Doenças e sonhos – EB (Parte 2)

Mas donde se depreende tal conclusão?

Muito significativa a este propósito é uma página de S. Paulo (2Cor 12). O Apóstolo refere que o Senhor “colocou em sua carne um aguilhão”, que ele também chama “um anjo de Satanás que me esbofeteia” (12,7; os intérpretes julgam tratar-se de doença, acha ­que físico). E por que assim o teria punido a Providência? A fim de que, continuamente recordado da debilidade ou miséria de sua natureza, não se ensoberbecesse pelos dons extraordinários que recebera de Deus (visões, êxtases etc.). Não obstante, Paulo diz ter rogado três vezes ao Senhor que o eximisse de tal padecimento; não fora, porém, atendido; apenas Cristo lhe prometera a sua graça para tudo suportar, “pois é na miséria (do homem) que o poder (de Deus) exerce toda a sua pujança” (12, 9). Em vista disto, o Após­tolo concluía em tom de triunfo: “Prefiro, por conseguinte, gloriar-me dos meus achaques, a fim de que a força de Cristo habite em mim. Experimento prazer nas fraquezas. “nas misérias extre­mas que sofro por Cristo. Pois, quando sou fraco, justamente então é que sou forte”. (12, 95.)

A punição, a miséria da carne se tornara fortaleza e título de glória para o Apóstolo; o que era deprimente se convertera em ocasião de complacência!

E qual o fator desse novo modo de pensar, modo que implica progresso notável em relação à mentalidade do Antigo Testa­mento?

“Experimento prazer nas misérias extremas que sofro por Cristo,” É, como se vê, a união com Cristo que dá novo sentido ao sofrimento de Paulo e do cristão. Foi o padecimento de Jesus que revolveu as antigas concepções de sofrimento e miséria física. Cristo, verdadeiro homem, abraçou a angústia e a morte como justa sanção devida ao pecado de Adão; mas o autêntico homem Jesus era, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus. Ora o fato de que em Cristo a natureza padecente estava unida à Divindade, transfor­mou o sofrimento, divinizando-o, dando-lhe o significado não somente de pena justa (como o tinha no Antigo Testamento), mas também o de remodelação do homem; o padecimento do Filho de Deus na carne humana foi um sofrimento não apenas suportado, mas também vencido, tragado pela Vida; foi a pena não simplesmente do réu, mas do Rei que se fez réu, para libertar o réu, transformando a morte em passagem para a imortalidade.

Era por estar plenamente consciente desta verdade que Paulo ousava proferir a paradoxal interpretação de seus achaques em 2Cor 12. Sabia que a sorte de Cristo se tornaria a sorte de Paulo a sorte de todo e qualquer discípulo de Cristo que sofra unido ao Mestre.

Eis o termo no qual se remata a doutrina bíblica concernente às enfermidades do corpo. Em algumas páginas do Antigo Testamento, o livro sagrado apresenta passagens que certos exegetas quiseram comparar às dos documentos pagãos; a mentalidade, porém, que perpassa os trechos escriturísticos é muito mais elevada que a da literatura extrabílica. Através de expressões orientais e concepções antigas depuradas de politeísmo, o Senhor preparava, para a plenitude dos tempos, a revelação do sentido profundo, muito digno de Deus, que têm o sofrimento, a doença e já morte na trajetória do homem!

§ 2º OS SONHOS

Num cenário de vida oriental, não pode deixar de tocar aos sonhos papel importante, pois o homem do Levante, dotado de fantasia particularmente fecunda, vive muito de imagens, símbo­los, nos quais ele vê significadas realidades superiores.

Entre os povos antigos, os sonhos eram geralmente tidos como estados de alma nos quais o homem entrava em contato com o mundo dos deuses ou dos gênios (espíritos superiores), recebendo destes admoestações atinentes ao passado ou ao presente, revelações a respeito de acontecimentos ocultos ou futuros, pensava-se que principalmente os reis eram agraciados por tais comunicações do Alto.12 Em particular, aos sonhos da terceira parte da noite atribuía-se grande significado;’3os homens de tal ou tal religião procuravam dormir nos santuários respectivos, toma­vam ingredientes provocadores de sonhos; nos templos de Esculá­pio (o Deus Médico), era frequentemente por sonhos que os doen­tes recebiam a indicação do processo de sua cura. Já que as imagens vistas em sonho eram não raro ambíguas, havia intérpre­tes oficiais das mesmas, que usavam de técnica complexa, aparen­temente científica. Para quem não pudesse consultar os adivinhos, existiam catálogos de elucidação.14 E claro que a crença no valor profético dos sonhos estava frequentemente ligada a superstição, preconceitos humanos, e não raro levava a graves erros na vida prática (à semelhança do que ainda nos tempos atuais se verifica).

Chama, porém, a atenção o fato de que na Sagrada Escritura o povo de Israel professa fé nos sonhos e o próprio Deus parece corroborar esta atitude. Há, sim, episódios bíblicos em que os sonhos, explicitamente provocados ou elucidados pelo Senhor, desempenham função notável; tenham-se em vista, por exemplo, os que caracterizam a história do Patriarca José, residente na casa paterna, depois no Egito (cf. Gn 37,5-11; 40,5-22; 41, 1-36); os que marcam a vida do profeta Daniel (cf. Dn 2, 4.7); no Novo Testamento, os de S. José, e o dos magos (cf Mt 1, 20-24; 2, l2s.l9.22).15

A primeira vista, poderão parecer desconcertantes tão favoráveis alusões aos sonhos na história sagrada. Contudo, após breve reflexão, verifica-se que também estes têm significado condizente com a Sabedoria de Deus.

Já que o oriental, por suas disposições psicológicas, era propenso a deixar-se guiar por imaginações noturnas, considerando as manifestações da Divindade, o verdadeiro Deus dignou-se utilizá-las para se comunicar com os homens, mesmo pagãos, em particular, porém, com o povo de Israel. O Senhor, sem dúvida, pode provocar tais fenômenos psicofisiológicos, e torná-los instrumentos de seus planos. Ora Ele o fez realmente em casos descritos pelos livros sagrados; em Nm 12, 6 lê-se mesmo que as visões e os sonhos eram meios pelos quais Deus se costumava revelar aos profetas:

“Se há entre vós um profeta, é em visão que a ele me revelo, é em sonho que lhe falo.”16

Contudo, muito se devem notar as restrições que os autores bíblicos impõem à crença nos sonhos, visando com isto a remover todo vestígio de politeísmo ou superstição que os povos pagãos professavam juntamente com aquela.

Não há, conforme a Bíblia, intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos, como os havia entre os babilônios (cf. Dn 2,2; 4, 3, 5, 15) e os egípcios (cf. Gn 41,8). A explicação dos sonhos se deve a dom esporádico de Deus; compete a quem, como o Patriarca José e o profeta Daniel, possui o “espírito de Deus”. 17 Os intérpretes populares de sonhos são condenados pela Lei mosaica junto com os magos, os adivinhos, os necromantes… (cf. Lv 19, 26; Dt 13, 2-4; 18, 10s). Nos tempos da decadência religiosa (séc. VII/VI) pululavam os falsos profetas, que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do Senhor; ora Javé não cessava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões:

Ouço o que dizem esses profetas, que em meu nome proferem falsos oráculos, afirmando: “Tive um sonho, tive um sonho!”… Esses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros?” (Jr 23, 25.27)

Também os sábios de Israel, propondo aos jovens discípulos conselhos para a vida, admoestavam-nos contra as imaginações noturnas:

“O insensato se entrega a esperanças vãs e enganosas, E os sonhos dão asas aos tolos.

Semelhante àquele que procura apreender uma sombra ou perseguir o vento,

É quem se prende aos sonhos..

Do que é impuro, que pode sair de puro?

Da mentira, que pode sair de verídico?

A adivinhação, os agouros e os sonhos são coisas vás,

Semelhantes às imaginações do coração de uma mulher que está para dar à luz.

A menos que o Altíssimo te envie uma visão,

Não apliques o coração a essas coisas,

Pois os sonhos enganaram a muitos,

Os quais caíram porque neles colocavam a esperança”, (Eclo 34, 1-7 [Vg 31, 1-6])

Como se vê, este texto, ao mesmo tempo que inculca prudên­cia em relação aos sonhos, não deixa de reconhecer que o Senhor os pode suscitar, a fim de se manifestar aos homens.

A reserva, porém, professada nas passagens acima dá sufi­cientemente a entender que tais fenômenos noturnos estavam longe de constituir a fonte principal das revelações divinas no Antigo Testamento. Quem confronta os livros sagrados entre si chega à conclusão de que, nos tempos dos Patriarcas, ou seja, nos primórdios da história de Israel (séc. XVIII/XIII), mais frequentes eram os autênticos sonhos proféticos do que na época da monar­quia (séc. XI/VI); os genuínos profetas, a partir do séc. VIII, recebiam as comunicações de Deus geralmente em estado de vigília, ora diurna, ora noturna,18 como atestam alguns dos seus orácu­los”

No judaísmo posterior, isto é nas proximidades da era cristã recrudesceu entre os israelitas a crença nos sonhos. Estes eram invocados para servir de fundamento a concepções e profecias fantásticas”. Na literatura dos rabinos, órgão das predições messiânicas que fervilhavam em Israel sob o domínio romano, os sonhos constituíam estimado artificio de estilo, apto a dar autoridade aos oráculos mais surpreendentes.19 Os ascetas judaicos chamados Essênios, residentes no deserto, eram na mesma época assíduos cultores da arte de explicar os sonhos; contemporâneos aos Essênios, na cidade de Jerusalém exerciam a sua profissão simultaneamente vinte e quatro adivinhos de visões noturnas.20

Estas, porém, eram manifestações que se desviavam da linha da Escritura Sagrada.

A palavra grega daimon (donde “demônio”, em português) significa  originariamente, entre os pagãos, um ser superior ao homem dotado de  influência sobre a vida humana. Podia ter intenções benévolas ou malignas.

Aos poucos, porém, os demônios foram sendo mais e mais considerados

Nefastos ao homem. É o que se verifica já sem hesitação nos escritos cristãos.

Ao falar de “espíritos”, os antigos entendiam geralmente seres corpóreos

Sutis, invisíveis mais poderosos que o homem

2. Asclépio ou Esculápio, o Deus Médico, em seus oráculos freqüentemente receitava banhos.

3. Cf. A. George, “Fautes contre Yahweh dans les livres de Samuel”, em Revue biblique,53 (1946), 167s; E. Dhorme, La Religion des Hébreux nomades, 302s.

Sobre o mesmo assunto vejam-se as págs. 164-168 deste livro.

4. Também entre os gregos o “entusiasmado” era o homem possuído por um théos (deus); este produzia a enthousía, o enthousiasmós.

5. Haja vista, por exemplo, o código babilônico de Hamurapi (séc. XVIII a.C.), que se termina condenando os eventuais transgressores a “uma doença grave, peste maligna, chaga perigosa incurável, que o médico não saiba diagnosticar, que não possa ser amainada por curativo, uma mordida mortal…”

6.  Narra Diógenes Laércio (1, 110) que, tendo irrompido uma epidemia mórbida em Atenas, um cretense chamado Epimênides, que sobreviera àquela cidade entre 596 e 593 a.C., deu à população o conselho de a debelar oferecendo sacrifícios ao deus que provavelmente não os recebera nas funções do culto e, em consequência, desencadeara a peste. Soltaram então, a partir da colina do Aréopago, ovelhas pretas e ovelhas brancas, e nos respectivos lugares da cidade em que cada uma se deitou, imolaram-nas em sacrifício. Nestes mesmos lugares foram erectos altares com a dedicácia: “Ao deus a quem compete” (Tooi proseekonti theooi).

7.  Algumas das palavras babilônicas que significam “pecado” têm igualmente o sentido de “peste, achaque”.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.