Deus é Amor – EB

Revista
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº 527 –
Ano 2006 – p. 206

“DEUS É
AMOR”

por
Bento XVI

Em síntese:
Em sua primeira encíclica o Papa Bento XVI considera o tema muito distorcido do
amor; a própria violência tem sido inspirada por certo tipo de amor como
outrossim a libertinagem dos costumes. Na sua Parte I o Papa afirma que o
homem, sendo psicossomático, ama sempre com a sua corporeidade (amor eros) e
sempre com o seu espírito (amor ágape); aquele, porém, precisa de ser
purificado para se adaptar ao amor ágape. O Verbo Encarnado é a manifestação
plena desse amor ágape, e nos convida a amar como Ele amou… amar a Deus e ao
próximo. A Igreja deve dar testemunho do ágape mediante o seu culto divino e
seu serviço aos homens (Parte II).

Aos 25 de
dezembro de 2005 o Papa Bento XVI assinou a sua primeira Carta Encíclica, que
versa sobre o amor. É documento rico de considerações filosófico-teológicas,
que revelam o teólogo professor e procuram dissipar as tendências ao ódio e
plantar a Boa Semente. O documento consta de introdução, duas Partes e
Conclusão, das quais, destacaremos, a seguir, os principais traços.

1.
Introdução

Bento XVI
propõe como justificativa de sua Encíclica o mau uso da palavra “amor”. No
mundo atual: violência e libertinagem são associadas a tal vocábulo,
desviando-o do seu significado tradicional, contido nos termos eros  e agape. É o rico e genuíno significado de amor
que Bento XVI tenciona pôr em relevo mediante a Encíclica.

PARTE I: A
UNIDADE DO AMOR

I.1. Eros e
Ágape ¹

O texto se
abre com uma reflexão de ordem filosófica e lingüística. A filosofia grega
tinha dois vocábulos mais usuais para designar o amor, a saber: eros e agape.
Aquele significaria o amor carnal, existente espontaneamente no homem e na
mulher, ao passo que agape seria o amor oriundo do espírito humano. Pois bem; o
Papa afirma que o homem, sendo um composto psicossomático, ama sempre com a sua
corporeidade e a sua espiritualidade. – Seguem-se considerações históricas para
aprofundar quanto foi dito.

¹ Palavra
paroxítona em grego; proparoxítona em português.

“Os gregos
viram no eros o inebriamento, a subjugação da razão por parte de uma loucura
divina, que arranca o homem às limitações da sua existência para fazê-lo gozar
da mais elevada felicidade” (nº 4). – Ora tal concepção de eros não é subida
até o Divino, mas degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de
disciplina, de purificação para dar ao homem não o prazer de um instante, mas
uma certa amostra do vértice da existência daquela bem-aventurança para a qual
tendo todo o nosso ser” (nº 4).

I.2.
Purificação do Eros

Pergunta
então o Papa: Como se deve configurar este caminho de ascese e purificação? E
responde:

“Uma primeira
indicação importante, podemos encontrá-la no Cântico dos Cânticos, um dos
livros do Antigo Testamento bem conhecido dos místicos. Segundo a interpretação
hoje predominante, as poesias contidas neste livro são originalmente cânticos
de amor, talvez previstos para uma festa israelita de núpcias, na qual deviam
exaltar o amor conjugal. Neste contexto, é muito elucidativo o fato de, ao
longo do livro, se encontrarem duas palavras distintas para designar o “amor”.
Primeiro, aparece a palavra “dodim”, um plural que exprime o amor ainda
inseguro, numa situação de procura indeterminada. Depois, esta palavra é
substituída por “ahabà”, que, na versão grega do Antigo Testamento, é traduzida
pelo termo de som semelhante “agape”, que se tornou, como vimos, o termo característico
para a concepção bíblica do amor. Em contraposição ao amor indeterminado e
ainda em fase de procura, este vocábulo exprime 
a experiência do amor que agora se torna verdadeiramente descoberta do
outro, superando assim o caráter egoísta que antes claramente prevalecia. Agora
o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio,
não busca a imersão do inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do
amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o” (nº 6).

Donde se vê
que o amor carnal há de ser penetrado pelos valores espirituais aos quais o
amor-agápe aspira. Há um só princípio de amor, que é a pessoa humana composta
de matéria e espírito… matéria e espírito que dão a origem às duas modalidades
do amor: eros e  agápe. O Papa explica
melhor seu pensamento, usando uma linguagem que tem  de ser lida vagarosamente:

 

“Faz parte
da evolução do amor para níveis mais altos, para as suas íntimas purificações,
que ele procure agora o caráter definitivo, e isto num duplo sentido: no
sentido da exclusividade – ‘apenas esta única pessoa’ – e no sentido de ser
‘para sempre’. O amor compreende a totalidade da existência em toda a sua
dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua
promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor é ‘êxtase’;
‘êxtase’, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como
êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si
e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a
descoberta de Deus: ‘Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a
perder, conservá-la-á’ (Lc 17, 33) – disse Jesus; afirmação esta que se
encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8,
35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O
conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na
terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício
pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras,
descreve também a essência do amor e da existência humana em geral” (nº 6).

I.3. A
unidade plena na Encarnação do Verbo

Eis ainda
uma observação linguística:

O amor-eros
tem sido designado como  amor de cobiça
ou amor possessivo;

O amor-agápe
é tido com o amor de benevolência ou  oblativo.

Não se deve
radicalizar esta distinção. Ela ocorre na união matrimonial, na qual homem e
mulher se vinculam por um amor que é simultaneamente  de cobiça e de benevolência. Aliás o próprio
Deus na Bíblia faz as vezes de Esposo, que requer da sua plebe amada total
fidelidade, prometendo-lhe em troca a consumação. “A relação de Deus com Israel
é ilustrada através das metáforas do noivado e do matrimônio; conseqüentemente
a idolatria é adultério e prostituição” (nº 7).

Jesus
Cristo é esse amor de Deus encarnado, que se apresenta sob a imagem do pai que
corre ao encontro do filho pródigo e o recoloca na mesa da família, dando-lhe o
seu Corpo e o seu Sangue como alimento na Eucaristia.

I.4. Amor
ao próximo

Esse amor
de Deus e a Deus deve expandir-se no amor ao próximo. Na verdade, como pode
amar o Deus invisível o cristão que não ama o próximo que ele vê? O amor ao
próximo não é um ato sentimental e volúvel, mas é a expressão do intelecto e da
vontade, que se conservam iguais a si mesmos através de eventuais dissabores,
pois tal é o amor de Deus às suas criaturas. Assim se chega à segunda parte da
Encíclica.

PARTE II: A
PRÁTICA DO AMOR PELA IGREJA

De quanto
foi dito até aqui depreende-se que a Igreja deve praticar o amor, manifestando
a ação do Espírito Santo, que nela vive.

II.1. Um
pouco de história

Desde as
suas origens os cristãos procuraram ser fiéis a este dever, como atesta a
escolha dos sete primeiros diáconos (cf. At 7, 1-6). Eram destinados a atender
às necessidades de irmãos menos aquinhoados. Os antigos escritores da Igreja
referem-se a variadas iniciativas empreendidas pelos bispos para aliviar o
sofrimento dos irmãos, pois a Igreja é a família de Deus no mundo, família na
qual não deve haver quem sofra a carência do necessário. Todavia a caridade-agape
deve estender-se a todo indivíduo que dela precise, como ensina a parábola do
bom Samaritano (cf. Lc 10, 29-37).

Com o tempo
a Igreja, através de suas dioceses e seus mosteiros, criou uma vasta rede de
obras hospitalares, educativas, profissionalizantes, que por vezes é tida como
defasada, pois o Estado tem assumido a assistência aos pobres, que – note-se
bem – mais precisam do anzol auto-suficiente do que da esmola do peixe. A esta
objeção cabe responder lembrando que a ação promocional do Estado jamais porá
fim a necessidades prementes para as quais somente a esmola é a solução, como
demonstra a experiência.

Neste
percurso histórico são citadas as Encíclicas sociais dos Papas desde Leão XIII
(1891) até João Paulo II (1991). São documentos que visam a conciliar entre si
justiça e caridade na organização da sociedade, propondo assim a Doutrina
Social da Igreja, inspirada pelas duas seguintes normas:

– a
justiça, indispensável para garantir os direitos de cada um; vem a ser o
objetivo de toda a Política. A Fé assume os ditames da justiça;

– o amor
será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa.

Trabalhar
pelas justas estruturas da sociedade não compete diretamente à Igreja, que
todavia oferece aos políticos a sua doutrina social. O que toca diretamente à
Igreja é a prática da caridade, que, para ser bem desempenhada, requer o
recurso aos meios de comunicação social, fator de solidariedade entre os
homens.

II.2.
Noções complementares

Dito isto,
segue-se a pergunta: Qual seria o perfil específico da atividade caritativa da
Igreja? – O Papa responde indicando três notas:

a) A
caridade cristã está voltada para toda e qualquer criatura humana,
independentemente de Credo, raça, sexo, idade (…).

b) A
caridade é independente de Partidos políticos e ideologias. O programa do
cristão é ser “um coração que vê”.

c) A
caridade cristã está isenta de qualquer intenção proselitista, ou seja, não
visa a ganhar adeptos para a Igreja em troca de benefícios outorgados.

Concatenando
idéias, o Papa se dirige aos responsáveis da ação caritativa da Igreja,
propondo-lhes uma palavra de estímulo frente às dificuldades que surjam na
execução da sua tarefa. Meditem no hino a Caridade agape de 1Cor 13, 1-13. E
saibam recorrer à oração para superar os problemas encontrados. A importância
desta advertência é tamanha que vai, a seguir, transcrita na íntegra:

“36. O
contato vivo com Cristo é a ajuda decisiva para prosseguir pela justa entrada:
nem cair numa soberba que despreza o homem e, na realidade, nada constrói,
antes até destrói; nem abandonar-se à resignação que impediria de deixar-se
guiar pelo amor e, deste modo, servir ao homem. A oração, como meio para haurir
continuamente força de Cristo, tornar-se aqui uma urgência inteiramente
concreta. Quem reza não desperdiça o seu tempo, mesmo quando a situação
apresenta todas as características duma emergência e parece impelir unicamente
para a ação. A piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a
miséria do próximo. A Beata Teresa de Calcutá é um exemplo evidentíssimo do
fato de que o tempo dedicado a Deus na oração não só não lesa a eficácia nem a
operosidade do amor ao próximo, mas é realmente a sua fonte inexaurível. Na sua
carta para a Quaresma de 1996, esta Beata escrevia aos seus colaboradores
leigos: ‘Nós precisamos desta união íntima com Deus na nossa vida quotidiana. E
como poderemos obtê-la? Através da oração’.

37. Chegou
o momento de reafirmar a importância da oração face ao ativismo e ao
secularismo que ameaça muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo.
Obviamente o cristão que reza, não pretende mudar os planos de Deus nem
corrigir o que Deus previu; procura, antes, o encontro com o Pai de Jesus
Cristo, pedindo-Lhe que esteja presente, com o conforto do seu Espírito, nele e
na sua obra. A familiaridade com o Deus pessoal e o abandono à sua vontade
impedem a degradação do homem, salvam-no da prisão de doutrinas fanáticas e terroristas.
Um comportamento autenticamente religioso evita que o homem se arvore em juiz
de Deus, acusando-O de permitir a miséria sem sentir compaixão pelas suas
criaturas. Mas, quem pretender lutar contra Deus tomando como ponto de apoio o
interesse do homem, sobre quem poderá contar quando a ação humana se demonstrar
impotente?

38. É certo
que Jó pôde lamentar-se com Deus pelo sofrimento, incompreensível e
aparentemente injustificado, presente no mundo. Assim se exprime ele na sua
dor: ‘Oh! Se pudesse encontrá-Lo e chegar até ao seu próprio trono! (…)
Saberia o que Ele iria responder-me e ouviria o que Ele teria para me dizer.
Oporia Ele contra mim o seu grande poder? (…) Por isso, a sua presença me
atemoriza; contemplo-O e tremo diante d’Ele. Deus enervou o meu coração, o
Onipotente encheu-me de terror’ (23, 3.5-6. 15-16). Muitas vezes não nos é
concedido saber o motivo pelo qual Deus retém o seu braço, em vez de intervir.
Aliás Ele não nos impede sequer de gritar, como Jesus na cruz: ‘Meu Deus, meu
Deus, por que Me abandonaste?’ (Mt 27, 46). Num diálogo orante, havemos de
lançar-Lhe em rosto esta pergunta: ‘Até quando esperarás, Senhor, Tu que és
santo e verdadeiro?’ (Ap 6, 10). Santo Agostinho dá a este nosso sofrimento a
resposta da fé: ‘Si comprehendis, non est Deus – se O compreendesses, não seria
Deus’. O nosso protesto não quer desafiar a Deus, nem insinuar n’Ele a presença
de erro, fraqueza ou indiferença. Para o crente, não é possível pensar que Ele
seja impotente, ou então que ‘esteja a dormir’ (cf. 1Rs 18, 27). Antes, na
verdade é que até mesmo o nosso clamor constitui, como na boca de Jesus na
cruz, o modo extremo e mais profundo de afirmar a nossa fé no seu poder
soberano. Na realidade, os cristãos continua a crer, não obstante todas as incompreensões
e confusões do mundo circunstante, ‘na bondade de Deus e no seu amor pelos
homens’ (Tt 3, 4). Apesar de estarem imersos como os outros homens na
complexidade dramática das vicissitudes da história, eles permanecem
inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio
seja incompreensível para nós”.

Segue-se
uma palavra de incentivo: “O amor é possível e nós somos capazes de o praticar,
porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, deste modo, fazer entrar a luz
de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente
Encíclica” (nº 39).

4.
Conclusão

Em sua
CONCLUSÃO o Papa cita os Santos como testemunhas de que a caridade é possível.
Lembra São Vicente de Paulo; Santa Luisa de Marillac; São José Cottolengo, São
João Bosco, Dom Luís Orione, Madre Teresa de Calcutá. E termina com uma oração
a Maria Ssma.

A Encíclica
merece ser lida com especial atenção. Exprime o teólogo aprofundado e culto que
sabe escrever belas páginas.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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