Doenças e sonhos – EB (Parte 3)

Conforme um ritual babilônico, devia o sacerdote ao qual se apresentasse um doente dirigir-se à Divindade nos seguintes termos:

“Segura a sua mão (do enfermo), perdoa seu pecado. Fazer cessar a sua febre (?) e aflição… Permite que teu servo viva, a fim de que glorifique o teu poder”.

Em outro texto, rezava o fiel devoto:

“Meus pecados, Ele (o deus invocado) permitiu que o vento os levasse”. Seguia-sea descrição da cura da doença respectiva…

Cf. Oepke, Nósos em Kittel, Theologisches Woerterbuch zum Neuen Testament, IV (Stuttgart, 1942), 1.085.

8. É o que explica o trocadilho feito em torno do nome do filósofo Epicuro; seus discípulos o derivavam de epikourein, curar, tratar em todas, as acepções do termo.

9. Justamente o conceito de anjo, espírito superior as homem, mas inferior a Deus (Criatura, portanto), parece ter-se desenvolvido, entre os israelitas, em reação contra o poli­teísmo dos babilônios e de outros povos, que adoravam o “exército dos céus”, os astros, considerando estes como deuses (cf. Dt4, 19; 17,3). Tais seres celestes terão sido, na teologia de Israel, reduzidos à categoria de criaturas de Deus, que povoam ou ornamentam o céu juntamente com outras criaturas, que são os anjos. Esta conclusão é insinuada, em particular pelo fato de que anjos e astros, na Sagrada Escritura, são intimamente associados entre si(cf. S1 148, 1-5), postos em paralelo (cf, Jó38,7); constituem uns o “exército de Javé” (cf. Js5, 14; 1rs22,19;S1 148,2),  os outros o “exército dos céus”(cf. Is40, 26;45, l2;Jr33, 22; SI 32,6; Ne 9,6), movendo-se todos em plena sujeição às ordens do único Senhor.

Cf. P. van Imschoot, Theologie de I’Ancien Testament, I. (Paris,1954), 126. 139-141.

10. Ciência e magia eram tão ligadas entre si que na prática o médico não raro era mago. O médico egípcio “associava fórmulas mágicas a toda a sua atividade. Dizia uma imprecação quando tomava em mãos o vaso que servia para medir as substâncias à confecção de um remédio; recitava outras tantas fórmulas sobre os diversos ingredientes de que se servia para a fabricação do medicamento. Entrava em casa do paciente pronunciando uma fórmula mágica; proferia outra quando o doente bebia a poção; cada vez que aplicava ou retirava uma bandagem, dizia a indispensável fórmula…” Citação, de um estudo de F. Lexa, transcrita de Spicq, “L’Ecclésiastique”, em La Sainte Bible, de Pirot-Clamer, VI (Paris, 1946), 759.

Interessantes também são as observações de Cumont:

“Asclépios (Imhotep) revela no seu santuário ao médico Tessalos o momento e o lugar propícios à colheita das plantas sujeitas aos planetas e aos sinais do Zodíaco; estas são simples e de maravilhosa eficácia medicinal; o rei Nechepso já tomou conhecimento das ‘simpatias’ destas plantas, como conhece as ‘simpatias’ das pedras “L’Egypte des astrologues, 172.

11. Notem-se também as palavras de Jesus a respeito da enfermidade de Lázaro:

“Essa doença não é mortal, mas verifica-se para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado”. (Jo 11, 4)

veja-se ainda Lc 13, 1-5.

12. No Egito, por exemplo, contava-se que o deus Ptah indicara ao faraó Merenptah o que devia fazer numa ocasião em que os povos do mar invadiam o delta do Nilo.

A propósito do faraó Chechonque I narra-se o seguinte: um reizete egípcio viu durante a noite duas serpentes, uma à sua direita, a outra à esquerda.  Acordou e, não mais percebendo os animais, verificou haver sonhado. Tendo interrogado os intérpretes a respeito desta visão, responderam-lhe que um próspero futuro lhe estava reservado: já senhor do Alto Egito, havia de conquistar o Egito inteiro e fazer aparecer sobre a sua cabeça um abutre, símbolo das terras meridionais, e uma cobra, emblema da região sentetrional do país

Cf. P. Montet, La vie quontidienne en Egypte au temps de Ramsès (Paris), 46-8.

13. cf. Homero, Odisséio, 4, 837.

14. 0 papiro Chester Beatty III apresenta alguns dos critérios de interpretação, tais como estavam em uso no Egito. O documento data da l9ª dinastia (ca. de 1300 a.C.); refere, porém, idéias Contemporâneas à l2ª dinastia {2OO0-18OO). Eis o que se depreende do mesmo:

Em muitos casos, a interpretação do sonho se fazia simplesmente por analogia: um sonho feliz era bom agouro, ao passo que mau sonho presagiava desgraça. Pão branco em sonho era bom sinal; anunciava prazeres. Sonhar com homens de autoridade e poder também implicava bem-estar para o futuro. Sonhos obscenos valiam como péssimos prenúncios.

Havia, porém, critérios mais complicados, a fim de que a interpretação dos sonhos não ficasse ao alcance de qualquer indivíduo. Assim os trocadilhos ou jogos de palavras eram muito explorados:

Comer carne de asno, em sonho, significava elevação, engrandecimento, pois os conceitos de “asno” e “grande” eram homônimos. Receber uma harpa implicava desgraça, pois o nome boiné, harpa, fazia pensar em bin, mau.

O homem que tivesse tido um sonho inquietador uso devia desesperar, pois havia meios para deter os infortúnios previstos… Recomendava-se-lhe que invocasse a deusa Isis, a qual saberia como defender o devoto dos males que sete, filho de Nout, estava para desencadear. Também se usava a seguinte receita; umedecer em cerveja alguns pães com ervas verdes, à mistura acrescentava-se incenso, e com o conjunto resultante se esfregava o rosto de quem havia sonhado. Este proceder afugentaria todos os maus agouros transmitidos pelos sonhos.

Cf. Montet, La vie quotidiense en Egypte, 46-49.

No séc. II d.C., Artemidoro de Éfeso, baseado em suas experiências, escreveu cinco livros intitulados Oneirokritiká, código importante para os decifradores de sonhos.

15. Outras referências a sonhos ocorrem em Gn 20, 3s; 28, 12s; 31, 1 ls.21; Jz 7, 13s 15m 28, 6; IRa 3, 5; Jó 33, 15.16. Cf. JI 3,1:

“Derramarei meu Espirito sobre todo ser vivo:

Vossos filhos e filhas profetizarão;

Vossos anciãos terão, sonhos;

Vossos jovens, visões”.

17. Cf’. Gn 40,8:

“Disseram e copeiro e o padeiro do Faraó: “Tivemos um sonho e aqui não se acha quem no-lo explique”.  Respondeu-lhes José: Então não é a Deus que toca interpretar? Narrai-me, por favor, o vosso sonho”.

Dn 2, 27s: ” Daniel respondeu em presença do rei e disse: “0 mistério que o rei deseja compreender, nem os sábios, nem os magos, nem os encantadores, nem os astrólogos o  poderão elucidar. Há, porém, no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos”.

Vejam-se também Gn 41, 16.38s; Dn 4, 5s.15; 5,11.14.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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