Deus está de volta – EB (Parte 1)

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº 244, Ano
1980, p. 148

Em síntese:  A revista “Veja” de 19/12/79 publicou o
artigo “Deus está renascendo”, no qual são apontados fatos contemporâneos que
contrastam com a proclamação da morte de Deus proveniente de teorias
materialistas e atéias, parece sentir-se vazio e frustrado; em conseqüência,
retorna ao reconhecimento do verdadeiro Deus ou cria suas formas religiosas
próprias (tenham-se em vista os movimentos emotivos místicos de grupos jovens).
É principalmente nos setores das ciências naturais e da filosofia que se
registra a réplica ao ateísmo: o big bang, de que tanto falam os cientistas
modernos, leva a supor a existência de uma inteligência Suprema que tenha
idealizado e realizado este universo. Assim mais uma vez se comprova que “a
pouca ciência afasta de Deus (tal foi a ciência do século passado) e a muito
ciência leva a Deus (tal é a ciência mais amadurecida e provecta do século XX)”

No tocante à filosofia política,
verificam-se os paradoxos do marxismo: na Polônia um regime que se proclama
operário, reprime greves operárias; o Vietnã comunista faz guerra contra o
Camboja comunista… Conforme os “novos filósofos” franceses (dos quais
diversos foram marxistas), ninguém acredita mais no marxismo… No extremo
oposto, verifica-se algo de inesperado: no Irã, a religião muçulmana, mediante
os seus aiatolás, pretende reger os destinos da pátria (o que na verdade não
tem sido oportuno). Da parte católica, o Papa João Paulo II se tornou um líder
mundial, capaz de provocar a aglomeração de multidões, sem que faça a mínima
concessão facilitaria (…).

Em todos estes fatos vejam-se sinais
da “volta de Deus”, segundo “VEJA”.

Comentário:  A revista “VEJA” de 19/12/79 publicou
interessante artigo: depois de recensear as expressões de ateísmo dos últimos
séculos, apresenta expressões de surto religioso nos principais setores do
pensamento e da atividade humana de nossos dias. A resenha, redigida por
Marília P. Fiorillo e Marco Antônio de Menezes em estilo jornalístico, não
deixa de ter seu valor, principalmente se se leva em conta que não provém de
uma instituição religiosa, mas de uma revista de crônicas e comentários, que
procura retratar os acontecimentos da época.

Eis por
que, nas páginas subseqüentes, poremos em relevo os tópicos mais importantes do
artigo, que procuraremos aprofundar, a fim de evidenciar o seu autêntico
significado.

1. Século
XIX: o NÃO dito a Deus

No fim do
século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzche  (1844-1900) proclamava: “Deus morreu!” Seria
preciso apregoar a morte de Deus para que o homem pudesse ser ele mesmo, visto
que o Senhor Deus até então fora o grande rival do homem.

O brado de
Nietzche fazia eco ao de estudiosos de diversas ciências que marcaram o século
XIX.

No campo da
Física e da Astrofísica, por exemplo, o ateísmo parecia imperar:

“Por volta
de 1880 a ciência alardeava para breve o fechamento definitivo dos
laboratórios… porque todos os fenômenos possíveis na natureza já teriam sido
devidamente pesquisados, explicados e arquivados. Quando Napoleão lhe perguntou
por que não mencionara Deus em seu novo livro sobre as estrelas, o astrônomo
Laplace respondeu com a arrogância de toda uma civilização científica que nos conduziu
a uma era tecnológica “Não precisei de levar em conta essa hipótese” (art.
cit., p. 85).

No setor da
sócio-economia, algo de semelhante se dava: “A doutrina socialista penetrava na
intimidade dos mistérios sociais, anunciando o ateísmo científico e prometendo
provas materiais de que Deus não existia” (ib., p. 85).

No tocante
às ciências biológicas, Charles Darwin (+ 1882) apregoava a evolução das
espécies regida pelas leis da luta pela vida (Struggle for life) e da
subsistência dos mais fortes: as concepções mecanicistas e afinalistas de
Darwin pareciam suficientes para eliminar o conceito de Deus Criador.

No plano da
filosofia, Augusto Comte (+ 1857) formulava a lei dos três estágios: o homem
teria passado da era teológica pela era metafísica para a era positiva ou  positivista, que Comte inaugurava. A ciência
rejeitaria qualquer concepção de valores invisíveis (Deus, alma espiritual,
vida eterna…) para se confinar estritamente ao que pudesse apreender por
experiência sensível.

2. Século
XX: “O homem morreu!”

A
dissolução dos valores religiosos ou a proclamação da morte de Deus levou
finalmente à proclamação da morte do próprio homem. Com efeito foi este o brado
de Lévi-Strauss e da escola estruturista em geral nas últimas décadas: o
estruturalismo tentou mostrar que o homem nada tem de próprio e distinto em
relação aos demais seres. Com efeito, a linguagem e os atos dos homens procedem
de um substrato inconsciente, cujo sujeito não é propriamente o indivíduo, mas
a sociedade como tal. Por conseguinte, um escritor em seu livro não  diz, mas é dito pela coletividade ou por uma
potência inconsciente, da qual ele vem a ser mera expressão. Ora o substrato
coletivo e inconsciente que explica a linguagem e o comportamento dos homens, é
concebido pelo estruturalismo como algo de mecânico e determinado. Notam os
autores da escola que a natureza dos minerais, vegetais e animais irracionais é
bem ordenada e lógica, porque é regida por leis determinadas e rígidas. Assim –
dizem os estruturalistas – também o comportamento humano aparentemente livre e
espontâneo, ele se reduz a uma ordem rígida, de sorte que a ciência procura
“descobrir a necessidade (= as leis determinadas) que está por baixo da ilusão de
que o homem é um ser livre” (Lévi-Strauss). Eis ainda palavras de Lévi-Strauss:

“Não seria
suficiente absorver os indivíduos no conjunto da sociedade: esta tarefa é ponto
de partida para outras,… que competem às ciências exatas e naturais:
redintegrar a cultura humana na natureza (irracional) e finalmente reduzir a
vida ao conjunto das suas condições físico-químicas… Nós cremos que a meta
final das ciências humanas não é  constituir o homem,  mas dissolvê-lo” (La pensée sauvage. Paria
1962 p. 326s).

Aliás, o
brado estruturalista de morte do homem foi lentamente preparado por teorias que
abalavam ou tentaram abalar profundamente o ser humano:

– no século
XVII Galileo Galilei (+ 1642) desfez a teoria de que o homem habita o centro do
universo;  sistema geocêntrico cedeu
finalmente ao heliocentrismo;

– no século
XIX, Charles Darwin (+ 1882) concebeu a teoria da evolução das espécies,
insinuando não ser o homem mais do que “um estágio na escala evolutiva episódio
ocasional na vida do planeta” (art. Cit., p. 84).

– no século
XX, Siegmund Freud (+ 1939) reduziu o homem a joguete de instintos obscuros e
quase indomáveis.

O homem
assim foi “traído” por três vezes, na linguagem da reportagem. Viu-se
finalmente arrasado e destruído.

Em
consequência , as gerações de meados do século XX começaram a sofrer de tremendo
vazio espiritual. As novas teorias, rechaçando Deus e os valores espirituais,
se a princípio despertaram certa euforia e algum entusiasmo (porque pareciam
proclamar a autonomia do homem), evidenciaram-se totalmente inadequadas para
explicar a realidade e orientar os passos do homem através da historia.

São
palavras do artigo em pauta:

“O século
XIX, herdeiro das luzes deu lugar à longa noite contemporânea do ceticismo, ao
eclipse das esperanças de que o materialismo e a ciência poderiam resolver tudo.

O
socialismo, por exemplo, sofre aguda síndrome de cinismo: na Polônia, um regime
que se proclama operário, reprime greves operárias; a China, suposta República
popular, apressa-se a apoiar a sangrenta ditadura do Chile; e o Vietnã
comunista faz guerra contra o Camboja comunista, e ambos perseguem suas
próprias populações.

Tanto
quanto o marxismo aplicado, a ciência aplicada está distante anos-luz de suas
otimistas. A indústria de guerra, sustentada pela pesquisa de mais de 50% dos
cientistas vivos, chegou a uma complexidade próxima da ficção científica .

As ciências
e as ideologia estão em franco descrédito. A autoridade leiga, que tanto
trabalho teve para destronar sua adversária religiosa, começa a perder terreno
em seus próprios domínios. A verdade, como se reconhece mais e mais, é que
nossa época tem soado mentirosa embora às vezes loquaz em suas boas promessas.
Apesar de Copérnico (e Galileo), Darwin, Freud e Marx – e do cogumelo atômico –
Deus está de volta” (art. cit., p. 85).

É esta
“volta de Deus” ou, melhor, o ressurgimento do espírito religioso e dos valores
da fé que importa agora examinar em suas facetas concretas.

3. Em
nossos dias: a volta de Deus

Os
articulistas apontam diversos aspectos desse renascimento religioso. Demos-lhes
a palavra primeiramente, para depois tentar traduzir a linguagem jornalística
em discurso mais sistemático e técnico:

“No Irã,
Sua presença substitui leis e ideologias – Deus volta, ali, para governar
diretamente a vida cotidiana, da moda feminina à economia. Na França, duas
semanas atrás, a “nova direita” e os “novos filósofos” chegaram à pancadaria,
discutindo se as tiranias são fruto da existência de um só Deus ou de Deus
nenhum. Professores de Física e Biologia nas mais cerebrais Universidades
americanas, confessam discretamente que a própria ciência provou que jamais
conseguirá sua velha ambição de algum dia ter uma explicação total do universo
e da vida: é preciso, reconhecem, readmitir Deus como a explicação última…”
(p. 94).

“Cem anos
depôs do cientificismo e do socialismo do século XIX, Ele ressurge, da maneira
e nos lugares mais inesperados. Pois esta volta engloba muito mais do que as
práticas dominicais. Na Igreja, naturalmente, Deus sempre esteve. O que chama a
atenção, agora, é Sua presença fora dos templos, em campos onde costumou estar
sempre ausente ou velado, como a política, o sexo ou mesmo Sua arquiinimiga, a
ciência” (p. 85).

Procuremos
agora desenvolver as observações da reportagem segundo os quatro diversos
planos que os articulistas sugerem: o da ciência,  o da filosofia política, o da mística popular
e o do Catolicismo.

3.1. As
ciências naturais contemporâneas

Interessam-nos
a Astrofísica, o caso Galileo, a tese de Darwin e a concepção freudiana do
homem.

3.1.1. O
“big bang”

Mais uma vez
eis os dizeres dos repórteres.

“À volta de
Deus se faz da maneira mais espetacular provavelmente na ciência… “É preciso
parar de dizer que Deus morreu”, afirma Gustav Stromberg,astrônomo americano. E
ele é apenas um entre as centenas de astrofísicos, físicos e biólogos de vários
países, conhecidos, enquanto grupo, como os “gnósticos de Princeton” – uma das
mais avançadas Universidades dos Estados Unidos e do mundo.

(…) A
Astrofísica conseguiu recuar até 13 bilhões de anos atrás, e todas as provas conseguidas
indicam que o universo surgiu – e que o próprio fluxo do tempo começou – numa
grande explosão inicial da massa que concentraria toda a energia e toda a
matéria existentes. A necessidade de postular Deus, raciocinam os gnósticos de
Princeton, surge de uma barreira intransponível: é impossível, hoje como
sempre, explicar qual foi à causa dessa primeira explosão original. E, para ter
tido uma orientação inteligente. Em suma, a Astrofísica, mesmo contra a
vontade, teve de retornar a uma explicação muito mais próxima da versão bíblica
do Gênesis que dos textos da ciência.

Os homens
que chegaram a essas conclusões, são nomes tão reputados como o Prêmio Nobel de
Física Richard P. Feynmann, o soviético E. Parnov, o britânico (e ex-marxista)
Arthur Koestler. Sua nova interpretação – batizada de “hipótese Deus” – surgiu
como resultado de uma longa e intransigente marcha do pensamento científico,
passando pelas complicações da teoria da relatividade de Einstein da mecânica
quântica de Max Planck e Werner Heisenberg. Em resumo, sempre que chega a
limites do infinitamente pequeno ou no infinitamente grande, a própria ciência
prova que não pode avançar mais – embora tenha certeza de que ainda não
concluiu sua busca. A “hipótese Deus”, em vez de nascer de súbita fé religiosa
dos cientistas atuais, é retomada assim como conseqüência lógica e
indispensável da ciência ateísta” (pp. 88-90).

Com outras
palavras, diríamos:

O nosso
sistema solar faz parte de grande sistema de tipo espiral que se chama a “Via
Láctea” (a nossa galáxia). Este nosso sistema solar (que no conjunto da galáxia
é comparável a um grão de poeira) atinge as respeitáveis dimensões de 10
bilhões de km (órbita do planeta Plutão) ou, em linguagem de Astrofísica, dez
horas-luz (uma hora-luz é a distância que a luz percorre em 60 minutos com a
velocidade de 300.000 km por segundo). A Via Láctea, por sua vez, tem um
diâmetro de aproximadamente 100.000 anos-luz; ela inclui estrelas como o nosso
sol (que é estrela anã) e outras ditas “supergigantes”, num total de perto de
200 bilhões de estrelas. O universo se compõe de galáxias mais ou menos
semelhantes à nossa, que se agrupam em blocos (cada um dos quais pode
compreender milhares de galáxias).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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