Ditadura do Relativismo

Porque a “ditadura do relativismo” é hostil à verdade da fé cristã?

Durante a missa celebrada no início do último conclave, o então cardeal Joseph Ratzinger pronunciou uma homilia centrada na preocupação de conclamar os presentes – em especial os membros do colégio cardinalício – a buscarem uma fé madura, a qual, segundo ele, pressupõe uma profunda amizade com Nosso Senhor Jesus Cristo e implica uma postura de resistência ao que denominou de ‘ditadura do relativismo’, isto é, resistência à preponderância de uma mentalidade que não reconhece referências objetivas de aferição da moralidade e adota o ‘eu’ e seus apetites como critérios supremos.

Os ecos da homilia do cardeal Joseph Ratzinger perpassaram a cobertura dada pela imprensa ao conclave e suscitaram reações as mais diversas nos meios católicos e fora deles. Prevaleceu, contudo, nos círculos intelectuais do ocidente, a percepção de que o então decano do colégio cardinalício cometera erro gravíssimo ao ver na ‘ditadura do relativismo’ uma ameaça ao mundo contemporâneo, quando o fundamentalismo é que deveria ser objeto de suas preocupações.

Alguns dos críticos do cardeal defenderam mesmo que, à medida que invalida as certezas que dão lastro à postura fundamentalista, o relativismo favorece a convivência democrática, o que torna sem sentido a própria expressão ‘ditadura do relativismo’. Subjazem ao debate acerca da ‘ditadura do relativismo’ visões muito diferentes acerca do grau de influência que a fé e a moral cristã devem ter na vida das sociedades.

O relativismo cultural ocidental fomenta um tipo de mentalidade que é, em grande medida, refratária ao anúncio cristão e representa um complexo desafio a qualquer esforço de evangelização, mesmo em países com longa tradição cristã; enquanto, em parte da Ásia e da África, a difusão do cristianismo é obstaculizada por governos e grupos religiosos intolerantes que, na prática, ignoram a liberdade de culto, dificultam a recepção de missionários e, quando não fomentam, ficam omissos diante de ações persecutórias praticadas contra os cristãos.

A luta contra a ‘ditadura do relativismo’ faz parte de um esforço de preservação do legado cultural do cristianismo em sociedades cujas instituições sociais cada vez mais dele se distanciam. A partir do século XV, desencadeou-se um amplo e complexo processo de modificação das instituições políticas, educacionais, econômicas e religiosas da Europa, o qual criou condições para a formulação teórica e, posteriormente, para a expressão social do ‘indivíduo’ como um soberano ‘choice-maker’ que, livre das amarras das tradições, determina a sua vida com base em critérios por ele mesmo forjados.

Já no século dezenove, Tocqueville percebeu que, solitário diante de um estado crescentemente concentrador de poder, tal indivíduo poderia facilmente converter-se em vítima de experiências coletivistas. Nada impediu, entretanto, que o soberano ‘fazedor de-escolhas’, que se compreende como medida de todas as coisas, passasse a ser a principal referência de conduta para a maioria dos ocidentais da contemporaneidade, o que só foi possível com a entronização da visão de que a moralidade é o reino das preferências e dos sentimentos.

Em razão disso, o ilustrado ‘fazedor-de-escolhas’ tende a colocar a satisfação dos seus apetites acima dos grandes ideais – sejam eles terrenos ou sobrenaturais, pois a busca destes pressupõe um espírito de auto-sacrifício e persistência que ele simplesmente não tem. Agitado por ventos que sopram em todas as direções, ele não sabe exatamente para onde seguir, mas espera da família, quando a tem; de Deus, quando crê e da sociedade, quando a leva em consideração, tudo o que possa satisfazer as suas preferências.

Uma cultura edificada sobre o primado dos sentimentos tende a favorecer o culto da novidade e ser hostil a todas as práticas e instituições que representem algum tipo de entrave à busca desenfreada de satisfação das demandas dos indivíduos. É no contexto de tal hostilidade que se situam as declarações do hoje Papa Bento XVI. O avanço do relativismo moral implica a remoção do que resta de influência cristã nas legislações e nas práticas sociais do Ocidente, o qual, distanciado do legado cristão e da espiritualidade a ele associada, caminha para desintegração por força de uma radical falta de coesão interna e de fortes pressões externas.

Esta afirmação não traduz uma rejeição à democracia, mas expressa a compreensão de que o relativismo moral do Ocidente prenuncia um niilismo cultural capaz de inviabilizar os consensos mais básicos, sem os quais sociedade alguma mantém as suas conquistas. São Bento de Núrsia e os monges que o seguiram contribuíram sobremaneira para, depois da derrocada do império romano do Ocidente, preservar o legado do mundo clássico, evangelizar os bárbaros e fomentar o interesse pela cultura no mundo cristão.

Mas enquanto São Bento trabalhou sobre os escombros de um império derrotado, o Papa Bento XVI se esforça para evitar precisamente a derrocada de um Ocidente que insiste em renegar a herança histórica sobre a qual edificou a sua grandeza. Assim, a preocupação do atual Papa com a ‘ditadura do relativismo’ manifesta, a um só tempo, um cuidado para com a salvação das almas e uma inquietação com o estado do mundo atual.

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Por Átila Amaral Brilhante

Fonte:
http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/25115-porque-a-ditadura-do-relativismo-e-hostil-a-verdade-da-fe-crista

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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