E a inteligência dos antropóides? EB

(evolução)Em síntese: Tem-se apregoado a tese de que os antropoides possuem uma linguagem comparável à do ser humano: por conseguinte, têm inteligência…; teriam então alma intelectiva ou espiritual. – Ora, entre outros estudiosos, V. Marcozzi publicou um livro intitulado “Todavia o homem é diferente” (Peró l’uomo é diverso), em que mostra, com muito acume e dados empíricos, que a linguagem dos antropoides não é senão um fenômeno de reações reflexas e de associação de imagens, sem a capacidade de exprimir definições, noções de estética, arte, moral, religião…; a “linguagem” dos animais não recorre a gramática nem sintaxe, não improvisa nem cria algo de novo… Várias experiências feitas nos últimos anos têm dissuadido os próprios pesquisadores de admitir, nos antropoides, o uso de  linguagem racional ou inteligente. É por isto que não se pode falar de “alma intelectiva” ou “espiritual” nos antropoides.

Comentário:

Já em PR 232/1979, pp. 135-150 e 247/1980, pp. 275-281 abordamos a questão da linguagem e, conseqüentemente, dainteligência dos animais ditos “antropóides”. Certas experiências recentes, praticadas principalmente por psicólogos norte-americanos, parecem insinuar a existência de linguajar inteligente em tais seres vivos. Ora em 1981 foi publicado mais um livro sobre o assunto, da autoria do famoso biólogo e psicólogo Pe. Vittorio Marcozzi S. J., com o título “Però l’uomo è diverso” (Rusconi, Milano, 1981, 8º, 180 pp.). O autor reexamina o problema, ilustrando-o com novas observações, muito propositadas, que  passamos a expor nas páginas seguintes.

1. O problema

A pesquisa do psiquismo dos animais infra-humanos deve precaver-se contra dois extremos:

– o do mero mecanicismo ou behaviorismo ortodoxo, que nega qualquer manifestação propriamente psíquica e tudo atribui a reflexos ou reações físicas;

– o do antropomorfismo, que julga haver nos animais inferiores ao homem autênticas manifestações do psiquismo humano, se bem que primitivas ou infantis. Afirmam os fatores desta tese que, entre o psiquismo animal e o humano, há apenas uma diferença de grau (o homem não seria mais do que um antropóide aperfeiçoado); em outros termos: não haveria no homem um princípio vital ontologicamente diverso dos animais inferiores. Em conseqüência, atribuem a estes a capacidade de raciocinar, emitir conceitos, formar idéias, etc.

A propósito de tal problemática podem ser feitas as seguintes ponderações.

2. Conhecimento sensitivo e conhecimento intelectivo

É mister distinguir entre conhecimento sensitivo e conhecimento intelectivo.

1. Conhecimento sensitivo é o que se faz mediante os sentidos externos (visão, audição, olfato, paladar, tato) e internos (sentido comum, memória sensitiva, imaginação, estimativa). Capta os objetos na sua qualidade de coloridos, sonoros odoríferos, gustáveis, duros ou moles, quentes ou frios; cada qual dos sentidos externos aprende o aspecto do objeto que lhe diz respeito; esses diversos aspectos (cor, som…) são levados ao cérebro, que, mediante o senso comum, faz a montagem dos mesmos e, consequentemente, a imagem completa do objeto apreendido. Esta é sempre concreta, individual, material, como é esta rosa, aquele cenário, esse menino… A memória sensitiva se recorda deste ou daquele fato concreto; a imaginação concebe esta ou aquela cena possível ou fantástica. Em suma, o conhecimento sensitivo jamais ultrapassa os limites do individual, material, concreto…

2. O conhecimento intelectivo é o que produz idéias ou conceitos abstratos e universais. Pela inteligência deduz de diversos indivíduos humanos (João, Mário, Catarina…), conhecidos pelos sentidos, o conceito de homem ou ser humano, conceito que se realiza em todos os indivíduos concretos da mesma espécie. Mediante tal conceito abstrato, apreendo a essência ou o essencial que existe, com modalidades concretas, nos diversos indivíduos. O conhecimento intelectivo concebe objetos imateriais como sejam a justiça, a beleza, o amor…, formula definições, percebe proporções e relações. Notemos que o ponto como tal não é objeto dos sentidos, pois, de um lado, o ponto não tem extensão e, de outro lado, os sentidos só podem apreender o que é extenso. Também a reta como tal não é objeto dos sentidos, pois ela não tem espessura, ao passo que os sentidos só podem apreender o que é espesso. Não nos é possível imaginar um ponto sem extensão e uma reta sem espessura; por conseguinte, se o homem concebe a noção filosófica de ponto e de reta, não o faz pelos seus sentidos, mas mediante uma faculdade que ultrapassa os sentidos e que é a inteligência.

3. Destas proposições se depreende a diferença existente entre abstração intelectiva e abstração sensitiva.

A abstração intelectiva, como dito, consiste no fato de que o intelecto, abstraindo de todos os elementos concretos, percebe a essência das coisas e reconhece que todos os objetos da mesma espécie têm a mesma essência, por mais diversas que sejam as suas notas acidentais. Ao contrário, a abstração sensitiva consiste em que alguém apreenda certos traços ou peculiaridades dos objetos, esquecendo ou omitindo outros; esses traços podem não ser essenciais; formam-se assim imagens esquemáticas, que permitem uma certa generalização, mas que não são conceitos universais ou definições. Tenha-se em vista, por exemplo, a placa que traz a silhueta de um homem, colocada à porta de certos ambientes para indicar que são reservados aos homens; significa “todo e qualquer homem (branco ou preto, gordo ou magro, jovem ou velho…)”, mas de modo nenhum indica qual é a essência ou o constitutivo intrínseco e fundamental do ser humano; essa placa indica “todos os homens”, mas não define o homem; só a inteligência concebe definições. Analogamente, a imagem de um cigarro atravessado por barra vermelha que se encontra em recintos de não fumantes, aplica-se a qualquer cigarro, a charuto, a cachimbo…, mas está longe de significar a essência do fumo ou o que constitui propriamente o fumo. – Notemos que a imagem esquemática é sempre a de um corpo extenso e material; esta imagem é do domínio da sensibilidade, não do plano da intelectualidade. A imagem esquemática permite ao animal reconhecer que  um objeto, visto em determinado momento, é igual ou semelhante a outros objetos vistos em outras ocasiões, mas não permite perceber em que consista o essencial de tais imagens.

4. Detenhamo-nos um pouco mais sobre o conceito de inteligência.

Esta é a faculdade de equacionar problemas e resolvê-los, apreendendo o cerne (ou a linha central, essencial) de uma dificuldade, às vezes dissimulado sob elementos diversos, que parecem mais importantes, mas que não são essenciais. De modo especial, a  inteligência é a faculdade de escolher os meios adequados para chegar a um fim intencionado. A inteligência, baseada sobre conceitos ou sobre a percepção da essência das coisas, formula.

– juízos, atribuindo predicados a um sujeito; por exemplo, todo homem é mortal;

– silogismos ou raciocínios, deduzindo, de certas proposições universais, conclusões particulares; por exemplo, todo homem é mortal; ora Sócrates é homem; por conseguinte, Sócrates é mortal.

Mais: a inteligência, ao escolher meios para seus fins conhece os meios como meios, os fins como fins e as proporções ou o relacionamento existente entre tais meios e tais fins.

Nos animais não existe faculdade. A chamada “inteligência” dos animais é uma faculdade sensitiva mediante a qual adaptam tal ou tal instrumento à consecução de tal ou tal objetivo concreto, sem reconhecer os meios como meios e sem intencionar os fins como fins. Se o animal parece agir inteligentemente (por exemplo, tecendo a sua teia de aranha ou abrindo galerias subterrâneas ou construindo um favo de mel…), ele não é sujeito de inteligência; o seu “agir inteligente” lhe parece incutido por outro Ser, que é realmente inteligente e que lhe comunicou o instinto (cego) de agir deste ou daquele modo para atingir este ou aquele fim, sem que o animal saiba dimensionar todo o alcance de sua ação. A prova disto é  que o animal não é  capaz de rever sua atividade, de melhorá-la, progredindo, ou de corrigi-la quando viciada por um elemento heterogêneo (a abelha continua a derramar mel em seu favo, mesmo quando este se acha furado).

5. A propósito são dignas de especial menção as duas seguintes experiências:

– O animal pode escolher uma coisa induzido pela cor respectiva, abstraindo da forma dessa coisa, ou vice-versa, mas não chega à ideia de forma ou de cor como tais. Com efeito, os pesquisadores K. J. Hayes e C. H. Bissen conseguiram ensinar o chimpanzé Viki a escolher um objeto na base da respectiva cor, entre muitos outros de cores diferentes, mas de forma igual. Verificaram, porém, que, quando as cores e as formas variavam simultaneamente, o animal não conseguia escolher movido unicamente pela percepção da cor: deram, por exemplo, a Viki, como referencial ou como amostra, um objeto que tinha a forma de um quadrado vermelho; depois puseram esse objeto em meio a outros que tinham respectivamente a forma de um triângulo vermelho, triângulo verde e cubo verde; seria de esperar que, ao escolher entre tantos, o animal optasse pelo triângulo vermelho, pois tinha a cor vermelha em comum com o modelo apresentado. Todavia o chimpanzé jamais conseguiu fazer isto. Donde se depreende que o animal distingue as cores mas não tem a ideia ou o conceito de cor. Verificou-se também que os animais podem ser treinados para escolher, entre dois objetos a eles apresentados, sempre o maior ou sempre o menor, mas não têm a ideia de “maior” ou “menor”.

– A segunda experiência refere-se ao liame existente entre uma ordem (preceito) dada e a atividade daí decorrente ou o objeto correlacionado com essa ordem. Os animais conseguem aprender a executar muitas ordens, mas não compreendem o significado das palavras que ouvem; associam o som ao objeto ou à atividade indicada pelo som, principalmente se está presente a pessoa que pronuncia as palavras, mas não entendem o sentido dos vocábulos que lhes são ditos.

A  propósito, o psicólogo F. J. J. Buytendijk realizou a seguinte experiência: treinou um cão para executar as ordens correspondentes às palavras “Pula!”, “Para cima!”, “Para baixo!”… O animal seguiu fielmente as instruções enquanto o treinador lhe esteve presente; todavia, quando este se transferiu para uma sala contígua e começou a dar suas ordens por alto-falantes, o cão deixou de se mover. Donde a conclusão de Buytendijk: “É certo que no animal não há nem palavra nem compreensão. O animal fica preso no seu mundo” (citado por Marcozzi, obra mencionada, p. 40). Isto quer dizer: o animal não ultrapassa a percepção das imagens sensitivas; reconhece a figura do dono que lhe fala com certos sinais, mas, desde que a imagem complexa “dono e palavras” se esfacele, cedendo ao principal, que são as palavras portadoras de significado inteligente, o animal não alcança a mensagem; por isto também o animal não fala nem pode falar (tornaremos ao assunto sob o subtítulo seguinte).

6. Em vista dos fatos descritos, há quem distinga entre mero sinal e símbolo.

O mero sinal ocorre quando a associação entre o sinal e a coisa ou a atividade se deve tão somente às faculdades sensitivas; por exemplo, um toque de campainha pode ser associado, pela memória sensitiva, à alimentação; por isto, o animal irracional, ao servir o som de uma campainha, pode ensalivar a boca, embora a alimentação não passe pelo ouvido nem seja de ordem auditiva; é meramente extrínseca a associação entre o sinal e o objeto assinalado, no caso; o toque de campainha poderia ser, sem mais, substituído pela apresentação, ao animal, de um pano verde ou branco…, ou por uma rajada de vento ou por uma onda de perfume (…).

O símbolo ocorre quando o sujeito percebe que o sinal significa uma coisa ou uma atividade, ou seja, quando compreende que há um nexo intrínseco entre o sinal e o assinalado ou ainda quando entende que o sinal de certo modo se identifica com o assinalado. Essa percepção ocorre na linguagem humana: quem ouve a palavra “pai”, sabe que ela foi proferida para transmitir um conceito e que há outros modos de expressar esse mesmo conceito (posso dizer “father, Vater, père, padre…”).

Ora as ordens que  um animal recebe, são, para ele, sinais e não símbolos.

3. A “linguagem” dos animais

Sabe-se que nos últimos anos alguns pesquisadores tentaram ensinar uma linguagem aos animais. Assim, por exemplo, o casal Hayes ensinou ao chimpanzé Viki a linguagem vocal inglesa; o casal Gardner transmitiu à fêmea de chimpanzé Washoe a linguagem mais simples dos mudos (não a que associa a cada gesto uma letra ou uma palavra, mas a que associa diretamente a cada gesto uma coisa ou uma atividade); o casal Premack ensinou à chimpanzé fêmea Sarah uma linguagem visual (que consistia numa espécie de grafia gravada sobre placas finas de plástico, com formas, cores e tamanhos diversos); e ainda os psicólogos D. M. Rambaugh e T. V. Gill ensinaram à macaquinha Lana uma variante da linguagem visual. – Em consequência, tem-se proclamado que os antropoides podem falar e, na realidade, falam como os homens, embora rudimentarmente.

Estas conclusões sugerem a seguinte ponderação: é preciso distinguir entre “usar sinais para indicar as coisas” e “compreender o significado dos sinais”. O uso de sinais para indicar as coisas é uma forma de comunicação, mas nem toda comunicação é linguagem propriamente dita. A linguagem supõe a compreensão dos sinais como símbolos e o recurso a um mínimo de gramática e sintaxe.

Além disto, a linguagem tem certo poder criativo, improvisador e inovador; ela não se limita a associar tais e tais sons e tais e tais objetos entre si; quem real mente fala, é capaz de se libertar dos sons do seu vocabulário para perceber o que é, em sua essência, cada objeto que ele assim designa e, a seguir, traduzir os mesmos conceitos para outros vocabulários ou outras línguas. Ora quem examina as provas de linguagem do chimpanzé e de outros animais, verifica que estas se explicam bem pela simples associação de sinais concretos com tais e tais objetos concretos; não há evidência de que recorram à gramática e à sintaxe.

Na base de tais ponderações, alguns cientistas mesmos já estão procedendo a certa autocrítica. Assim, porexemplo, H. S. Terrace, professor de Psicologia na Columbia University de Nova Yorque, no início de uma série de experiências, estava convencido de que podia atribui aos animais a capacidade de usar linguagem humana; ao continuar, porém, as suas pesquisas, chegou à conclusão oposto: foi impressionado pelo fato de que, embora se aumentasse o número de sinais recorrentes numa “frase” de animal, o conteúdo significante da frase não se ampliava; muitos dos sinais usados eram repetidos e supérfluos. Além disto, observando atentamente os filmes das experiências realizadas, verificou que muitas vezes o treinador, sem ter consciência do fato, sugeria, com seu comportamento, a resposta que o animal devia dar. – Também Rumbaugh chegou a conclusão negativa: “As nossas prospectivas referentes ao uso de símbolos da parte dos animais foram grandemente alteradas, e o nosso modo de ver atual está em contradição com o inicial” (citado por Marcozzi, obra mencionada, p. 152). Também se evidenciou que as fêmeas de macaco, uma vez treinadas, não ensinam aos filhotes e “linguagem” que aprenderam, e entre si se comunicam mediante gestos espontâneos e não mediante os que aprenderam.

4. Conclusão

O resultado das pesquisas e ponderações referentes à “linguagem” dos animais infra-humanos evidencia que entre o ser humano e os chamados antropóides há uma diferença não apenas de grau dentro da mesma espécie, mas uma diferença bem maior. Conseqüentemente não se dá uma transição gradativa do antropóide para o homem. Pode-se admitir, sim, que o corpo dos antropóides tenha evoluído até chegar à configuração típica do homem, mas o princípio vital que anima o corpo do homem não é o princípio vital aperfeiçoado de um símio; é, ao contrário, algo de especificamente novo, espiritual e não material. Com efeito; o princípio vital do homem é capaz de desempenhar funções que ultrapassam o alcance da matéria, como sejam a de conceber idéias, emitir juízos, formular raciocínios, refletir sobre si mesmo (tomando consciência de si), ter o senso dos valores morais, conceber noções e teorias de estética, produzir artefatos ou obras de arte… Mais: só o homem é consciente de que deve morrer e, ao enfrentar a morte, sepulta os seus semelhantes como se acreditasse que eles continuam a viver; só o homem é capaz de se elevar ao Invisível e Transcendental, cultivando o seu senso religioso congênito… Mais ainda: só o homem possui linguagem simbólica, com suas regras de gramática e de sintaxe, que lhe permitem exprimir tudo o que quer… Donde se vê que não se pode atribuir aos antropóides autêntica linguagem inteligente ou um falar comparável ao do homem; falta-lhes a alma espiritual, que caracteriza tão somente o homem.
________________________

¹ Por “antropóides” entendemos “o grupo de símios catarríneos do Velho Continente, que compreende os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos, bem como algumas espécies fósseis. São desprovidos de cauda e ocasionalmente bípedes” (Aurélio, Novo Dicionário).

A propósito ver: Piersandro Vanzan, “Però l’uono è diverso” em “La Civiltà Cattolica”, 19/06/82, nº 3168, pp. 166-169.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº  265 – Ano 1982 – p. 428

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.