E você, mataria esse bebê? (Parte 2)

E eis que
chegou o grande dia. Era o dia de você nascer, mamãe e papai foram juntos para
o hospital às 21:00 horas. Enquanto esperávamos os médicos
chorávamos muito os dois, porque sabíamos que estava próximo a nossa
separação. Mas você, já sabia que mamãe havia preparado o melhor para você
durante os nove meses em que estivemos juntos, escolheu todos os médicos que
iriam te dar todo o carinho que você precisaria e que eu não poderia dar
naquele momento. Conversei com Dr. Dernival para que batizasse você ainda na
sala de parto, eu queria te dar tudo que uma mãe quer para um filho, a
Eternidade. Um pouco antes de entrar no Centro Cirúrgico ele ainda me
perguntou: – Como ele se chamará? – Vítor, respondi com firmeza, vindo depois,
a saber, que o seu nome significava “aquele que venceu” e você venceu
mesmo!

Chorei
muito quando recebi a notícia no dia seguinte pela manhã, pois você havia
nascido às 23:50 hs e eu estava sedada, mas lembro-me que mesmo sonolenta
perguntei ao Dr. Fernando ( seu neonatologista), pessoa tão especial e humana,
como você estava e apaguei ouvindo ao longe a resposta que você não estava
muito bem. Doce Dr. Fernando quis poupar-me, você já havia morrido e ele havia
ficado os 40 minutos de sua vida de mãos dadas com você, não te deixou sozinho
nem um instante. O dia seguinte, ainda sem saber que você já era mais um
anjo no céu, seu pai não me dava a notícia, pois o médico, havia pedido para
que retardasse a mesma. E eu inocente via o seu pai chorar no quarto e
brigava com ele para que fosse ver como você estava passando, ele simplesmente
levantava da cadeira chorando, sem nada me dizer.

A notícia
de sua morte me foi dada por um grande amigo nosso, sacerdote. Amigo de todas
as horas difíceis de nossa vida, aquela pessoa que quando morrer, mesmo sem ser
conhecida por todos, a Terra ficará diminuída porque a humanidade toda sentirá
o peso de sua partida, assim como foi com Madre Teresa de Calcutá, assim como
será com João Paulo II. São seres tão especiais que a morte deles nos diminui
um pouco e nos faz refletir o quanto temos de trabalhar e fazer pela
humanidade. Mas até nisso Deus pensou em mim, em quem me daria a notícia que
iria doer tanto. Chorei muito, como nunca havia chorado antes na vida, era
uma dor que não passava, parecia roer os meus ossos, o meu coração parecia que
estava sendo arrancado do meu peito. Lembro-me e jamais esquecerei que num
segundo fui inundada por uma paz interior, que jamais havia sentido antes, era
um carinho de Deus pelo dever cumprido, quase um “consumatum est”.
Havíamos cumprido a nossa função de deixarmos você fazer a sua história e parte
de nossa história.

E algumas
horas depois recebi autorização do médico para numa cadeira de rodas, descer
até a capela do hospital para dar o meu beijo em você, aquele que eu tanto
esperava. Peguei-te nos meus braços e olhei com detalhes para você já de
toquinha na cabeça. Era lindo demais. Seu nariz, sua boquinha, seus olhos, suas
orelhinhas, suas mãos tão pequenas e delicadas, sua unha tão pequenina, era
perfeito. É um momento que jamais vou esquecer. Dei-te um beijo suave na testa
enquanto a lágrima corria, como corre agora, neste momento em que relembro o
passado, e vejo de uma forma viva e clara o seu rosto sereno, angelical, porque
você já estava no céu. Essa certeza eu tinha, pois você havia recebido o
sacramento do Batismo antes de morrer. E não demorei muito ali porque todo o
meu amor e carinho de mãe e de ser humano eu tinha te dado enquanto você
esteve vivo no meu ventre, fazendo-me te amar a cada dia e respeitar você.

Vítor, meu
filho, como você nos ensinou durante os nove meses que sofrimento não
mata, mas ensina e faz crescer, nos torna mais gente e humano. Como sou
grata a você por ter tido a chance de viver essa história, de ser forte porque
você estava comigo. E como todo cidadão que nasce, também perante a sociedade
que cobra atitudes tão contraditórias, você teve sua certidão de nascimento e
certidão de óbito, porque respirou 40 minutos após nascer. E porque fez parte
da história não só da nossa família, mas de toda a humanidade, você ganhou até
um poema do vovô Inaldo, poema este publicado no livro de Outonos, em 2001
intitulado Elegia para o neto efêmero – Vítor Alonso Guimarães, poema suave e
profundo como sua história de vida.

Há muitos
anos algumas pessoas pediram para que mamãe colocasse sua história de vida num
papel, agora tenho realmente que colocar, pois ando escutando pessoas grandes
falarem de vocês, seres tão pequenos, coisas falsas, verdades infundadas,
utilizando estatísticas sabe-se lá Deus de onde tiram. Defendem o aborto porque
dizem que neste tipo de gravidez, a mãe corre risco de vida. Talvez não saibam
que essa gravidez causa o mesmo risco que uma pessoa que pegue uma gripe venha
a desenvolver uma pneumonia. Na verdade filho, não sei se não sabem ou se por
comodismo ou modismo não querem saber a verdade dos fatos. Isso não é
estatístico. Que é mais provável que essa mãe morra de bala perdida, atropelada
pelas ruas da cidade, cujos cidadãos não respeitam as leis de trânsito, do que
da gravidez em si. Isso
é estatístico. Por isso mamãe resolveu contar a sua história, para que outras
pessoas saibam que existe uma outra maneira de ver e de viver a vida, que não
existe sofrimento insuportável e como dizia um autor cujo nome agora não
me recordo “A dor sempre traz consigo uma mensagem e uma revelação.
Não existem sofrimentos inúteis”.

Sabe Vítor,
li certa vez em um livro, em que um pai escrevia cartas para uma filha
portadora da síndrome de Down, uma coisa muito bonita. Ele dizia que “Umas
almas encarnam em corpos defeituosos que têm de viver com problemas
mais ou menos visíveis e algumas até se alojam em seres com cérebros
malformados, que limitam, como montanhas intransponíveis, os seus meios de
expressão. Mas estas últimas são tão perfeitas quanto as outras almas, e o seu
Anjo da Guarda recebeu uma missão mais importante do que a dos anjos restantes:
não só deve tutelá-las constantemente, mas também proceder inicialmente a uma
seleção dos pais que hão de ser, dia após dia, seus colaboradores para ajudar
esse filho a realizar ações prejudicadas pela sua incapacidade”. E é assim
que me sinto com relação a você, uma privilegiada por ter sido escolhida para
ser mãe de uma criança como você, que mesmo que vivendo tão pouco ensinou tanto
para mim, para seu pai e seus irmãos.

Não gosto
quando me chamam de heroína por ter levado a sua gestação até o fim, as mães
que assim procedem não são heroínas, são só mães. A cada dia a ciência
avança, descobre novidades, e aquilo que há alguns anos era perigo de vida para
as mães, hoje são facilmente resolvidos face aos avanços de conhecimento
gerais, científicos e tecnológicos. Acho que haverá um dia em que casos como o
seu exigirão lutar pela vida e não pela morte. Os médicos falam que embora
muito se saiba hoje sobre o cérebro, muito mais ainda tem que se saber, ainda
há muito por descobrir.

Enganam-se
aqueles que acham que nascido o feto, completo e perfeito tudo deu certo. O
homem nunca está terminado, nesse momento deverá começar uma nova luta mais
difícil e sofrida do que a de uma gravidez como da mamãe. É a tarefa
de fazer este ser pequenino que nasceu, transformar-se num homem de verdade,
num ser capaz de contribuir para uma sociedade justa, em defesa da vida, em
defesa da verdade. E com certeza enquanto os homens julgarem-se no direito de
dizer quem deve morrer, quem deve viver e quando isso se dará estaremos longe
de sermos uma sociedade justa e muito menos humana.

Querido
Vítor, acho que está na hora de terminarmos esta nossa conversa, afinal, você
conhece a mamãe, ela fala demais. Meu anjinho, não se preocupe com as notícias
que te dei, assim como existem pessoas fracas, intransigentes, existem pessoas
cheias de amor de Deus no coração e essas pessoas estão sempre juntas para
defender e esclarecer aos que se acham donos do bem e do mal, o quanto vocês
seres tão pequeninos são seres humanos únicos e irrepetíveis. Você sim, não tem
mais o que aprender, já conheceu todos os mistérios de Deus, já entendeu o
porquê de sua história, por ter sido curta e ao mesmo tempo tão grandiosa.

E não se
preocupe com as lágrimas que mamãe e papai derramaram, consolei-me quando li em
um livro de Antônio Orozco, OS TRÊS SÓIS: a Sagrada Família – Editora
Quadrante, que dizia: “às vezes, encontramo-nos mergulhados num mar de
lágrimas… E o mar absorve-as, sem que consigam enchê-lo. Parece que se perdem
inúteis, estéreis, estúpidas. Mas não. Todas as lágrimas vão parar no coração de
Deus-Pai…”.

Um
beijo da mamãe.

Ana
Lúcia

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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