Documento sobre a morte – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 310 – Ano 1988 – p.
139

 

Aos 16/10/87 faleceu o
Cardeal Joseph Hoeffner, arcebispo de Colônia (Alemanha), ex-Presidente da
Conferência dos Bispos da Alemanha Ocidental, vítima de um tumor maligno na
cabeça. É o autor do livro “Doutrina Social Cristã”, já apresentado em PR
305/1987, pp. 447-456. Além do quê, o Cardeal Hoeffner esteve no Brasil a mando
da Santa Sé, como Visitador de Seminários diocesanos. – Dentre os escritos
deixados por esta eminente figura, encontra-se a DESPEDIDA, que abaixo vai
transcrita em tradução portuguesa. É sempre oportuno ouvir as palavras de
alguém que se põe no limiar da morte e olha para o passado assim como para as
pessoas que o acompanham.

PALAVRA DE DESPEDIDA

“Como sacerdote e como
Bispo, anunciei muitas vezes a  Boa-nova
da morte cristã. Na medida em que eu mesmo envelheci, tocava-me mais esta
mensagem; pois eu sabia, que em breve haveria de despojar-me desta tenda terrena
(2Pd 1,14)., e que chegava o tempo de minha partida (2Tm 4,6)”.

Nossa fé não permite que se
banalize a morte. Experiências até então desconhecidas nos serão oferecidas. A
morte é uma lei, mas também um juízo. Ela perdeu o seu aguilhão (cf. 1Cor
15,55). Na segunda vinda de Nosso Senhor, ela será definitivamente destruída
como último inimigo (1 Cor 15, 26). Com Cristo já começou a nossa ressurreição.
Como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por
ocasião  da sua vinda (1 Cor 15,23).

Tenho consciência de que
existe uma vida – minha vida terrestre – que ainda não é vida em plenitude; e
que existe  uma morte – minha morte
humana -, que não mata e não separa sob todos os aspectos. Após a sementeira,
haverá a colheita. Da  terra estrangeira
peregrinamos para a Pátria,  da tenda
para a casa paterna, da cidade terrestre para a Jerusalém celeste. Tudo o que
buscamos dentro do mundo, são apenas valores provisórios e passageiros. Nossa
meta verdadeira é Deus.

Assim devolvo minha vida
terrestre às mãos do Criador, esperando que Jesus Cristo, “a Luz dos homens”
(Jo 1,4) alumie o caminho de minha passagem. A minha vida, a segurança e o
aconchego dentro da Igreja, o meu sacerdócio: tudo Deus me concedeu sem mérito
meu. Por isto a despedida deste mundo torna-se um ato de agradecimento.
Agradeço a Jesus Cristo, porque, como sacerdote em Saarbrucken, em Kail e  Trier, e depois em Münster e Colônia como
Bispo, maravilhado, eu pude experimentar Seu amor, que dá vida dentro da Santa
Igreja, a qual, não obstante tantas rugas, é sua Esposa e nossa Mãe. Pude
experimentar esse amor quando, na Eucaristia, tinha sua presença entre nós,
quando Ele ia à procura dos desgarrados e perdoava os pecadores, quando Ele
reconfortava e consolava enfermos e moribundos, quando Ele chamava jovens para
o Seu seguimento.

Agradeço a meus pais e a
meus irmãos seu amor e sua bondade. Agradeço aos fiéis sua confiança, aos
irmãos no episcopado, aos sacerdotes e diáconos a sua colaboração fraterna na
vinha do Senhor. Agradeço aos Religiosos e a tantas mulheres e homens que, como
voluntários ou como contratados, servem à causa da Igreja. Não menos agradeço a
todos os que, em minha casa, durante todos esses anos, incansáveis e pacientes
me apoiaram.

Queira Deus perdoar os meus
pecados, os meus fracassos, as minhas fraquezas e negligências. Seja-me Ele,
pela intercessão de Maria, Mãe  de Deus,
um Juiz misericordioso. A todos aqueles que eu tenha ofendido ou entristecido,
e a todos os que não se viram compreendidos por mim, peço, pelo amor de Jesus
Cristo, o perdão.

Num tempo muito agitado
social e eclesialmente, Deus colocou em minhas fracas mãos o báculo pastoral de
São Materno. Experimentei a Igreja  em
suas aflições, que lhe advêm de fora e de dentro. Mas exatamente  nos anos da fermentação e de mudanças  abruptas, foi-me consolo e força aquela  certeza de que é Jesus Cristo quem vive e age
em sua Igreja.

Como chegou o momento em que
devo prestar contas diante d’Ele, suplico aos fiéis da Arquidiocese de Colônia,
e conjuro-os a que permaneçam firmes em seu amor e sua fidelidade ao Cristo e à
Igreja, que é o seu Corpo. (Cl 1,24), que conservem a  unidade na fé em comunhão com o sucessor de
São Pedro, que imitem o próprio Cristo em sua vida cotidiana, e que, por seu
vivo testemunho, tornem a Igreja presente e operosa naqueles lugares e
circunstâncias onde apenas através deles ela pode chegar como sal da terra (II
Concílio do Vaticano LG 33).

Deus abençoe e proteja a
Arquidiocese de Colônia: as famílias, as crianças e os jovens, os pais e as mães,
as pessoas idosas, os sacerdotes, os diáconos e os Religiosos.

Lembrai-vos de mim na
oração. Eu clamo ao Senhor: Tende piedade de mim, segundo a vossa grande
misericórdia! (Neemias 13,22). Por  vós,
meu Deus, aspiro (Sl 25,1).

Quarta-Feira de Cinzas, 20
de fevereiro 1980

+ Joseph Cardeal Höffner”

O texto dispensa
comentários. É a palavra simples de um homem de fé, que deu lúcido testemunho
de fidelidade a Cristo e à Igreja até o extremo momento de sua existência
terrestre.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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