“Derrubados no Espírito”

Em nenhuma passagem do Novo ou Velho Testamento vemos essas
práticas de cristãos serem tocados por um outro cristão e caírem no chão
supostamente derrubados no Espírito. Novamente, estas práticas são
freqüentemente vistas por aí. Na Bíblia encontramos duas passagens a respeito
do assunto “cair”:

· A primeira,
quando os soldados vieram prender Jesus no jardim de Getsêmani onde Ele se
encontrava; e quando Jesus os perguntou “por quem procuram?” (Jo
18,4), eles responderam, “Jesus de Nazaré”. Ao Jesus lhes responder
“Eu sou Ele”, eles caíram no chão (Jo 18,6). Isto é, o poder de Deus
é capaz de nos jogar por terra; mas é preciso averiguar e concluir que os
soldados não eram cheios do Espírito Santo. Muito pelo contrário, eles, embora
tivessem caído no chão, aparentemente por causa do poder que Jesus carregava
com Ele, ainda assim prenderam Jesus e O levaram a ser julgado e crucificado.
Um detalhe peculiar para observarmos é que estes soldados caíram para trás
(sinal de resistência à Cristo) e não de frente, prostrados e rendidos a Ele.

Certamente eles sabiam que havia algo especialmente poderoso
com Jesus mas eles não O reconheciam como o Filho de Deus. As palavras de Jesus
“Eu sou Ele”, que teria revificado e erguido os Seus discípulos, aos
Seus inimigos os jogou por terra. Desta forma é extremamente imprudente fazer
disso uma prática baseada em doutrina fabricada e deturpada no meio cristão.

Se esta passagem bíblica servisse como uma justificativa
plausível, dada pela prática constante de ficarem caindo pelo chão durante o
culto, supostamente com a finalidade de sabe-se lá o que, a Bíblia teria outras
passagens para sustentar a validade deste exercício e portanto a sua
necessidade. As igrejas tentam fazer as pessoas crerem que esta experiência
traz o poder do Espírito Santo em suas vidas, ou mostra a atuação do Espírito
Santo na nossa vida, quando que a lógica nos faz ver que, se isso fosse
verdade, o mínimo que deveríamos esperar é que mediante a tal experiência a
pessoa é levada no mínimo à conversão; pois nada resiste à presença do Espírito
de Deus. Mas não foi o caso dos soldados no jardim de Getsêmani perante Jesus.
Não há na Bíblia registro de nenhum efeito que isso tenha causado nestes soldados,
exceto a evidência da resistência deles à Cristo (do contrário eles teriam
caído de frente prostrados a Ele em reverência e nem O tinham levado preso), e
o fato de que eles continuaram em sua missão de levar Jesus preso, nos mostra
que tal experiência não pode servir como justificativa para estas práticas
extravagantes de ficarem caindo pelas igrejas, e outros locais(?), supostamente
derrubados pelo Espírito.

Esta prática parece querer provar que estão sob o poder do
Espírito de Deus; entretanto estar sob o poder do Espírito Santo só pode ser
provado na vida cotidiana de um crente, que anda diária e continuamente
dominado pelo Espírito de Deus.

·A segunda
passagem é a de Paulo na estrada a caminho de Damasco (At 9,4) que “caíra
por terra” ao se deparar com a presença resplandecente de Jesus.

Novamente, Paulo naquele momento era inimigo de Cristo. Não
havia nenhum evangelista ou pastor lá no momento pondo a mão sobre ele, nem nós
ouvimos dessa experiência repetida depois da sua conversão. Paulo teve um
encontro pessoal com Jesus Cristo quando o Senhor lhe apareceu e falou com ele
audivelmente durante esta experiência.

Não vemos em nenhuma outra parte do Antigo ou Novo
Testamento onde as pessoas, em suas congregações e reuniões põem um a mão sobre
a cabeça do outro e as pessoas caem derrubadas no Espírito. Leiamos e
averiguemos os fatos para que não sejamos jogados de um lado e para o outro por
todos os ventos de doutrina corrupta e enganosa (Ef 4,14).

 

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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