Dei Verbum, sobre a Revelação Divina – Parte 1

A santa Igreja, expressando os votos de 2.344
(contra apenas seis) de seus mais eminentes filhos, reunidos no Concílio
Vaticano II, na Sessão Pública do dia 18 de novembro de 1965, promulgou o
seguinte documento, que reproduzimos na íntegra:

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA
Paulo Bispo, Servo dos Servos de Deus, juntamente com os Padres do Sagrado
Concílio, para perpétua memória do acontecimento: Constituição Dogmática sobre
a Revelação Divina.

Introdução

1. A Palavra de Deus é religiosamente auscultada e com coragem proclamada pelo
Concílio, que faz suas as palavras de São João: Nós vos anunciamos a vida
eterna, que estava no Pai e se nos manifestou: nós vos anunciamos o que vimos e
ouvimos – para que vós também estejais em comunhão conosco e a nossa comunhão
seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo ( I Jo 1, 2-3). Por isto, seguindo
as pegadas dos Concílios Tridentino e Vaticano I, este Santo Concílio se propõe
expor a genuína doutrina acerca da Revelação Divina e de sua transmissão a fim
de que, pelo anúncio da salvação, o mundo inteiro ouvindo creia, crendo espere,
esperando ame.1

I. A REVELAÇÃO COMO TAL

Natureza e objeto da Revelação

2. Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se e tomar conhecido o mistério
de sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens têm, no Espírito Santo,
acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina por Cristo, Verbo
feito carne (cf. Ef 2, 18; II Pe 1, 4). Mediante esta revelação, portanto, o
Deus invisível (cf. Col 1, 15; I Tim 1, 17), levado por seu grande amor, fala
aos homens como a amigos ( cf. Êx 33, 11; Jo 15, 14-15), entretém-se com eles
(cf. Bar 3, 38) para convidá-los à participação de sua intimidade. Esta
economia da Revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras
intimamente conexos. Assim, as obras realizadas por Deus na História da
Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas
pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério
nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade comunicada por esta
revelação a respeito de Deus e da salvação do homem se nos manifesta em Cristo
que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação.2

Preparação da Revelação Evangélica

3.Criando pelo Verbo o universo (cf. Jo 1, 3) e conservando-o, Deus proporciona
aos homens, nas coisas criadas, um permanente testemunho de si mesmo (cf Rom 1,
19-20). Além disso, no intuito de abrir o caminho de uma salvação superior,
manifestou-se a si mesmo desde os primórdios a nossos primeiros pais. E após a
queda destes, havendo prometido a redenção, alentou-os a esperar uma salvação
(cf. Gn 3, 15) e velou permanentemente pelo gênero humano, a fim de dar a vida
eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática do bem, procuram a
salvação (cf. Rom 2, 6-7). A seu tempo, Deus chamou a Abraão, a fim de fazer
dele um grande povo (cf. Gên 12, 2-3), ao qual, após os Patriarcas, foi
educando por meio de Moisés e dos Profetas a reconhecê-lo como único Deus vivo
e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e a esperar o Salvador prometido. E
assim foi Deus preparando, ao longo dos séculos, o caminho para o Evangelho.

Cristo completa a Revelação

4. Depois de ter falado em muitas ocasiões e de diversos modos pelos Profetas,
ultimamente, nesta etapa final, Deus nos falou por seu Filho (Heb 1, 1-2). Com
efeito, ele enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para
que habitasse entre eles e lhes expusesse os arcanos de Deus (cf. Jo 1, 1-18).
Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado como homem aos homens,3 fala
a linguagem de Deus (Jo 3, 34) e consuma a obra salvífica que o Pai lhe confiou
(cf Jo 5, 36; 17, 4). Eis por que ele, ao qual quem vê vê também o Pai (cf Jo
14, 9), pela plena presença e manifestação de si mesmo por palavras e obras,
sinais e milagres, e especialmente por sua morte e gloriosa ressurreição dentre
os mortos e, enfim, pelo Espírito de verdade enviado, realiza e completa a
revelação e a confirma, atestando de maneira divina que Deus está conosco para
libertar-nos das trevas da morte e do pecado e para ressuscitar-nos para a vida
eterna.
A economia cristã, pois, em sua qualidade de aliança nova e definitiva, jamais
passará, e não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa
manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. I Tim 6, 14; Tt 2, 13).

A Revelação deve ser recebida na fé

5. Ao Deus que revela deve-se a obediência da fé (Rom 16, 26; cf. Rom 1, 5; II
Cor 10, 5-6), pela qual o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao
Deus revelador um obséquio pleno do intelecto e da vontade4 e dando voluntário
assentimento à verdade por ele revelada. Para que se preste essa fé, exigem-se
a graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo,
que move o coração e converte-o a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos
suavidade no consentir e crer na verdade.5 A fim de tornar sempre mais profunda
a compreensão da Revelação, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa continuamente a
fé por meio de seus dons.

As verdades reveladas

6. Pela revelação divina quis Deus manifestar-se e comunicar-se a si mesmo e os
decretos eternos de sua vontade acerca da salvação dos homens, a saber, para
fazer participar os bens divinos, que superam inteiramente a capacidade da
mente humana.6
Este sacrossanto Concílio professa que Deus, princípio e fim de todas as
coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a
partir das coisas criadas (cf Rom 1, 20); mas ensina que se deve atribuir à sua
revelação o fato de mesmo na presente situação do gênero humano se poderem
conhecer por todos e de modo acessível e com sólida certeza e sem mistura de
nenhum erro aquelas coisas que em matéria divina não são de per si inacessíveis
à razão humana.7

II. TRANSMISSÃO DA DIVINA REVELAÇÃO

Os Apóstolos e seus sucessores, pregoeiros do Evangelho

7. Em sua extrema benignidade, Deus tomou providências a fim de que aquilo que
ele revelara para a salvação de todos os povos se conservasse inalterado para
sempre e fosse transmitido a todas as gerações. Por isto o Cristo Senhor, em
quem se completa toda a revelação do Sumo Deus (cf. II Cor 1, 20; 3, 16-4, 6),
ordenou aos Apóstolos que o Evangelho, prometido antes pelos Profetas,
completado por ele e por sua própria boca promulgado, fosse por eles pregado a
todos os homens como fonte de toda verdade salvífica e de toda disciplina de
costumes, comunicando-lhes dons divinos.8 E isto foi fielmente executado tanto
pelos Apóstolos, que na pregação oral, por exemplos e instituições,
transmitiram aquelas coisas que receberam das palavras, da convivência e das
obras de Cristo ou que aprenderam das sugestões do Espírito Santo, como também
por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob inspiração do mesmo
Espírito Santo, puseram por escrito a mensagem da salvação.9
 Mas para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na
Igreja, os Apóstolos deixaram como sucessores os Bispos, a eles transmitindo o
seu próprio encargo de Magistério.10 Portanto, esta Sagrada Tradição e a
Sagrada Escritura de ambos os Testamentos são como o espelho em que a Igreja
peregrinante na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até que chegue a
vê-lo face a face como é (I Jo 3, 2).

CONCÍLlO VATICANO II – DEI VERBUM, SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA

A Sagrada Tradição

 Assim, a pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros
inspirados, devia conservar-se sem interrupção até a consumação dos tempos. Por
isto os Apóstolos, transmitindo aquilo que eles próprios receberam (cf. I Cor
11, 23; 15, 3), exortam os fiéis a manter as tradições que aprenderam seja
oralmente, seja por carta (cf. II Tes 2, 15) e a combater pela fé uma vez
transmitida aos santos (cf. Jdr 3).11 Quanto à Tradição recebida dos Apóstolos
ela compreende todas aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a
vida e fazer crescer a fé do Povo de Deus, e assim a Igreja, em sua doutrina,
vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o
que crê.
 Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a
assistência do Espírito Santo.12 Cresce, com efeito, a compreensão tanto das
realidades como das palavras transmitidas, seja pela contemplação e estudo dos
que creem, os quais as meditam em seu coração (cf. Lc 2, 19.5 1), seja pela
íntima compreensão que desfrutam das coisas espirituais, seja pela pregação
daqueles que com a sucessão do episcopado receberam o carisma autêntico da
verdade. É que a Igreja, no decorrer dos séculos, tende continuamente para a
plenitude da verdade divina, até que se cumpram nelas as palavras de Deus.
 O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante dessa
Tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja que crê e
ora. Pela mesma Tradição toma-se conhecido à Igreja o Cânon completo dos Livros
Sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nela cada vez melhor
compreendidas e se fazem sem cessar atuantes. E assim o Deus, que outrora
falou, mantém um permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o
Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através da
Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles
abundantemente a palavra de Cristo (cf. Col 3, 16).

Relação entre a Tradição e a Sagrada Escritura

9.A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão, portanto, estreitamente
conexas e interpenetradas. Ambas promanam da mesma fonte divina, formam de
certo modo um só todo e tendem para o mesmo fim. Com efeito, a Sagrada
Escritura é a fala de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a
Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos
Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo
aos Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles em sua pregação
fielmente a conservem, exponham e difundam. Resulta, assim, que não é através
da Escritura apenas que a Igreja consegue sua certeza a respeito de tudo que
foi revelado. Por isso, ambas – Escritura e Tradição – devem ser recebidas e
veneradas com igual sentimento de piedade e reverência.13

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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