E os sonhos proféticos? – EB

sonhoimagesEm síntese: Há sonhos que parecem conter mensagens do além, referindo-se a acontecimentos futuros ou comunicando ordens à pessoa que sonha.

Não é impossível que o Senhor Deus se sirva dos sonhos para se manifestar aos homens; a Bíblia o atesta. Todavia julga-se que os sonhos extraordinários hoje em dia ocorrentes são, geralmente, expressões do psiquismo do próprio sujeito. A psicanálise e a parapsicologia estão em condições de explicar muitos dos sonhos premonitórios e proféticos que impressionam o público. Tenham-se em vista os sonhos de Glória Lasso, cantora francesa, e de Otto von Bismarck, Primeiro-Ministro da Prússia, referidos no corpo deste artigo. A ciência reconhece os fenômenos de telepatia e percepção extrassensorial; afirma também a capacidade, existente em todo ser humano, de conjeturar o futuro com estima e carinho ou com horror. Estas funções podem elucidar grande número de previsões e de percepções à distância que certas pessoas experimental em sonho.

Comentário:  Não é raro ouvir-se dizer que determinada pessoa teve um sonho impressionante (…). Ás vezes é sonho em que um ser falecido “aparece” ao amigo e lhe pede um favor (mande celebrar Missas, pague dívidas deixadas pelo defunto…); ou a pessoa que sonha, tem a intuição de que algo de muito grave (morte, desastre…) está acontecendo – o que, logo depois que acorda, se confirma para ela. Esses sonhos são ditos “premonitórios” ou “proféticos” (em sentido amplo). Dir-se-ia que tem sua causa no além, pois parecem ser o produto de mensagens provenientes do “outro mundo”.

É em vista desse aspecto portentoso dos sonhos que abaixo estudaremos o assunto. Trata-se de tema complexo, que os analistas vem considerando com atenção sem conseguir unanimidade em suas teses e interpretações. Como que quer seja, com o auxílio da filosofia, da psicologia e da parapsicologia, podem-se hoje em dia fornecer indicações valiosas para a interpretação de sonhos ditos “premonitórios”.

Começaremos por apresentar um sonho premonitórios típico.

Típico sonho premonitório

O jornal “France-Dimanche”, aos 19/12/1957, publicou a história de um sonho apto a despertar sensação no público.

Glória Lasso, cantora que não conseguia sucesso em sua carreira, teve na noite de Natal de 1954 um sonho maravilhoso, em que uma voz clara e enérgica lhe dizia: “Vai a Vendôme, atravessa a passarela e toma o caminho à direita! Verás duas árvores, que assinalam a entrada do cemitério”. A voz acrescentou: “Entra ai. Contarás quatro quadras; na quinta quadra, perto da velha árvore, descobrirás uma sepultura pequena abandonada. Encarregar-te-ás de cuidar dela”.

Glória Lasso tinha um amigo, a quem contou esse sonho, muito perturbada. Ele queria dissuadi-la de atender ao pedido; mas nas noites seguintes a mesma voz muito insistentemente se fazia ouvir e mandava Glória ao cemitério. Então o jovem amigo resolveu levá-la a Vendôme. Encontraram as localidades indicadas e chegaram realmente ao cemitério, onde viram a sepultura abandonada que em sonho fora apontada a Glória. Ora verificaram que esse túmulo era o de uma menina chamada Catarina Labbé, filha dos dois amantes Jacques Algaron e Louise Labbé; havia sido vítima dos amantes e morrera assassinada; depois fora deixada no esquecimento em seu túmulo. Os jornais haviam feito grande alarde desse caso, difundindo o noticiário respectivo nos anos de 1953-55.

Tendo visto a sepultura, Glória Lasso, profundamente impressionada, entregou ao guarda do cemitério a sua última nota de dez mil francos para que cuidasse desse túmulo.

No dia seguinte, a cantora assinou o seu primeiro contrato de trabalho artístico. Pouco depois, a mesma voz se fez ouvir de novo em sonho, aprovando o gesto de Glória e pedindo-lhe que mais se interessasse pela defunta. Então glória mandou colocar os restos mortais de Catarina Labbé em novo jazigo. Em seguida, na sua profissão começou a bater todos os recordes de sucesso.

Eis o que comumente se chama “sonho premonitório”. Pergunta-se: corresponde realmente a uma intervenção de espírito do Além? A defunta Catarina Labbé Ter-se-á assim manifestado a Glória Lasso? E Ter-lhe-á obtido de Deus, em troca do seu solícito atendimento, a
possibilidade de fazer sucesso em sua carreira?

É o que vamos ponderar sob o título seguinte.

À luz da psicologia

1.  Não é impossível que, em certos casos, Deus permita que os vivos, na terra, recebam mensagens através de sonhos. O Senhor Deus parece mesmo ter provocado tais intervenções junto a certos personagens bíblicos: Abraão (Gn 15, 12-21); Abimelec (Gn 20, 3-6), Jacó (Gn 28, 11-22), José (Gn 37, 5-11), Gedeão (Jz 6,25s)… Todavia é de notar que a Bíblia não refere sonhos durante os séculos que vão do rei Salomão a Zacarias profeta (séc. X-V a.C.), ou seja, durante toda a época dos Profetas; isto significa que nesse tempo os sonhos eram considerados uma forma secundária de revelação;  a palavra profética, ao contrário, correspondia, por excelência, à maneira como Deus se dirigia ao seu povo.

2) Em nossos dias, os sonhos premonitórios tem sido estudados pelos psicólogos e analistas, que tentam explicá-los como expressões da realidade íntima do paciente. As explicações assim dadas têm, em muitos casos, sua grande verossemelhança. Vejamos, por exemplo, como se elucidaria nessa perspectiva o sonho de Glória Lasso atrás referido.

1) Antes do mais, seria necessário verificar se o caso da cantora está bem contado ou se o noticiário a respeito do sonho que teve, das medidas que tomou no cemitério e do êxito que teve em sua carreira profissional, corresponde à realidade dos fatos (…). Na verdade, acontece não raro que os casos “maravilhosos” são criados, total ou parcialmente, pela fantasia popular (…) Em consequência, quem os ouve pode dar importância a um falso prodígio ou a algo que não aconteceu ou nada teve de portentoso.

2) Averiguada a veracidade das notícias todas, seria preciso levar em conta o seguinte: os jornais publicaram minuciosamente as ocorrências do caso de Jacques Algaron e Louise Labbé; devem ter realizado reportagens também sobre o cemitério e o túmulo abandonado de Catarina Labbé. – Ora é muito possível que Glória Lasso tenha lido essas notícias da imprensa, talvez sem lhes dar, no momento, grande importância. Guardou-as, porém, na sua memória inconsciente. É isto que se chama criptomnésia (Krypton = oculto, latente, em grego; mnésia = memória). É certo que muitas vezes registramos em nosso inconsciente uma paisagem, uma cena, um rosto, uma informação…, mas não fazemos uso dessa impressão; não a levamos até a nossa memória consciente, mas a conservamos em nossa memória (faculdade de registrar) inconsciente.

Aliás, os fenômenos de criptomnésia são frequentes; tornaram-se objeto de assíduos estudos, como os de Flournoy. Muitas vezes as impressões colhidas em passado remoto vêm à baila do sujeito, quando este menos espera. Em consequência, exclama: “Já vi essa paisagem, esse rosto, essa casa …” E, já não sabendo onde viu tal imagem, a pessoa é propensa a dizer que só a pode ter visto em outra encarnação ou na vida pregressa (o que é gratuito, como se depreende facilmente).

Por conseguinte, no caso de Glória Lasso pode-se perguntar se a aparição de Catarina Labbé em sonho não se deve à recordação das notícias que Glória colhera através da imprensa e que guardara em seu inconsciente (num fenômeno de criptomnésia).

Leia também: Doenças e sonhos – EB (Parte 1)

Doenças e sonhos – EB (Parte 2)

Doenças e sonhos – EB (Parte 3)

3) Admitida esta hipótese, pergunta-se: qual terá sido o motivo pelo qual Glória Lasso se lembrou do caso de Catarina e viveu as cenas do seu sonho? – A explicação poderia ser a seguinte: Glória estava passando por uma fase difícil no seu relacionamento com o mencionado amigo; julgava-se culpada e receava que essa situação negativa pudesse prejudicar a sua carreira de cantora ou o seu futuro. Havia, pois, um drama afetivo no íntimo de Glória. Ora a moça terá estabelecido, em seu subconsciente, um paralelo entre o caso de Jacques Algaron, Louise Labbé e Catarina, de um lado, e o caso dela mesma com o seu amigo de outro lado. Vivendo o seu drama, Glória terá tido a reminiscência do drama de Catarina, que lhe estava na memória inconsciente.

4) Se assim foi, pergunta-se ainda: – com que finalidade Glória teve o seu sonho? Qual a intenção do subconsciente ao fazer Glória viver tal sonho? – Em resposta, pode-se dizer: esse sonho devia servir – e serviu – para libertar Glória da penosa situação em que se achava. Foi, sim, o que se deu: Glória, que tinha sentimentos de culpa, lavou-os e eliminou-os, entregando-se à caridade, ou seja, cuidando do túmulo abandonado de Catarina. Liberta do seu sentimento de culpa, ela se dedicou sem restrições à carreira artística, conseguindo o pleno sucesso que ela antes não conseguia. Deixou o relacionamento com o amigo, que a afligia; doravante esse amigo é que foi sendo atormentado por pesadelos, como referiu o jornal “France-Dimanche”.

É esta a explicação que, à luz da psicologia, se pode dar para o sonho premonitório de Glória Lasso. É possível que outros sonhos premonitórios e proféticos sejam suscetíveis de análogas explicações; em tal caso, perderiam o suposto caráter de “mensagens do
Além”.

Não há dúvida, estas ponderações não esgotam todas as interrogações que os sonhos “misteriosos” suscitam. Faz-se, pois, mister ainda levar em conta o binômio:

Telepatia e Sonhos

Pode acontecer que em sonho alguém veja um acontecimento estranho; depois de acordar, tal pessoa é informada de que realmente se deu. Doenças e falecimentos são assim percebidas em sonho. Tais fenômenos não significam que o espírito da pessoa doente ou moribunda saia do seu corpo para ir comunicar-se com quem está sonhando. Na verdade, o que se dá é um fenômeno de telepatia ou de percepção extra-sensorial1: em tal caso, a pessoa que sonha, percebe à distância, extrassensorialmente, o acontecimento que fantasia durante o sonho.

Ainda outras explicações se podem propor para sonhos “misteriosos”.

1 Sabemos que a percepção extrassensorial é aquela que se faz independentemente dos cinco ou seis sentidos externos, por via que certamente existe, mas cujo funcionamento ainda não pode ser plenamente definido.

Conjetura e desejo

1.  Ainda no tocante aos sonhos previsivos ou proféticos, é oportuno observar quanto segue:

O ser humano é sempre sequioso de informações, principalmente a respeito do futuro. A incerteza no tocante ao futuro pode desgastar a pessoa mais do que uma má notícia concernente ao porvir. Pesquisas realizadas nos cárceres evidenciaram o seguinte: um prisioneiro que saiba estar condenado para o resto da vida, pode conseguir tranqüilizar-se e adaptar-se à sua nova situação mais facilmente do que os colegas que ainda não sabem o será feito deles. Uma má notícia às vezes é preferível à ausência de notícias, pois quem está informado tenta recuperar a segurança e reconstruir sua vida a partir da situação ingrata de que ele está consciente. Ou ainda: quem está informado, pode (conforme o caso) preparar suas defesas e resistência para enfrentar os males que lhe foram anunciados. – Se assim é, pode-se dizer, a quanto parece, que o ser humano em seu subconsciente tem especial capacidade de prever ou conjeturar o futuro e – o que não é menos importante – de assumir certos comportamentos em função das previsões feitas.

Na base deste dados, voltemos a examinar os sonhos prospectivos. Poderiam ser elucidados também do seguinte modo: muitas vezes o ser humano conjetura algum acontecimento futuro; às vezes também deseja-o ou horroriza-o. Ora estas funções inconscientes são suficientes para provocar o sonho respectivo: a pessoa vê em sonho os acontecimentos que ela conjetura e deseja ou abomina. Ora, se tal conjetura está bem arquitetada, ela corresponde à realidade futura; em tal caso, o sonho que ela provocou, pode ser dito “um sonho profético”.  Tal profecia, porém, nada tem de sobrenatural, pois se explica pela ação de faculdades naturais do ser humano.

A propósito, cita-se o famoso caso do estadista alemão Otto von Bismarck, Primeiro-Ministro da Prússia na Segunda metade do séc. XIX: sonhou que seria vitorioso em árdua campanha militar contra a Áustria, e de fato conseguiu triunfar. – Tal sonho se explica tranquilamente pelo ardente desejo que o marechal prussiano nutria de superar a Áustria: o sonho exprimiu tal desejo; ora, o desejo tendo sido bem sucedido em sonho, Bismarck decidiu empenhar-se com todo o afinco para que se tornasse realidade… Em casos como este, o sonho não mostra propriamente o que está para acontecer, mas, sim, aquilo que a pessoa quer fazer ou deve fazer; e muitas vezes é isso mesmo que realmente está para acontecer.

De modo geral, deve-se dizer que a preciência absoluta não existe por via natural. Pode haver, sim, a profecia como Dom de Deus,… Dom sobrenatural que ultrapassa as faculdades naturais do ser humano. Se alguém fosse capaz de  prever o futuro com exatidão, poderia encaminhar os acontecimentos vindouros em seu proveito, e em pouco tempo se tornaria senhor da sua cidade ou quiçá senhor do mundo (popularmente se diz: acertaria sempre na loteria esportiva). O Dr. Lyall Watson, biólogo sul-africano citado na bibliografia deste artigo, que tem feito pesquisas em diversas partes do mundo, estudou cuidadosamente o curso de vida de algumas das pessoas mais ricas e poderosas da história contemporânea: não encontrou nesses personagens o mínimo indício de faculdades estranhas ou prodigiosas; tais pessoas obtiveram sucesso graças ao seu esforço ou também graças a fatores de boa fortuna, que as favoreceram; todas, porém, cometeram seus erros, às vezes elementares; e nenhuma dispensou as lições da experiência do próprio sujeito ou dos antepassados.

Outro tipo de fenômeno merece ainda ser levado em conta, quando se trata de explicar sonhos, a saber:

Extenuação e Sonhos

Têm-se feito experiências para verificar o que acontece quando alguém se priva de sono por longo período de tempo. Ora pode-se dizer o seguinte: tais pessoas ainda conseguem resolver problemas de aritmética – o que mostra que conservam as atividades conscientes do cérebro. Podem reagir imediatamente a forte jato de luz, apertando uma campainha para ver-se livres do incômodo – o que evidencia que sua capacidade de reação não é alterada. Mas os indivíduos muito carentes de sono já não conseguem concentrar-se por espaço de tempo prolongado; cometem erros numerosos, quando querem raciocinar, e precisam de refazer sempre os seus raciocínios a fim de se corrigir. Caso sejam submetidas a mais duradouras provas de insônia, tais pessoas perdem, por vezes momentaneamente, consciência da realidade que as cerca; e começam a ver coisas que não existem, isto é, põem-se a sonhar com os olhos abertos. Ninguém diria que estão sonhando, mas na verdade estão desligadas do meio ambiente e projetando em sua mente imagens e impressões guardadas em seu subconsciente. Este fato ocorre especialmente em pessoas impressionáveis, ricas em sensibilidade e imaginação; a fantasia então deixa de ser controlada pelo sujeito esgotado e põe-se a funcionar livremente como em sonho, ainda que a pessoa conserve as pálpebras descerradas.

Este fenômeno lança luz sobre certas visões e “aparições” que algumas pessoas experimentam imprevistamente e que, na falta de autêntica explicação, atribuem a seres do Além ou espíritos desencarnados redivivos sobre a terra.

Eis algumas pistas científicas e objetivas que contribuem valiosamente para desvendar o “mistério” dos sonhos proféticos. Antes de se procurar explicação dos mesmos por recurso direto a Deus e aos santos e falecidos, é preciso tentar aplicar-lhes as respectivas noções de psicologia e parapsicologia, que geralmente dissipam as falsas suspeitas de intervenção do Além.

Revista: PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estêvão Bettencourt, osb
Nº  194 – Ano: 1976 – p. 78

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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