É bom compreender: um não-católico pode se salvar, graças a Cristo e à Igreja

Caro Visitante, respondendo a um comentário que me enviaram no texto que escrevi sobre o site tradicionalista Montfort, (cf. Texto do meu blog no dia 23/6: Site Monfort: um doce veneno – I) citei um caso de excomunhão por parte de Pio XII. Aqui vão os detalhes: Pelos anos 40 do século passado, alguns membros do St. Benedict’s Center e do Boston College interpretavam de modo contrário ao sentir da Igreja a fórmula da Tradição “Fora da Igreja não há salvação”. Segundo esses, todas as pessoas que não fossem católicas estariam excluídas da salvação eterna. O Santo Padre Pio XII condenou tal pensamento na Encíclica Mystici Corporis e excomungou o teólogo Leonard Feeney, em 1953, por manter teimosamente tal pensamento. Eis alguns trechos da Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, sobre o assunto, escrita sob a autoridade de Pio XII. Vou comentá-la…

Entre as coisas que a Igreja sempre pregou e nunca deixará de pregar está também a afirmação infalível que nos ensina que “fora da Igreja não há salvação”. Este dogma, porém, deve ser entendido no sentido em que a própria Igreja o entende. Com efeito, não é ao juízo privado que nosso Salvador confiou a explicação do que está contido no depósito da fé, mas ao magistério eclesiástico.
Ninguém será salvo se, sabendo que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, todavia não aceita submeter-se à Igreja ou recusa obediência ao Romano Pontífice, vigário de Cristo na terra.

Na sua infinita misericórdia, Deus quis que os efeitos necessários para a salvação provenientes destes meios de salvação… fossem também obtidos, em certas circunstâncias, quando este meios são acionados só pelo voto ou desejo… Pois, para que alguém obtenha a salvação eterna não é sempre necessário que seja efetivamente incorporado à Igreja como membro, mas requerido é que lhe esteja unido por voto e desejo. Todavia, não é sempre necessário que este voto seja explícito… mas, quando o homem é vítima de ignorância invencível, Deus aceita também o voto implícito, chamado assim porque incluído na boa disposição de alma pela qual essa pessoa quer conformar sua vontade à vontade de Deus… (Denz 3866-3872).
Não se pode compreender como um religioso, a saber, o Pe. Feeney, se pode apresentar como “defensor da fé”, se ao mesmo tempo não hesita em combater a instrução catequética proposta pelas autoridades legítimas.. (Denz 3873).

Observação minha:
1. Fiz questão de citar este texto porque é do pontificado do Santo Padre Pio XII, o herói dos tradicionalistas e, no ver deles, o último papa autêntico e sério.

2. Observem bem como o texto adverte que ninguém deve pretender interpretar os textos do Magistério modificando o sentido que o próprio Magistério lhes dá! Isso os tradicionalistas deveriam aprender, eles que ficam citando textos magisteriais fora do contexto, como os protestantes fundamentalistas fazem com as Escrituras. É clara a queixa do documento aprovado por Pio XII: “Não se pode compreender como um religioso, a saber, o Pe. Feeney, se pode apresentar como ‘defensor da fé’, se ao mesmo tempo não hesita em combater a instrução catequética proposta pelas autoridades legítimas…”

3. Vamos à doutrina ensinada aqui: Pio XII ensina que a fórmula “Fora da Igreja não há salvação” é dogma de fé. É verdade! Mas, adverte que não pode ser compreendida no sentido restritivo: quem não é católico não se salva. Eis a explicação: O meio ordinário, meio querido por Deus, para a salvação é entrar e permanecer na Igreja católica. Mas, todo aquele que sem culpa, está fora da Igreja, pode se salvar pela imensa misericórdia de Deus. O próprio Concílio de Trento, ao tratar do Batismo e da Penitência, já havia acenado para tal possibilidade, pois nunca foi fé da Igreja que quem não é católico não se salva. Tal interpretação é herética!

4. O Concílio Vaticano II, seguindo os passos da antiga Tradição, expressa nas Escrituras, nos primeiros Santos Padres, como São Justino e Santo Irineu, bem como no magistério de Pio XII, desenvolveu de modo mais orgânico e completo esta doutrina: Cristo é o Salvador de todos e não há salvação fora dele. Todo aquele que se salva – mesmo que, sem culpa, não reconheça o Cristo como Salvador – somente será salvo porque Cristo morreu por todos, de modo que, fora de Cristo não há salvação. Ora, a Igreja, como Corpo de Cristo, é ministra de tal salvação. Toda salvação possível dá-se pelo ministério da Igreja. Assim, todo aquele que, sem culpa, não entre ou não permanece na Igreja, se for reto de consciência e verdadeiramente buscar a Deus do melhor modo que lhe for possível, pode, graças à salvação que Cristo obteve e a Igreja ministra, alcançar a salvação.

5. Com tal doutrina, o Concílio, seguindo a Tradição da Igreja, mantém unidas duas afirmações: 1) A Igreja é necessária para a salvação e todos são chamados a ela; e 2) É possível para um não-católico ou não-cristão sincero a salvação por meios que só Deus conhece, pois que Cristo, cabeça da Igreja, morreu por todos.

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D. Henrique Soares da Costa
http://www.padrehenrique.com

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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