Decreto “Apostolicam Actuositatem” Sobre o Apostolado dos Leigos – Parte 2

Capítulo II:  Objetivos a serem visados

[Introdução]

 A obra redentora de Cristo,
que consiste essencialmente na salvação dos homens, inclui também a instauração
da ordem temporal.  Portanto, a missão da
Igreja não consiste só em levar aos homens a mensagem de Cristo e sua graça,
senão também em penetrar do espírito evangélico as realidades temporais e
aperfeiçoá-las.  Assim os leigos, ao
realizarem essa missão da Igreja, exercem o apostolado tanto na Igreja quanto
no mundo, tanto na ordem espiritual quanto na temporal: ordens que, embora
distintas, de tal forma se acham entrosadas num único plano de Deus, que o
próprio Deus deseja reassumir em Cristo o mundo todo para formar uma nova
criatura, de maneira incoativa, nesta terra e levando-a à plenitude no último
dia.  O leigo, que é ao mesmo tempo
membro da Igreja e da sociedade civil, deve conduzir-se firmemente nesses dois
setores por uma única consciência cristã.

 [O Apostolado de
Evangelização e Santificação dos Homens]

É missão da Igreja salvar os homens pela fé em Cristo e
por Sua graça.  Por isso o apostolado da
Igreja, e de todos os seus membros, se orienta antes de mais nada para a
manifestação da mensagem de Cristo ao mundo por palavras e por atos, como
também para a comunicação de Sua graça. 
Isto se realiza principalmente pelo ministério da palavra e dos
sacramentos, confiado especialmente ao clero, mas no qual também os leigos têm
a realizar um papel de grande importância, para se fazerem “cooperadores da
verdade” (3 Jo 8).  Nesta linha sobretudo
completam-se mutuamente o apostolado dos leigos e o ministério pastoral.

Abrem-se aos leigos inúmeras ocasiões de exercerem o
apostolado da evangelização e santificação. 
O próprio testemunho da vida cristã e as boas obras feitas em espírito
sobrenatural possuem a força de atraírem 
os homens para a fé e para Deus. 
Pois diz o Senhor: “Brilhe vossa luz de tal forma diante dos homens, que
vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”.  (Mt 5,16).

Tal apostolado no entanto não consiste apenas no
testemunho da vida.  O verdadeiro
apóstolo procura ocasiões para anunciar Cristo com palavras, seja aos que não
crêem para trazê-los à fé, seja aos fiéis para instruí-los, confirmá-los e
despertá-los para uma vida mais fervorosa: “pois a caridade nos impele” (2Cor
5,14).  No coração de todos hão de
ressoar aquelas palavras do Apóstolo: “Ai de mim, se não evangelizar” (1Cor
9,16).1

 

1  Cf. Pio XI, Enc. Ubi Arcano, de 25-12-1922;
AAS 14 (1922), p. 659; Pio XII, Enc. Summi Pontificatus, de 20-10-1939:AAS 31
(1939), pp. 442-443.

Aparecendo na nossa época novos problemas e grassando
gravíssimos erros que ameaçam inverter profundamente a religião, a ordem moral
e a própria sociedade humana, este S. Sínodo exorta de coração todos os leigos,
conforme a capacidade intelectual e a formação de cada qual, que, segundo a
mente da igreja, assumam mais conscienciosamente as suas responsabilidades no
aprofundamento dos princípios cristãos, na sua defesa e na adequada aplicação
dos mesmos aos problemas de nossa época.

[Reforma Cristã da Ordem
Temporal]

É porém plano de Deus acerca do mundo que os homens, em
espírito de concórdia, construam a ordem temporal e sem cessar a aperfeiçoem.Todas as realidades que constituem a ordem temporal, como
sejam os bens da vida e da família, a cultura, economia, artes e profissões,
instituições políticas, relações internacionais e outros assuntos deste teor,
junto com a evolução e o progresso deles, não constituem apenas subsídios para
o fim último do homem, mas possuem valor próprio por Deus nelas colocado, seja
quando consideradas em si mesmas, seja como partes de toda uma ordem temporal:
“e viu Deus que tudo quanto realizara era mesmo bom” (Gn 1,31).  Esta bondade natural das coisas recebe uma
dignidade especial a partir de sua relação com a pessoa humana, a serviço da
qual elas foram criadas.  Finalmente,
aprouve a Deus reunir todas as coisas, tanto as naturais como as sobrenaturais,
num todo em Cristo Jesus,
“para que Ele obtivesse o primado em tudo” (Col. 1,18).  No entanto, este destino não só não priva a
ordem temporal de sua autonomia, de seus fins próprios, leis, subsídios,
importância para o bem dos homens, mas antes a aperfeiçoa em sua expressão e
eficácia própria e ao mesmo tempo a equaciona com a vocação integral do homem
sobre a terra.

Ao longo da História, o uso das coisas temporais esteve
aliado a graves erros, porque os homens, atingidos pela culpa original,
deslizaram muitas vezes para inúmeros erros acerca do Deus verdadeiro, da
natureza do homem e dos princípios da lei moral: daí veio que se corrompessem
os costumes e as instituições humanas e, não raro, que a pessoa humana fosse
oprimida.  Também em nossos dias, não
poucos, confiando mais do que é justo no progresso das ciências naturais e da
técnica, se desencaminham para uma espécie de idolatria das coisas temporais,
tornando-se antes servos delas do que senhores.

É tarefa de toda a Igreja colimar este objetivo, a saber,
capacitar os homens para instruírem com retidão a ordem universal das coisas
temporais e para orientá-la por Cristo a Deus. 
Aos pastores compete enunciar claramente os princípios acerca do fim da
criação e do uso do mundo, prestar assistência moral e espiritual, para
renovar-se em Cristo a ordem das coisas temporais.

Faz-se porém mister que os leigos assumam a renovação da
ordem temporal como sua função própria e nela operem de maneira direta e
definida, guiados pela luz do Evangelho e pela mente da Igreja, e levados pela
caridade cristã.  Cooperem como cidadãos
com os cidadãos, com sua competência específica e responsabilidade
própria.  Procurem por toda a parte e em
tudo a justiça do reino de Deus.  De tal
sorte deve ser reformada a ordem temporal, que, conservando-se integralmente
suas leis próprias, se conforme aos princípios mais altos da vida cristã e se
adapte às condições diferentes dos lugares, tempos e povos.  Entre as obras deste tipo de apostolado
sobressai a ação social cristã a qual deseja o S. Sínodo se estenda hoje a todo
o setor temporal, também ao da cultura.2

 

2  Cf. Leão XIII, Enc. Rerum Novarum: ASS 23
(1890-91), p. 647; Pio XI, Enc. Quadragésimo Anno:  AAS 23 (1931), p. 190: Pio XII, Mensagem
Radiofônica, de 1-6-1941:  AAS 33 (1941),
p. 207.

[Ação Caritativa, Segredo do
Apostolado Cristão]

Enquanto todo o exercício do apostolado deve buscar sua
origem e força na caridade, algumas obras são por sua natureza aptas a
converter-se em expressão viva da mesma caridade, obras essas que o Cristo
Senhor quis fossem sinais de sua missão messiânica (cf. Mt 11,4-5).

O maior mandamento da lei é amar a Deus de todo o coração
e ao próximo como a si mesmo 9cf. Mt 22, 37-40).  Este mandamento da caridade para com o
próximo, Cristo o fez Seu e o enriqueceu com novo significado, querendo ser Ele
próprio, identificado com os irmãos, objeto desta caridade, ao afirmar: “na
medida em que o fizestes a um dentre esses meus irmãos mais pequeninos a mim o
fizestes”  (Mt 25,40).  Pois Ele, ao assumir a natureza humana, uniu
a si numa família todo o gênero humano por uma espécie de solidariedade
sobrenatural, e constituiu como sinal de seus discípulos a caridade, por estas
palavras: “Nisto reconhecerão todos que sois discípulos meus, se tiverdes amor
uns para com os outros” (Jo 13,35).A Santa Igreja, por sua vez, como em seus primórdios uniu
o ágape à Ceia Eucarística e se manifestou toda unida em torno de Cristo pela
caridade, assim em todos os tempos é reconhecida através deste sinal do
amor.  Embora se alegre com as
iniciativas dos outros, reivindica as obras caridade como dever seu e direito
inalienável.  Por isso a misericórdia
para com os pobres e doentes e as assim chamadas obras de caridade e de auxílio
mútuo, para aliviar as onimodas necessidades humanas, são tidas pela Igreja em
estima particular.3

3  Cf. João XXIII, Enc. Mater et Magistra: AAS
53 (1961), p. 402.

Em nosso tempo, tais atividades e oras se tornaram muito
mais urgentes e universais, já que os meios de comunicação se fizeram mais
rápidos, vencendo-se de alguma forma a distância entre os homens e
transformando-se os cidadãos do mundo todo como que em membros de uma só
família.  A ação caritativa, nos dias de
hoje, praticamente pode e deve atingir todos os homens e todas as suas necessidades.  Onde quer que haja alguém que carece de
comida e bebida, de roupa, casa, medicamentos, trabalho, instrução, de
condições necessárias para uma vida realmente humana, que esteja atormentado
pelas tribulações ou doença, que sofra exílio ou prisão, aí a caridade cristã
deve procurá-lo e descobri-lo , aliviá-lo com carinhosa assistência e ajudá-lo
com auxílios oportunos.  Esta obrigação
impõe-se, em primeiro lugar, aos homens e aos povos cercados de prosperidade.4

4  Cf. ibid, pp. 440-441Para que o exercício desta caridade esteja acima  de qualquer crítica e se apresente como tal:
olhe-se no próximo a imagem de Deus, segundo a qual foi criado, e o Cristo
Senhor, a quem na realidade se oferece o que é dado ao indigente; respeite-se
com a maior delicadeza a liberdade e a dignidade da pessoa que recebe o
auxílio; não se desdoure a pureza de intenção com nenhuma procura de vantagem
pessoal ou desejo de dominar5, satisfaçam-se em primeiro lugar as exigências da
justiça, para que não se dê como caridade o que já é devido a título de justiça;
eliminem-se as causas dos males, não só os efeitos; seja encaminhada a ajuda de
tal maneira que, os que a recebem, pouco a pouco se libertem da dependência
externa e se tornem auto-suficientes.

5  Cf. ibid. pp. 442-443.Os leigos prestigiem e ajudem na medida de suas forças as
obras de caridade e as iniciativas de assistência social, sejam particulares ou
públicas, e mesmo internacionais, por meio das quais se leva auxílio eficiente
aos indivíduos e povos em necessidade.  Neste
campo cooperem com todos os homens de boa vontade.6

6 Cf. Pio XII, Aloc. À Pax
Romana  M.I.I.C., de 25-4-1957: AAS 49
(1957), pp. 298-299; e sobretudo João XXIII, À Reunião do Conselho “Food and
Agriculture Organisation” (F.A.O.), de 10-11-1959: AAS 51 (1959), pp. 856, 866.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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