Doenças e maravilhosas curas – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 490 – Ano 2003 – p. 172

Em síntese: Muitas pessoas são atraídas pelas correntes religiosas que prometem e “realizam” curas maravilhosas de doenças graves. – Para explicar os portentos assim efetuados, é oportuno lembrar que existem moléstias funcionais devidas a um bloqueio do psiquismo do paciente; tais doenças podem ser, ao menos aparentemente, curadas pelo desbloqueio do enfermo provocado por sugestão ou por impacto; tenham-se em vista os placebo. A Teologia católica reconhece o milagre, mas só o faz após rigoroso exame de cada caso a fim de averiguar se não há explicação  natural para o mesmo. Em linguagem católica, quando se diz que “a fé cura”, entende-se que a fé predispõe o paciente abrindo-o para a graça; só Deus pode realizar milagres.

Um dos fatores que muita gente atraem ao pentecostalismo, são as propaladas curas de doenças que a medicina não consegue debelar, ou para tratar das quais o paciente não tem recursos financeiros. De resto a prática da medicina não científica, mas “mística”, sempre esteve em voga, constituindo o que se chama “o curandeirismo”.

Para entender o fenômeno, é preciso considerar um preliminar importante.

I. Doenças e “doenças”

Toda doença é psicossomática, isto é, afeta o físico (soma) e o psíquico do paciente. Há, porém, doenças mais acentuadamente ligadas ao psíquico (são as doenças ditas “funcionais”) e outras mais fortemente ligadas ao físico (são as doenças orgânicas).

As doenças funcionais estão muito relacionadas com fatores emotivos, que causam certo bloqueio do sistema nervoso e, conseqüentemente, disfunção ou paralisia de órgãos ou sistemas do organismo. Tais são certas moléstias da pele (eczema, verrugas, urticária), furunculose, asma, úlcera do estômago, angina do peito, insuficiência hepática, colite, hemorragias… Visto que a causa destas doenças é freqüentemente um bloqueio psíquico, basta eliminar esse bloqueio pela sugestão, pela transmissão de otimismo, para que a moléstia desapareça.

As doenças orgânicas são as que decorrem de uma lesão ou agressão ao físico: o câncer, a cegueira por perda do nervo ótico, as fraturas… Estas não dependem tanto de sugestão; por isto não são curadas por vias “místicas”, ao passo que as primeiras o podem ser.

Além disto, observemos que há doenças ilusórias (…). Certas pessoas de boa fé apresentam todos os sintomas de doenças funcionais ou mesmo orgânicas. Na verdade, porém, não sofrem senão dos efeitos de sua sugestionabilidade. Em tais casos, o curandeiro pode produzir “curas maravilhosas”.

Há também doenças mal diagnosticadas tidas como graves, quando na verdade não o são. Após a cura, proclama-se a ocorrência de milagre, quando na realidade não o houve.

Feita esta observação preliminar, passamos a estudar as diversas modalidades da medicina não científica.

2. As curas do Pentecostalismo

a) Se alguém vai a uma igreja acreditando que o demônio lhe está causando tal ou tal enfermidade, é submetido a um “exorcismo” e recebe a bênção do pastor. Em conseqüência, passa a se sentir bem ou curado. Ora nesses casos pode-se dizer que, de modo geral, não há mais do que psicoterapia baseada na sugestão, hétero-sugestão, sugestão coletiva do ambiente, sugestão hipnótica, contágio mental. O pastor e a assembleia aplicam ao paciente gestos e ritos que o desbloqueiam; se o doente acredita que esses gestos e ritos têm poder de curar, ele há de se sentir aliviado ou pretensamente curado.

É conhecido o funcionamento dos placebo (agradarei). São remédios aparentes, inoperantes, que produzem efeito benéfico, porque excitam a sugestão positiva do paciente. Sim, a psicologia ensina que um órgão humano pode entrar em atividade tanto sob influência
de seus excitantes naturais (remédios adequados) como sob a excitação de estimulantes que são meramente convencionais. Por conseguinte, caso se diga a alguém que determinado objeto ou determinada fórmula  ou determinado tratamento é benéfico para o corpo, pode acontecer que, embora tais objetos ou fórmulas (…) sejam de todo indiferentes e inoperantes, a pessoa que, impressionada ou sugestionada, os aplique a si, experimento um benefício corpóreo. Tal “estímulo-sinal” terá produzido verdadeira reação biológica favorável à cura, por causa da confiança e da convicção do paciente; será oportuno até para recolocar em atividade um órgão paralisado do organismo do paciente.

Estas reações, ditas “reflexos condicionados”, elucidam a eficácia atribuída a certos processos da “medicina” supersticiosa: trata-se de agentes inócuos em si, mas transformados em fatores benéficos por causa da convicção que o paciente, após haver sido (consciente ou
inconscientemente) doutrinado, nutre a respeito de sua “eficácia”.

Em consequência, vê-se que não há dificuldade em admitir o bom êxito da seguinte receita dos curandeiros: quem queira curar-se de verrugas, procure um osso no campo, friccione a verruga com a parte do osso que estava voltada para o chão, coloque de novo o osso no lugar e vá-se embora às carreiras. O tratamento pode dar resultado, pois afirmam os médicos que a verruga pode ser combatida pela sugestão (cf. Dr. A. da Silva Mello, Mistérios e Realidades deste e do outro Mundo. Rio 1950, 421).

b) Pergunta-se, porém: se a ação do curandeiro cura por sugestão, por que a ação do médico não tem a mesma força sugestionante? Na verdade, há pacientes que passam pelos médicos sem obter resultados, mas sob os cuidados do curandeirismo se dizem sanados.

A resposta não é difícil: a ação do médico é freqüentemente muito objetiva; ele não trata o doente, mas a doença. Ao contrário, a ação do curandeiro é essencialmente subjetiva; ela se exerce sobre o doente, e não sobre a doença. Diante do médico, o doente toma uma atitude tímida e fechada, pois a superioridade fria do médico o assusta. Ao invés, entre o curandeiro e seu cliente há um relacionamento de intensa afetividade: “ele é o grande homem, o milagreiro que já curou tantos, o único que ainda poderá salvar o paciente!”.

Levemos em conta a aura de mistério que cerca o curandeiro benfazejo: o próprio local de atendimento onde reina concentração anormal ou o frenesi coletivo de uma massa fanatizada; as conversas sobre casos maravilhosos já ocorridos e que os clientes vão recordando durante o tempo de longa espera do seu atendimento; os meios mirabolantes dos passes, dos toques, das insuflações ou os berros e as exclamações daqueles que “esconjuram o demônio”, e daqueles dos quais saem os maus espíritos; a ânsia de recuperar a
saúde, custe o que custar (…). Isto tudo contribui para suscitar no paciente a mais inabalável certeza de que será curado, se se entregar sem resistência à ação do curandeiro (ou do pastor “exorcista”). Se a doença não for orgânica (como parece que, de fato, não é em 83% dos casos), o curandeiro conseguirá resultados que o médico seria incapaz de obter.

Também é de notar que freqüentemente os médicos dizem ao hipocondríaco que ele não tem doença, mas imagina tê-la. Muitos pacientes, com isto, sentem-se incompreendidos e ofendidos. O curandeiro, porém, já pelo fato de Ter pouca instrução, não fala assim. Em vez de negar a doença, promete ao cliente que será curado ou já está curado. Ora a psicologia reconhece que o procedimento do curandeiro é mais eficaz do que o do médico, no caso.

c) Em consequência, impõe-se uma observação: não se deve dar fácil crédito à proclamação de fenômenos portentosos (especialmente curas médicas e cirúrgicas), mas, antes de procurar-lhes a explicação, é necessário investigar exatamente se houve algum fato extraordinário e em que consistiu propriamente. Portanto a quem anuncia uma cura, é preciso pedir:

1) uma declaração médica a respeito da doença ou do estado de saúde da pessoa em foco antes de passar pelo “tratamento”.

2) uma declaração médica atestando a cura total e duradoura da moléstia por via inexplicável aos olhos da ciência.

Sem estes atestados, poderíamos estar procurando as causas de milagres que nunca houve, embora o paciente se diga curado. Quem deve dizer se houve realmente cura, é o médico, após fazer os devidos exames científicos. A seriedade e honestidade científica é imprescindível em tais casos.

4. A explicação dada atrás vale para as doenças funcionais, não para as doenças orgânicas ou para as doenças que dependem não de lesão física, mas de perturbação do sistema nervoso.

As doenças funcionais ou nervosas ou mesmo as doenças orgânicas de origem nitidamente psíquica ou nervosa não vêm ao caso, quando se trata de milagre na apologética ou na teologia. Ao contrário, interessam as lesões orgânicas nitidamente diagnosticadas e tidas como incuráveis pela medicina  contemporânea. Caso sejam curadas em um contexto de fé e prece puras, pode-se admitir aí uma intervenção extraordinária
de Deus ou um milagre.

Verifica-se, porém, que nas comunidades pentecostais não se realiza o exame médico-científico do paciente antes da cura e depois da cura, para saber se houve, de fato, a eliminação radical do mal ou apenas um paliativo. Os dirigentes e os fiéis aclamam “o milagre”, que geralmente é ilusório, se se trata de doença orgânica. Um dos grandes inconvenientes do curandeirismo consiste em fazer que o enfermo acredite estar salvo de moléstia, quando, na verdade, esta permanece incubada; por causa do alívio momentâneo, o paciente deixa de se tratar; entrementes o mal progride em seu organismo de tal modo que, quando o paciente dá por ele, já se encontra muito mais atacado do que antes de pretensa cura.

3. Circunstâncias que abonam ou desabonam

Todo milagre é um sinal ou uma palavra de Deus aos homens. Ora, para que essa apalavra possa ser reconhecida e utilizada como testemunho válido para todos os homens, é necessário que ela tenha certas características. Estas podem ser negativas e positivas.

3.1. Critérios negativos

Não são reconhecidos como milagres fenômenos realizados em contexto indigno de Deus:

a) Tais seriam, em primeiro lugar, os ambientes de irreverência a Deus, imoralidade ou deboche de costumes, charlatanismo ou ilusionismo, cobiça de lucros materiais ou aceitação de lucro financeiro por parte do pretenso taumaturgo, ocasião de satisfazer ao orgulho, à vaidade ou à sensualidade das pessoas envolvidas no portento… O Senhor Deus não pode ser incoerente ou contraditório; Ele não realiza sinais ou palavras portentosas que de algum modo possam sugerir a confirmação do deboche, da fraude ou da imoralidade…

b) Ambientes de sensacionalismo e alarde levam igualmente a desconfiar da autenticidade do “milagre”. Na verdade, as obras de Deus costumam ser discretas, mesmo quando derrogam ao curso natural dos acontecimentos. Um portento exageradamente sensacional já não seria sinal, pois não levaria os espectadores a procurar outra realidade invisível assim assinalada. Alimentaria a fantasia e a curiosidade profanas mais do que a inteligência, a fé e a reverência a Deus.

c) O espírito de arrogância e de domínio com que alguém trate as coisas de Deus e os fenômenos prodigiosos, também resulta em desabono do pretenso milagre.

Quem julga ter direito a algum milagre, porque possui ciência e receitas ou porque é virtuoso e sempre foi fiel a Deus, já se coloca fora das disposições necessárias para ser atendido pelo Senhor Deus. O autêntico milagre é sempre sinal gratuito, nunca é devido por Deus ao homem. O homem não “encomenda” milagres a Deus. Somente quando assume uma atitude de humildade e disponibilidade, pode o homem esperar receber a graça e a condescendência de Deus.

3.2. Critérios positivos

Uma vez enunciadas as características que, no sentido teológico e apologético, desabonam o milagre, importa averiguar as que o recomendam e autenticam aos olhos do observador.

Para que uma cura de enfermidade venha a ser levada em conta como possível resposta de Deus aos homens, deve, segundo a jurisprudência da Igreja, preencher as cinco seguintes condições:

1) Trate-se de uma doença orgânica grave, consistindo em alterações anatômicas (modificação, perda ou hiperprodução de tecidos…). Essa doença terá sido diagnosticada pelos métodos mais seguros e haverá sido considerada totalmente incurável aos olhos da medicina contemporânea.

2) Tenham sido ineficientes todos  os meios terapêuticos devidamente aplicados.

3) Verifique-se a restauração dos órgãos ou tecidos lesados em espaço de tempo tão breve que possa ser considerado instantâneo.

4) Não se tenha registrado o prazo ordinariamente necessário para a recuperação gradual da função lesada (a pessoa curada conseguiu logo caminhar ou comer e digerir com toda a normalidade…).

Ou, em outros casos, não se tenha verificado o prazo necessário para a reabsorção dos edemas, dos derrames de pleura ou para a destruição das massas de tumores – o que não exclui ritmo progressivo (mas rápido) do estado geral de saúde da pessoa curada (aumento de peso, de forças, etc.).

5) Seja a cura duradoura, capaz de ser comprovada por exames sucessivos, feitos a intervalos regulares durante longo espaço de tempo.

É importante frisar que o quadro mais normal dentro do qual o milagre se insere, é o da prece humilde, destituída de crendices ou artifícios supersticiosos. O prodígio aparece então como a resposta de Deus ao apelo da miséria do homem. Este não é capaz de comprar ou de forçar o favor de Deus; não há preces ou ritos de efeito infalível; a oração agradável a Deus é a que procede de um coração filial, voltado para o Pai do céu em confiança e amor, sem “receitas” prévias “garantidas”.

4. A fé que salva

A expressão “a tua fé te salvou”, frequente nos lábios de Jesus (cf. Mt 8, 13; 9, 2.22.15, 28; 17, 20), não quer dizer que os milagres sejam projeções do psiquismo subjetivo do paciente (faith healing, la foi Qui guérit). Há, sem dúvida, casos de cura por auto-sugestão; tenham-se em vista as moléstias funcionais que são criadas e extintas por sugestão do próprio paciente.

A fé, de resto, não é sugestão subjetiva. A fé que Jesus louva nos Evangelhos como penhor de salvação, significa abertura para Deus cheia de entrega e confiança. Está claro que uma tal disposição acalma o sistema nervoso do paciente, mas é incapaz de explicar a cura radical do mesmo, quando afetado de certas lesões orgânicas. A autêntica fé, ademais, é precedida por um juízo da razão; longe de ser cega ou sentimental, ela supõe o conhecimento dos motivos de credibilidade: por que posso crer?… por que crer precisamente em Jesus de Nazaré? (…) por que crer na Igreja Católica, e não em outra comunidade religiosa? O estudo de tais perguntas exige o funcionamento da razão e da lógica, contribuindo assim para emancipar da sugestão, do sentimentalismo e do fanatismo a autêntica fé cristã.

De resto, a fé não dispensa o homem de servir-se dos recursos que Deus lhe dispensa para livrar-se de seus males. Se Deus deu ao homem inteligência, não pode deixar de querer que o ser humano a utilize para atingir seus fins legítimos. Omitir-se neste setor, esperando que Deus faça milagrosamente o que o homem pode fazer inteligentemente, é tentar a Deus; é falsa devoção. A S. Escritura mesma elogia o médico e recomenda o recurso ao médico, ao mesmo tempo que reconhece que Deus é a fonte de todo o saber e de toda a perícia do médico; veja-se Eclo 38, 1-12:

“Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes… O Senhor é que deu a ciência aos homens, a fim de que se gloriem com suas obras poderosas. Por eles, Ele curou e aliviou; o farmacêutico fez com eles misturas (…) e por ele a saúde se difunde sobre a terra.

Filho, não te revoltes na tua doença, mas reza ao Senhor, e Ele te curará… Dá lugar ao médico, porque o Senhor também o criou; não o afastes de ti, porque dele tens necessidade. Há ocasião em que a saúde está entre suas mãos”.

Sobre o milagre e seu autêntico
significado, ver outrossim nosso Curso sobre Ocultismo, Módulos 5, 6 e 21.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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