É fiel a história dos Patriarcas Bíblicos? EB

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº 501 – Ano
2004 – p. 111

 

Em síntese:
A historicidade dos relatos concernentes aos Patriarcas bíblicos se depreende
de certos tópicos: a) os Patriarcas seguem os hábitos dos povos nômades; b)
observam normas jurídicas que, por seu caráter primitivo, diferem das leis da
Idade do Ferro ou da monarquia israelita; c) são apresentados com todas as
falhas humanas, sem preocupação de embelezamento artificial. É preciso
reconhecer, porém, que nem sempre a cronologia desses relatos é exata,
principalmente quando se trata da idade dos Patriarcas.

Tem sido
posta em foco a credibilidade dos relatos bíblicos concernentes aos Patriarcas
Abraão, Isaque, Jacó, José (…). Há quem os considere fictícios. O assunto é
importante, e deve ser examinado com plena objetividade, posto de lado qualquer
preconceito religioso.

Eis que
cinco enfoques permitem afirmar a fidelidade histórica de tais relatos:

1. Aspecto
geral

O Deus que
salvou Israel da opressão egípcia é constantemente evocado como o Deus de
Abraão, Isaque e Jacó ou o Deus de nossos pais; cf. Gn 28, 13 31, 42.53; Ex 3
6.16.

O zelo com
que Deus cuida de Israel aparece sempre como a continuação de anteriores intervenções
do Senhor em prol do seu povo.

Ora estes
dados depõem em favor da historicidade dos episódios concernentes “aos pais” ou
aos Patriarcas anteriores a Moisés.

2. Aspectos
históricos e arqueológicos

A
arqueologia e a etnologia mostram como os povos da Idade de Bronze (2000-1550)
viviam. Ora os Patriarcas bíblicos apresentam os mesmos hábitos:

– vivem em
tendas “Abraão armou seu tenda, tendo Betel a Oeste…” (Gn 12, 8).

“Jacó era
um homem tranqüilo, morando sob tendas” (Gn 25, 27)

– procuram
os poços: “Rebeca correu ao poço para tirar água” (Gn 35 30).

– emigram
periodicamente para lugares de pastagem; “Viemos habitar nesta terra porque não
há mais pastagem na terra de Israel” (Gn 47, 4), disseram os irmãos de José.

– zelam
para manter a pureza do sangue: “Eu te faço jurar que não tomarás para meu
filho uma mulher entre as filhas dos cananeus” (Gn 24, 3), disse Abraão ao seu
servo mais velho.

– admitem
responsabilidade coletiva: Simeão e Levi dispõem-se a vingar a honra de sua
irmã Dina violentada por Siquém (cf. Gn 34, 1-31).

– seguem as
normas jurídicas de Códigos antigos a nós conhecidos, como o de Hamurabi.

Os locais
percorridos pelos Patriarcas era a região montanhosa de Judá e a estepe de
Negev (Palestina meridional). As cidades em cujas cercanias os Patriarcas
acampam, são as mais antigas que conhecemos: Siquém, Betel, Hebron, Ai; nenhuma
das cidades mais recentes é mencionada na história dos Patriarcas – o que
denota a índole antiga das respectivas tradições.

3.
Religiosidade dos Patriarcas

Às pp. 32s
escreve Walter Vogels em seu livro “Abraão e sua Lenda”¹:

“Autores
como Welhausen, Thompson e Van Seters, que rejeitam todo valor histórico
afirmam que os relatos dos patriarcas nos informam unicamente sobre a época em
que os textos foram redigidos. Isso é contraditado pelos menos no que concerne
à religião dos patriarcas. Se os autores bíblicos tivessem inventado as
tradições dos patriarcas, inspirando-se na religião que eles próprios
praticavam, os relatos teriam sido bem diferentes. Os patriarcas praticavam,
segundo os textos bíblicos, uma religião pré-israelita, pré-mosaica. Alguns
pontos podem mostrá-lo.

Não existe
antagonismo religioso entre os patriarcas e as pessoas com as quais entram em
contato. No restante da Bíblia, a oposição entre Yahweh, o Deus de Israel, e os
Baals, os deuses dos cananeus, é habitual. Nos relatos dos patriarcas diríamos
que todos adoram o mesmo Deus. Melquisedec, rei de Shalêm, abençoa Abraão em
nome do “Deus Altíssimo” (Gn 14, 18-20), e Abraão levanta a mão em nome do
“Deus Altíssimo” (14, 22).

A Bíblia
distingue com freqüência Israel, o povo eleito, e as nações, os povos pagãos.
Tal distinção não se encontra nos relatos dos patriarcas. Abraão crê que não
existe temor algum de Deus em Guerar (20, 11), mas o texto prova o contrário. O
povo de Guerar é uma nação justa (20, 4), e seu rei Abimélek age com coração
íntegro e mãos inocentes (20, 5-6). Todos são iguais diante de Deus a
perspectiva dos relatos dos patriarcas é mais universalista do que no restante
da Bíblia.

As práticas
são bem diferentes. Não há indicação alguma de que os patriarcas observassem o
sabbat, ou as leis concernentes aos alimentos, o que era muito importante a
época do exílio. Se as tradições patriarcais tivessem sido inventadas nessa época
os autores teriam muito provavelmente feito os patriarcas viverem segundo essas
leis. O mesmo se aplica aos locais do culto. Abraão constrói altares onde quer
(12, 7; 13, 18) e planta árvores sagradas (21, 33). Tais práticas eram
proibidas pela lei mosaica, que prescreve o lugar do culto (Dt 12, 2-5) e
condena essas árvores sagradas (Dt 16 21).

A religião
dos patriarcas não conhece mediadores sacerdotes ou profetas. Os patriarcas não
se dirigem aos outros à maneira de Moisés ou dos profetas, e ninguém lhes fala
em nome de Deus. Eles estão em contato direto, pessoal com Deus (17, 1). Os
patriarcas oferecem seus próprios sacrifícios (22 13) e não necessitam de
sacerdotes que o façam em seu nome.

Na religião
de Israel, a lei ocupa um lugar bem central, sua observância traz a bênção sua
rejeição, a maldição. Na religião dos patriarcas, encontramos promessas e
bênçãos (12, 2-3), mas dadas sem menção de estipulações que os patriarcas
deveriam observar para obtê-las Não existe tampouco ameaça de julgamento, no
caso de não serem fiéis.

Esses
poucos exemplos, entre outros, ilustram a diferença entre a religião descrita
nos relatos dos patriarcas e a religião do restante do Pentateuco. Os
patriarcas tinham certas práticas religiosas condenadas pela lei É difícil,
portanto, imaginar que essa religião tivesse sido inventada por um autor que
era um fiel javista. Se ele houvesse “inventado” a história de Abraão, teria
escrito uma história mais “ortodoxa”. Os textos testemunham uma forma de
religião antiga pré-javista”.

Tais
observações deram ensejo aos comentários de bons autores, como são:

Roland de
Vaux, Professor da École Biblique de Jerusalém: “Se, como se afirmou por muito
tempo, (os autores bíblicos) tivessem reconstruído o passado segundo o que viam
e imaginavam, eles teriam obtido um quadro diferente do que possuímos, e que
teria sido falso” (“Les patriarches hébreux et les découvertes modernes”, Revue
biblique 56 (1949), pp. 5-36, citação p. 36).

A. Parrot: “A
vida, tal como aparece nos relatos do Gênesis que são consagrados, encaixa-se perfeitamente
com o que hoje sabemos por outras vias, sobre o início do segundo milênio, mas imperfeitamente
com um período mais recente” (Abraham et son temps, “Cahiers d’archéologie
biblique” 14, Neuchatel, Delachaux et Niestlé, 1962, p. 11).

W. F.
Albright: “Abraão, Isaque e Jacó não parecem mais, doravante, figuras isoladas,
quanto menos reflexos da história hebraica posterior; parecem atualmente
verdadeiros filhos de sua época, trazendo os mesmos nomes, deslocando-se sobre
o mesmo território, visitando as mesmas cidades (especialmente Harran e Nahor),
submetidos aos mesmos costumes que seus contemporâneos. Em outros termos, os
relatos dos patriarcas têm de cabo a rabo um fundo histórico”.

4.
Narrações realistas

As tradições
populares fictícias apreciam o maravilhoso e a ornamentação de seus
personagens. Bem diferente, porém, é o estilo dos relatos concernentes aos
Patriarcas bíblicos; apresentados com todo o realismo da vida humana. Assim:

– Abraão
tem medo de ser raptado e recorre a uma restrição mental, pela qual é
censurado; cf. Gn 12, 18s; 20, 9-13.

– Sara
assume altitude ciumenta e maldosa para com Agar, que o anjo de Deus consola
duas vezes; cf. Gn 16, 7-12; 21, 10-19.

– Jacó
engana seu pai Isaque, fazendo-se de primogênito que arrebata a bênção devida a
Esaú e, por isto, deve fugir cf. Gn 27, 1-46.

– Jacó, por
sua vez, é enganado pelo tio Labão; cf. Gn 29, 20-25.

– Ruben
perdeu o direito de primogênito por causa de um incesto praticado com Bala,
concubina de seu pai; cf. Gn 36, 22 e 49, 4.

– Simeão e
Levi foram punidos por sua crueldade homicida; cf. Gn 34, 25-30; 49, 5-7.

É de notar
que Abraão, esposando uma filha de seu pai (Gn 20, 12) e Jacó, unindo-se em
casamento a duas irmãs (Gn 29, 23-28), não observam leis matrimoniais que mais
tarde a Lei de Moisés (Lv 8, 8-18; Dt 27, 22) havia de promulgar, punindo a
respectiva infração com pena de morte. Isto abona a historicidade dos relatos
em foco: parecem descrever fatos ocorridos antes da época de Moisés.

As tradições
históricas eram fielmente guardadas na memória dos povos antigos através de
sucessivas gerações, visto que a transmissão escrita era rara e difícil; além
do quê, o estilo de vida dos pastores, repetitivo e tranqüilo, favorecia a
tenacidade da memória.

5.
Historiografia antiga

Compreende-se
que as narrações concernentes aos Patriarcas embora sejam fidedignas, carecem
da precisão da historiografia moderna. O historiador semita outrora recorria a
procedimentos estranhos. Assim, por exemplo, o historiador da época dos
Patriarcas refere muitos colóquios em discurso direto, que não foram gravados,
mas são reproduzidos de maneira aproximativa. Mais claramente ainda aparece o
gênio do historiador quando trata de números e, em particular, de números de anos
de vida; sejam considerados os seguintes casos (de suposto simbolismo?):

– a duração
da vida de Abraão parece construída sobre o número 25. Com efeito; Abraão tinha
passado 75 ( 3 x 25) anos na Mesopotâmia antes de emigrar para Canaã (cf. Gn
12, 4); tinha cem ( 4 x 25) anos quando gerou Isaque (cf. Gn 21, 5), e morreu
com 175 (= 7 x 25) anos (Gn 25, 7).

– A Isaque
são atribuídos 180 anos de vida, ou seja 4 x 40 + 20 ou também 3 x 60 (cf. Gn
35, 28).

– A Jacó…
147 anos (cf. Gn 47 28), o que equivale a 3 ( 7 x 7) ou três vezes um período
jubilar (cf. Lv 25, 10) ou ainda equivale a duas vezes 70 mais 7.

Mais ainda
chamam a atenção as ponderações seguintes:

Idade de
Abraão: 175 = 7 (5 x 5) anos, sendo 17 a soma dos fatores 7 + 5 + 5.

Idade de
Isaque: 180 anos, isto é, 5 (6 x 6), sendo 17 a soma dos fatores 5 + 6 + 6.

Idade de
Jacó: 147 anos, ou seja, 3 (7 x 7), sendo 17 a soma dos fatores 3 + 7 + 7.

A título de
exercício mental, poder-se-iam dissecar outros números bíblicos, sem que isto
tenha algum significado para a mensagem sagrada.

6. Uma
objeção: os Anacronismos

Continua o
Prof. Vogels:

“Um
versículo do ciclo de Abraão diz que “Abraão residiu por muito tempo na terra
dos filisteus” (21 34), mas esses filisteus só se instalaram em Canaã depois de
1200 a.C. O nome da cidade da qual partiram Terah e sua família “Ur dos
caldeus” (11, 31), também constitui problema. A cidade de Ur é conhecida e
muito antiga, mas o tempo “Caldeia” é problemático. Os caldeus só surgem nos
textos assírios no século IX a.C. Além disso, referir-se a “Ur dos caldeus”
pressupõe a ascensão ao poder dos caldeus, ou seja babilônicos, que só ocorre
no final do século VII a.C. No início do segundo milênio, talvez se dissesse
“Ur dos sumérios”. Tais dificuldades não perturbam aqueles estudiosos, eles as
explicam por meio de anacronismos que não afetariam o fundo verdadeiramente
histórico dos textos. Os autores dos relatos dos patriarcas substituíram os
nomes antigos pelos nomes em uso na época em que escreviam.

Outra
dificuldade para a hipótese do início do segundo milênio é o costume dos
patriarcas, como Abraão, de se servir de camelos (12, 16). Aceita-se, em geral,
que o camelo só foi domesticado e utilizado no Oriente Próximo antigo depois de
1200 a.C. É verdade que se conhecem alguns casos raros um pouco antes do
segundo milênio. Poderíamos, assim, recorrer a tais casos excepcionais e
afirmar que os patriarcas faziam um uso restrito de camelo. Mas prefere-se, em
geral, explicar essas referências aos camelos como anacronismos. Chega-se a
sugerir que o texto, de início, falava de jumentos, substituídos posteriormente
por camelos.

Explicar
tais dificuldades como anacronismos não é, em si, uma solução absurda. Todos
nós tendemos, ainda hoje, a introduzir semelhantes anacronismos em nossos
textos. Um dos subúrbios da cidade de Ottawa se chamava, outrora, Eastview.
Esse nome foi alterado, em 1969 para Ville de Vanier. Se escrevo em 1996: “Em
minha chegada no Canadá, instalei-me em Vanier”, cometo um anacronismo. Quando
cheguei ao Canadá, em 1960, a cidade se chamava ainda Eastview. Meu texto,
cientificamente falando, não é exato, mas o leitor comum compreende mais
facilmente, pois muitas pessoas não sabem mais nada a respeito dessa mudança de
nome. Mas o leitor que se baseasse em meu texto para concluir que devo ter
chegado ao país depois de 1969 se enganaria. É certo, em contrapartida, que o
texto deve ter sido escrito após 1969. Uma frase que afirmasse “Linvingstone
morreu no Zâmbia” seria outro exemplo de anacronismo. O país que sob o regime
britânico se chamava Rodésia do Norte, tornou-se Zâmbia no momento de sua
independência, em 1964. Isso me indica que a frase deve ter sido escrita depois
de 1964. Mas concluir, a partir daí, que Livingstone teria morrido depois de
1964 seria um erro histórico. Esse explorador britânico morreu em 1873 na
região da África que hoje se chama Zâmbia” (pp. 28s).

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Assim fala
o professor universitário, à diferença dos jornalistas.

¹ Cf. PR
486/2002, pp. 445-448.

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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