alinhou-se da parte dos ‘patrões’ contra os pobres e os sofredores aos quais pretenderia roubar o Cristo, como libertador político”. Em realidade, “a causa dos pobres parece traída exatamente por certas interpretações da Sagrada Escritura, que se apóiam em instrumentos de análise que revelaram-se sempre fonte de sofrimento para o próprio povo”.

Falou-me, em seguida, da repulsa que lhe causam alguns textos daqueles teólogos: “Existe um refrão repetido: ‘é necessário libertar os homens das correntes da opressão político-econômica; para libertá-lo, não bastam as reformas que, aliás, o desviam; o que é necessário é a revolução; o único modo de fazer a revolução é proclamar a luta de classe’. Aqueles que repetem tudo isto não parecem pôr-se o problema concreto, prático, de como organizar uma sociedade depois da revolução: limitam-se a repetir que é necessário fazê-la”.

“Impressiona dolorosamente”, diz, “aquela ilusão, tão pouco cristã, de poder criar um homem e um mundo novos, não com o apelo à conversão, mas só modificando as estruturas sociais. O Evangelho de Jesus Cristo é, sim, uma mensagem de liberdade e uma força de libertação. Mas esta é, antes de tudo, e principalmente, libertação da escravidão radical do pecado. O seu fim, e o seu objetivo, é a liberdade dos filhos de Deus, dom da graça. Esta comporta, logicamente, a libertação das múltiplas escravidões de ordem cultural, econômica, social e política, que, porém, definitivamente, derivam todas do pecado que se aloja no fundo do coração de cada um. São verdades cristãs fundamentais, e, apesar de tudo, muitos teólogos recusam-nas como se fossem conversas ‘espiritualistas’.

Assim, é acusado de ‘dualismo’ recordar que o Evangelho nos impele, sim, a transformar a terra, conseguindo para ela o máximo possível de justiça, mas com o olhar fixo adiante, no reino de Deus, que não é deste mundo. No entanto, é justamente o esquecimento da transcendência divina que não se esvazia internamente o cristianismo, mas leva todo o mundo à trágica situação contemporânea que todos conhecemos”.

Bastam aqui estes acenos à América Latina e às suas muitas (algumas, aliás, legítimas) “teologias da libertação”. Joseph Ratzinger, na introdução ao encontro de março, em Bogotá, com os representantes do episcopado daquele continente, disse que o colóquio não podia “limitar-se somente à teologia da libertação, à qual não podem ser reduzidos os problemas da Igreja e da teologia, nem sequer na
América do Sul. Que a soteriologia, isto é, o problema da redenção-libertação tenha-se transformado no problema fundamental da
humanidade de hoje, é um desafio fundamental para a Igreja. Este desafio é uma ocasião favorável e, ao mesmo tempo, um perigo. O perigo consiste nisto: que nós nos deixemos influenciar pelo ponto de vista imanentista dos programas de libertação secularizados. Se procuramos a verdade do cristianismo só no natural e não também no sobrenatural, privamos a fé da sua promessa original e amputamos o homem, cuja característica própria é aquela de superar a natureza”.

A propósito da estrutura das Conferências Episcopais

“É Necessário restituir aos Bispos a plena responsabilidade pessoal”

Encaminhando-nos para o fim, – e deixando, neste “sumário”, outros temas importantes – sobre uma pergunta pelo menos parece-nos necessário chamar a atenção. Com que estruturas hierárquicas, isto é, com qual corpo episcopal a Igreja enfrenta o desafio decisivo deste fim de século, que se abre para o terceiro milênio? Não existe, talvez, quem diga que certos episcopados teriam no seu interior uma diversidade de opiniões que dificilmente encontra a homogeneidade?

O Cardeal tem uma resposta franca: “Nos anos logo depois do Concílio, uma reformulação do ‘identikit’ do candidato ao episcopado era necessária. Segundo a minha opinião, um aspecto primordial foi, naquele período, ‘a abertura para o mundo’. Uma característica, certo, adequada àqueles tempos; mas, depois da crise de 1968, notou-se que eram necessários bispos ‘abertos’ ao mundo, mas também capazes de opor-se às suas tendências negativas, procurando corrigir os seus desvios, quando isso fosse possível. Naqueles anos, portanto, a escolha dos bispos fez-se mais ‘realistas’. Mas, não por isto, menos conciliar: não é o realismo de quem está atento a ‘todos’ os sinais do tempo uma das recomendações do Vaticano li?”. Em perspectiva, e sempre nesta linha, existe o problema das conferências episcopais (“as quais”, precisa Ratzinger, “não têm base teológica, como, pelo contrário, existe para os bispos em particular, mas só prática, concreta: é necessário não esquecer.”) que, nalguns casos, parecem ter assumido uma estrutura organizativa demasiado complexa. Aqui o Prefeito vê outro dos “efeitos paradoxais” do Vaticano II, “que queria reforçar o papel e a responsabilidade do bispo, completando, assim, a obra do Vaticano I, interrompido pela tomada de Roma, quando tinha conseguido somente ocupar-se do papel do Papa. Pelo contrário, o inserimento do bispo nas conferências episcopais, sempre mais estritamente organizadas, corre o risco de ofuscar a sua responsabilidade pessoal pela diocese, na qual, em comunhão com a Igreja, é pastor e mestre na fé. A guia da porção de
Igreja que lhe é confiada, é principalmente sua, não da conferência episcopal local. A Igreja católica se rege sobre ‘o equilíbrio entre a
‘comunidade’ e a ‘pessoa’, neste caso o bispo e a sua responsabilidade individual. Estruturas burocráticas, inevitavelmente anônimas, que, para decidir, têm necessidade de pistas preparatórias redigidas por determinados escritórios, acabam por produzir textos um pouco atenuados, onde as posições pessoais aparecem diminuídas.

Assim, o escândalo e a loucura do Evangelho, aquele ‘sal’ e aquele ‘fermento’ hoje mais que nunca necessários, acabam por ser menos presentes, sobretudo quando a situação corre o risco de tornar-se dramática. No meu País, a Alemanha, existia já uma conferência episcopal na década de 1930: pois bem, os documentos verdadeiramente vigorosos contra o nazismo foram aqueles que saíram de bispos corajosos, em particular. Pelo contrário, aqueles da conferência pareciam um pouco atenuados com respeito ao que a tragédia requeria”.

Sorri, tomando um copo de água que é o seu único “conforto” durante o intervalo de metade da manhã e metade da tarde (pelo contrário, as boas irmãs do seminário viciam o jornalista com café e biscoitos): “Sabe, nós, os padres católicos da minha geração, fomos criados em seminários nos quais recomendava-se evitar as contraposições entre coirmãos, procurando sempre o ponto de acordo, e não se pondo muito à vista com posições excêntricas. Assim, em muitas conferências episcopais, o espírito de grupo, talvez a vontade de viver tranqüilos, ou até mesmo o conformismo, impelem maiorias um pouco passivas a aceitarem as posições de minorias empreendedoras”.

Talvez pensando nisto, ri e faz sinais divertidos de negação com a cabeça quando lhe pergunto – assim, para diminuir a tensão com uma pergunta um pouco ociosa – se gostaria de uma Igreja que tivesse o seu centro não em Roma, mas na Alemanha, talvez na rua Munique. “Que desastre!”, ri. “Teríamos uma Igreja organizada demais. Pense que somente do meu arcebispado dependiam 400 funcionários e empregados. Cada escritório deve justificar a sua existência, produzindo documentos; os especialistas iam pelas paróquias e o pároco e lamentava depois comigo: “Aqui me resta somente a confusão”… Talvez seja melhor Roma, melhor o espírito italiano que – não demasiado organizado- deixa espaço para aquela personalidade, aquela iniciativa, aquelas idéias que, como dizia, são indispensáveis para a Igreja. E depois, eu gosto daquela humanidade italiana que deixa sempre espaço para a pessoa entre as malhas de leis e códigos: os quais são feitos para o homem e não vice-versa , Deixe-me dizer que, da Alemanha, também eu olhava com ceticismo e talvez com desconfiança ou impaciência o trabalho da Cúria Romana. Em Roma, me dei conta de que esta Cúria é bem superior à sua fama: é composta em grande maioria por pessoas que estão ali por verdadeiro espírito de serviço”.

“Não pode ser de outra maneira, visto a modéstia dos salários que, entre nós, lá na Alemanha, estariam nos limites da pobreza. E visto também que o trabalho da maior parte é um trabalho por detrás dos bastidores, sem nunca aparecer, preparando documentos ou intervenções que serão atribuídas a outros, aos vértices da estrutura. Mas depois, mesmo a proverbial lentidão vaticana tem os seus aspectos positivos: saber ‘soprassedere’ (adiar), como dizem vocês, tem as suas vantagens, permite às situações uma decantação que uma excessiva prontidão impediria”.

Um outro gole de água e depois, sorrindo ainda: “A propósito de estruturas, escreva também que, mesmo se quiséssemos, nós do ex-Santo Ofício, como nos chamam, não poderíamos certamente instaurar uma ditadura: somos ao todo umas trinta pessoas, em quatro seções. Naquela doutrinal, a mais atacada pelas críticas, ao todo somos uns dez. É pouco, para meditar em algum ‘golpe’ teológico”.

Nossa Senhora como defesa da Fé

“Porque é preciso voltar a Maria”

Se sempre discorrer sobre Maria foi essencial para a fé cristã, hoje é indispensável e urgente como talvez em poucas outras épocas da história da Igreja. “Antes do Concílio”, nos diz o Cardeal Ratzinger, “eu não entendia completamente certas fórmulas antigas como ‘Maria é a inimiga de toda heresia’. Outras, como o célebre De Maria numquam satis, pareciam-me excessivas. Mudando a situação, durante e depois do Concílio, e aprofundando o tema, tive que mudar de opinião. De alguns pontos, eu estou mais que nunca convencido agora: 1°) Reconhecer em Maria o lugar que o dogma e a tradição católica lhe atribuem, significa estar firmemente enraizado na cristologia autêntica. Os dois dogmas mais antigos, virgindade perpétua e maternidade divina (mas mesmo os dois sucessivos, Imaculada Conceição e Assunção), salvaguardam a fé em Jesus 110m em Deus e defendem as prerrogativas do Pai onipotente, que pode intervir também sobre a matéria. Sem contar que evocam as coisas últimas, aquela ressurreição dos corpos no sentido também material, que hoje é tanto contestada. 2°) A mariologia da Igreja supõe a justa relação, a necessária integração entre Escritura e Tradição; além do fato que liga juntos, de modo indissolúvel, o Antigo e o Novo Testamento: entre os erros, hoje freqüentes, existe também o de desequilibrar-se ou a favor do Antigo ou a favor do Novo dos dois Testamentos. 3°) A reta devoção mariana garante à fé também a dimensão do ‘coração’, como diria Pascal. Para a Igreja, o homem não é nem só razão nem só sentimento, mas a união das duas dimensões. A presença de Maria ajuda a viver esta totalidade. Existe também aqui, obviamente, o
tema da mulher, que hoje é muito agudo: virgindade e fecundidade (estes dois dons de Deus à mulher), são rejeitados por um certo feminismo, mesmo cristão, desarraigando , assim, a dimensão feminina da sua natureza profunda. Nossa Senhora, com o seu destino de virgem e esposa, projeta luzes sobre o que o Criador pretendeu para a mulher”.

A uma das quatro seções da Congregação compete ocupar-se de aparições marianas: “Cardeal Ratzinger, o Senhor leu o assim chamado ‘terceiro segredo de Fátima’, aquele enviado pela Irmã Lúcia ao papa João XXIII, que não quis revelá-lo e ordenou que fosse depositado nos arquivos?”. “Sim, eu o li”. “Por que não foi revelado?”. “Porque, conforme o juízo dos pontífices, não acrescenta nada de diferente daquilo que um cristão deve saber da revelação: uma chamada radical à conversão, à absoluta seriedade da história, os perigos que ameaçam a fé e a vida do cristão e, portanto, do mundo. E depois, a importância dos

Novíssimos. Se não foi publicado – pelo menos até agora – é para evitar confundir a profecia religiosa com o sensacionalismo. Mas os conteúdos deste ‘terceiro segredo’ correspondem ao anúncio da Escritura e são reforçados por muitas outras aparições marianas, começando por aquela mesma de Fátima, nos seus conhecidos conteúdos. Conversão, penitência, são as condições essenciais para a salvação”.

“Quanto a Medjugorje, é iminente uma tomada de posição oficial?”. “Neste campo a paciência é um elemento essencial da política da nossa Congregação. A revelação terminou com Jesus Cristo, que é, ele mesmo, a nossa revelação. Mas não podemos impedir certamente a Deus de falar a este nosso tempo, mesmo através de pessoas simples e sinais extraordinários que revelam a insuficiência de uma cultura como a nossa, marcada pelo racionalismo”.

Uma História iniciada em 1542

Aquela que agora se chama “Congregação para a Doutrina da Fé” nasce em 1542, sem um nome preciso. O Papa Paulo III procurava tenazmente convocar aquele que depois passaria à história como Concílio de Trento, e se iniciaria nos fins de 1545. Dado que a heresia ameaçava estender-se por todo o mundo católico, o Papa com a bula “Licet ab initio” de 21 de julho de 1542, instituía um organismo especial, composto por seis cardeais, comissários e inquisidores gerais, com o dever de velar pela ortodoxia da fé e de intervir em qualquer lugar. O organismo, no início, não tinha sequer caráter permanente e só uma bula de Sisto V chamá-lo-á “Congregação da Santa Inquisição da Perversidade Herética”. Na prática prevaleceram outras denominações: “Congregação da Inquisição Romana e Universal”, “Congregação do Santo Ofício”, ou, mais brevemente, “Santo Ofício”.

Diferentemente da Inquisição espanhola (muitas vezes antipática aos Papas), a romana não sofreu nunca ingerências do poder secular. O Concílio de Trento criou uma outra Congregação, aquela do índice, com o dever de velar pelos livros que difundissem erros em matéria de fé e de costumes. Em realidade, os deveres do Santo Ofício e do índice muitas vezes se sobrepuseram, até a definitiva fusão em 1917, operada pelo Papa Bento XV.

A confirmação da importância que a Igreja sempre atribuiu ao seu trabalho, à “Congregação do Santo Ofício” (primeira de todas as Congregações, em ordem de dignidade) foi também o primeiro organismo curial a ser reformado no novo clima do pós-Concílio. Quanto ao índice, os seus elencos (não mais atualizados desde 1947) não têm mais valor de lei eclesiástica, com as relativas censuras, mas conservam aquele de lei moral.

***
Cardeal Joseph Ratzinger

Fonte: Revista Communio. Vol. IV, ano IV, N°19, jan./fev.1985.p.5-24

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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