É lícito o uso das imagens sagradas? – EB Parte 2

Desencadeada sob o Imperador
Leão Isáurico (717-741), a controvérsia foi levada ao Concílio de Nicéia II
(787), que, na base dos raciocínios de grandes teólogos como São João
Damasceno, reafirmou a validade do culto de veneração (não adoração) tributado
às imagens.  Com efeito; o Concílio
distinguiu entre Istréia (adoração), devida somente a Deus, e proskynesis
(veneração), tributável aos santos e também às imagens sagradas na medida em
que estas representam os santos ou o próprio Senhor; o culto às imagens é,
portanto, relativo, só se explica na medida em que é tributado indiretamente
àqueles que as imagens representam. 
Assim se pronunciaram os padres conciliares:

“Definimos … que, como as
representações da Cruz …, assim também as veneráveis e santas imagens, em
pintura, em mosaico ou de qualquer outra matéria adequada, devem ser expostas
nas santas igrejas de Deus (sobre os santos utensílios e os paramentos, sobre
as paredes e de quadros), nas casas e nas entradas.  O mesmo se faça com a imagem de Deus Nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo, com as da … santa Mãe de Deus, com as dos
santos Anjos e as de todos os santos e justos. 
Quanto mais os fiéis contemplarem essas representações, mais serão
levados a recordar-se dos modelos originais, a se voltar para eles, e lhes
testemunhar … uma veneração respeitosa, sem que isto seja adoração, pois esta
só convém, segundo a nossa fé, a Deus” (sessão 7, 13 de outubro de 787;
Denzinger-Schönmetzer, Enchridion Symbolorum nº 600s).

É interessante ainda
salientar como argumentava o maior defensor das Imagens, que foi São João
Damasceno (+ 749):

“Como fazer a imagem do
invisível? … Na medida em
que Deus é invisível, não o represento por imagens; mas,
desde que viste o incorpóreo feito homem, fazes a imagem da forma humana: já
que o inviável se tornou visível na carne, pinta a semelhança do
invisível”  (Tratado sobre as imagens I 8
PG 94, 1237-1240).

“Outrora Deus, o Incorpóreo
e invisível, nunca era representado.  Mas
agora que Deus se manifestou na carne e habitou entre os homens, eu represento
o “visível” de Deus.  Não adoro a
matéria, mas o Criador da matéria” (Ibid. I 16 PG 94, 1245s).

A Tradição cristã reconheceu
constantemente o valor pedagógico e psicológico das imagens como suportes para
a vida de oração.  Assim, por exemplo,
escrevia Jean Gerson (1363-1429), mestre de espiritualidade:

“Doravante ninguém há tão
simples e iletrado que possa desculpar-se de não saber como viver retamente
para ganhar o paraíso, quando ele tem diante de si e para si, na representação
da cruz e do Crucificado, um livro ilustrado, escrito, ornamentado muito clara
e legivelmente, em que todas as virtudes são aprovadas e todos os vícios reprovados”
(Moralité de la Passion,
em Oeuvres complètes, ad. Glorileux, t. 7, Paris 1966, p. 143).

Santa Teresa de Ávila (+
1582), ao ensinar as vias da oração às suas Religiosas, dizia :

“Eis um meio que vos poderá
ajudar … Cuidai de ter uma imagem ou uma pintura de Nosso Senhor que esteja
de acordo com o vosso gosto.  Não vos
contenteis com trazê-las sobre o vosso coração sem jamais a olhar, mas
servi-vos da mesma para vos entreterdes muitas vezes com Ele”  (Camino de la Perfección, cap. 43,1).

Foi na base dos argumentos
atrás aduzidos que se firmou na Igreja Católica a veneração das imagens, a qual
nada tem que ver com adoração de alguma criatura ou com idolatria.

Examinamos agora

A posição protestante

Os Reformadores do século
XVI reagiram contra os excessos do culto das imagens existente na Idade Média
decadente; as suas invectivas provocaram a destruição de muitas imagens.  Todavia o próprio Lutero não foi intolerante,
mas, de certo modo, liberal no caso, como se depreende do texto abaixo, datado
de 1528:

“Tenho como algo deixado à
livre escolha as imagens, os sinos, as vestes litúrgicas … e coisas
semelhantes.  Quem não os quer, deixe-os
de lado, embora as imagens inspiradas pela Escritura e por histórias
edificantes me pareçam muito úteis… Nada tenho em comum com os Iconoclastas”
(Da Ceia de Cristo).

Calvino, porém, foi mais
radical neste particular, como atestam os dizeres seguintes:

“Não julgo ilícito
representar Deus sob forma visível, porque Ele proibiu que o fizessem e também
porque a sua glória é assim desfigurada e sua verdade falsificada.  Se não é lícito representar Deus sob forma
corpórea, tanto menos será permitido adorar imagem em lugar de Deus ou adorar
Deus numa imagem.  Por conseguinte, que
ninguém pinte ou talhe senão as coisas visíveis ao olho” (Institution de la Religion Chrestianne
I, c. 11, nº 12).

A propósito seja lícito
observar que não se trata, para os católicos, de adorar imagens, mas apenas de
adorar a Deus mediante o estímulo que os sinais visíveis possam oferecer à
mente do cristão.  Este, sendo psicossomático,
é sempre sustentado por elementos sensíveis, mesmo quando exerce os atos da
mais elevada espiritualidade.

A tradição protestante
permaneceu avessa às imagens até os últimos tempos.  Recentemente, porém, novas vozes aí se
fizeram ouvir, como se pode depreender das Atas do VIII Congresso Evangélico de
Arte Sacra realizado em Karlsruhe (Alemanha) no ano de 1956.  Duas teses bem distintas se defrontaram nos
debates:

a) os Reformados
(calvinistas) defendiam a opinião, tradicional entre os protestantes, de que as
imagens não contrárias à Escritura Sagrada e acarretam o perigo de idolatria;

b) Os luteranos, porém,
replicaram que o preceito de Cristo mandando aos discípulos pregar o Evangelho
em todas as línguas, inclui também o uso da linguagem figurada do artista (pintor
ou escultor).  Lembravam que a Bíblia se
serviu de imagens, palavras de sentido metafórico, para exprimir verdades
divinas; Cristo mesmo falou em metáforas variadas, de sorte que o pintor
protestante Rembrandt não hesitou em pintar cenas dos Santos Evangelhos.  Acrescentavam os luteranos que quem, com
Lutero, reconhece na música o veículo apto da fé e do amor aos cristãos, não
pode deixar de reconhecer também nas representações óticas aptíssimo
instrumento para exprimir a verdade revelada. 
Por que admitir, de um lado, as impressões auditivas visuais?  Estas parecem ainda mais eficientes do que
aquelas (documentação colhida no semanário “Der christiche Sonntag”, Herder, 14
Oktober 1956, 327).

Assim é que a antiga cláusula
de Ex 20,4, dada ao povo de Deus ainda muito rude, vai sendo, entre os próprios
protestantes, mais e mais interpretada à luz do conjunto da Revelação, que é
toda irradiada pela Encarnação do Filho de Deus.

Resta dizer breve palavra
sobre

A vigilância da Igreja

As imagens, lícitas como são,
podem sempre acarretar o perigo de exageros e abusos na piedade católica.  Consequentemente, as autoridades eclesiásticas,
ao mesmo tempo que aproveitam a veneração relativa das mesmas, têm exercido
controle sobre os tipos de imagens utilizadas no culto cristão; nunca poderão
ser inspiradas unicamente pelo esteticismo ou pela devoção popular exuberante,
fantasista.

Assim é que o Papa Urbano
VIII em 1629 condenou a representação da Santíssima Trindade sob a forma de um
tronco humano com três cabeças (monstruosidade!).  Em 1745 Bento XIV rejeitou a cena de três
pessoas humanas sentadas uma ao lado da outra para significar a Trindade
Divina.  Uma das principais razões dessas
reprovações é que o Espírito Santo nunca apareceu sob forma humana; a Igreja
quer que a arte cristã, para representar as Pessoas Divinas, só reproduza
elementos mediante os quais estas aparecem na história sagrada ou na Bíblia:
assim ao Filho será de todo oportuno atribuir figura humana; ao Espírito Santo
só convém os símbolos da pomba (tenha-se em vista o batismo de Jesus, em mt
3,16) ou das línguas de fogo (cf. a narrativa de Pentecostes, em At 2,3);
quanto ao Pai Eterno, é representado por um Dedo ou uma Mão, sinais de ação e
poder (note-se a expressão de Jesus em Lc 11,20: “Se é pelo Dedo de Deus que
expulso os demônios …”) ou pelo tipo de um Ancião, consoante a profecia de Dn
7,9, que vê o Filho do homem adiantando-se em direção de venerável e antigo Varão
de cabeleira branca, sentado sobre um trono.

De modo especial, com vistas
à catequese, os Bispos franceses promulgaram certas diretrizes que devem
orientar a confecção de imagens para crianças:

Não desejáveis

as imagens que eduquem a fé,
isto é, que façam pensar nas realidades sobrenaturais e despertem autênticos
sentimentos de fé e de piedade;

as imagens que levem em
conta as reações da criança, e não as dos adultos;

c) as imagens que sejam
concebidas dentro de certa preocupação com estética e não sejam feudo de alguma
escola particular;

as imagens que não
apresentem pormenores inúteis aptos a desviar do essencial a atenção das
crianças;

as imagens que utilizem cor
e movimentação, a fim de melhor prender a atenção e o interesse das crianças;
todavia, sem exageros.

Não desaconselhadas

as imagens que tratem o
invisível com os mesmos traços concretos das realidades visíveis; assim os
anjos configurados, sem mais, a seres humanos;

as imagens que sejam capazes
de impressionar e agradar, mas não suscitem sentimentos de fé e de piedade; por
exemplo, aquelas que apresentam os personagens sagrados com semblante de boneca
ou com expressionismo humano carregado demais, como são as imagens da Virgem
SS. em geral e as de S. João Evangelista na última ceia produzidas por certos
artistas do Renascimento (século XVI);

as imagens que as crianças não
possam facilmente compreender, por serem demasiado abstratas.

São condenadas

as imagens que transmitam
falsa noção da realidade, como, por exemplo, a do Menino Jesus pregado à Cruz
ou detido no tabernáculo do altar ou imagens muito sentimentais;

as imagens que contribuam,
na mente das pessoas simples, para ridicularizar algum personagem sagrado,
algum mistério da fé ou os ritos da Liturgia. 
Cf. La
Documentation Catholique 15/09/1057.

Estas normas, sábias e
prudentes como são, merecem plena atenção, visto que as imagens são veículo de
instrução do povo de Deus.  Sejam, pois,
plenamente conformes à mensagem que elas devem transmitir.

Em conclusão:  verifica-se que o culto de veneração relativa
atribuído às imagens foi sendo paulatinamente integrado no patrimônio da vida
da Igreja; tem o seu fundamento no mistério da Encarnação do Filho de Deus, que
evidenciou o caráter provisório da proibição do Êxodo e a utilidade de
representações sensíveis para o bom desempenho da catequese e o estímulo da oração.  Não seria cristão recusar a arte na medida em
que ela pode ser via de acesso a Deus. 
Por conseguinte, a Igreja proclama: 
nem o Iconoclasmo nem o culto supersticioso e mágico das imagens.  A cada cristão toca pessoalmente fazer o uso
das imagens que melhor corresponda às suas disposições e necessidades pessoais:
enquanto uns são altamente beneficiados por representações sensíveis, outros as
dispensam quase por completo.  Na
verdade, as imagens são um meio, não um fim. 
Todavia que ninguém negue a legitimidade do uso moderado e
teologicamente fundamentado das mesmas!

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.