Deus procurado e achado em todas as coisas

Padre Antonio Spadaro, novo diretor de La Civiltà Cattolica

ROMA, terça-feira, 27 de setembro de 2011 (ZENIT.org). O padre Antonio Spadaro foi nomeado em 6 de setembro, pelo superior geral da Companhia de Jesus, como novo diretor de A Civiltà Cattolica, a mais antiga e respeitável revista italiana.

O novo diretor começou a escrever em La Civiltà Cattolica em 1994, especialmente críticas literárias sobre autores contemporâneos italianos como Cesare Pavese, Alda Merini, Giorgio Bassani, Mario Luzi, Pier Vittorio Tondelli, e norte-americanos, tanto os clássicos Emily Dickinson, Walt Withman, Flannery O’Connor e Jack London quanto os mais contemporâneos Jack Kerouac e Raymond Carver.

Entre as matérias tratadas pelo padre Spadaro também estão a música (Bruce Springsteen, Tom Waits, Nick Drake, Nick Cave…), a arte (Mark Rothko, Edward Hopper, Andy Warhol, J.-M. Basquiat,…), o cinema e as novas tecnologias da comunicação e seu impacto no modo de viver e de pensar: a Wikipedia, o Second Life, a leitura digital, as redes sociais, a filosofia hacker e a cyberteologia.

Para entendermos como La Civiltà Cattolica pretende renovar culturalmente a mensagem católica no complexo mundo dos meios de comunicação, ZENIT entrevistou o padre Antonio Spadaro.

– Como o senhor encara a nomeação para dirigir uma revista tão prestigiosa?

Padre Spadaro: Eu escrevo em La Civiltà Cattolica desde 1994, mas assumir a direção foi uma mudança de perspectiva. Eu vejo um desafio muito difícil, porque estou na direção da revista ativa mais antiga da Itália: são 162 anos de vida. La Civiltà Cattolica sempre foi um ponto de referência muito autorizado, pela qualidade do seu jornalismo. Eu sinto um grande temor e ao mesmo tempo um grande desejo de fazer o melhor possível junto com os outros jesuítas da redação. Recebi muitas mensagens de parabéns e de apoio. Isso ajuda bastante o escritor, porque você experimenta uma grande confiança dos leitores. Mas você experimenta também a altura das expectativas deles.

– Os tempos que nós vivemos parecem bem diferentes da época em que a revista foi pensada e fundada. Com que ideias e novidades o senhor pretende encarar o mundo moderno?

Padre Spadaro: Desde 1850 até hoje, a revista atravessou épocas em que o próprio significado da comunicação, além das modalidades, foi se transformando. Mas a longa tradição da revista já contém o germe da inovação. Vamos considerar que, 160 anos atrás, até a ideia de uma revista “nacional”, quando a Itália nem existia como país unificado, além do uso do italiano em vez do latim, já eram elementos de grande inovação. Mais do que falar de novidade, eu gosto de falar de “DNA”, do código genético da revista, que é capaz de mantê-la viva em tempos e épocas diferentes.

– Como o senhor explica para os leitores de hoje o sentido e o porquê de uma “civilização católica”?

Padre Spadaro: O que La Civiltà Cattolica pretende oferecer aos leitores é uma experiência iluminada pela fé cristã e profundamente arraigada na vida cultural, social, econômica e política dos nossos dias. Por tradição e natureza, a nossa revista manifesta uma forma “alta” de jornalismo cultural. O enfoque é amplo quanto à cultura, a linguagem e os temas, que vão de política a história, da literatura à psicologia, do cinema à economia, da filosofia à teologia, da moda à ciência… E isto faz a revista se adaptar aos nossos tempos. A complexidade e a fragmentação da vida moderna exigem um esforço particular de compreensão e de recomposição dos fragmentos do saber. Graças à multiplicidade e à amplitude dos assuntos que são tratados, o nosso leitor pode ter material e enfoques para formar uma opinião pessoal, com análises agudas, mas não complexas demais, e voltadas a quem está interessado no assunto.

– Como a revista vai se relacionar com a comunicação na rede?

Padre Spadaro: Eu acho que está mudando o conceito de “revista”, que não é mais só a de papel. Tem a ver com a capacidade de transmitir cultura, valores, ideias, de jeitos diferentes e através de várias plataformas comunicativas. Uma consequência possível: La Civiltà Cattolica sempre vai ser identificada pelo pensamento que ela expressa, e esse pensamento vai achar expressão em vários canais e suportes. O suporte de papel não será mais exclusivo. Então, a nossa produção cultural vai ficar mais aberta para ser saboreada, compartilhada, mais aberta para o comentário e para o debate. É um processo que vai exigir tempo, mas eu tenho muitas esperanças quanto a ele.

– Por que a espiritualidade e o carisma de Santo Inácio poderiam fascinar o homem do terceiro milênio?

Padre Spadaro: A nossa redação, por estatuto pontifício, é composta exclusivamente por jesuítas. E o nosso “tesouro”, como jesuítas, é a espiritualidade de Santo Inácio de Loyola, uma espiritualidade encarnada, humanista, curiosa e atenta à procura da presença de Deus no mundo, que, durante séculos, esculpiu santos, intelectuais, cientistas e formadores. O princípio inspirador dessa espiritualidade é um critério muito simples: “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”, como escreve Santo Inácio. E esta é a razão de a criatividade do Espírito trabalhar em todos os lugares, em todas as dimensões do crescimento do mundo, na diversidade das culturas e na variedade das experiências espirituais. Esse enfoque é fascinante, porque ele permite descobrir Deus agindo na vida das pessoas, da sociedade e da cultura. E discernir como Ele vai continuar a sua obra. É esse instinto curioso e atento o que nos impulsiona a escrever e a compartilhar a nossa experiência intelectual com os leitores.

– Um dos problemas que limitam a eficácia da comunicação católica é a autorreferência. Como suscitar o interesse de quem não frequenta a Igreja?

Padre Spadaro: Às vezes, a comunicação católica toma a forma de um tipo de boletim interno com uma linguagem para iniciados. Os cristãos estão chamados a realizar sua contribuição na vida do mundo em união com os demais homens. Somente a fraqueza e o pessimismo fazem que se ergam muros que delimitem os dois lados. Creio que, ainda que se negue, a vida espiritual das pessoas não está morta, porque não pode morrer, ainda que às vezes surja do mundo da confissão religiosa, que parece ser percebido mais como o mundo das respostas que o das perguntas fortes. As perguntas, então, não sabendo aonde ir, tomam posições na experiência da cultura e do compromisso no mundo. Escrever para nós significa começar um diálogo com o homem atual, reconhecendo suas profundas tensões espirituais, para além de onde surjam e da forma como se expressem.

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Por Antonio Gaspari

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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