Doutrina social cristã – EB (Parte 1)

Em síntese: A Igreja deseja que a Doutrina Social Cristã seja atentamente estudada pelos fiéis interessados na questão social. Em vista disto, pode-se recomendar o livro do Cardeal Joseph Höffner, Arcebispo de Colônia (Alemanha) intitulado “Doutrina Social Cristã” em seu tradução brasileira (Ed. Loyola). À guisa de espécimen do respectivo conteúdo, vai abaixo exposta a doutrina referente à família, doutrina de inegável valor e atualidade em nossos dias.

Diante dos problemas sociais de nossos tempos, a Igreja tem suas posições e propostas, que constituem a Doutrina Social Cristã. Esta deriva do Evangelho as suas diretrizes, que, se fossem fielmente aplicadas, isentariam a sociedade de muitos males que a afligem; sim, trata-se de uma Ética que respeita a pessoa humana e lhe pede que se coloque a serviço do bem comum, superando todo tipo de egoísmo (o que engrandece o próprio indivíduo generoso).

Para facilitar o ensino da Doutrina Social da Igreja, existe em português o compêndio intitulado “Doutrina Social Cristã” da autoria do Cardeal Joseph Höffner, Arcebispo de Colônia (Alemanha)¹. Esta obra se recomenda ao público em geral pela clareza e profundidade de suas explanações; não mostra apenas o pensamento cristã, mas expõe também sumariamente o histórico e a atualidade de cada problema – o que muito enriquece o estudo. Compõe-se de duas grande  Partes: a Primeira dita  “Fundamentação” aborda os títulos: “indivíduo e Sociedade”, “Princípios Ordenadores da Sociedade”, “Direito e Justiça”. Asegunda Parte (“Estrutura da Ordem Social”) considera “Matrimônio e Família”, “Trabalho e Profissão”, “Economia”, “O Estado”, “Comunidade dos Povos”: são estudadas assim as questões mais candentes de Direito natural e Direito positivo, sexualidade e família, autoridade, trabalho e lazer, rendimentos da terra, renda do trabalho, poder do Estado, solidariedade econômica do gênero humano(…).

Nas páginas subsequentes, reproduziremos o pensamento do autor e da Igreja sobre a Família (pp. 77-95), dada a atualidade da temática.

Família, comunidade de vida (pp. 77-86)

A família é a comunidade de vida natural dos pais com a prole, que se forma mediante o matrimônio, sobre o qual Deus derramou a sua bênção; e ao mesmo tempo é a célula-mãe da sociedade humana. Em consequência, toda  tentativa de mudar a estrutura da sociedade não pode deixar de afetar também a família.

Em diversas épocas houve, sim, pensadores que apregoaram a dissolução da família em nome de uma coletivização, que destruiria o que há de mais íntimo e profundo no homem. Assim, por exemplo, Platão idealizou um Estado no qual haveria comunhão de bens, inclusive de mulheres e crianças, a tal ponto que “nem o pai conheceria o seu filho, nem o filho saberia quem é o seu pai”. Logo após o parto, as crianças seriam levadas ao lactário, que as mães só poderiam frequentar para amamentar os bebês. As enfermeiras deveriam empenhar-se para impedir que qualquer mãe identificasse o seu filho (Politéia 457 d-464d).

No século XVII Tomás Campanella, influenciado por Platão, imaginou a Cidade do Sol (Civitas  Solis), na qual não haveria famílias, mas  homens e mulheres viveriam em dormitórios separados; obedecendo a indicações médicas e astrológicas, as autoridades juntariam os pares adequados para obter a procriação; as crianças ficariam recolhidas em abrigos estatais, de modo que pais e filhos não se poderiam conhecer entre si.

Em 1949, o escritor Georges Orwell pintou com tintas sombrias a sociedade comunista, sem família: “No futuro não haverá nem esposas nem amigos. As crianças serão separadas das mães logo após o parto, assim como retiramos os ovos do ninho de uma galinha… A criação ficará reduzida a mera formalidade que se repete anualmente, do mesmo modo que se renova o cartão de racionamento” (1984. Stuttgart 1950, pp. 310s).

As teorias socialistas têm propagado as antigas ideologias antifamília. Segundo M. Horkheimer, a família seria a origem do “comportamento tipicamente autoritário do qual depende muito a sobrevivência da ordem burguesa”. Ela teria sido “a produtora dos súditos de sociedade autoritárias” e base do capitalismo. A família deveria ser substituída pela coletividade das “comunas” e do “Clã opcional”. Só então o homem estaria emancipado.

A doutrina cristã rejeita essas teorias e defende a família, à qual atribui duas tarefas:

1) o cuidado das necessidades materiais,

2) a preocupação com os valores espirituais, éticos e religiosos.

O cuidado dos bens materiais

São três os que vêm ao caso:

1) O lar. No mundo massificado de hoje, o lar oferece ao homem a ocasião de se encontrar com os seus, que o tratam não como número ou como peça de engrenagem, mas como ser humano. Daí desejar-se que o lar seja aconchegante e tenha um espaço comum central, para o qual convirjam todos os quartos da casa. Além disto, é para desejar que cada família possa ter sua casa própria. Pio XII acentuou que “de todos os bens capazes de integrar a propriedade particular” nenhum responde melhor à natureza  humana “do que o solo, o pedaço sobre o qual mora a família e de cujos  frutos ela vive, pelo menos em parte”.

2) A mesa comum. Confere à convivência de pais e filhos  um traço sobremaneira íntimo. A criança que ainda não “contribui”, recebe todo o necessário para um crescimento sadio. Assim é despertada na alma infantil a  compreensão do que significa  ser amado por Deus sem o merecer.

A natural distribuição da comida à mesa do lar faz-se com esperança na bondade de Deus – razão pela qual não lhe pode faltar a  prece de ação de graças.

Leia também: http://cleofas.com.br/doutrina-social-crista-eb-parte-2/

A mesa deve dar ocasião também à partilha dos sentimentos e dos interesses de cada um dos convivas num diálogo sincero e íntimo. Infelizmente em nossos dias o silêncio ambíguo reina entre pais e filhos ou entre irmãos. Também se nota que os  múltiplos apelos de trabalho e divertimentos tornam sempre mais difícil o encontro dos familiares em torno da mesa comum, até mesmo no Domingo. Eis aí uma das fontes de desagregação da família.

3) O comum governo do lar. O lar tem que ser administrado ao menos no tocante  à cozinha-dispensa, à roupa e à conservação da casa. Geralmente é a mulher quem assume esta função numa atitude profundamente abnegada. O retrato da dona de casa foi pintado por alguém que imaginou um viúvo publicando o seguinte classificado num jornal: “Procuro uma mulher para a minha casa. Ocupação, para ela, de 15 a 17 horas por dia, inclusive aos domingos e feriados. Não se garante o repouso noturno. Espera-se que ela tenha bons conhecimentos culinários, de corte e costura, além de contabilidade, saúde, pediatria, jardinagem. Deve ser alegre, sadia, positiva, paciente e trabalhadora, sem pretensão a férias remuneradas”! – O tribunal de Oldenburg calculou  que o trabalho de uma dona de casa – aproximadamente 46 horas semanais – corresponderia a 1425 marcos alemães (KNA, 15/02/1977, n.º  7 – 8). No dia 8 de junho de 19982 o mesmo Tribunal calculou que uma dona de casa trabalha, em média, 60 horas por semana.

Quando uma família consegue poupar durante anos até adquirir casa própria, um grande mérito cabe ao  cuidadoso governo da casa por parte da mulher. E, quando esta  fracassa em sua esfera, apesar do bom ordenado do marido, a família escorrega para a faixa da pobreza secundária, aquele tipo de pobreza pela má administração dos recursos.

O serviço aos valores espirituais, éticos e religiosos

A família é a comunidade de educação e formação mais importante; o amor e a simpatia que lhe são congênitos, irradiam uma força pedagógica e  moldadora da personalidade sem igual. Identifiquemos aí as várias  funções que tocam aos pais, à prole e  aos avós.

Os pais

A família constitui, por assim dizer, o segundo seio espiritual, em cujo aconchego a criança deve atingir a sua personalidade moral. Sem a amorosa solicitude que a mãe dispensa, a criança corre o risco de se desviar  espiritualmente, apesar dos melhores cuidados materiais, como não raro pode acontecer em crianças de orfanato. Por isto o trabalho materno fora de casa representa sério prejuízo, principalmente para as crianças pequenas, cujas capacidades espirituais, ainda adormecidas, devem ser acordadas pelo amor da mãe: “Ao sorrir para o filho ao peito, a mãe convida-o a responder sorrindo. A partir do momento em que isto acontece, a mãe tem a certeza de estar sendo emocionalmente compreendida pelo filho” (August Vetter).

A educação exige a cooperação de pai e mãe. Na sociedade moderna, o homem corre o risco de ficar marginalizado em sua própria família, seja porque o trabalho o prende longamente fora de casa, seja  porque ele mesmo evita a família. Acontece, porém, que, quando o pai não tem tempo para a sua família, o dano é pior do que quando ele não tem dinheiro.

A missão educadora da família encontra grandes dificuldades na sociedade contemporânea, onde os filhos, desde cedo, sofrem influências extra familiares. O próprio ambiente fora de casa – a esfera escolar e a  profissional – está dividido, fazendo que o jovem sofra as mais diversas influências. Diante disto, os pais têm o direito e o dever de escolher a escola que corresponda à educação por eles iniciada no lar. Seria contraditória a sociedade democrática que, no campo da educação, só oferecesse a escola estatal, às vezes contrárias ou inadequada à orientação que os pais, como primeiros educadores  querem dar a seus filhos.

Embora os pais sejam educadores, sabemos  que dos filhos emanam energias rejuvenescedoras e educativas sobre os pais. Entre marido e mulher os filhos  suscitam novo relacionamento, a tal ponto que muitas vezes o marido chama sua esposa “mãe”, sem que tal alocução signifique dependência imatura frente à mulher. Os filhos têm o direito de esperar que os pais se amem mutuamente.

Uma das notas mais típicas da educação familiar é a partilha da alegria e do sofrimento num clima de solidariedade. Diz São João Crisóstomo num de seus sermões: “Quando chegardes em casa, estendei a toalha sobre a mesa, mas também preparei a mesa espiritual… e vossa  casa se transformará em Igreja”. No dia seguinte, o pregador voltou ao mesmo assunto: “Quando ontem vos disse que devíeis transformar vossa casa em Igreja, vós me aclamastes em alta voz para dar vazão à vossa alegria. Ora quem aceita com tamanho entusiasmo um conselho, mostra-se disposto a segui-lo. Portanto hoje cheguei mais bem disposto a este sermão” (In Gen. serm. 6,2 e 7,1).

Os irmãos

Também os irmãos se educam mutuamente. Apesar das diferenças de idade, sexo e temperamento, constituem uma comunidade viva, cujos membros, sem cessar, se influenciam mutuamente uns aos outros e com grande intensidade. Pode ser especialmente vantajoso o relacionamento de irmão com irmã; pode ser até a melhor escola de amor conjugal, visto que não é normal manter apenas relações eróticas com o outro sexo.

Os avós

Os avós, pela sua experiência de vida e pela sua maturidade, podem contribuir muito positivamente para a consolidação e harmonia de uma família, embora não pertençam essencialmente à estrutura familiar. Verdade  é que pode haver anciãos que, caindo na decrepitude, se tornam um tanto infantis, e pouco podem fazer pelas  gerações mais novas. Também se deve apontar o perigo de que os avós “papariquem” os netinhos, especialmente na ausência da respectiva mãe, contrariando o sistema educacional dos pais. Eis por que não deixa de ser problemático aceitar a presença dos pais no lar dos filhos casados. Em geral, os pais idosos só se devem transferir para a casa dos filhos, quando o casal (que precisa de estar mais só justamente nos primeiros anos de casamento) já se estabeleceu e consolidou desde alguns anos.

A  Família como célula da sociedade (pp. 86s)

Há quem queira ver na família a fonte de toda a socialização do homem; estariam contidas na família as estruturas mais complexas da sociedade – parentela, tribo, povo, nação – como na  semente do carvalho está contida toda a árvore respectiva. A doutrina cristã não aceita tal teoria: a multiforme vida social não está contida em miniatura na família. Aldeias, cidades, empresas, clubes, Universidades, Estados… não podem ser reduzidos, sem mais, ao mesmo denominador  comum; não são nem desdobramentos da família nem reproduções da estrutura familiar.

Segundo o pensamento cristão, a família é a célula da sociedade em duplo sentido:

– sentido biológico: a família é a célula-mãe da sociedade; por isto um povo “no qual o matrimônio e a família se desagregam, está cedo ou tarde à ruína” (Pio XII);

– sentido ético: a família é a primeira fonte da educação e dos valores morais da sociedade. O homem aprende na família as virtudes sociais sem as quais a sobrevivência da sociedade é impossível: amor e respeito ao próximo, solidariedade, tolerância, submissão, liderança…

 pelo Cardeal Joseph Höffner

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 305 – Ano 1987 – p. 447

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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